18/10/2008

Cada doido com sua sabedoria

Padre Anacleto ia pra Perdição. Estradinha a fora, cheia de buracos e de poeira, dirigindo seu fusquinha velho. Curva em cima de curva. Matão danado em volta. Se Tabuí já é sertão, imagine só o que era o sertão de Tabuí. Fusquinha ora engasgava, ora tremia, ora dava umas rateadas, mas ia indo. Subida então, era um desarranjo. Carrinho aprontava berreiro danado, soltava fumaça por tudo quanto é buraco, mas ia rodando. Seu vigário um tanto quanto pesado.
Aí chegam os dois, Padre Anacleto e o fusquinha, no matão mais fechado. Aquele onde todo mundo falava que tinha umas onças... Bichanas nem podiam sentir cheiro de carne humana que tavam em cima da carniça. De tão fechado o mato, parecia até que tinha escurecido. E, para arrematar, povão dizia que assombração ali também era mato. Sô vigário não acreditava muito nessas coisas não, mas por via das dúvidas, era bom ficar prevenido. Foi lá que aconteceu a desgraça: pneuzinho careca do fusquinha furou. Rodar com pneu furado prejuízo na certa. Paróquia pobre. Padre pobre. Sair do carro risco grande demais. Coragem pouca. Padre Anacleto craneia, craneia e não acha solução. Nenhum vivente à vista. Ninguém para uma demãozinha. Viu que tava mesmo cagado de arara. Casamento lá na Perdição tinha hora marcada. Noivinha já devia estar chegando à igrejinha na charrete toda enfeitada. Agoniada esperando a grande hora.
Com um friozinho na barriga coitado do padre resolve sair do carro e trocar o pneu. Rezando o Creindeuspadre. Atento a qualquer barulho. Suando frio dentro da batina larga e puída. Olhando de rabeira pra tudo quanto é sombra. Pronto para refugar frente a qualquer sinal suspeito. Trabalhão danado pra tirar pneu furado. Mãos acostumadas a rezar missa, sem traquejo com chaves, macaco e parafusos. E a tralha velha não colaborava: macaco sem óleo, chave da boca maior que as cabeças dos parafusos... Tirou o bicho mais no muque, com uns palavrões seguidos de Padrenossos, do que com a ajuda do macaco e da chave de rodas. Pegou a calota, virou-a de boca pra cima e nela colocou cuidadosamente os quatro parafusos pra não perder nenhum e nem pegarem poeira. Como o carrinho estava meio mole, freio de mão avariado, resolve procurar uma pedra para calçar o danado. Bem no barranco, assim perto duma moitinha, vê uma pedrona boa. Borrando de medo, mas com muita fé em Deus, sai de perto do carro e vai pegá-la. Um pé na frente e o outro atrás, pronto para a refugada. Quando tá com a bruta nas mãos, fazendo força, ouve um barulhão dentro da moita. Sente aquela friagem na espinha, pernas amolecem, coração acelera e os poucos cabelos arrepiam. Mas instinto de sobrevivência fala mais alto e o pobre do Padre Anacleto sai numa desabalada corrida carregando a pedra. Reto no rumo do fusquinha. Chega perto do carro, solta a dita cuja de qualquer jeito e tafuia dentro dele esperando pelo pior.
Fica no quieto tempão danado, a ponto de rezar quase todo o rosário, e... nada. Bicho nenhum aparece. Nem assombração. Negócio era criar coragem novamente e voltar ao que tinha começado. Melhor pensar que o barulho era de algum lagarto ou de um gato do mato assustado. Assim que o padre sai do carro é que vê a burrada que fez. A pedra caíra na borda da calota e, com a queda, jogou os parafusos pra longe, no meio do mato. Achá-los, impossível. Procurar, nunca. Desespero toma conta do coitado. Xinga umas palavras em italiano, mas rapidinho se arrepende e pede perdão a Deus. Já sujo, molhado de suor, rezando baixinho, com fome, senta lá dentro do carro esperando solução. Noite chegando. Medo agoniado e inconfesso espremendo o peito.
Depois de muito rezar, vê um vulto aparecer lá no alto do morro. Põe óculos, tira óculos... E o vulto descendo. Devagarinho. Pára, anda, pára de novo. E o Padre Anacleto tremendo e butucando de olho arregalado:
- Ai Dio mio, agora é sombração mesmo!... O que eu fiz de errado, meu Deus? Virgem!...
O santo homem sente vergonha de si mesmo, do medo que estava sentindo e se lembra até dos sermões que fazia na missa do domingo contra essas crendices pagãs. Na prática teoria era outra. Novamente põe óculos, tira óculos e o vulto vindo. Sem pressa, naquele mato escurecente. Quando o vulto chegou bem perto foi que o Padre Anacleto entendeu que era gente. Gente de verdade. E não é que ele conhecia o dito? Era o Dejalma. O doido lá de Tabuí.
Aí Padre Anacleto se encheu de coragem e saiu do carro. Foi com santo alívio que cumprimentou o recém-chegado:
- Boa tarde, Dejalma! O que que anda fazendo por estas bandas, figlio mio?
- Tarde!
- Tá passeando, Dejalma?
- Pensano!...
- Pensando em que, Dejalma?
- Cê leva ieu?
O padre pensou consigo mesmo: "que adianta eu querer conversar com este maluco? O maledetto não diz coisa com coisa mesmo!". Mas, como não queria perder a companhia, mesmo sendo de um lelé da cuca, continuou o papo como se fosse tudo dentro da maior normalidade.
- Levar, levo, figlio! Negócio é que o pneu tá furado...
- Por que ocê num troca?
- Era o que eu ia fazer, Dejalma, mas perdi todos os parafusos desta roda e não tenho outros para colocar no lugar...
Dejalma parece que esquece do que estavam falando. Fica olhando pro mundo. Resolve dar uma volta em torno do carro como se o examinasse com olhos de comprador. Olha daqui, olha dali... Desenha uma careta no vidro empoeirado... Dá uma risada... Abre porta, fecha porta... Pára. Olha pra moita na beira do barranco onde vê um pé de murcha-mulata carregadinho de flor. Vai lá, pega um galhinho e vem cheirando. Sô vigário só de butuca. Quando ia perguntar se podia contar com aquela companhia maluca noite a fora, naquele ermo, Dejalma dá uma aspirada na murcha-mulata e olhando para um ponto fixo no espaço, diz:
- Por que ocê num tira um parafuso de cada rodeira e põe nessa?
Foi tudo muito rapidinho. Padre Anacleto e o Dejalma chegaram à Perdição quando a noiva, triste e chorosa, estava dentro da charrete pronta pra ir pra casa e o povão já indignado com o que seria uma grande desfeita do seu vigário. Ninguém entendeu foi porque o Padre Anacleto estava andando na companhia daquele maluco. Também ninguém perguntou. Povo da Perdição é assim: não é especula, só sabe o que é pra ser sabido.

21 comentários:

PEMG disse...

Eurico

Obrigado pela visita no Boas Piadas.

Pelo visto, aqui causos não faltam.

Vim só mesmo para agradecer à visita. Depois volto para dar uma boa olhada.

Um abraço.

Leila disse...

Sobre o Padre Anacleto, o homem das teologias e das filosofias, minha avó paraibana, sem medar, diria:
Ó Jisus, prumodiquê tanti estudo, montueira de lamparina acesa e tantos óios avermeiados?
Olhe, Sô, adoro os bilós das idéias. Deus mandou eles pro mundo pra esbanjar sabedoria, não obstante as avacalhações da molecada de rua.
Dejalmas são providenciais. Não existisse esse do causo, o Zé da Batina ainda estaria no degredo, todo borrado de merda de arara e da própria. O senhor não acha? Ou acha?
Como pôde (ou pode???) ter coragem de emprender viagem para o longe do longe sem a necessária competência? Aliás, lá na minha aldeia, cheia de gente desbocada, um lugar como Perdição seria assim avaliado e definido: se "aquele" buraquinho tivesse buraquinho, Perdição era o buraquinho do buraquinho do buraquinho. Não estou mais lá na aldeia e procurei não ser desbocada, entende?
Grande abraço para o amigo.

Eurico de Andrade disse...

Leila!
Esse negócio de buraquinho é muito complicado pra gente daqui de Tabuí, sá! Agora, falar de Perdição, pode não, viu? A não ser falar bem. Pois lá tem um povim danadim de bravim, sá!
Beijos

Eurico de Andrade disse...

Olá, amigo do blog Boas Piadas! Cê tá linkado aqui com a gente e recomendo ao meu pessoal de Tabuí uma visita ao parceiro Boas Piadas. Lá tem coisa boa demais da conta, gente!

Dalinha Catunda disse...

Eurico,
Mais um "causo" e tanto a nos alegrar.

Gostaria de lhe dizer que devo mexer esta semana em meu blog e colocar um link com os blogs camaradas. E o seu será um deles.
Um abraço,
Dalinha

Eurico de Andrade disse...

Ô Dalinha! Agradeço muito por você considerar o Tabuí um "blog camarada". O Cantinho da Dalinha já há muito tempo tá ali na minha listinha de "Bãos demais da conta", visse?

requeri disse...

poizé ... claro q não se pode comparar uma perua cheia de pose, toda verde, rodeada de flôr, cabelão e sapato de salto com um autêntico exemplar da terra, plantador, colhedor e, ainda por cima, contador de causo. adorei aqui e me penitencio por não ter entrado antes ... prometo que volto amanhã, depois, depois, depois, ... beijo.

Dalinha Catunda disse...

olá Eurico,
Já coloquei um link no meu blog para seu TABUÍ.
Um abraço,
Dalinha

Leila disse...

Sô, quem nasce em Perdição é o quê?
Perdido na Noite? na madrugada? Perdidopetropolitano ou Procurado?
Como posso aspirar o cargo de Prefeita de Tabuí se causo constangimento aos moradores de Perdição, o maior dos seus sub-sub-distritos? Faltou tato, não?
Para trazer meu deslize ao presente do indicativo da atualidade vale lembrar o escorregão do Fernando Gabeira nesta eleição ainda indefinida no Rio de Janeiro. O homem da tanga de crochê vai perder os votos da suburbana, tá sabendo?
Como dizia meu bondoso pai, quem matou a caveira foi a língua, meu senhor.
Mil perdões.

Hago disse...

Muito divertido e gostoso este causo, Eurico. Um abraço daqui de Portugal.

New disse...

Oiêee!
Tem mimo prá vc no Estúrdio e juro que dessa vez o link tá certo (espero, né? rsrsrs...)

http://esturdio.blogspot.com/2008/10/mimos-do-luiz.html

Beijos

Blog do Beagle disse...

Essa é das antigas, de fato. Muito bom. Bjkª. Elza

Eurico de Andrade disse...

Requeri! Obrigado pela visita e espero que vc volte sempre mesmo, viu? Bom domingo!

Eurico de Andrade disse...

Dalinha!
Obrigado por colocar meu link no seu blog. Fico orgulhoso de ser divulgado por você aí no Nordeste. Já visitei o seu blog e vi o link. Os meus leitores que quiserem conhecer o trabalho da Dalinha devem visitá-la em http://cantinhodadalinha.blogspot.com/

Eurico de Andrade disse...

Leila! Nem pense em criticar ou falar mal de quem nasceu na Perdição. O lugar é bão demais da conta. E é lá que vc pode vir a ter os eleitores mais fiéis, sá! Inclusive tem um, que eu conheço, que já é candidato a ser seu cabo eleitoral.

Eurico de Andrade disse...

Hago! E vc que andava meio sumido, rapaz? Só pq está em Portugal, ali tão pertinho, não precisa desaparecer, né memo? Vc é meu único leitor internacional, sô! Trate de não desaparecer!

Eurico de Andrade disse...

New!
Já vi os mimos que vc reservou para o Tabuí, sá! O negócio é que não estou mais sabendo onde colocá-los. Sou meio analfabeto em termos de informática e não sei tecnicamente como fazer para colocar os mimos em uma página interna, já que o espaço na primeira página acabou. Cê pode me dar uma idéia?

Eurico de Andrade disse...

Elza! Vc é outra que andava sumida, sá! Dê um jeito de ficar sempre por perto da gente, viu? Povim de Tabuí sente falta de certas pessoas!...

Brasil Empreende disse...

Ola visitei seu blog e achei um barato e gostaria de convidar para acessar o meu também, participar da enquete e conferir a postagem desta semana: “Frankfurter Buchmesse: “Turquia em todas as suas cores”.”
Sua participação será um grande prazer para nós
Acesse: www.brasilempreende.blogspot.com
Atenciosamente,
Sebastião Santos.

www.mirzesouza.blogspot.com disse...

Muito divertido, Eurico. Incrível no seu texto ou causo, é ver fluir a cultura nas entre-linhas, as sensações humanas quer seja padre ou não, quem é que não já pensou em assombração? E os neologismos que surgem em momentos apropriados, dando o tempero ao causo.
Coitado do Padre. Tadinha da noiva. Doido? Esse cara é bom de bola.

Parabéns, amigo!
É sempre uma delícia vir aqui.
Abraços

Mirze

Anônimo disse...

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