30/07/2008

Quem é mais doido?


Zé Pelotinha era o moleque mais encapetado daquelas bandas. Azucrinava todo mundo. O pai, João Pelota, não agüentava mais ouvir as reclamações da vizinhama. Já tinha feito até umas crueldades com o menino, mas de nada adiantara.
Num certo dia o moleque passou dos limites. Amarrou palha de milho no rabo do gato e botou fogo. Aí o velho Pelota não agüentou. Perdeu a estribeira. Ainda mais que o gato, no seu desespero, saiu correndo feito doido e lascou fogo no pasto sequinho do Tonico Cota. O vizinho, logicamente, veio reclamar cheio de razão. Foi a gota d' água.
João Pelota pegou o Pelotinha pela orelha e foi levando-o meio no arrasto para o terreiro a fim de fazer a devida correção no moleque. Mas o danado do menino, num bote só, escapa da mão do pai e trepa no ingazeiro, mais esperto que gato. Pelota não perdeu tempo. Pegou um machado e em dois tempos derrubou a árvore. Menino acompanhou a árvore no tombo e, já no chão, se mandou numa correria desenfreada, enquanto o pai atirava-lhe umas pedradas doídas.
Tempos depois João Pelota e a Pelotada toda vai à cidade para as cerimônias da Semana Santa. Dias de muita reza, muita devoção e arrependimento dos pecados. Foi aí que o Pelotinha resolveu, com medo do diabo e dos infernos, fazer uma confissãozinha. Contou ao padre o que tinha feito com o pobre do gato, as conseqüências da sua arte e até as pedradas que recebeu do pai.
O padre Anacleto, achando graça na história e não tendo muito o que falar, saiu-se com esta:
- Porcamiseria!!! Você é doido, meu filho! Desobedecer a seu próprio pai!...
Ao que o Pelotinha respondeu perguntando:
- Uai, padre! Mas quem é mais doido, o que joga a pedra ou que corre de medo dela?
- Claro, figlio mio, que é quem joga a pedra!
E o moleque concluiu sabiamente:
- Então meu pai é mais doido que eu!...

O Prefeito e a Providência


Prefeito de Tabuí era uma negação. Nenhum progresso trazia pra cidade que parecia caranguejo. Só ia pra trás. Entrava ano, saía ano e Tabuí continuava na mesmice de sempre. Nas redondezas aquela terrinha começou a ser chamada de "já teve". Já teve campo de futebol, já teve rodoviária, já teve escola municipal boa, já teve zona decente...
Um dia prefeito recebe uma reclamação:
- Sô prefeito, o teto do grupo caiu!
- Que grupo, meu fio?
- O grupo, sô prefeito! O grupo escolá! L'adonde a gente aprende a lê!
- Ah, bão! Dexa comigo que vô tomá providência!
Tomava providenciamento nenhum. Esquecia. Ia pra casa, escondia dos problemas e não dava mais o ar da graça.
- Prefeito, a ponte do corgo seco quebrô!
- Quebrô? Pode deixá! Vô tomá providência!
- Prefeito, a gente picisa duma iscola no Pindura Saia! Dá um jeitinho!
- É cumigo memo! Vô tomá providência!
Povo foi ficando chateado. Nervoso. Revoltado até com o descaso do prefeito. O homem não queria nem saber quem lustrou as costas da barata e nem quem botou fogo no inferno. Vivia encafuado dentro de casa. Vez ou outra é que apontava o nariz. Bastava ouvir reclamação sumia de novo. E ainda dizia que ia tomar providência...
O caso ficou mais sério no dia da enchente. Rio Sorongo não deu conta de segurar aquele aguão todo dentro das suas caixas. Entornou água na metade da cidade. De quebra lavou tudo no cemitério. Era defunto boiando, esqueleto escorrendo rua a fora, caveira descendo ladeira abaixo... Tanta mortaria pelas ruas que arrepiava até cachorro vira-lata. O defunto da gorda Dorotéia, enterrado dois dias antes do dilúvio, deu o maior trabalho pra ser encaixado de novo na sua última morada. Continuou teimosa na morte como o foi em vida. E o prefeito dizendo:
- É comigo memo! Deixa que tomo providência!
Povo desorientado resolveu tirar o desgramado do prefeito de dentro do seu esconderijo. Alguns cidadãos mais indignados invadiram a casa da autoridade. Tava lá o homem, num quartinho dos fundos, só de cueca, cercado de garrafas vazias, num porre danado e tomando mais uns goles de Providência, a famosa pinga do vale do Sorongo.

20/07/2008

E o circo chegou em Tabuí...

Depois de muitos anos a pão e água, chegou circo em Tabuí. Pequeno e fuleiro, montado em meio dia de trabalho. Molecada em cima, fiscalizando e apreendendo. Marmanjos de butuca. Grã Circo Americano. Glória para a cidade. Nome pomposo, sugerindo ao povo um monte de artistas estrangeiros. Merreca de fazer dó. Nem assentos para a distinta platéia. Umas tábuas mal colocadas, empenadas, garantiam o lugar de umas poucas pessoas. A lona que o cercava, toda ensebada, cheia de buracos e remendos. Cobertura não havia.
Assim que notou a movimentação da montagem do circo, a Luizabete, moreninha pra lá de ajeitada, lá da ladeira do Beco, se ajeitou toda, botou brinco, passou batom e pó de arroz e foi pra rua. Pensando no mais tarde. Caçou com os olhos o Florípio, - sua paixão -, ocupado em plena fiscalização do movimento. Ela interessada e o outro regateando, como quem não quer nada, mas querendo tudo.
- Cê vai no circo hoje, Floripo?
- Sei não, sá! Confofoovô!...
A grande estréia seria às sete da noite. Às três o palhaço, já devidamente paramentado, chamava a criançada para percorrer as três ou quatro ruas da cidade. Às quatro, mais menino que gente. Começa a bagunça, depois de pequeno ensaio. O palhaço, montado numa jumenta fogosa, enfeitada com flores de plástico descoradas, puxa a molecada pela rua do Comércio.
- Hoje tem espetáculo?
- Tem, sim sinhô!
- Hoje tem marmelada?
- Tem, sim sinhô!
- E o paiaço, o que é?
- É ladrão de muié!...
À molecada que acompanhasse o palhaço, fora prometido ingresso para a estréia. Assim que a tribuzana chega na praça, encontra o Rolando Ladeira, que vinha do trabalho na roça e, como sempre, com fome, cansado e puto com as injustiças da vida, mas cheio de amor a Deus. Esqueci de dizer que Rolando tava montado num jumentinho novo, gordinho e muito animado e que a jumentinha do palhaço tava no cio. Não deu outra. Paixão à primeira vista. Assim que se olharam, começaram aquela barulheira, correram um para a outra e vice-versa. Desobediência plena aos comandos dos freios e rédeas. Um zurro só. Não adiantou chicote e espora do Ladeira com os seus gritos de paracuisso e quequiéisso gente e nem a gritaria do palhaço, tudo captado pelo auto-falante. O jumento se armou todo e crau. O palhaço teve que pular fora para livrar o trazeiro e a zueira babenta do animal no seu cangote e caiu de mal jeito, batendo a testa numa pedra. Rolando Ladeira, no empino do jumento, caiu de costas, rolando no meio da meninada. Um grande e hilariante espetáculo, como há muito não visto em Tabuí. O palhaço, meio tonto, sem entender direito o que acontecia, berrava a plenos pulmões, pelo auto-falante:
- Gente! Oquecouve? Oncotô? Poncovô? Qui trem mais esquisito, sô!...
O Rolando, ainda mais puto da vida pelo tombo e por aquela sem-vergonhice toda, arrancou a peixeira e queria achar o culpado pela tragédia.
- Arreda, sôs muleque! Cadê ele? Cadê ele?
O palhaço isalou no mundo, abandonando jumenta e catracagem de som. Da molecada, alguns chegavam a rolar no chão de tanto rir. Outros, mais inocentes, se retraiam, saindo de mansinho. As meninas, idem, tentando tapar olhos e ouvidos, ao mesmo tempo. E o povo, com aquela latumia toda, foi chegando, atraído pela tribuzana transmitida pelo alto-falante. Quando chegou o padre Anacleto, cheio de interrogações, correndo, arfando e suando dentro da longa batina preta, foi menino pra todo canto. Não ficou um pra contar a história e pra pegar o ingresso. O seu Ladeira caiu de joelhos, aos pés do vigário, pedindo perdão por aquele pecado para o qual, inconscientemente, acabava de colaborar, trazendo a jumentinha pra praça, justo naquela hora.
Bem depois das sete em ponto começa o espetáculo. Quase só adultos. A meninada, correndo do padre, ficara sem o ingresso prometido. Como o circo só tinha lugar para uns poucos sentados nas tábuas empenadas, quem podia trouxe a sua cadeira de casa. No primeiro número, lá estava o palhaço de novo, precedido pelo retumbar de tambores que saía de uma radiola velha. Começou ele com aquele papo de palhaço, conseguindo uma ou outra risada amarela, até que pediu um voluntário para a mágica. Sim, era mágico o palhaço. O Ângelo, - mais conhecido por Anjinho, mas capeta da melhor qualidade -, que havia entrado por baixo do pano, garoto assim duns treze anos, se ofereceu. O palhaço mágico mandou que ele se abaixasse, com as mãos nos pés e o traseiro arrebitado. Aí aprontava aquele monte de palhaçadas, conseguindo que algum ou outro risse. Nesse primeiro número de mágica, o palhaço arrancou do bumbum do Anjinho, assim fazendo muita força, uma peteca, com penas bem compridas e um ramalhete de flores cheias de espinhos.
- Isso é uma indecência! – bradou a beata Raquel, doida para aparecer e arranjar marido.
- É memo! Aqui tem famia! Vamo pará cuisso! – gritou toda dengosa e virando o zoinho a menina Carolina, pendurada no pescoço do Zé Pretinho e numa esfregação quisó.
- Tadinho do minino! - gemeu a dona Kezita, toda arrepiada no seu recatamento, crente que aquele monte de espinhos tinha, de fato, saído do traseiro do menino.
O mágico palhaço, desconfiado que o mar ali não estava para peixe, rapidinho recolheu sua aparelhagem. Fez gesto pro auxiliar e subiu novamente o rufar de tambores, enquanto ele caía fora do picadeiro. Passaram-se vários minutos, só tocando música militar de um bolachão todo arranhado, naquela radiola velha. O público impacientando-se. Aí, é anunciado pela voz do palhaço, o número do leão.
- Bicho feroz, vindo há poucos dias lá das banda da floresta amazônica!...
- Eu, heim?!... Leão tupiniquim? Nunca vi isso!... - era a professora Fúlvia, - com F de faca e U de uva -, mostrando sua sapiência para os vizinhos da platéia.
O picadeiro foi cercado com uns pedaços de tela grossa mal emendados e o leão trazido, numa jaula, carregado por quatro pessoas, uma dela o palhaço, que era também o domador do circo, homem bem entendido de habitat animal. O bicho chegou cochilando e cochilando ficou, mesmo quando a jaula foi aberta. Deitado, magro, sujo e desanimado, só se levantou quando ouviu o estalo do chicote do palhaço domador. Aí a fera ficou brava e saiu da jaula soltando urros fortíssimos, fazendo muita gente na platéia ficar com o coração na mão. Houve quem, até, que, aproveitando a oportunidade, pulasse no colo do vizinho, como aconteceu com a Carolina que já tava ficando mal falada pelas redondezas. O domador estala de novo o chicote e o leão se assusta, indo de ré e batendo na tela que o prendia ao picadeiro. Um pedaço dela cai pro chão. Não deu outra. Vendo o buraco aberto, o bicho cai fora e vai pro meio da platéia, da turma que trouxera cadeira de casa, urrando e encarando um ou outro com olhos apetitosos. Foi nessa hora que o delegado Sinvalfredo, que mal tinha chegado e arrumado um cantinho pra sua cadeira, sentindo o bafo do leão assim bem pertinho dele, mas querendo dar uma de machão, resolve apelar, sem decidir se corria ou se ficava. Recurso foi gritar, mais forte que o leão, para assustar o bicho:
- Larga d’eu, trem! Arreda, satanais!...
Cada um se vira como pode. Saindo de fininho. Alguns, pé ante pé, carregando sua cadeirinha. Ninguém queria encarar o bicho. De vez em quando ele, - o leão -, sem entender que estava livre, soltava urros que arrepiavam cabelo de neguinho. E o povo vazando fora, querendo distância da fera. Muita gente subiu pras tábuas que formavam a arquibancada do circo e aquilo foi pesando. O Oclécio, que conseguira lugar na emenda entre uma tábua e outra, estava quase vazando, com o traseiro afundado, já que as tábuas arrebitaram os cantos.
- Ai, meu Deus, desde pequena eu queria assistir o circo, mas o trem aqui num tá bão!... – isso era dona Suely, - que viera lá do Arraial do Sossego -, gungunando com seus botões, chorosa pelo tempo perdido.
Aí o leão resolve olhar e caminhar pro rumo do povo das tábuas, e a turma, quase em peso, se levanta e começa a pular, caindo e rolando de qualquer jeito, vazando por debaixo do pano e ganhando o mundo. Menos o Oclécio, que tava procurando os óculos para achar a bengala. Acontece que a turma, ao levantar da tábua, o peso sobre ela diminui e o Oclécio fica com o traseiro preso e os ovos espremidos. Esquecendo de óculos e bengala, gemendo, com os olhos cheios de lágrimas e muito mais alto que o domador palhaço, que chamava o leão pelo alto-falante, o Oclécio reuniu as parcas forças, premido pela dor, e gritou, implorando, na esperança de que alguém o atendesse:
- Senta, gente!... Senta meu povo! Senta que o leão é manso!...

A voz que veio do além

Em Santa Maria do Tabuí, há muito tempo, seu Nicolino era o padeiro. Baixinho, rechonchudo e careca. Um batalhador. De domingo a domingo, saía no lusco-fusco da madrugada para entregar o pão que iria forrar o estômago de muito cidadão tabuiense.
Seis horas de uma manhã cinzenta e triste, daquelas que prenunciam tempestade. Lá ia o Nicolino, passando pelo velho cemitério, carregando nas costas um bitelo dum jacá cheio de pães ainda quentinhos. Ninguém pelas redondezas. Nenhuma alma viva a não ser ele. De vez em quando o Nicolino, como que para espantar algum fantasma, gritava:
- Padeiro-ô-ô!...
Bem ao lado do cemitério mal cuidado, com os muros caindo, Nicolino, meio ressabiado, teve a impressão de ter sido chamado lá de dentro. Arrepiou-se todo. Mas controlou-se, equilibrou o coração e o jacá na cabeça. Ia saindo de fininho quando ouviu uma voz fraquinha, como um sopro de alma sem descanso, perguntar de dentro do cemitério:
- Tem pão dormido?...
O Nicolino empacou. Cortou a respiração enquanto o coração ficava descontrolado, a mente queria ganhar mundo e as pernas viravam molambo. Tentou andar, mas não conseguiu. O jacá de pães parecia pesar toneladas.
Assim que conseguiu botar em ordem o pensamento e começar a ganhar cor novamente, ouviu a mesma vozinha sem-vergonha:
- Tem pão dormido?...
Foi a conta para o coitado do padeiro. Pinchou bem longe o jacá de pães e... Sebo nas canelas, rua abaixo, numa correria despinguelada. Os cabelos que ainda restavam na cabeça lustrosa lembravam um porco espinho.
E enquanto corria com as pernas curtas e balançando a pança, uma sonora gargalhada estridente quebrou o silêncio do cemitério deserto. Mais tarde, quando tudo se esclareceu, seu Nicolino queria porque queria dar um tiro no pobre do coveiro que acordara de madrugada para trabalhar, estava com fome e apenas queria comer um pãozinho mais barato, o pão dormido...

09/07/2008

As pustemas da malandragem


Zé da Zabé era o mendigo mais conhecido de Tabuí. Dono de ponto de mendicância na porta da matriz. Dali ninguém o tirava. Era ali que se tornara conhecido e puxava o saco da gente fina e religiosa, gentalha de bem. Suas relações com a sociedade local eram excelentes.
Todo mundo que ia rezar, ao entrar ou sair da igreja, se condoía ao ver aquelas feridas em carne viva na perna do Zé da Zabé. E ele fazia questão de deixar a barra da calça levantada para que todos as vissem e a dor fosse do coração ao bolso de cada um.
- Onde cê arrumou essas feridas, Zé?
- Sei lá! Parecero c'o tempo. Umas borboinha que foro cresceno!...
- Tem que tratá disso, Izé!... Inhantes que vire coisa pió!...
- Carece não! É firida parada. Tantão de tempo que tá anssim! Num miora nem piora!...
Foi aí que entrou na história o doutor Honório. Médico antigo que conhecia as doenças de cada um na cidade, um dia resolveu tratar do Zé da Zabé.
- Picisa não dotô! Essas pustema minha só sara quando a terra cumê!
Depois de muita discussão o médico, nervoso com a teima, falou quase ordenando:
- Vai lá no meu consultório que quero ver isso, Zé!
- Tá bão dotô, ieu vô!
Foi nada. Zé da Zabé cortava voltas manquitolando rua a fora só para não topar com o doutor Honório. E este, só assuntando, assistindo ao ressabiamento do mendigo que recusava seu gesto de caridade.
Certo dia, quando o Zé passava perto do hospital, assim bem na porta, encontrou de supetão o velho médico. Não teve conversa. Foi levado para uma sala, meio na marra, pelo doutor Honório que não entendia como alguém doente queria permanecer com doença.
- E aí, senhor Zé? Como vão as feridas?
- Tintiano dotô! Dói, não dói, dói um poco...
- Pois é Zé! Tem que cuidar disso logo! E vai ser agora antes que vire coisa pior.
- Não dotô! Carece não! Xapralá! Num é firida de criá bicho não! É firida parada mermo!...
Enquanto ele dizia isso, ia escondendo a perna das vistas do doutor e tentando baixar a barra da calça.
- Mas eu vou curá-lo, Zé!
- Deus lhe pague a bondade dotô, mas firida parada num tem cura mermo não!
O médico foi assentando o Zé da Zabé, assim meio sujigado, numa maca, e tratou logo de ir tirando as tiras, mulambos e langanhos que cobriam aquelas pustemas todas, enquanto o pobre do mendigo esperneava e reclamava meio nervoso, meio brabo, meio respeitoso e tremelicante.
- Picisa não dotô!... Quero ficá anssim mermo! Me dexa, diabo! Perdão dotô! Quero í'mimbora!
Foi aí que começaram a cair pelo chão as feridas do Zé. Pedaços de carne crua, cortados bem fininhos e presos cuidadosamente pelas tiras de pano à sua perna que estava sãzinha.
Doutor Honório, fulo de raiva, queria dar uns petelecos no falso mendigo. Zé da Zabé mal teve tempo de pular da maca e ganhar o mundo.

06/07/2008

O Assassinato do Pato do Padre Anacleto


Cirilo e Bentinho, talvez pelo fato de serem os únicos fanhos de Tabuí, resolveram juntar forças. Aonde um ia, lá estava o outro, feito sombra. Na saúde e na doença. E na gandaia. Em noites de seresta, quando, ao cantar, fanho não fanha, iam molhando o bico até que, dia amanhecendo, os dois eram, vez ou outra, encontrados, de cueca, na porta da igreja, fazendo discurso pras beatas que chegavam pra missa das seis ou, ironia, contando piadas de gago.
Até que, numa noite, lá pelas tantas, resolvem dar outro rumo na seresta. E Cirilo falou, na língua de fanho:
- Bentinho, tô cum fome, sô!
- Ih, rapaz! Nem me fale! Eu tamém!... Num tô mais guentano!
Mas o que comer sem dinheiro e naquela hora da madrugada?
- Só tem uma solução, Cirilo! Farinha eu já tenho lá em casa! Vamo roubá um pato do padre Anacleto e fazê uma sopa!...
-Mas, rapaz, e cumé que a gente pula aquele muro daquela artura?
- A gente dá um jeito, uai!
E lá foram. Rodearam a igreja até chegarem aos fundos da casa paroquial, longe da rua e de olhares indiscretos. Padre Anacleto, famoso criador de patos, já, há muito, se prevenira contra eventuais surrupiadores dos seus penosos. Fizera muro de mais de dois metros de altura.
- Bentinho, cê é mais magro, cê pula! Eu faço cadeirinha com as duas mão pra te jogá do outro lado!...
Bentinho, doido pra enfiar uma sopa de pato goela abaixo, nem desconversou. Aceitou a missão. Cirilo juntou as mãos cruzadas na altura da virilha e Bentinho colocou ali o pé direito. Tudo repentino. De um golpe do Cirilo, Bentinho voou por cima do muro e caiu sentado bem em cima de um pobre pato que, inocentemente, dormia, no seu canto, o sono da madrugada. O bichinho, antes do esmagamento, apenas teve tempo de gritar quac!!!...
O Cirilo, com o ouvido pregado no muro, para ouvir os movimentos do outro lado, entendeu errado. Pensando que era o amigo fanho querendo saber qual pato pegar, respondeu nervoso, mais fanhoso ainda:
- Quarqué um, sô! Vai virá sopa mesmo! E é ocê que tá veno aí, num sô ieu!... Iscói quarqué um e vãombora, sô!...

01/07/2008

Nos tempos de antigamente

O povo antigo de Tabuí tretou relou conta histórias do arco da velha. Menos de Terrerada. Ninguém gosta de falar neste nome. Um bandido, metido a valente, que aterrorizava as terras da região nos velhos tempos. Com seu bando de cavaleiros, bem armados, invadia fazendas e cidades, enfrentava a polícia e impunha sua vontade onde chegava. O Nordeste não teve Lampião? Pois é. A região de Tabuí teve Terrerada.
Naquele tempo, toda a região que ele freqüentava deixou de ter bailes e festas. Tudo porque mal Terrerada tinha notícia de algum rela-bucho, chegava de surpresa com seu bando e aprontava o maior desprazer. Assim aconteceu em Tabuí nos tempos de antigamente. Lá não era cidade ainda. Poucas casas. Numa fazenda perto de onde hoje é a cidade, tinha um pagode. Todo mundo alegre, dançando para comemorar a chegada das chuvas. Crianças, moços e moças, solteiros e casados, velhos e velhas, na maior irmandade, dançando, comendo e bebendo. Cedo ainda. Umas oito da noite. Aí chegou o bando. Naquela época povo de Tabuí ainda não sabia da existência e da fama de Terrerada. O bando cercou a fazenda. Fazendeiro pediu para apearem e ofereceu comida e bebida. O mais forte de todos, que parecia ser o chefe, desceu do cavalo e chamou uns dez para acompanhá-lo. Ficaram uns vinte cercando a casa, todos com cara de poucos amigos. Povinho tava meio receoso. Depois que os homens comeram e beberam do bom e do melhor, povo pensou que eles iriam embora. Ilusão. No salão enorme, cheio de gente, aquele homenzarrão arranca o trabuco da cintura e dá um tiro pro ar. Aquilo fez gente tremer nas bases. Silêncio total. Povinho nem piscava.
- Minha gente! Eu sou Terrerada. Ocêis me conhece? Não?!... Intão hoje vão conhecê!
O homão tava no centro do salão. Os outros dez encostados na parede, cada um num canto diferente. Nas portas e janelas apareceram as caras dos que tinham ficado lá fora. Mais um tiro. Povinho cercado dava até pulinho de susto quando Terrerada falava apontando a arma para os ouvintes. Ele ia circulando a arma e povinho se abaixando. Aí Terrerada gritou:
- Todo mundo em fila! Fila de um! Home atrás de muié e muié atrás de home!
Velhinhos e velhinhas pensaram estar excluídos daquela ordem. Mas rapidinho a cumpriram quando Terrerada deu dois tiros em volta dos pés duma velhinha banguela. Todos correram pra fila. Aí Terrerada dispensou as crianças que sumiram num piscar de olhos.
- Agora! Todo mundo! Tirá a roupa!
Povinho, morto de vergonha, borrando de medo, foi se desfazendo dos seus paninhos sem nem olhar de lado. E o bando se desfazia em gargalhadas.
- Agora quero música animada, sanfoneiro! E quero todo mundo dançano puladinho! Um atrás do outro! Bora, gente!
E povinho passou a dançar puladinho enquanto tiros pro ar pipocavam e gargalhadas e mais gargalhadas da bandidagem ecoavam pelo salão. Terrerada deu nova ordem:
- Todo mundo chupano o dedão da mão esquerda!
Quem não obedecia levava tiros em volta dos pés. E tinha que sair dançando puladinho chupando o dedo da mão esquerda. Aí veio a outra ordem de Terrerada que foi a grande humilhação pro povo e a maior diversão pro bando do homem.
- Todo mundo enfia o dedão da mão direita no rabo de quem tá na frente!
Muitos não acreditaram no que ouviram. E paravam pra olhar pro Terrerada. E tomavam tiros em volta dos pés. Tiveram que cumprir a ordem. Homens e mulheres, moços e moças, velhos e velhas. Muito machão gemia de sair água dos olhos quando sentia um dedão arrombando-lhe os guardados. Povinho dançando. Puladinho. Chupando o dedão da mão esquerda e com o da mão direita enfiado no rabo do companheiro ou companheira da frente. Com cuidado para não escapar o dedo de nenhuma das partes. Humilhação como aquela nunca tinha acontecido nas redondezas.
Mas a maior humilhação mesmo, que fez a bandidagem rolar no chão de tanto rir, foi quando Terrerada deu outra ordem:
- Todo mundo parado! Sem tirá o dedo!
Todo mundo parou. Engatados um no outro. O homem deu novo tiro pro ar e nem precisou mais gritar. Apenas ordenou:
- Agora, cambada! Todo mundo! Trocá de dedo e dançano puladinho!
Povinho ficou tão humilhado e tão traumatizado com essa história que, até hoje, em Tabuí, ninguém gosta de tocar no assunto e, se falar em dançar puladinho, é o mesmo que estar chamando pra briga.

Novidade que chega no sertão...

Aparício ganhou uma cabra. Novinha ainda. E a bichinha foi crescendo, comendo, do bom e do melhor, do que sobrava de comida do Hotel Familiar. Resto de frango frito, maionese, macarronada, couve e tutu com torresmo... Cabrinha não perdoava nada. Traçava tudo. Menos capim, porque capim ela nem via. De vez em quando lá ia o Aparício e sua cabra rua a fora para um passeio, assim como as madames fazem com seus cãezinhos perfumosos. Mas coisa inocente, sem malícias. De jeito nenhum Aparício tinha más intenções com sua cabra e a recíproca devia ser verdadeira. Amanda era o nome dela.
- Paríço, pruquê ocê não dá capim pr'essa cabra?
- Não. Quero caçá moda não, sô! Capim é muito dificultoso aqui na cidade. Quero acostumá a bichinha malacostumada não.
E toca-lhe frango frito, maionese, macarronada, couve e tutu com torresmo...
Num certo dia aparece em Tabuí um caminhão do governo. Carregadinho de fardos de capim pangola, ainda verdolengo, para ser distribuído aos fazendeiros. Novidade na região. Quem aprovasse ganhava sementes do dito cujo. Aparício resolveu fazer a cabrinha provar do capim. E Amanda não se fez de rogada. Botou pra quebrar. Comeu um fardo inteirinho da novidade. Mas teve uma reação estranha para sua mansidão cabral tão conhecida. Começou a pular e a berrar que ninguém segurava a danadinha. Nem seu dono, com todo o carinho do mundo, acariciando-a até nos cantinhos mais indiscretos, conseguia acalmar a bichinha.
- Dá água prela, Paríço! Água ajuda. Água relaxa...
E trouxe o Aparício um balde com dez litros d'água que Amanda sorveu duma golada só. Depois de muito pulo e berro a danadinha ficou mais calma e, embora com a barrigona grande, deixou o pessoal passar a noite no sossego. Mas tristeza maior do Aparício não tinha acontecido ainda. Aconteceu de manhãzinha. Amiguinha não mais acordou. Morreu empanzinada. Estourada de tantos gases provocados pela desgraça da novidade chamada capim pangola.

Interesses Contrariados

- Ôta mundo véio sem portera! A gente rema, rema e vem dá na mesma plaia, sô!
Era Jurema gungunando com Jurema enquanto subia, contando os passos, a ladeira íngreme da Rua do Assobio. De tanto subir e descer aquela ladeira é que ela engrossara as pernas.
Jurema saíra do seu cantinho da Rua do Assobio, lá no cantinho de Santa Maria do Tabuí e fora ganhar o mundo. Deixou para trás a Legião de Maria, a Conferência Vicentina, a missa de quase todos os dias e um pai muito devoto de tudo quanto é santo e mais ainda de Deus, nosso Senhor.
- Vô'imbora, pai! Aqui num dá mais não!... É runho dimais da conta!
Pai ficou triste. Choramingou, esperneou, mas como bom cristão, tinha que se acostumar com as adversidades da vida. Jurema, filha mais velha, se mandou com aquela boniteza toda. Ele ficou cuidando das donzelices das quatro mais novas, criadas sem mãe. Pobreza muita. Miséria quase batendo à porta.
Cada vez mais seu Antão ia levando as filhas para dentro da igreja. Ouvir sermões do Padre Anacleto. Aquele vigário era dos bons. Dava conselhos nos sermões e no confessionário pras filhas de todo mundo. Moça de batom, brincos, pulseiras, vestido decotado, saia curta, era só tentação pros homens. Mulher tinha que se dar valor e deixar de usar essas coisas do diabo. Quem andasse assim era inferno na certa. Todas tinham que ir pra igreja de véu e sem esses enfeitamentos. E ai daquela que ficasse sem o veuzinho! Não comungava enquanto não tivesse um confabulamento com seu vigário. Rigoroso o Padre Anacleto. Já velho, não tinha condições nem coragem de implicar com as injustiças dos grandes e com a roubalheira dos políticos. Como também não se aventurava nem a olhar pr'os atributos donzelísticos, ficava então preso a essas besteirinhas bobas. Detalhes.
Antão era fã número um do Padre Anacleto. Aquilo é que era homem santo, que dizia coisas que ninguém sabia dizer!
- Um grande enducadô!
Filhas de Antão, como toda a donzelice bem comportada ou não tanto, de Tabuí, iam, anos e anos, sendo educadas e encucadas, a torto e a direito, pelos sermões cansativos do vigário. Ele mesmo, o Antão, só fazia vigiar as meninas e cuidar da donzelice delas. Miséria cada vez mais perto. Ignorância fez ninho naquela casa sem escola.
- Marmanjo aqui num entra! Num criei fia pra sê pasto de ninguém! Quero barbado fazeno barro na porta da minha casa não!
Pois bem. Jurema sumiu. Ficou quatro anos fora. Só uma vez mandou carta: "pai, tô no Rio de Janero ganhano muito dinhero..."
Mas voltemos à moça Jurema subindo a ladeira da Rua do Assobio rumo da sua velha casinha. Toda requebrante e perfumada. Pulseira no braço. Brinco na orelha. Bolsinha, daquelas fáceis de rodar, a tiracolo. Vestidinho verde cruzado com roxo, colado no corpo, apenas tapando o essencial. Meninotes, assim como quem não quer nada, atrás da mocinha, só pra sentirem o seu cheiro e verem os seus fundos. Calcinha vermelha. Rendada. Chegou na velha casinha, nem bateu. Foi entrando. Alvoroço danado. Frejo quissó. Irmãs rodearam a moça e caíram de perguntamentos em cima. Ninguém entendia o porque de tanta chiqueza. Cada uma querendo saber onde arrumara tanta roupa, tanto vestido decotado, tanta sainha, blusinha coladeira, calcinhas regateiras, meias gigantes, sapatos coloridos, salto alto, bolsinhas, perucas, brincos, pulseiras, batons, perfumes, pós, ungüentos e balangandãs variados.
O pai só de butuca. Ressabiado. Dúvida muita. Pulga atrás da orelha. Honra quase indo embora. Só esperando hora de voar. Querendo ver onde a coisa ia dar, Antão fica rodeando feito mosca varejeira. Filha tão rica e ele naquela pindaíba toda...
Presentes pra todas as irmãs. Brincos pruma, calcinha rendada proutra, pulseira pra terceira e assim por diante. Até que chegou a vez do Antão. Jurema, vendo o pai meio ressabiado, quis agradá-lo mais. Entregou-lhe uma caixa de sapatos. O velho abriu e quase caiu de costas. Dinheiro! Dinheiro vivinho da silva! Caixa cheinha de notas estalando de novas.
Tiveram que trazer álcool pro Antão cheirar. Tanto foi o susto. Recomposto, consolado até a alma, bem abraçado com a caixa da fortuna, o velho resolve tirar a pulga de trás da orelha, lembrando do Padre Anacleto e dos seus ensinamentos.
- Fia, o que qui'ocê faiz lá na cidade memo?...
- Ãh?... Ah, pai!... Num ti contei, né? Sacumé, né pai? Cidade grande, sem imprego... Virei prostitute!
- O que, fia?
- Prostitute, pai!
- Ah, bão, Jurema! Inda bem! Pensei qui sesse prostestante!...