20/07/2008

E o circo chegou em Tabuí...

Depois de muitos anos a pão e água, chegou circo em Tabuí. Pequeno e fuleiro, montado em meio dia de trabalho. Molecada em cima, fiscalizando e apreendendo. Marmanjos de butuca. Grã Circo Americano. Glória para a cidade. Nome pomposo, sugerindo ao povo um monte de artistas estrangeiros. Merreca de fazer dó. Nem assentos para a distinta platéia. Umas tábuas mal colocadas, empenadas, garantiam o lugar de umas poucas pessoas. A lona que o cercava, toda ensebada, cheia de buracos e remendos. Cobertura não havia.
Assim que notou a movimentação da montagem do circo, a Luizabete, moreninha pra lá de ajeitada, lá da ladeira do Beco, se ajeitou toda, botou brinco, passou batom e pó de arroz e foi pra rua. Pensando no mais tarde. Caçou com os olhos o Florípio, - sua paixão -, ocupado em plena fiscalização do movimento. Ela interessada e o outro regateando, como quem não quer nada, mas querendo tudo.
- Cê vai no circo hoje, Floripo?
- Sei não, sá! Confofoovô!...
A grande estréia seria às sete da noite. Às três o palhaço, já devidamente paramentado, chamava a criançada para percorrer as três ou quatro ruas da cidade. Às quatro, mais menino que gente. Começa a bagunça, depois de pequeno ensaio. O palhaço, montado numa jumenta fogosa, enfeitada com flores de plástico descoradas, puxa a molecada pela rua do Comércio.
- Hoje tem espetáculo?
- Tem, sim sinhô!
- Hoje tem marmelada?
- Tem, sim sinhô!
- E o paiaço, o que é?
- É ladrão de muié!...
À molecada que acompanhasse o palhaço, fora prometido ingresso para a estréia. Assim que a tribuzana chega na praça, encontra o Rolando Ladeira, que vinha do trabalho na roça e, como sempre, com fome, cansado e puto com as injustiças da vida, mas cheio de amor a Deus. Esqueci de dizer que Rolando tava montado num jumentinho novo, gordinho e muito animado e que a jumentinha do palhaço tava no cio. Não deu outra. Paixão à primeira vista. Assim que se olharam, começaram aquela barulheira, correram um para a outra e vice-versa. Desobediência plena aos comandos dos freios e rédeas. Um zurro só. Não adiantou chicote e espora do Ladeira com os seus gritos de paracuisso e quequiéisso gente e nem a gritaria do palhaço, tudo captado pelo auto-falante. O jumento se armou todo e crau. O palhaço teve que pular fora para livrar o trazeiro e a zueira babenta do animal no seu cangote e caiu de mal jeito, batendo a testa numa pedra. Rolando Ladeira, no empino do jumento, caiu de costas, rolando no meio da meninada. Um grande e hilariante espetáculo, como há muito não visto em Tabuí. O palhaço, meio tonto, sem entender direito o que acontecia, berrava a plenos pulmões, pelo auto-falante:
- Gente! Oquecouve? Oncotô? Poncovô? Qui trem mais esquisito, sô!...
O Rolando, ainda mais puto da vida pelo tombo e por aquela sem-vergonhice toda, arrancou a peixeira e queria achar o culpado pela tragédia.
- Arreda, sôs muleque! Cadê ele? Cadê ele?
O palhaço isalou no mundo, abandonando jumenta e catracagem de som. Da molecada, alguns chegavam a rolar no chão de tanto rir. Outros, mais inocentes, se retraiam, saindo de mansinho. As meninas, idem, tentando tapar olhos e ouvidos, ao mesmo tempo. E o povo, com aquela latumia toda, foi chegando, atraído pela tribuzana transmitida pelo alto-falante. Quando chegou o padre Anacleto, cheio de interrogações, correndo, arfando e suando dentro da longa batina preta, foi menino pra todo canto. Não ficou um pra contar a história e pra pegar o ingresso. O seu Ladeira caiu de joelhos, aos pés do vigário, pedindo perdão por aquele pecado para o qual, inconscientemente, acabava de colaborar, trazendo a jumentinha pra praça, justo naquela hora.
Bem depois das sete em ponto começa o espetáculo. Quase só adultos. A meninada, correndo do padre, ficara sem o ingresso prometido. Como o circo só tinha lugar para uns poucos sentados nas tábuas empenadas, quem podia trouxe a sua cadeira de casa. No primeiro número, lá estava o palhaço de novo, precedido pelo retumbar de tambores que saía de uma radiola velha. Começou ele com aquele papo de palhaço, conseguindo uma ou outra risada amarela, até que pediu um voluntário para a mágica. Sim, era mágico o palhaço. O Ângelo, - mais conhecido por Anjinho, mas capeta da melhor qualidade -, que havia entrado por baixo do pano, garoto assim duns treze anos, se ofereceu. O palhaço mágico mandou que ele se abaixasse, com as mãos nos pés e o traseiro arrebitado. Aí aprontava aquele monte de palhaçadas, conseguindo que algum ou outro risse. Nesse primeiro número de mágica, o palhaço arrancou do bumbum do Anjinho, assim fazendo muita força, uma peteca, com penas bem compridas e um ramalhete de flores cheias de espinhos.
- Isso é uma indecência! – bradou a beata Raquel, doida para aparecer e arranjar marido.
- É memo! Aqui tem famia! Vamo pará cuisso! – gritou toda dengosa e virando o zoinho a menina Carolina, pendurada no pescoço do Zé Pretinho e numa esfregação quisó.
- Tadinho do minino! - gemeu a dona Kezita, toda arrepiada no seu recatamento, crente que aquele monte de espinhos tinha, de fato, saído do traseiro do menino.
O mágico palhaço, desconfiado que o mar ali não estava para peixe, rapidinho recolheu sua aparelhagem. Fez gesto pro auxiliar e subiu novamente o rufar de tambores, enquanto ele caía fora do picadeiro. Passaram-se vários minutos, só tocando música militar de um bolachão todo arranhado, naquela radiola velha. O público impacientando-se. Aí, é anunciado pela voz do palhaço, o número do leão.
- Bicho feroz, vindo há poucos dias lá das banda da floresta amazônica!...
- Eu, heim?!... Leão tupiniquim? Nunca vi isso!... - era a professora Fúlvia, - com F de faca e U de uva -, mostrando sua sapiência para os vizinhos da platéia.
O picadeiro foi cercado com uns pedaços de tela grossa mal emendados e o leão trazido, numa jaula, carregado por quatro pessoas, uma dela o palhaço, que era também o domador do circo, homem bem entendido de habitat animal. O bicho chegou cochilando e cochilando ficou, mesmo quando a jaula foi aberta. Deitado, magro, sujo e desanimado, só se levantou quando ouviu o estalo do chicote do palhaço domador. Aí a fera ficou brava e saiu da jaula soltando urros fortíssimos, fazendo muita gente na platéia ficar com o coração na mão. Houve quem, até, que, aproveitando a oportunidade, pulasse no colo do vizinho, como aconteceu com a Carolina que já tava ficando mal falada pelas redondezas. O domador estala de novo o chicote e o leão se assusta, indo de ré e batendo na tela que o prendia ao picadeiro. Um pedaço dela cai pro chão. Não deu outra. Vendo o buraco aberto, o bicho cai fora e vai pro meio da platéia, da turma que trouxera cadeira de casa, urrando e encarando um ou outro com olhos apetitosos. Foi nessa hora que o delegado Sinvalfredo, que mal tinha chegado e arrumado um cantinho pra sua cadeira, sentindo o bafo do leão assim bem pertinho dele, mas querendo dar uma de machão, resolve apelar, sem decidir se corria ou se ficava. Recurso foi gritar, mais forte que o leão, para assustar o bicho:
- Larga d’eu, trem! Arreda, satanais!...
Cada um se vira como pode. Saindo de fininho. Alguns, pé ante pé, carregando sua cadeirinha. Ninguém queria encarar o bicho. De vez em quando ele, - o leão -, sem entender que estava livre, soltava urros que arrepiavam cabelo de neguinho. E o povo vazando fora, querendo distância da fera. Muita gente subiu pras tábuas que formavam a arquibancada do circo e aquilo foi pesando. O Oclécio, que conseguira lugar na emenda entre uma tábua e outra, estava quase vazando, com o traseiro afundado, já que as tábuas arrebitaram os cantos.
- Ai, meu Deus, desde pequena eu queria assistir o circo, mas o trem aqui num tá bão!... – isso era dona Suely, - que viera lá do Arraial do Sossego -, gungunando com seus botões, chorosa pelo tempo perdido.
Aí o leão resolve olhar e caminhar pro rumo do povo das tábuas, e a turma, quase em peso, se levanta e começa a pular, caindo e rolando de qualquer jeito, vazando por debaixo do pano e ganhando o mundo. Menos o Oclécio, que tava procurando os óculos para achar a bengala. Acontece que a turma, ao levantar da tábua, o peso sobre ela diminui e o Oclécio fica com o traseiro preso e os ovos espremidos. Esquecendo de óculos e bengala, gemendo, com os olhos cheios de lágrimas e muito mais alto que o domador palhaço, que chamava o leão pelo alto-falante, o Oclécio reuniu as parcas forças, premido pela dor, e gritou, implorando, na esperança de que alguém o atendesse:
- Senta, gente!... Senta meu povo! Senta que o leão é manso!...
Postar um comentário