Páginas

18/05/13

A HISTÓRIA SE REPETE



Jordelina tava com uns trens esquisitos pra sua juventude de dezoito aninhos. Umas tonturas misturadas com perdas de apetite e até uns danados de uns vômitos. Curuzes!... A moça quase não comia e, quando comia, vomitava... Tadinha!...
Médico fez exame e concluiu com seus botões “é gravidez, só pode!”. Pediu exame. Batata!...
- A Jordelina tá grávida, quase chegando nos três meses, dona Matilde!... E aposto que a senhora vai dizer que “ela não conhece homem”, não é dona Matilde?
- É dotô. Essa menine só veve dendecasa, sô! Onquiela foi arrumá gravidez, diacho?
- Diz aí, Jordelina! Diz pra sua mãe que você nunca esteve com um homem!...
- Mais é verdade, mãe! Nem nunca bejei um home! Cruzcredo! Que trem mais isquisito!
Enquanto as duas continuam conversando e às vezes discutindo, o médico, silenciosamente abre a gaveta e pega sua luneta, focaliza-o em algum lugar no firmamento e fica olhando, sabe-se lá o quê.
Dona Matilde, depois que não tinha mais o que conversar com a filha, certa do erro do médico, cheg-as e ele e pergunta, em tom superior:
- Pra que esse trem aí, ô dotô?
- Ó, dona Matilde, não quero de forma nenhuma perder o espetáculo. Da última vez que ocorreu de uma virgem ficar grávida, veio uma estrela do Oriente e no rastro dela, três reis magos. Não posso perder isto agora, entende?

VOCÊ ENTENDE DE ECONOMIA?



Vou contar procêis um causo sucedido com cinco personagens de Tabuí, envolvidos numa complicada operação financeira. São eles: Abecê Nogueira, Zezé Sossegado, Diva Gina, Pretende Reduzido e Orelhuda Vesguinha.
O Abecê Nogueira chegou ao Tabuí, vindo da capital, onde passara alguns meses trabalhando e foi direto pra loja do Zezé Sossegado. Lá ele tirou cinco notas de 100 reais e pagou o sofá que iria dar de presente para a esposa. O Zezé Sossegado, cansado de tanto sossego, mandou o empregado ir correndo à casa da fabricante dos móveis, a dona Orelhuda Vesguinha, para pagar uma prestação vencida, com as mesmas cinco notas de 100 reais.
Dona Orelhuda Vesguinha, por sua vez, que fornecia alimentação para seus cinco funcionários, pegou os 500 reais e foi direto ao açougue do Pretende Reduzido, onde pagou a carne que devia dos seis meses anteriores. Quitou sua dívida, portanto.  E o Pretende Reduzido o que fez? Correu ao bordel da Diva Gina e pagou uma dívida adquirida por serviços prestados, com as mesmas notas do início da história. Dona Diva Gina não titubeou e, com as cinco notas de 100 reais, foi à loja do Zezé Sossegado, onde tinha comprado umas camas pras meninas, a prazo, e fez o pagamento de duas prestações vencidas.
Vc pensa que acabou? Acabou nada. O Abecê Nogueira, quando levou o sofá pra casa, viu que não dava certo. O trem era maior que a parede e tampava a metade da porta da sala. Teve, portanto, que devolver o sofá à loja do Zezé Sossegado e, logicamente, pegou de volta as cinco notas de 100 reais que lá deixara e que já passara pelas mãos de 4 outras pessoas, pagando dívidas.
Conclusão: em Tabuí dívidas foram pagas e, curiosamente, ninguém ganhou e nem gastou dinheiro. O crédito para os envolvidos foi restaurado e voltou neles a vontade de continuarem a investir na cidade.
Aí eu pergunto: economia é coisa pra se entender?

(Causo reescrito com base em texto enviado pelo amigo José Vitorio Bahia, de Bambuí-MG)

17/05/13

PROVIDÊNCIA, A CACHAÇA MILAGROSA



Durante minha carreira de pescador, especializei-me na pesca de traíras. Vinte, trinta e até quarenta linhadas armadas nas beiradas mais sujas da represa, no meio de capituvas. A grande dificuldade sempre foi arranjar tanta isca para tanta armadilha. Certa vez, estava eu tentando pegar uns lambaris, que é sempre a melhor isca pra traíra, ali no Aterro dos Castilhanos, do lado oposto ao de Santa Quitéria, e nada de pegar uma isquinha sequer. Já estava quase desistindo, quando ouvi o ruído de seixos rolando barranco abaixo, bem nas minhas costas. Ao me virar, vi uma cobra passando atrás de mim, com um pequeno sapo na boca. Não pensei duas vezes. Num bote preciso, agarrei a cobra pelo pescoço e, pressionando a boca dela, roubei-lhe o sapinho que também é uma boa isca.
Antes de soltar o bicho, despejei uma boa talagada da pinga Providência - que eu trouxera de uma viagem que fizera a Tabuí, no mês anterior - goela abaixo dela. Não pense mal de mim. A pinguinha que levava era para tirar a friagem depois de ter que me enfiar na água para tirar as linhadas enroscadas nas galhadas. Peguei o sapo, isquei com ele uma linhada e lancei na beirada das moitas, dentro da represa. 
Depois de meia hora de muita tentativa de pegar mais iscas, eis que sinto um leve cutucão nas minhas costas. Ao me virar deparei com três cobras me olhando fixamente, cada uma com um sapinho na boca. 

(Causo recolhido e escrito por Joaquim da Silva Junior, de Carmo do Rio Claro-MG)

15/05/13

VELHINHOS TRETEIROS



    Dois velhinhos conversavam, na praça de Tabuí, preocupados com as modernidades e os costumes estranhos dos mais novos.
    - Cê num há de vê, sô! Que trem mais esquisito. Eu vi cuesse óios que um dia a terra arará de cumê!...
    - Que quicê viu, cumpá Romuardo?
    - Ãhn?... Ah, o quecovi? Isquici, sô!... Ah, bão!... Vi um molecote coisano cuma cabrita, sô! Bem tranquilis, tranquilis... Eu é quinté fiquei cum veigonha e oiei pouto lado... Que farta de decênça, sô!
    - É mezzz, né? Esse mundo tá memo meio pirdido...
    - Ó, sô! E saquecovi isturdia? Um véio quais da nossa idade, mais de oitenta, fazeno indecença cuele mezzz, lá atrais do posdesaúde! Que veigonha cofiquei, cumpade!...
    - Mas, cumpade, nessa idade, cê quiria era quiele corresse atrais de cabrita?

VAI QUE COLA, NÉ?



Montaram uma agência bancária em Tabuí. Começou tudo muito bem, tudo muito bom, até que houve o assalto. Sim, também lá acontecem dessas coisas do Brasil civilizado. Os assaltantes, uns dez ou doze, todos muito bem educados, mandaram que os clientes fizessem fila. Dois seriam escolhidos para serem fuzilados. Assim morte rápida, sem muito sofrimento, para que todo o país soubesse que por ali passara o bando do Manocleudo.
Fila feita, o assaltande chefe vai escolher quem deve ser morto. Chega ao primeiro, aliás, à primeira da fila, aponta o rifle, que de tão novo até brilhava, e pergunta:
- O nome da senhora, por favor!... Vamos ver se a senhora tá no ponto pra eu matar...
A mulher, coitada, não acha palavras, gagueja, treme, sua frio, até que sai:
- Ro-ro-rosinha!...
- Dona Rosinha!... – falou exultante o assaltante – É o  nome da minha vozinha, quem  me criou... A senhora pode se mandar. Tá liberada, em homenagem à minha vó!
O Próximo da fila era um cabra novo, forte a grandão, que todo mundo conhecia em Tabuí, principalmente por estar agora fazendo concorrência ao banco. Também emprestava dinheiro a juros exorbitantes. Era o Sansão Bontempo.
- Seu nome aí, seu barrigudo!
Sansão ficou meio de lado, botou a mão na boca, em concha, de forma que mais ninguém ouvisse e falou pro meliante:
- Óia aqui, ó... Meu nome é Sansão Bontempo... Mas lá in casa todo mundo trateu de Rosinha...

14/05/13

MALDITO ANALFABETISMO II



Teodora vivia num sofrimento danado na capital federal. Analfabeta desde que saíra de Tabuí, analfabeta continuou. Nada sabia ler daquelas placas na rua nem os nomes e números dos ônibus e nem nada. E tinha vergonha quando alguém descobria isso, que ela julgava grande defeito.
Num certo dia Teodora estava na parte superior da rodoviária, esperando condução e parava todos os ônibus que passavam a fim de acertar aquele que a levaria ao destino.
- Prondé qui vai esse ômnis? – Perguntava ela.
- Vai pro Paranoá! Ou “Vai pra Asa Norte”! – Respondia o motorista.
Em certo momento, ela parou pela segunda vez o mesmo ônibus, com o motorista já estressadinho.
- Prondé qui vai esse ômnis? - Pergunta ela mais uma vez.
- Pro Inferno! – Responde o motorista
Com a simplicidade que lhe era característica, Teodora não se sentiu ofendida. E humildemente perguntou:
- Mais ele passa in Sobradinho inhantes?
O motorista não teve como não liberar um sorriso amarelo e, sem graça, pedir desculpas à passageira.

(Causo recolhido e enviado por Edelson Silva Pereira Lopes, de Brasília-DF)

LIMONADA BRAVA



Zé do Agenor foi criado na roça e desde criança pegou no pesado, tornando-se um homem forte e respeitado. Trabalhador honesto, muito sério no cumprimento de suas obrigações, não fazia e nem gostava de brincadeiras. Depois que se mudou para a cidade, tinha o costume, após o tranco, no final de tarde, de passar no boteco do Carlão e tomar uma limonada para matar a sede. Isto antes de chegar em casa, ao invés de entrar na cerveja ou na cachaça, como era o costume da maioria. Foi por isto que os gozadores de plantão passaram a chamá-lo de Limonada. O apelido pegou. Tanto é que muita gente nem sabia mais seu verdadeiro nome. Apenas ele não achava graça nenhuma, considerando o apelido depreciativo. Sério e macambúzio, aguentou a humilhação por um bom tempo.
 Certa tarde em que as coisas não tinham andado a contento, ele chegou ao boteco, achegou-se ao balcão, e pediu o de sempre. O bar estava lotado com os frequentadores costumeiros, muitas mesas ocupadas pelos jogadores de truco e outras por jogadores de conversa fora. De uma das mesas alguém gritou:
- E aí, Limonada, tudo inrriba? - Agenor recostou-se no balcão, fuzilou com o olhar o atrevido e, mostrando a arma na cintura, declarou em alto e bom som:
- Iscuita aqui, cambada di pingaiada. Num gosto nem um poquim docêis mi chamá desse jeito nojento. Di hoje in dianti si arguém mi chamá di novo ansim, eu juro qui mato o disgraçado. - Saiu vendendo azeite, deixando a turma preocupada.
 Passados alguns dias, novamente o bar lotado, chega o Agenor para aplacar a sede da lida. De uma das mesas um freguês levanta a voz e pede:
- Carlão, trais um limão pra mim! - Um outro emenda:
- Trais água pra mim! - E um terceiro:
- Trais açúca tamém!
Agenor calmamente saca do revólver, coloca em cima do balcão, vira-se para os engraçadinhos e declara:
- Si arguém misturá, eu prego fogo!...

(Causo recolhido e escrito por Joaquim da Silva Junior, de Carmo do Rio Claro-MG)


MILAGRES ACONTECEM



Naqueles tempos em que o Padre Anacleto costumava arrumar substituto para suas férias, houve época em que o falatório foi grande. Não que o padre novato fosse galinhento, mas como era moço bonito, a moçaiada da cidade ficava ouriçada. Sô vigário teve que tomar atitudes drásticas antes que acontecesse o pior. Pelo menos assim ele pensava. Mas o boato correu mundo.
Num certo dia chega uma mulher a Tabuí. Ninguém a conhecia. Foi procurar o Padre Anacleto e deixou-o assustado com a primeira frase que disse:
- Seu padre, tô querendo arrumar um filho. E soube que uma amiga ficou grávida aqui só com uma Ave-Maria... É verdade?
- Não é verdade não, figlia mia! Foi com um padre nosso... Mas grazie a Dio ele já foi transferido!...

11/05/13

Mãe... Só tem uma!


Vésperas do dia das mães. Cada aluno da última série do grupo escolar de Tabuí recebeu como tarefa escrever até cinco linhas sobre o valor que davam à mamãe.
Hepotamedes Good God escreveu “Eu estava doentinho, espirrando, tossindo, febril, não conseguia comer nada, não podia brincar, nem vir à escola. Aí, de noite, a mamãe esfregou remédio no meu peitinho, me deu um leitinho quente com um comprimido, me cobriu, eu dormi bem e no dia seguinte acordei bonzinho.”
Mariazinha Panela não deixou por menos: “Eu tinha prova de geografia e não sabia nada, nem conseguia decorar nada... Comecei a chorar, achando que ia tirar zero. Aí a mamãe sentou do meu lado, pegou o livro, me explicou tudo direitinho, tomou a minha lição e eu fui dormir sossegada. Quando acordei senti que sabia tudo e vim à escola, fiz a prova e tirei 10.”
“Ano passado eu tava brincando na pracinha quando caí e quebrei a minha perna. Minha mãe passou todos os dias cuidando de mim. Até faltou ao trabalho! Então fiquei boa logo.” Foi o que escreveu Abelarda Datóba Rôxa
Sensodine Sansonaite escreveu: “Eu sempre tive muita dificuldade pra aprender. Tirava notas baixas e ficava para recuperação. Mas aí minha mãe foi me ensinando e me ajudando até que me tornei um dos melhores de minha turma!”
Wandergleidson Junior coincidentemente escreveu a mesma frase do Hepotamedes, jurando que não copiara de ninguém. Coloco o nome dele aqui só para registro.
E deixei por último o Micuim. Este o apelido dele. Ninguém sabia o seu nome certo porque a mãe nunca fora à escola, nem para matriculá-lo. Ele mesmo é que lá chegou, pediu vaga e, no lugar de nome, deu o apelido. Não sabia quem era o pai. Mas a redação dele ficou em primeiro lugar na escola: “Cheguei no barraco e minha mãe tava no sofá de forunfamento com um cara que nunca vi na vida. Aí ela gritou pra mim: - Micuim, seu vagabundo ordináro, vai lá na geladera e pega duas cerveja, muleque safado do caraio! - Aí eu abri a geladeira e gritei pra ela: - “Mamãe! ... Só tem uma!”...”

(Adaptado da Internet)


10/05/13

BRIGA ATRASADA



O delegado de polícia numa cidade pequena às vezes tem que dar uma de psicólogo, outras vezes de conselheiro e poucas de autoridade mesmo. Vejam o caso da dona Prazeres, cujo casamento, pelo jeito, não tava mais dando prazer nenhum.
- Dona Prazeres, por que a senhora meteu a mão de pilão na cabeça do seu marido?
- Ó, sô delegado!... Tem dois ano quiele me chamô de popóta!... E onte levô o troco.
- Mas, dona Prazeres, depois de dois anos? Por que a senhora esperou tanto tempo?
- É que onte é quieu cheguei no Tabuí... Tava no Belzonte... E lá ieu fui no zoológico. E vi o que é uma hipopóta....

O PERU DO PADRE



Padre Anacleto entrou de férias e foi passar uma temporada na sua terra natal, rever os parentes na velha Itália.
Em seu lugar, a Cúria Diocesana mandou para Tabui o frei Fúlvio, também italiano, cuja tarefa na Diocese era substituir eventualmente os párocos que entravam em férias, ficavam doentes ou, por algum motivo, se ausentavam de suas funções. Ao chegar a Tabui, foi recebido com festa e muitos agrados. E entre os muitos presentes recebidos, ganhou de um piedoso sitiante um gordo peru. Além das suas funções habituais da paróquia, frei Fúlvio acrescentou-se também a tarefa de cuidar diariamente do peru. Todas as manhãs, antes da missa, baixava no fundo da horta da casa paroquial para deixar trato e água pro seu peru. Com o passar do tempo, afeiçoou-se ao bicho como a um bom amigo.
Numa bela manhã, ao se dirigir ao fundo da horta, deu com o cercado vazio. Constatação lógica: passaram os cinco dedos no peru do padre. Aborrecido com o fato, sem saber o que fazer, não querendo envolver a polícia, passou o fim de semana conjeturando a maneira de tratar do assunto com os paroquianos. E tomou o que achou a decisão mais correta: usar o sermão da missa das onze, do domingo, a mais concorrida do dia, para abordar o assunto.
- Caros irmãos! Preciso que me ajudem a resolver uno problema molto grave. Respondam às minhas perguntas ficando de pé. Quem, aqui presente, tem um peru? - Todos os homens ficaram de pé, o que assustou o celebrante e deixou-o confuso.
- Non... Quero saber quem já viu um peru?  - Todas as mulheres casadas ficaram de pé.
- Dio mio!... Quero saber é quem já teve vontade de ter um peru? - Todas as moças ficaram de pé.
- Mama mia!... Não entenderam... non capito? Estou querendo saber é quem viu o peru do padre? - Aí só o sacristão ficou de pé.

(Causo recolhido e enviado por Joaquim da Silva Junior, de Carmo do Rio Claro-MG)

09/05/13

APARELHO NOS DENTES?


O Damasceno andava “cabrunhado da vida, cramano de tudo quantoá”... Sua maior preocupação era achar que as mulheres não lhe davam bola.
- És num qué sabêdeu, sô! – Esta a reclamação para o Zizico, amigão do peito.
- Ó Damá, cê tem que se arrumá mais mió, sô! Botá umas ropa limpa, busuntá de prefume, pintiá os cabelo, carçá butina... As muié óia é essas coisa, sô!
- Não Zizico, isso custa muito dinheiro... Quero não!
E Damasceno continuou na sua fase sem mulher e sem pentear os cabelos, sem usar calçados, fedendo a inhaca e com roupas sujas. Mas num certo dia, viu um seu conhecido com uma mocinha até bonita debaixo da asa e pensou “causdiquê ele pode e ieu não?”. Aí observou que o sortudo era feio também, pobre como ele, mal vestido e mal calçado... Mas tinha uma diferença. Usava aparelho nos dentes. Taí o charme que ele não tinha. Para o Damá, passou a ser bonito usar aparelho nos dentes. “Coisa mais fina e mais chique do mundo, sô!”, foi o que ele disse ao amigo Zizico. Arrumou-se um dia e foi procurar dentista.
- Dotô quero botá apareio nos dente!
O dentista mandou-o abrir a boca e foi bater o olho já deu o veredito:
- Posso botá aparelho aí não, seu Damasceno!
- Causdiquê não, sô? – Damasceno ficou bravo e já queria apelar...
- A gente coloca aparelho em dentes naturais, seu Damasceno. O senhor usa dentadura!... (Maria Antonieta de Camargos)

GOSTO ESTRANHO


Este causo é muito esquisito e renegado por todo mundo de Tabuí. Mas, como aconteceu, o cronista não pode deixar de narrá-lo, pra não cair em descrédito. O Décio Zeloso chegou pra Tabuí de mãos abanando. Gostou do lugar, muito diferente daquela cidade do Sul, de onde viera corrido, - diziam as más línguas – e depois de muito trabalho conseguiu comprar o seu pedacinho de terra.
Até o linguajar e os costumes do povim, o forasteiro assimilou e virou um verdadeiro cidadão de Tabuí, embora morasse na zona rural. Mas eis que certo dia ele precisou ir um poquinho mais longe pra fazer exame de próstata. Tava sentindo umas treteiras lá nos ligamentos fundiários e os amigos começaram “é prósta”, “é prósta” e ele marcou médico, no Ibiá. Preferia um médico estranho e de longe a correr o risco de um dia encontrar com ele na rua e ficar sem ter onde botar a cara, de vergonha.
Quando o médico botou aquela luva e veio com o dedo em riste e enfiou, sem dó e nem piedade, o Zeloso gemeu feio.
- Dotô, tô guentano não!... Acho que vô gritá!...
- Socê gritá vai ficá ruim demais da conta, sô! A recepção tá cheia de gente... Com que cara você vai sair depois?
O médico continuou o exame, apalpando detalhes e tentando descobrir os porquês dos queixumes do paciente. E o Zeloso avisando:
- Dotô, eu vô gritá!...
- Guenta aí, sô Zeloso! Causdiquê tá quaiscabano!... – O médico, acostumado com o pessoal do interior, gostava de imitar o dialeto da região.
- Não, dotô, vô tê qui gritá! – Foi o que ele disse, dando uns gemidos estranhos...
Nessa hora o médico, já de saco cheio desse negócio de gritar, deu a ordem:
- Então grita home de Deus!...
E o Zeloso botou a boca no mundo, assim como se tivesse descobrindo novidades:
- ÔÔ trem bão, meu Deus do Céu!...

AREIA QUANDO É DEMAIS...



Deu numa quadra em que tinha uma empreiteira levando os patrícios de algumas regiões de Minas Gerais pra trabalhar em obras no Iraque. Coisa de muito tempo atrás. De forma que, de Tabuí, foram dois pedreiros. Um que era bão demais da conta, o Juca Travinha e o outro, o Tião Porvinha, meia colher. Para a obra em que iriam trabalhar, a firma precisava apenas de dois pedreiros para todo o serviço.

Viajaram quase um dia inteiro de avião e, chegando ao aeroporto de Bagdá, com noite muito escura, havia um carro da empreiteira para levar os dois prum acampamento. Mais cem quilômetros de viagem. Chegaram de madrugada e foram dormir. Quando Tião Porvinha acorda e vê aquela imensidão de deserto, com montanhas de areia pra tudo quanto é lado, desanima.

- Hê, hê, sô! Qui trem mais cumpricado!...

- Que qui foi, Tião?

- Uai, sô! Óia o tanto de areia que tá aí fora! Magina niqui chegá o cimento!...

08/05/13

APAGANDO COM A GILETE



No grupo escolar de Tabuí tem a professora Betânia, a melhor alfabetizadora que já aparecera por aquelas bandas. Famosa mesmo. Tava ensinando pros meninos as famílias para a formação das palavras. Ba, Be, Bi, Bo, Bu... Pa, Pe, Pi, Po, Pu... No final do dia ela dá como tarefa pros seus alunos escreverem, em casa, a família do C.
Helinho não se faz de rogado. Queria sempre agradar à professora. Chega em casa e pede ajuda do pai.
- Intão vai, fio, iscreve aí: Ca Ce Ci Co Cu...
Helinho escreveu, com letra incerta e insegura o que o pai mandou. Mas o pai não gostou muito daquele negócio. Examinou, examinou e resolveu apagar a última sílaba. Não podia mandar aquele trem indecente pra professora Betânia, coitada!... Só que, cadê a borracha? Não tiveram dinheiro nem pra comprar o material escolar completo do filho... Naquele tempo nem Bolsa Escola havia... Aí o pai, com todo o cuidado, pegou uma lâmina de barbear velha e raspou a última sílaba que o Helinho havia escrito.
No dia seguinte, chega o Helinho à escola, doido pra mostrar o dever de casa pra professora Betânia.
- Leia aí, Helinho, bem alto a sua resposta!
- Ca, Ce, Ci, Co....
- Uai, Helinho, cadê o Cu?
     - Uai, fessora, o pai rapô ca gilete!....

(Causo recolhido e enviado por Edelson Silva Pereira Lopes, de Brasília-DF)