17/08/08

O bêbado e o pastor




Não preciso dizer que Tabuí tem a maior concentração de bebuns por metro quadrado do país, porque seria redundante. É assim mesmo. Cidade pobre, pequena, sem emprego... Povo sem instrução, sem diversão, cheio de verminose, raquítico e anêmico... A melhor maneira que os homens têm para aparecer e se auto-afirmar é enchendo a cara, mesmo fiado, pois que dindim raramente dá as caras por aquelas bandas. E as mulheres tabuienses, quase sempre abstêmias, para não fugir à regra, passam a vida reclamando dos seus homens porque bebem.
Naquela noite, na igreja dos crentes, apareceu um bêbado. Pessoa estranha nas redondezas. Franzino, unhas grandes, olhos vermelhos, cabelos desgrenhados, roupa suja, barbicha crescida e, como qualquer bêbado que se preza, trocando as pernas. O pastor, doido para conseguir fama e defender uns trocados a mais, conquistando novos fiéis, diz pras suas nove ovelhas:
- Irmãos! Deusde qui vi esse home, fiquei arripiado... Ele tá co diabo na cacunda!...
- Amém! Aleluia! – responderam todos.
O bêbado, que tava era muito cansado, não quis conversa. Foi logo se esparramando no banco da frente, doido para um cochilo.
- Vamo expursá o demo deste infeliz, meus irmão?
- Amém! Aleluia!
- Se acheguem pra perto!
Fizeram roda em torno do recém-chegado que já dormia. Dois irmãos pegam-no pelos braços e, um terceiro, pelas pernas, obrigando-o a se levantar. O pastor joga-lhe um copo de água fria – que dizia ser benta – no rosto.
- Ordeno, santanás! Deixa em paz esse pobre coitado! Arreda pra lá, trem! Disaloja!
- Amém! Aleluia, irmão!
O bêbado consegue abrir um olho, na maior má vontade e, sem entender a fria em que se metera, só gunguna:
- Hã?!...
- Santanás! Vai pro teu mundo e abandona essa pobre alma!...
- Amém! Aleluia, irmão!
O bêbado vê seus brios feridos e acha que estão passando dos limites. Abre os dois olhos bem arregalados, macho por estar sendo subjugado por dois irmãos dos mais nutridos e grita, em linguagem da classe bebum, toda cheia de finesse:
- Larga deu, cambada de fedaputa! Hic!... Vai pros quinto dos inferno! Hic!...
Calafrio geral na igreja. As cinco irmãs tapam os ouvidos, escandalizadas, enquanto o pastor, com a bíblia encardida na mão esquerda, força, com a direita, a cabeça do bêbado para baixo e também grita, acertando no substantivo, mas errando no verbo :
- Satanás! Disaloja daqui! Disaloja, já! Vamo! DISALOJA!
O bêbado, puto da vida com tanta insistência, já pronto até a se converter para ter sossego e curtir seu sono, entrega os pontos.
- Ta bão! Hic!... Intão eu vô dizê! Mas despois cêis me deixa em paz! Hic! Pode sê quarqué uma?
- Disaloja, satanás! Disaloja já! Disaloja! Disalooooooooja! - gritava, com toda a força dos pulmões, o pastor.
- Intão tá! Óiqui, vô dizê umas, hic... Loja Pernambucana, Lojas Americana, hic, Loja Arapuã, Casa Sirva... Tá bão? Taí! Já disse as loja! Agora quero drumi! Amém! Aleluia! Inté! Hic!...

O homem com cara de mau

Chegou o homem no boteco. Todo estranho, com cara de mau. Pispiava a noite. Arraialzinho escondido lá nos cafundós de Tabuí. Mineirinhos agachadinhos aqui e ali, cada um aprontando seu cigarrinho de palha e tomando uma pinguinha para tirar a poeira da goela.
O homem com cara de mau, logicamente mal encarado, bigode tapando metade da cara, vai entrando e chutando uma cadeira que estava no caminho. Chega direto pro dono do boteco, dá um murro no balcão fazendo tudo quanto é copo pular. A platéia assiste tamanha valentia, sem dar opinião. Cada um picando seu fuminho, dando aquela lambidinha na palha e só assuntando com o canto do olho como quem não quer nada.
O visitante estranho, com voz grossa, daquelas dos mocinhos de bangue-bangue, grita pro botequeiro:
- Bota uma pinga aí, ô magrelo!
Mineirinho, prestimoso, vai lá na prateleira, pega o litro da água que passarinho não bebe e serve uma boa talagada pro homem com cara de mau que vira tudo duma golada só. Platéia observando. Rabo do olho.
- Me dá otra pinga aí, ô nanico!
Mineirinho tava ficando arrepiado. Homem muito desaforento. Carecia ficar mais assossegado. Depois de enxugar o copo umas quatro vezes, o da cara de mau resolve provocar todo mundo enquanto alisava o cabo da peixeira presa na cintura:
- Pur acaso tem aí arguém mais brabo qui eu aqui neste fim de mundo?
Aí mineirinho, o dono do boteco, não agüentou. Levantou do seu banquinho de detrás do balcão e, muito macho, mas, de mansinho, falou pro visitante enquanto acariciava o cano duma garrucha tão lustrosa que até brilhava:
- Num tem não sinhô! Os brabo qui vai chegano aqui a gente vai cuzinhano e tratano dos urubu!
O homem da cara de mau deu um sorriso amarelo, tomou o restinho da pinga e foi saindo de fininho, assim meio de fasto. Naquele dia os urubus não iriam ter banquete.

10/08/08

Namoro em Tempo de Frio

Zé Mané sai de Tabuí. Baile na roça. E arruma namorada. Fazendeirinha bem ajeitada, novinha ainda, toda limpinha e cheirosa. Moça muito distinta e recatada....Tantos predicados deixam o Zé na maior paixão.
- Se ocê quisé memo namorá ieu tem que falá com o pai.
O rapaz fica desanimado. Mas depois de alguns dias, várias noites sem dormir, conclui com seus botões:
- Ela é moça boa demais da conta. Vô lá resorvê o pobrema.
Mandou recado. Vestiu a melhor roupa, calçou botina gomeira e foi rever a paixão e enfrentar o velho, futuro sogro. Andou horas e horas até chegar ao destino. A família recebe bem o nosso Zé Mané. Velho pega na mão, bate nas costas, velha chama-o de meu filho, paixão fica segurando sua mão e as três irmãs se derramam em sorrisos. Tudo era ânimo. Os dois apaixonados combinam, num momento em que conseguiram ficar a sós, que a conversa de homem pra homem seria no dia seguinte, na hora do almoço. Tudo muito bem, tudo muito bom, noite chegou. Era junho. Tempo de frio. O Zé, como não previa passar a noite em casa alheia, nem uma blusa trouxera.
- Tô sentino frio não, gente! Sô assim memo, num sinto frio!
A desculpa não colava, mas o rapaz não queria dar o braço a torcer. O negócio era impressionar. Queria dar uma de macho e, no seu conceito, macho que era macho não sentia frio.
A moça mostra-lhe o quarto e leva-lhe cobertores.
- Não, amô! Carece disso não. Nem lençor eu uso! Durmo só de cueca!
Donzela fica corada ao ouvir essa palavra indecente.
- Mas assim cê intangue, bem!
- Que nada. Tiau, amô! Té manhã!
Zé Mané fica sem os cobertores, tão quentinhos. Tira a roupa e, para honrar a palavra, fica mesmo só de cueca esperando o sono chegar. Mas o frio tava brabo e ele, tremendo, não consegue pegar no sono. Rola pra lá e pra cá, com raiva da sua burrice, até que se lembra do monte de palha de feijão lá no terreiro da sala. Pula a janela e tafuia dentro do monte pra afugentar o frio que lhe entrava até os ossos. E, de fato, lá embaixo, tava tão quentinho, que ele dormiu sono profundo. Tão profundo que o dia amanheceu e ele nem tium. Continuou lá, todo encoberto, só com a ponta do nariz num buraco por onde entrava o ar. Lá fora, tudo gelou por causa da geada que chegara de madrugada.
O pai acordou, mãe também e as quatro filhas. Sol mal dava as caras.
- Bamo lá botá fogo na paia de feijão pra mode a gente esquentá, mininas? Chamou o pai.
E lá se foram e meteram fogo sem dó nem piedade na palha de feijão. O fogo rodeou todo o monte, pegando com certa dificuldade, pois estava meio úmido devido ao orvalho. Por isso o fumacê que começou a sair dali não tava no gibi. E a fumaça foi entranhando pro meio do monte e o calor do fogo também. O Zé Mané, ainda dormindo, começa a ficar prejudicado pela fumaça e pelo calor. Sufocado e suando, acorda. Sem entender nada, o instinto de sobrevivência avisa que ele tem que cair fora. Assustado, dá um pulo, fica de pé levantando cinza e fumaça e o fogo começa a chamuscar-lhe a pele. Zé Mané sai correndo empretecido, quase pelado, só de cueca vermelha, desbotada, levando junto um canudo de fumaça e fogo. As moças, cada uma mais santa e donzela que a outra, são pegas de surpresa e não entendem nada. Nem reconhecem o moço. E vendo aquela figura estranha e inesperada saindo do meio do fogo, caem de joelhos, prontas para rezar, pensando estar vendo coisas do outro mundo.
- É o demônio! - Gritou uma.
- É o capeta, mãe! - Gritou outra.
- Livrai-nos Deus, Nosso Senhor! - Berrou a mãe.
Zé Mané nem no quarto passou. Cheio de vergonha, ainda sem entender direito o acontecido, se mandou estrada a fora e só foi descobrir que estava nu ao entrar em Tabuí, vaiado por um bando de moleques.

Novidade chega na Mutuca


Cê pensa que Tabuí é um fim de mundo? É não. É que ocê não conhece a Ingrizia. Lá, sim. É onde o vento encosta o cisco. Tem pra mais de vinte anos que dezenove pessoas moravam na Ingrizia e, embora o povinho de lá comece cedo a fazer nhanha, - já que a outra única diversão é pescar -, a cada um que nasce, dois ou três vão embora. A população de Ingrizia, hoje, resume-se a treze pessoas: o Lazo, a Fiíca, os sete filhos e mais quatro gatos pingados que não acharam pra onde ir.
Ingrizia fica lá pras cucuias, no entremeio da Serra do Urubu, prensada entre esta e o Rio Sorongo. Do lado que podia morar mais gente, sem tanto morro, é mata fechada, onde não andam jumento e nem bode. O caminho para chegar na Ingrizia é uma tortuosa trilha, de mais de quatro léguas, subindo e descendo morro, cortando brejos e tafuiando pelas matas. O povo de lá é tão acostumado a viver só que, quando chega gente de fora, fica assustado e se esconde. O visitante corre o risco de chegar naquelas bandas, - isso se não errar a trilha -, e não achar ninguém.
O Lazo, com sua turma, passava anos se ir à cidade. Dos filhos, só os dois mais velhos, Guinel e Laíde, conheciam Tabuí. Semana Santa. Lá vão eles, com roupinha de ver Deus, em fila indiana, trilha a fora, ainda de madrugada, para participarem da procissão do Senhor Morto, organizada pelo padre Anacleto, pro comecinho da noite. Parada só num córrego ou noutro para beber água, molhar os pés e lavar o suor do rosto. Com cuidado para espantar as piranhas e as arraias e pondo sentido para evitar o ataque da sucuri traiçoeira. Se algum filho parava para catar araçá, gabiroba, coquinho, ovo de passarinho ou algum galho de peidorreira, depois tinha que correr atrás e, segundo ordem do pai, ficar no final da fila.
- O úrtimo da fila é quem a onça sorratera pega premero, viu?
Por medo, ninguém queria ficar pra isca de onça e só paravam mesmo quando a fome apertava demais da conta ou quando o de comer era pra lá de apetitoso. Paravam também por outros três motivos: pras necessidades, - todo mundo de uma vez -, cada um atrás de uma moita; para comer a matula de frango com farinha de mandioca, na beira da Lagoa dos Valérios; ou para rezar, ao pé de cada cruz, um mistério do terço. Chegavam na cidade de terço garantido, uma vez que passavam por cruzes que assinalavam cinco mortes no caminho, uma de morte morrida, outra de morte matada e três por morte d’onça. Mas, naquele dia, assim que terminaram as quatro léguas da trilha e entraram na estrada esburacada de carro de boi, - com mais duas léguas chegariam a Tabuí -, logo no começo, uma cruz nova, de peroba. Rezaram mais um mistério do terço. Nem bem andaram trinta metros, outra cruz. Mais um mistério. Logo depois, outra. Todas de peroba. Outro mistério. E não parava de aparecer cruz... cruzcredo! Enfileiradas. A cada trinta metros, mais uma. Aí o Guinel protestou.
- Pai, já rezemo quatro terço e num pára de aparecê cruiz... assim nóis vai chegá pra procissão só amanhã!...
Lazo resolve olhar melhor as últimas cruzes e as achou estranhas. Bem diferentes das antigas, pois que tinham o pé comprido demais, desproporcional aos braços e à cabeça, muito curtos.
- Gente, vamo pulá uma cruiz ô outra! O Guinel tá certo. Num vamo rezá em todas não... que me descurpe cada falecido...
Foi aí que apareceu outro ingrediente na história. Amarrados nos braços de cada cruz, a partir do Capão dos Óculos, - coisa esquisita -, dois fios de arame ligando uma à outra. Aquilo foi muito curioso, novidade de primeira, foi bão demais da conta pra meninada e apressou a caminhada de todos, pois, quando chegavam numa cruz e viam que tava amarrada com o arame, corriam pra seguinte e pra seguinte a fim de terem certeza de que o arame continuava.
- Ôta arame cumprido, pai!...
Então o Lazo entendeu tudo.
- Muié! Fios! Vamos cortá a rezação! Isso daí num é cruiz! É a tal de luiz eletri qui vi dizê qui tá chegano lá na Mutuca. Essas cruiz pareceno girafa deve sê pra sigurá esses arame que vai acendê a luiz da Mutuca... bãobora digero quisinão a gente num bamo vê nem chero de procissão!...

30/07/08

Quem é mais doido?


Zé Pelotinha era o moleque mais encapetado daquelas bandas. Azucrinava todo mundo. O pai, João Pelota, não agüentava mais ouvir as reclamações da vizinhama. Já tinha feito até umas crueldades com o menino, mas de nada adiantara.
Num certo dia o moleque passou dos limites. Amarrou palha de milho no rabo do gato e botou fogo. Aí o velho Pelota não agüentou. Perdeu a estribeira. Ainda mais que o gato, no seu desespero, saiu correndo feito doido e lascou fogo no pasto sequinho do Tonico Cota. O vizinho, logicamente, veio reclamar cheio de razão. Foi a gota d' água.
João Pelota pegou o Pelotinha pela orelha e foi levando-o meio no arrasto para o terreiro a fim de fazer a devida correção no moleque. Mas o danado do menino, num bote só, escapa da mão do pai e trepa no ingazeiro, mais esperto que gato. Pelota não perdeu tempo. Pegou um machado e em dois tempos derrubou a árvore. Menino acompanhou a árvore no tombo e, já no chão, se mandou numa correria desenfreada, enquanto o pai atirava-lhe umas pedradas doídas.
Tempos depois João Pelota e a Pelotada toda vai à cidade para as cerimônias da Semana Santa. Dias de muita reza, muita devoção e arrependimento dos pecados. Foi aí que o Pelotinha resolveu, com medo do diabo e dos infernos, fazer uma confissãozinha. Contou ao padre o que tinha feito com o pobre do gato, as conseqüências da sua arte e até as pedradas que recebeu do pai.
O padre Anacleto, achando graça na história e não tendo muito o que falar, saiu-se com esta:
- Porcamiseria!!! Você é doido, meu filho! Desobedecer a seu próprio pai!...
Ao que o Pelotinha respondeu perguntando:
- Uai, padre! Mas quem é mais doido, o que joga a pedra ou que corre de medo dela?
- Claro, figlio mio, que é quem joga a pedra!
E o moleque concluiu sabiamente:
- Então meu pai é mais doido que eu!...

O Prefeito e a Providência


Prefeito de Tabuí era uma negação. Nenhum progresso trazia pra cidade que parecia caranguejo. Só ia pra trás. Entrava ano, saía ano e Tabuí continuava na mesmice de sempre. Nas redondezas aquela terrinha começou a ser chamada de "já teve". Já teve campo de futebol, já teve rodoviária, já teve escola municipal boa, já teve zona decente...
Um dia prefeito recebe uma reclamação:
- Sô prefeito, o teto do grupo caiu!
- Que grupo, meu fio?
- O grupo, sô prefeito! O grupo escolá! L'adonde a gente aprende a lê!
- Ah, bão! Dexa comigo que vô tomá providência!
Tomava providenciamento nenhum. Esquecia. Ia pra casa, escondia dos problemas e não dava mais o ar da graça.
- Prefeito, a ponte do corgo seco quebrô!
- Quebrô? Pode deixá! Vô tomá providência!
- Prefeito, a gente picisa duma iscola no Pindura Saia! Dá um jeitinho!
- É cumigo memo! Vô tomá providência!
Povo foi ficando chateado. Nervoso. Revoltado até com o descaso do prefeito. O homem não queria nem saber quem lustrou as costas da barata e nem quem botou fogo no inferno. Vivia encafuado dentro de casa. Vez ou outra é que apontava o nariz. Bastava ouvir reclamação sumia de novo. E ainda dizia que ia tomar providência...
O caso ficou mais sério no dia da enchente. Rio Sorongo não deu conta de segurar aquele aguão todo dentro das suas caixas. Entornou água na metade da cidade. De quebra lavou tudo no cemitério. Era defunto boiando, esqueleto escorrendo rua a fora, caveira descendo ladeira abaixo... Tanta mortaria pelas ruas que arrepiava até cachorro vira-lata. O defunto da gorda Dorotéia, enterrado dois dias antes do dilúvio, deu o maior trabalho pra ser encaixado de novo na sua última morada. Continuou teimosa na morte como o foi em vida. E o prefeito dizendo:
- É comigo memo! Deixa que tomo providência!
Povo desorientado resolveu tirar o desgramado do prefeito de dentro do seu esconderijo. Alguns cidadãos mais indignados invadiram a casa da autoridade. Tava lá o homem, num quartinho dos fundos, só de cueca, cercado de garrafas vazias, num porre danado e tomando mais uns goles de Providência, a famosa pinga do vale do Sorongo.

20/07/08

E o circo chegou em Tabuí...

Depois de muitos anos a pão e água, chegou circo em Tabuí. Pequeno e fuleiro, montado em meio dia de trabalho. Molecada em cima, fiscalizando e apreendendo. Marmanjos de butuca. Grã Circo Americano. Glória para a cidade. Nome pomposo, sugerindo ao povo um monte de artistas estrangeiros. Merreca de fazer dó. Nem assentos para a distinta platéia. Umas tábuas mal colocadas, empenadas, garantiam o lugar de umas poucas pessoas. A lona que o cercava, toda ensebada, cheia de buracos e remendos. Cobertura não havia.
Assim que notou a movimentação da montagem do circo, a Luizabete, moreninha pra lá de ajeitada, lá da ladeira do Beco, se ajeitou toda, botou brinco, passou batom e pó de arroz e foi pra rua. Pensando no mais tarde. Caçou com os olhos o Florípio, - sua paixão -, ocupado em plena fiscalização do movimento. Ela interessada e o outro regateando, como quem não quer nada, mas querendo tudo.
- Cê vai no circo hoje, Floripo?
- Sei não, sá! Confofoovô!...
A grande estréia seria às sete da noite. Às três o palhaço, já devidamente paramentado, chamava a criançada para percorrer as três ou quatro ruas da cidade. Às quatro, mais menino que gente. Começa a bagunça, depois de pequeno ensaio. O palhaço, montado numa jumenta fogosa, enfeitada com flores de plástico descoradas, puxa a molecada pela rua do Comércio.
- Hoje tem espetáculo?
- Tem, sim sinhô!
- Hoje tem marmelada?
- Tem, sim sinhô!
- E o paiaço, o que é?
- É ladrão de muié!...
À molecada que acompanhasse o palhaço, fora prometido ingresso para a estréia. Assim que a tribuzana chega na praça, encontra o Rolando Ladeira, que vinha do trabalho na roça e, como sempre, com fome, cansado e puto com as injustiças da vida, mas cheio de amor a Deus. Esqueci de dizer que Rolando tava montado num jumentinho novo, gordinho e muito animado e que a jumentinha do palhaço tava no cio. Não deu outra. Paixão à primeira vista. Assim que se olharam, começaram aquela barulheira, correram um para a outra e vice-versa. Desobediência plena aos comandos dos freios e rédeas. Um zurro só. Não adiantou chicote e espora do Ladeira com os seus gritos de paracuisso e quequiéisso gente e nem a gritaria do palhaço, tudo captado pelo auto-falante. O jumento se armou todo e crau. O palhaço teve que pular fora para livrar o trazeiro e a zueira babenta do animal no seu cangote e caiu de mal jeito, batendo a testa numa pedra. Rolando Ladeira, no empino do jumento, caiu de costas, rolando no meio da meninada. Um grande e hilariante espetáculo, como há muito não visto em Tabuí. O palhaço, meio tonto, sem entender direito o que acontecia, berrava a plenos pulmões, pelo auto-falante:
- Gente! Oquecouve? Oncotô? Poncovô? Qui trem mais esquisito, sô!...
O Rolando, ainda mais puto da vida pelo tombo e por aquela sem-vergonhice toda, arrancou a peixeira e queria achar o culpado pela tragédia.
- Arreda, sôs muleque! Cadê ele? Cadê ele?
O palhaço isalou no mundo, abandonando jumenta e catracagem de som. Da molecada, alguns chegavam a rolar no chão de tanto rir. Outros, mais inocentes, se retraiam, saindo de mansinho. As meninas, idem, tentando tapar olhos e ouvidos, ao mesmo tempo. E o povo, com aquela latumia toda, foi chegando, atraído pela tribuzana transmitida pelo alto-falante. Quando chegou o padre Anacleto, cheio de interrogações, correndo, arfando e suando dentro da longa batina preta, foi menino pra todo canto. Não ficou um pra contar a história e pra pegar o ingresso. O seu Ladeira caiu de joelhos, aos pés do vigário, pedindo perdão por aquele pecado para o qual, inconscientemente, acabava de colaborar, trazendo a jumentinha pra praça, justo naquela hora.
Bem depois das sete em ponto começa o espetáculo. Quase só adultos. A meninada, correndo do padre, ficara sem o ingresso prometido. Como o circo só tinha lugar para uns poucos sentados nas tábuas empenadas, quem podia trouxe a sua cadeira de casa. No primeiro número, lá estava o palhaço de novo, precedido pelo retumbar de tambores que saía de uma radiola velha. Começou ele com aquele papo de palhaço, conseguindo uma ou outra risada amarela, até que pediu um voluntário para a mágica. Sim, era mágico o palhaço. O Ângelo, - mais conhecido por Anjinho, mas capeta da melhor qualidade -, que havia entrado por baixo do pano, garoto assim duns treze anos, se ofereceu. O palhaço mágico mandou que ele se abaixasse, com as mãos nos pés e o traseiro arrebitado. Aí aprontava aquele monte de palhaçadas, conseguindo que algum ou outro risse. Nesse primeiro número de mágica, o palhaço arrancou do bumbum do Anjinho, assim fazendo muita força, uma peteca, com penas bem compridas e um ramalhete de flores cheias de espinhos.
- Isso é uma indecência! – bradou a beata Raquel, doida para aparecer e arranjar marido.
- É memo! Aqui tem famia! Vamo pará cuisso! – gritou toda dengosa e virando o zoinho a menina Carolina, pendurada no pescoço do Zé Pretinho e numa esfregação quisó.
- Tadinho do minino! - gemeu a dona Kezita, toda arrepiada no seu recatamento, crente que aquele monte de espinhos tinha, de fato, saído do traseiro do menino.
O mágico palhaço, desconfiado que o mar ali não estava para peixe, rapidinho recolheu sua aparelhagem. Fez gesto pro auxiliar e subiu novamente o rufar de tambores, enquanto ele caía fora do picadeiro. Passaram-se vários minutos, só tocando música militar de um bolachão todo arranhado, naquela radiola velha. O público impacientando-se. Aí, é anunciado pela voz do palhaço, o número do leão.
- Bicho feroz, vindo há poucos dias lá das banda da floresta amazônica!...
- Eu, heim?!... Leão tupiniquim? Nunca vi isso!... - era a professora Fúlvia, - com F de faca e U de uva -, mostrando sua sapiência para os vizinhos da platéia.
O picadeiro foi cercado com uns pedaços de tela grossa mal emendados e o leão trazido, numa jaula, carregado por quatro pessoas, uma dela o palhaço, que era também o domador do circo, homem bem entendido de habitat animal. O bicho chegou cochilando e cochilando ficou, mesmo quando a jaula foi aberta. Deitado, magro, sujo e desanimado, só se levantou quando ouviu o estalo do chicote do palhaço domador. Aí a fera ficou brava e saiu da jaula soltando urros fortíssimos, fazendo muita gente na platéia ficar com o coração na mão. Houve quem, até, que, aproveitando a oportunidade, pulasse no colo do vizinho, como aconteceu com a Carolina que já tava ficando mal falada pelas redondezas. O domador estala de novo o chicote e o leão se assusta, indo de ré e batendo na tela que o prendia ao picadeiro. Um pedaço dela cai pro chão. Não deu outra. Vendo o buraco aberto, o bicho cai fora e vai pro meio da platéia, da turma que trouxera cadeira de casa, urrando e encarando um ou outro com olhos apetitosos. Foi nessa hora que o delegado Sinvalfredo, que mal tinha chegado e arrumado um cantinho pra sua cadeira, sentindo o bafo do leão assim bem pertinho dele, mas querendo dar uma de machão, resolve apelar, sem decidir se corria ou se ficava. Recurso foi gritar, mais forte que o leão, para assustar o bicho:
- Larga d’eu, trem! Arreda, satanais!...
Cada um se vira como pode. Saindo de fininho. Alguns, pé ante pé, carregando sua cadeirinha. Ninguém queria encarar o bicho. De vez em quando ele, - o leão -, sem entender que estava livre, soltava urros que arrepiavam cabelo de neguinho. E o povo vazando fora, querendo distância da fera. Muita gente subiu pras tábuas que formavam a arquibancada do circo e aquilo foi pesando. O Oclécio, que conseguira lugar na emenda entre uma tábua e outra, estava quase vazando, com o traseiro afundado, já que as tábuas arrebitaram os cantos.
- Ai, meu Deus, desde pequena eu queria assistir o circo, mas o trem aqui num tá bão!... – isso era dona Suely, - que viera lá do Arraial do Sossego -, gungunando com seus botões, chorosa pelo tempo perdido.
Aí o leão resolve olhar e caminhar pro rumo do povo das tábuas, e a turma, quase em peso, se levanta e começa a pular, caindo e rolando de qualquer jeito, vazando por debaixo do pano e ganhando o mundo. Menos o Oclécio, que tava procurando os óculos para achar a bengala. Acontece que a turma, ao levantar da tábua, o peso sobre ela diminui e o Oclécio fica com o traseiro preso e os ovos espremidos. Esquecendo de óculos e bengala, gemendo, com os olhos cheios de lágrimas e muito mais alto que o domador palhaço, que chamava o leão pelo alto-falante, o Oclécio reuniu as parcas forças, premido pela dor, e gritou, implorando, na esperança de que alguém o atendesse:
- Senta, gente!... Senta meu povo! Senta que o leão é manso!...

A voz que veio do além

Em Santa Maria do Tabuí, há muito tempo, seu Nicolino era o padeiro. Baixinho, rechonchudo e careca. Um batalhador. De domingo a domingo, saía no lusco-fusco da madrugada para entregar o pão que iria forrar o estômago de muito cidadão tabuiense.
Seis horas de uma manhã cinzenta e triste, daquelas que prenunciam tempestade. Lá ia o Nicolino, passando pelo velho cemitério, carregando nas costas um bitelo dum jacá cheio de pães ainda quentinhos. Ninguém pelas redondezas. Nenhuma alma viva a não ser ele. De vez em quando o Nicolino, como que para espantar algum fantasma, gritava:
- Padeiro-ô-ô!...
Bem ao lado do cemitério mal cuidado, com os muros caindo, Nicolino, meio ressabiado, teve a impressão de ter sido chamado lá de dentro. Arrepiou-se todo. Mas controlou-se, equilibrou o coração e o jacá na cabeça. Ia saindo de fininho quando ouviu uma voz fraquinha, como um sopro de alma sem descanso, perguntar de dentro do cemitério:
- Tem pão dormido?...
O Nicolino empacou. Cortou a respiração enquanto o coração ficava descontrolado, a mente queria ganhar mundo e as pernas viravam molambo. Tentou andar, mas não conseguiu. O jacá de pães parecia pesar toneladas.
Assim que conseguiu botar em ordem o pensamento e começar a ganhar cor novamente, ouviu a mesma vozinha sem-vergonha:
- Tem pão dormido?...
Foi a conta para o coitado do padeiro. Pinchou bem longe o jacá de pães e... Sebo nas canelas, rua abaixo, numa correria despinguelada. Os cabelos que ainda restavam na cabeça lustrosa lembravam um porco espinho.
E enquanto corria com as pernas curtas e balançando a pança, uma sonora gargalhada estridente quebrou o silêncio do cemitério deserto. Mais tarde, quando tudo se esclareceu, seu Nicolino queria porque queria dar um tiro no pobre do coveiro que acordara de madrugada para trabalhar, estava com fome e apenas queria comer um pãozinho mais barato, o pão dormido...