20/12/2008

Um conto de Natal

A mulher ia, estrada a fora, no carrão importado. Asfalto novinho e pretinho. Chovia. De repente o estouro e o desequilíbrio do carro que sai catando cascalho da beira do barranco. Bate aqui, bate ali, até que pára, depois de entrar por uma estrada esburacada, de chão.Depois do susto, a mulher chora. Nervosa e trêmula, desce e vai ver o estrago. Um amassado aqui, outro ali, nada muito grave, a não ser o pneu estourado. Olha para baixo, olha para cima da estradinha. Ninguém aparece. Noite chegando. Bem que tenta trocar o pneu, mesmo tomando chuva. Força pouca. Traquejo nenhum. Desiste. O desespero toma conta dela, que entra no carro e se entrega ao pranto chorando mágoas passadas. Aí, lá da baixada, aparece o vulto. Um homem a cavalo. Vem chegando e vê que algo estranho acontecera com o carro. Pára. Desce calmamente do cavalo e bate no vidro.
A mulher, remoendo medo e esperança, encara o homem. Alto, moreno, barba por fazer, roupa suja, mãos cheias de vincos provocados pelos calos... Ela abre apenas uma fresta no vidro.
- Pode abri, moça! Carece tê medo não! A senhora qué ajuda? A mulher abanou a cabeça dizendo que sim.
- Ondé que fica o pneu?
Ela fez sinal que era lá atrás, no porta-malas, e acionou o botão. O homem pega o pneu, acha chave e macaco e começa a fazer a troca, adivinhando tudo, por não entender nada. Homem acostumado com cavalo e roça não entende muito dessas máquinas não. Foi por isso que o macaco, mal colocado, escapou, sujigando a mão esquerda dele contra uma pedra, fazendo-a sangrar. A mulher teve dó e, pesarosa, abriu a porta.
- Tome aqui um lenço de papel! Limpe o sangue da mão!
- Não, moça! Podexá!
E passou a mão na calça suja, limpando-a do sangue teimoso, dispensando o lenço de papel cor-de-rosa.
- Moça! Pode entrá no carro! Fica aqui não! Tá choveno e tá frio! Lá dentro tá quentinho! Vai pra lá!...
Foi aí que ela observou que o homem estava todo ensopado pela chuva e, conseqüentemente, tremia de frio. Ela entra no carro, abre um pouco mais o vidro e começa a procurar assunto.
- Como é seu nome?
- É Tarcísio, moça!
- O senhor mora onde?
- É bem perto onde moro, meia légua daqui! A mulher ficou sem saber se era longe ou perto. Observou o tempo, cada vez mais escuro. Noite chegando e a fome também.
- Sou da capital, senhor Tarcísio! Resolvi viajar sozinha. Nunca tinha feito isso. Meu marido deixei lá... Nós brigamos... A mulher parou de falar. Tomada repentinamente pela emoção, os soluços tomaram-lhe as palavras. Vez por outra ela se acalmava, sua dor doía menos e continuava o seu desabafo. Parece que precisava contar para alguém a sua história. Foi assim que Tarcísio ficou sabendo que o marido tinha muito dinheiro e muitas posses. E Tarcísio viu que ele tinha também uma mulher muito bonita. E ficou sabendo que não eram felizes. O marido vivia mais fora de casa do que dentro, envolvido com negócios, com os amigos e com as amantes. E foram as amantes o principal motivo da briga, desta vez. Tarcísio só ouvia, até que terminou de trocar o pneu. A mulher convidou-o para entrar no carro. Queria conversar mais.
- Não, moça, posso não! Tô sujo e intanguido de frio. Tenho que ir embora. A noite já chegô e minha mulher me espera!...
- Sua mulher, senhor Tarcísio? O senhor é casado?
- Sim, moça! E muito bem casado, com a graça de Deus! E óia só como é o mundo. Enquanto a senhora foge do seu marido eu vô pra junto da minha mulher... Tem duas semanas que a gente tá longe um do outro... Tô morreno de saudades!... Eu tava trabalhando...
- O senhor faz o quê, senhor Tarcísio?
- Trabaio na roça, moça! Planto arroz, milho e feijão. No meio planto abóbora, quiabo, melancia... Na beirada planto batata doce, inhame e mandioca... Dá pra despesa!...
A mulher entendeu que Tarcísio tinha pressa. Queria ir ver sua amada. Era noite de Natal.
- Por que o senhor não deixa seu cavalo aí e vem comigo? Levo-o onde o senhor quiser!
- Não, moça! Depois do Natal, vorto pra a roça. E é nesse cavalinho que eu vou. Se ele ficá aqui, arrisco perdê o bichim...
- Senhor Tarcísio, quero pagar pelo que o senhor me fez. Quanto lhe devo?
- Quanto deve? Nada não, moça! Não fiz isso por dinheiro!
- Mas, senhor Tarcísio, empatei mais de uma hora da sua vida! Se não fosse o senhor, eu estaria aqui, correndo risco de vida... Além do mais, o senhor até machucou a mão! Pode dizer o preço que eu pago!
- Não, moça! A senhora não tem que pagá nada! A gente, quando faz o bem, não deve pedir nada em troca. Só deve querer que o bem continue sendo feito, sem parar! É assim que penso, moça! A mulher tirou cinco notas de cem reais e ia entregá-las ao Tarcísio. Ele já tinha montado no cavalo.
- Óia, moça! Faz o seguinte: se eu lhe fiz bem e a senhora gostô, passe o bem para a frente! Faça outra pessoa feliz! E tocou o cavalo, sumindo noite a dentro. Os olhos da mulher voltaram a ficar cheios de lágrimas. Não mais de tristeza. De emoção. Ela descobriu, ali naquele canto de mundo, vinda de um matuto sem estudos, de quem tivera medo no início, a maior lição de vida. Passar o bem para a frente...
- Ah, se todo mundo fizesse assim!...
E ligou o carro. Entrou no asfalto, disposta a achar um lugar onde comer alguma coisa. Rodou pouco e encontrou uma lanchonete de beira de estrada. Entrou e foi para uma mesa, com um monte de olhos de machos presos nela. Mulher tão distinta e tão bonita num lugar desses!... Uma garçonete veio atendê-la. Ela pensou: o que haverá de menos sujo por aqui? Um refrigerante talvez. E para comer? Uma fruta, decerto...
- Quero um guaraná! Que fruta vocês têm?
- Fruta? É...
- Sim, fruta! Já é tarde para comer outra coisa. Prefiro fruta!
- Olha, moça, aqui não tem fruta. Se a senhora esperar um pouquinho, tenho umas bananas. Moro bem ali, no fundo da lanchonete...
- Isto! Isto mesmo que eu quero! Você busca para mim? Bananas com guaraná!...
A garçonete esboçou um sorriso simpático e foi atrás do pedido. Trouxe o guaraná e saiu para buscar as bananas. Aí foi que a mulher viu que a mocinha tinha certa dificuldade para andar. Andava devagar. Observou bem e descobriu o motivo. Gravidez. A garçonete deveria estar lá pelo oitavo mês de gravidez. Usava um vestido simples, coberto por um avental que disfarçava o tamanho da barriga. No rosto, um sorriso meigo e cativante era gentilmente distribuído a todos os que lhe dirigiam a palavra. A mulher ficou comovida observando a garçonete, cansada e grávida, naquela noite de Natal, atendendo com um sorriso a quantos lhe procuravam. Pensou que dificuldade teria na vida essa pobre moça para ter que se submeter, já no final da gravidez, a um trabalho desses. Perdeu até a fome. Quando a garçonete voltou, encontrou na mesa, debaixo do copo, ainda com um resto de guaraná, cinco notas de cem reais. E um bilhete, num lenço de papel cor-de-rosa: "Obrigada pelo atendimento. Fique com esse dinheiro. É uma ajuda para o seu bebê que está chegando. Seja feliz e faça outras pessoas felizes. Passe a felicidade para frente!" A platéia que, atenta, observava o que acontecia naquela mesa, saiu do suspense quando a moça abriu-se num sorriso largo. E, aos poucos, cada um foi procurando seu canto, sempre recebendo da futura mãe uma boa noite e um feliz Natal. A garçonete cria mentalmente inúmeros planos do que fazer com aquele dinheiro chegado em tão boa hora, quando mais necessitava, estando o filho por nascer. Enquanto isso, começa a cuidar dos tantos copos e pratos e talheres que ainda tem para recolher e lavar e enxugar... Mas para completar seu presente, o patrão também assumira o espírito natalino.
- Deixe o trabalho para amanhã. Vá dormir. Feliz Natal!O quarto da moça era nos fundos da lanchonete. Ela sai feliz, sorrindo, sentindo-se leve, embora com tanto peso na barriga. Abre a porta devagarzinho, para não fazer barulho. Toma um banho e vai para a cama, pensando no dinheiro e no bilhete que a mulher deixara. Aquela mulher tivera uma inspiração divina para saber o quanto ela e o marido precisavam daquele dinheiro. Com os raios da luz que entra pela janela, olha embevecida para o rosto do marido. Moreno, barba por fazer. A mão esquerda, fora do cobertor, com um ferimento recente.A garçonete beija-o docemente e diz, num sussurro:
- Tudo vai ficar bem. Obrigada por me fazer feliz, meu amor! Eu te amo, Tarcísio!...

17 comentários:

New disse...

Oiêee!
Sem comentários. Excelente! É até sem graça comentar. É sempre tão bom tudo que escreve que a gente acaba sendo repetitiva.
O post anterior também e, obiviamente, é de tirar o chapéu.
Bem, só por isso deixei um mimo prá vc, ok?
Quando puder passa lá em casa, tome um café e pegue-o.
http://esturdio.blogspot.com/2008/12/e-o-oscar-vai-para.html
Beijo e um ótimo final de semana.

Luis Hipolito @ The Blogger disse...

Muito bonito o Conto de Natal. Postei link no The Blogger pra essa postagem. Eurico, eu te desejo um Feliz Natal e um 2009 de muitas realizações e felicidades prá você e sua família!!!

Leila disse...

Que maravilha se esses sentimentos batessem forte em todos nós!
Muito bom, Eurico! Que Deus nos abençoe no Natal e em todos os dias de nossas vidas.
Um carinho grande para o blogueiro e para os amigos do blog.

Blog do Beagle disse...

Essa história é linda. Recebi por e.mail e me emocionei lá e cá. Bjkª. Boas Festas. Elza

Dalinha Catunda disse...

Belo Conto, Eurico.
Emocionante e nos provoca a vontade de fazer o bem.
Feliz Natal para você, sua familia e os companheiros bloguistas que comentam neste espaço.
Dalinha Catunda

New disse...

Oiêee, lindão!
Vim desejar a vc e a toda sua família um belíssimo Natal com muita harmonia e fartura e que 2009 seja repleto de coisas boas, muito amor, saúde, grandes realizações e $uce$$o.
Adorei sua companhia este ano e espero tê-la por outros mais.
Beijocas doces no coração.

Eurico de Andrade disse...

New, Luis Hipólito, Leila, Elza e Dalinha!
Muito obrigado pela mensagem de cada um. Andei meio afastado, mas tô de volta. Desejo a todos vocês boas Festas e que Deus esteja sempre conosco.

Blog do Beagle disse...

Eurico, varri meu blog e descobri que desde setembro vc não me visita. Tou saudosa... Bjkª. Elza

Mirse disse...

Lindo conto de Natal, Eurico!
Você conseguiu me emocionar, sem sair de Tabuí.
Parabéns, amigo!

Um Feliz Natal e um Ano Novo repleto de bons "causos"

Boas Festas ao povo de Tabuí, povo trabalhadoe e sofrido. E também ap padre Anacleto.

Abraços

Mirze

Lelo disse...

Olá Eurico, parabéns pelo lindo conto, tem uma dinâmica que não nos permite parar de lê-lo...
Visite-me no meu blog:
http://timideztofora.blogspot
Te espero lá!
abraços, um 2009 de paz,harmonia, saúde, realizações, amor e milhares de clicks...

Eurico de Andrade disse...

Elza, Ontem à noite mesmo estive no seu blog. E hoje de novo, para conhecer melhor a Claudemira, dua criatura.
Grande abraço.

Eurico de Andrade disse...

Mirse,
Obrigado pela palavras carinhosas. A sua emoção, ao ler o conto, é motivo de satisfação para mim. É sinal de que atingi meu objetivo.

Eurico de Andrade disse...

Lelo, O cara mais tímido da blogosfera visitou você no seu bonito blog. Parabéns pelo seu trabalho. Não é a toa que vc já virou até artista de TV.

Anônimo disse...

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Luis Hipolito Borges disse...

Tudo bem Eurico?

Gostaria que você alterasse a url do The Blogger para http://luishipolito.blogspot.com.br que é o blog onde publico notícias. Obrigado e um abraço!!!