21/08/14

OU CASA OU COMPRA UMA VIOLA?

   O velho Argemiro aposentara da vida. Não queria nada com nada, a não ser ficar à sombra da jaqueira ao lado de sua casa, fumando e fabricando, pra consumo próprio e de alguns amigos, os seus pitinhos de palha de milho e fumo de rolo picado. Enquanto isso apreciava o movimento da Rua do Comércio, a mais movimentada de Tabuí, vendo a passagem de uma ou outra pessoa interessante. Só de vez em quando chegava alguém pra uma prosa.
   Deu num dia em que ia passando, como quem não quer nada, o Bené da Zulmira. Caboclo ajeitado, trabalhador e querido por todos da cidade. E chegou-se para uma prosa.
   - Cumé que vai, sô Gimiro?
   - Remano, fio... Remano! Tem dia que ando perrengue... Tem dia que tô bão... E vamo levano a vida...
   - Sê Gimiro, tô andano meio preocupado nos últimos tempo, sô!
   - Quê qui foi, fio?
   - Tô numa durda danada... Num sei se caso... O que o sinhô acha?
Argemiro entendeu a seriedade da colocação do moço. Mas ficou olhando bem distante, lá pra baixo na rua, parecendo que nem tinha ouvido a pergunta. Depois de um bom tempo, olhando meio de banda pro Bené, responde:
   - Ó, fio!... Tô aqui pitano meu pitim, mas tô pono sentido... E sá quê quiopensei? Siguinte, fio!... Andano por esse mundo aí em roda, discubri que casamento é quinem comprá fumo...
   Silêncio geral. Enquanto o Bené esperava a continuação da resposta, o velho Argemiro reacendeu o toquinho do pito de palha, coçou a barbinha rala, deu uma cuspidinha pro lado, olhou pra rua e continuou:
   - É sim, fio! Casá é o memo que comprá fumo... Desses fumo de rolo aqui, ó... Ocê vai e iscói o que acha mais mió e de acordo com o seu bolso, mas tem que comprá o rolo inteiro. E isso vale pros home e pras muié, uai... A primeira vorta do trem - de mais o meno um metro - ocê acha bão demais da conta, sô!... Mas o resto, meu fio... Ah, o resto!... Os quinze metro seguinte ocê só pita mode num perdê o investimento... né não?

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CURSO PRA MEMÓRIA FRACA



   Em Tabuí havia dois casais que todos os domingos revezavam-se almoçando na casa um do outro. Pra mais de vinte e cinco anos. Na maioria das vezes, um churrasquinho regado a uma cervejinha era o prato que mais aparecia nos encontros. Mas com o passar dos tempos, idade avançando, o Eufrásio chegou à conclusão de que as coisas estavam ficando diferentes. Aí disse pro seu compadre:
   - Num há de vê, cumpade Nicota, que fui no médico por causa da memória?
   - Ih, é? Que coisa, hein, sô?...
   - E o home me receitô um curso pra miorá a dita cuja...
   - Uai, cumpade Frazim, tamém tô picisano desse troço!... Onquié o trem?
   - Ah, sô!... É... Iscuita, cumé memo, cumpá Nicota, o nome da primeira muié, aquela lá da Bíblia?
   - Uai, mó quié a Eva... Né não, sô?
   - É memo, cumpade!... 
   Aí o velho Frazim virou pra sua mulher e perguntou:
   - Ô Eva, onde memo é o curso que tão dano pra memória?
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O TRIPLO ENGANO


   

   Tavam lá, em plena praça de Tabuí, o Cirino e o Pichula. Já que não tinham o que fazer, apreciavam o movimento de uma ou outra bicicleta, de dois ou três transeuntes, e de uma moçoila por hora até que passa um mancebo estranho, com uma perna da calça amarrada acima da botina, manquitolando. Apressado, desconfiado, olhando pros lados, como quem não quer ser visto... E o Cirino e o Pichula, como sempre, afiando a língua.

   - Acho que aquelali caiu da égua, Cirino. Ô de argum boi... Óia como ele tá mancano... Ispia pocê vê!...
   O Cirino, como sempre, trolado, concordou descombinando.
   - É mezz, sô! Tá inté de dá dó. Mas carculo caquilo é paralisia... Mó quele tá cuma perna mais fina que a otra...
   - Paralisia? Rummm! Borá priguntá prele?
   Foram. Cirino quem fez a pergunta:
   - Causdiquê quiocê manca? Ieu falei pro meu amigo Pichula quiera paralisia e ele – esse daqui, ó - acha quiocê caiu da égua ô dum boi. Cê pode isclarecê pra nóis?
   O manqueba, parado que foi bem no meio da praça, não teve escapatória. Teve que dar o seu veredito:
   - Ocêis tão inganado e eu tamém singanei. Pensei que era só um punzinho e tô todo cagado...
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SURDA POR CONVENIÊNCIA


   Dona Lulu tinha uma empregada. Mais surda do que a porta da cozinha. Segundo as más línguas a surdez era proposital. Só quando ela, a Judite, queria. Dona Lulu, da rua, um dia teve que telefonar pra casa.
   - Judite, sou eu...
   - Dona Lulu num táqui não!...
   - Mas, Judite, sou eu, a Lulu!
   - Dona Lulu num táqui, já falei!
   - Judite, já disse que sou eu, a Lulu!
   - Ah, bão!... É a Duminga, né?
   - Que Domingas o quê, muié! É a Lulu!... Ô droga!
   - Pois é, dona Duminga, a Lulu saiu! Foi batê perna por aí qui é o quiela sabe fazê!...
   - Judite, sua filha da mãe! Além de não ouvir, ainda inventa, sua égua!...
   - Ó, dona Duminga, ela saiu cedo pra mode batê perna e sei lá fazê mais o quê... Inté agora na rua! Pode isso, sá?
   - Ô, Judite, cê quer saber de uma coisa? Vai catar coquinho, vai!...
(Causo contado por L. Nunes, de Goiânia-GO)

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ESTAVAM OS JACARÉS EM JEJUM?


   Esta aconteceu em Belo Horizonte, num bairro cheio de lindas chácaras e de casarões bonitos. O dono da mansão, um ricaço que gostava de se mostrar e de contar vantagens, quando estava rodeado por quase todos os bajuladores que vieram pra festa, já tarde da noite, prometia:
   - Nesta piscina coloquei 52 jacarés do papo amarelo. Estão todos há dias sem comer. Dou a minha mansão pra quem atravessar a piscina a nado. São apenas 30 metros de comprimento.
   Os convidados olharam um pro outro, torceram o nariz e ninguém se animou. Nem o funcionário que fazia a limpeza dos jardins da mansão e que naquela noite estava ganhando um extra do patrão. O tabuiense Zaqueu até que ficou tentado, mas quando viu a bocarra do jacaré pensou melhor e ficou no escurinho, à moita da bananeira de jardim, aguardando os acontecimentos.

   - Pois então, dou minha mansão e mais o meu jato particular pra quem atravessar minha piscina a nado agora...
   Nada. Ninguém se animava à empreitada. Cada um rindo amarelo e com falta de coragem. Aí veio outra proposta, mais tentadora ainda:
   - Ó, minha mansão com escritura e tudo, meu jatinho e mais duzentos mil reais em barras de ouro... Quem topa?
   De repente, um barulhão dentro da piscina. Todos olham curiosos e o dono reconhece o Zaqueu, magrilim, nadando feito um louco, entre os jacarés. Emocionado, o dono da festa, ao dar a mão pro Zaqueu sair da piscina, diz:
   - Que homem corajoso é você! Parabéns! Acabou de ganhar os prêmios! Vou entregar-lhe tudo o que prometi agora mesmo...
   - Eu não quero porra de prêmio ninhum!
   - Não quer? Mas o que você pretende então?
   - Pretendo nadica de nada. Só quero sabê quem foi o fedaputa que me impurrou denda piscina!...
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AMOR, SUBLIME AMOR


   Lá em Belzonte estavam passando o filme “Amor, Sublime Amor”. O Vanginaldo gostou tanto e ficou tão emocionado com a fita, que assistiu a várias sessões no final de semana, chegando ao ponto de decorar quase todas as cenas. A cada sessão, o moço chorava baldes.

   Depois de quase um ano, o filme chegou a Bambuí – isto há muito tempo, quando por lá ainda havia cinema - e o Vanginaldo fez tanto escarcéu, tanta propaganda que uma turma de Tabuí resolveu ir à cidade vizinha pra assistir “Amor, Sublime Amor” e lá vai o Vanginaldo ver o filme pela décima sétima vez. Como eu disse, ele já conhecia de cor cada cena. Deu naquela em que a mocinha era conduzida para a beira do abismo onde seria jogada pelos bandidos. O Vanginaldo resolveu fazer uma brincadeira com a plateia conterrânea e não conterrânea. Na hora de maior suspense, com todo mundo se derretendo em lágrimas, quando a moça seria jogada abismo abaixo, ele grita bem alto o nome dela:
   - Alzira!....
   É o momento em que a atriz se vira, ante a morte iminente, e encara a câmara, deixando cair uma lágrima do olho direito. Mal cai a lágrima e o povo entendendo nada, ouve-se novamente a voz do Vanginaldo:
   - Não, Alzira, é nada não... Pode í, sá! Pode jogá ela, viu cambada de bandido fedaputa?
   Toda a dramaticidade da cena acabou. As gargalhadas ecoaram salão afora enquanto Vanginaldo saía de fininho, antes que as luzes fossem acesas.
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A LEITOINHA DO FLORÊNCIO


   Vocês não sabem, mas foi lá em Tabuí que aconteceu esta história, tão conhecida por aí a fora. Deu numa quadra em que juiz só ia lá de ano em ano, para julgar os casos mais graves, fazendo o salão da prefeitura defórum. O caso do Florêncio tava demorando demais pra ser resolvido, vários anos engastaiado na mesa do juiz lá do Bambuí e nada de ter solução. Aí o Florêncio resolveu aconselhar-se com o seu advogado:
   - Óia, dotozim, acho que vô mandá pro juiz uma leitoinha mode fazê um agrado. Oquecocêacha?
   O advogado quase teve um troço. Desaconselhou na hora a ideia que considerou de jerico. Informou que o juiz era homem muito carrasco e severo e que não gostava desse tipo de coisa.
   - Mas quem sabe ele comeno a leitoinha vai lembrá do meu caso com mais carinho, né não?
   - Se você fizer isso, Florêncio, pode contar a sua como causa perdida – concluiu o advogado.
   Não demorou nem um mês era tempo do juiz fazer sua passada por Tabuí. O Florêncio foi chamado e o caso dele dado como resolvido, com a causa totalmente ganha. O advogado foi dar-lhe os parabéns e começou a contar umas vantagenzinhas, talvez pensando em ganhar uns trocados a mais em cima da inocência do cliente.
   - Que nada, dotô! Se num sesse ieu essa causa tava enrolada ainda. Num falei que uma leitoinha ajudava?
   - Não é possível, senhor Florêncio que o senhor mandou a leitoa pro juiz?
   - Craro que mandei, uai! Mas no nome do meu diversário, uai!... 
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POLÍCIA EFICIENTE


   Os bandidos fizeram um baita assalto a uma joalheria ali no Bambuí e, ao fugirem correndo pelo meio da praça, um deles tromba com o Cirino, cidadão de Tabuí, que tinha ido à cidade vizinha ver médico para pedir ajuda a fim de acabar com a bebedeira. Só que a trombada desmantelou o Cirino no chão. A ele a polícia conseguiu pegar e, nas suas alentadas pesquisas científicas, concluíram os policiais que Cirino era um dos bandidos abandonado pelos companheiros. 
   Já na delegacia, quando o moço se recuperava do tombo, todo arranhado, é sujeito a um interrogatório.
   - Me diz aí, onde que tão as joia que ocês roubaro?
   Cirino entendeu foi nada do que perguntaram. Não tinha a mínima ideia de onde tiraram aquele assunto.
   Aí, a polícia, com o tato e educação que lhe são peculiares, levou o moço prum arremedo de banheiro e encheu um barril d’água onde tafuiou a cabeça do moço.
   - Fala aí, ô nanico! Ondé que tão as joia?
  O Cirino, sufocado por tanta água nas entranhas da cabeça, com dificuldade consegue responder:
  - Sei de nada não, sô puliça! É mais mio cêis contratá um merguiadô... Num cunsigui vê nadica de nada lá embaixo, nem uma joia, no fundo do barrile... 
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É VELHINHO TODO FÓSSIL?



   O Divino Pai Eterno da Silva saiu de Tabuí disposto a arranjar emprego no Rio de Janeiro. Queria trabalhar nas novelas para poder beijar aquelas moças bonitas. Mas, enquanto o emprego sonhado não aparecia e como eletinha que comer, beber, vestir e dormir, arrumou outro emprego. Foi ser vigia do museu natural, com um monte de esqueletos de tudo quanto é bicho que há e alguns, segundo os estudiosos, que nem existem mais. E, como vigilante, Divino ficava zanzando pelos corredores e salas daquele casarão que ele julgava meio assombrado. Foi aí que apareceu um espicula. 
   - Seu moço, o senhor sabe a idade deste fóssil de dinossauro? 
   Divino fez umas continhas e deu seu veredito:
   - Ó, moço, ele tem quinze milhão, dois ano, dez mêis e quinze dia....
  - Poxa! Que precisão a sua, meu amigo! Como você chegou a este cálculo tão exato?
   - Ó, o negóseguin... Niquieu cumecei a trabaiá aqui, o chefão me falou que o fóssi tinha quinze milhão de ano. E hoje compreta dois anos, dez mês e quinze dia cotô aqui... 
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11/07/14

ESMOLA QUANDO É DEMAIS...


    Bem naquele dia é que Bentinho passou a admirar o amigo Alfredão. Foram à casa deste último jogar conversa fora, tomar um suco e comer um cubu, mais conhecido como bolo de fubá. Bentinho ficou encantado de ver como o Alfredão tratava sua mulher. Parecia uma rainha. Era meu benzinho pra cá, meu benzinho pra lá, que comida gostosa, vou servir-lhe uma caipirinha, meu bem, meu amor, cadê meu beijo, vou dar-lhe um abraço... E por aí a fora.
    - Ó, Bentinho, não foi sempre assim não, sô! Mas, niqui mudei meu tratamento com ela, nosso casamento miorô cem por cento, rapaiz!
    Bentinho não perdeu tempo. Queria ver se aquilo funcionava na sua casa, com a Cremilda. Ao chegar, tascou-lhe um abraço, deu-lhe um beijo, disse que a amava e queria saber se ela estava feliz. Mas não deu outra. Cremilda começou foi a chorar. Choro sentido, doído mesmo.
    - O que foi, Cremildinha? Quecaconteceu, sá?
    - Óia, Bentinho, o meu dia foi uma droga. Cedo o Júnior fez um corte na perna quando foi pegá um frango prassá pro armoço. Inhantes, lavei uma mala grande de roupa, tudim na mão, causdiquê a máquina quebrô. Niqui eu tava fazeno o armoço, tive que desligá tudo, menos o frango qui tava assano, e saí correno mode í na venda comprá sal. E, quando vortei, vi que o gás tinha acabado. Saí de novo, carregano o butijão no carrinho de mão. E agora, pra mode completá, ocê chega em casa bêbado!... Ah, não, Bentinho!... 
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