21/05/2008

Procurando a Alma Gêmea

Aristeu estava separado da esposa. Desquite já em fase final. Casara jovem e não pôde fazer muito proveito da vida de solteiro. Agora, já quarentão, começava a curtir novamente a solteirice, ao mesmo tempo em que pensava em recompor a vida ao lado de outra companheira. Por isso, trajava-se e comportava-se como um rapazinho evitando, contudo, o espelho, para ignorar sua feiura. E sentia-se bonitão.
- Vou procurar minha alma gêmea, a minha outra metade!
Não perdia bailes, festas, aniversários, casamentos... Nesses ambientes jogava todo seu charme. Só que não fazia efeito. Mulher nenhuma correspondia aos seus desejos. Desanimado com a falta de resultados, deixou a badalação e enclausurou-se num desconfortado quarto de sua casa. Lá foi curtir a solidão. Seu único companheiro era um rádio Semp, movido a pilhas, com quatro faixas de ondas. Numa noite estafante, sintoniza uma rádio daqui, outra dali, até que acha uma da capital. O programa do horário era “Namoro pelo Rádio”.
Aristeu mudou o estado d’alma. Ficou de ouvidos em pé. Pegou caneta e papel. Tomou nota do nome de uma solteirona de 42 anos, morena, olhos castanhos e cabelos pretos. Profissão: doméstica. Sua preferência era por um homem do interior.
O candidato Aristeu, com nome e endereço da coroa, ia agora tentar a sorte: escrever. Na carta não foi sincero. Descreveu uma falsa imagem. A carta chegou ao destino. Marli, - era o nome dela -, topa a parada. Pede uma foto. O mancebo sentiu-se apertado. Escreveu carta afirmando com bastante convicção que desde criança tinha aversão por fotografias e que delas só tinha más recordações. Principalmente das últimas que havia tirado ainda jovem: quando do casamento fracassado e a outra quando posara ao lado do pai, que veio a falecer poucos dias depois. Dizia ainda que havia destruído as poucas fotografias que possuía e as únicas que ainda tinha estavam pregadas em seus documentos.
A moça Marli leu a carta e acreditou no moço. Respondeu que uma simples fotografia não impediria o namoro. Estava ansiosa para conhecê-lo e queria saber do dia que poderia dar uma esticada até Tabuí para vê-lo pessoalmente.
O quarentão marcou o encontro para um dia de sábado do frio mês de junho. A moça confirmou sua viagem na data marcada. Sairia da capital por volta de meia noite e chegaria em Tabuí às cinco e meia da madrugada. Aristeu a esperaria no bar que também servia de rodoviária.
Eufórico, ele comentava com todo mundo o dia e a hora da chegada da futura namorada que viria da capital.
Chegou o dia tão esperado. Às quatro da madruga Aristeu já estava de pé. Vestiu o terno, barbeou-se, usou o melhor perfume, penteou-se e foi pra rodoviária. Pelas ruas foi convidando quem encontrava para assistir ao encontro.
O ônibus chegou com quase uma hora de atraso, deixando o Aristeu preocupado. O motorista abre a porta e os passageiros descem. De repente uma morena esbelta, de cabelos pretos e curtos aparece na porta do ônibus. Era ela, a Marli. Desceu e foi em direção a um grupo de mais ou menos dez pessoas e perguntou:
- Qual de vocês é o Aristeu Benedito da Costa?
O quarentão estufou os peitos, meteu as mãos na cintura, olhou a reação dos companheiros e falou todo orgulhoso:
- Sou eu, uai!
A quarentona fez um instante de silêncio, mirou-o da cabeça aos pés, torceu o nariz e perguntou meio assustada:
- A que horas sai o próximo ônibus para Bel’Zonte?
Postar um comentário