05/09/14

FOI A PUTA QUE PARIU


  Tabuí tava numa época de pasmaceira. Dinheiro ninguém tinha, inflação alta, salários minguados... Tudo parado. Até o comércio. Mesmo assim, havia uns teimosos. E foi nessa quadra, que apareceu por lá o Xenoberto, vendedor de fumo de rolo. Visitou os três ou quatro armazéns da cidade e resolveu caçar um local pra tomar um banho e dormir, pois que já era final de tarde. 
    A pensão – não tinha escolha – era a Só Sossego. 
   De manhãzinha, o Xenoberto aparece para o café da manhã e quase mata de susto o sô Zezé Vitrola, o dono da pensão. Este percebeu que seu hóspede estava com o corpo coberto de hematomas, tinha um olho inchado e roxo, e resolver perguntar a causa de tudo aquilo.
   - Ó, sô Vitrola, o negócio é que eu apanhei... E muito!
   - Mas o quecouve, seu Xenoberto? Apanhou por quê?
   - Aí é que tá, meu amigo... Apanhei sem saber o porquê...
   - Assim num vai pudecê, sô Xenoberto. Me ixplique as acontecência!...
   - Negócio é que resolvi dar um pulinho no cabaré, seu Vitrola... A dona    Zulmira, a proprietária, ficou muito sem graça, pois que não tinha nem uma mulher disponível pra mim. Mas me apresentou a Salomé, já nos últimos dias de gravidez, para ir pro quarto comigo pra gente bater um papo e trocar umas ideias sobre a vida. Aí comecei a indagar da moça sobre o passado, se foi casada, como entrou nessa vida, em que trabalhava e por aí afora. E não há de ver o senhor, sô Vitrola, que a Salomé, bem na minha frente, começou a ter as contrações do parto? E o senhor deve saber que puta é um bicho muito escandaloso. Gritava e gritava, ao ponto de me deixar meio surdo. Confesso, sô Vitrola, que fiquei foi muito sem graça. A turma, ao começar a ouvir os gritos, vinha correndo, querendo saber o motivo. E eu fui ficando, para o caso de uma necessidade da mulher ou da criança, até que aparecesse um socorro. Chegou num certo ponto, era gente na porta, pendurada na janela, dentro do quarto, todo mundo querendo ver a criança nascer. E todo mundo em silêncio respeitoso. As colegas da Salomé que tinham mais experiência, assim que iam liberando seus fregueses, começaram a chegar pra prestar socorro. E eu, que estava ali de gaiato, imaginei “vou ficar agora até o final pra ver o que acontece”... E fui ficando ali no meu cantinho. Queria saber o resultado daquela encrenca toda. Depois que nasceu a criança, findado todo o escândalo, Salomé ficou aliviada e eu também, vendo o sofrimento acabar. Aí, fui saindo de fininho, já que não precisavam de mim ali. Ao chegar ao corredor, vinha um soldado, com o cassetete na mão. E ele me perguntou:
   - O que aconteceu aí, rapaz?
   E eu respondi, na maior presteza:
   - Foi a puta que pariu!
   Aí ele me pegou de cassetete e me deixou nesta situação.
(Causo contado pelo amigo Divino Martins, de Itapuranga-GO)
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04/09/14

GENTE FEIA É IGUAL A GENTE BONITA...


   - Sô guarda, cadê a girafa? 
   O sô guarda, quando olhou pra cara da mulher, quase teve um troço. Feia demais da conta. Olhos tortos, pernas cabeludas e uma mais curta do que a outra, peitos caindo pela barriga, bigode maior que o do guarda, pele do rosto parecendo maracujá de gaveta... Um verdadeiro desarranjo. 
   - Minha senhora, é que nesta época de frio, a girafa já foi recolhida. Ela vai dormir mais cedo. É animal de clima quente e não tem costume com o frio. Amanhã a senhora volta, tá?
   O guarda, além de falar bem, - característica de sua categoria - era entendido em biologia e zoologia
   - Sô guarda, a gente viemo lá de Tabuí pra mode meus fios conhecê ela, uai!
   Foi nesse momento que o guarda deixou de ver a feiura da mulher e olhou atentamente pros cinco anjinhos que estavam atrás dela, com olhos curiosos, amedrontados, procurando pela girafa. Cada um mais lindo que o outro. Duas meninas e três meninos sem nenhum defeito. Olhos verdes, moreninhos, bem vestidos, educados, uma escadinha...
   - Estes meninos são da senhora?
   - Sim, sô guarda!...
   - Mas foi a senhora mesma quem botou eles no mundo?
   - Craro, home!
   - Então, minha senhora... Peraí um tiquinho... Vou ter que chamar a girafa! Ela tem que ver isto.
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TARTARUGA DE ESTIMAÇÃO


   Em volta da pracinha de Tabuí tem um monte de casas bem arrumadinhas, muitas pintadinhas de novo, telhado bonito e algumas com jardins bem cuidados. Fruto dos novos ventos que correm pela cidade, civilizando-se cada vez mais. Pois foi numa dessas casas, a da dona Manoela, que aconteceu o incidente.
   O Jerebão ia passando, de madrugada, indo pra casa, depois de ter saído do Bar do Copo Sujo. Nem preciso dizer do estado do Jereba após sair de um bar. E foi em frente à casa da dona Manoela que ele teve a terrível dor de barriga. Consequência do chouriço derrancado que comera lá no boteco do Bigode, como tira gosto. Ajeitou-se atrás da moita de jasmim e derramou o que tinha nas entranhas.    Depois de quase meia hora de labuta, limpou-se com umas folhas, conseguiu levantar-se, ajeitou as calças e se mandou ligeirinho. Dormiu um sono rápido e, nem bem amanheceu, acordou e sentiu vontade de fumar. Pegou um cigarro e... Cadê o isqueiro? Isqueiro de estimação, dado por uma ex-namorada. Vou voltar lá onde deixei o barro, pensou ele. E foi, enquanto o dia apenas começava e a cidade ainda dormia.
   No jardim da casa da dona Manoela, bem atrás da moita de jasmim, achou o isqueiro e o chumaço de folhas com que se limpara. Mas estranhou uma coisa. Nenhum monte ali, sinal do serviço que fizera na madrugada. Tudo limpinho, limpinho. Pensou: não pode, alguma coisa tem que tá errada. Enquanto estava de quatro, ainda examinando o terreno para entender o acontecido, ouve alguém limpar a garganta atrás dele. Vira-se e quem ele vê?
   - Dona Manoela!... Tudo bem ca sinhora?
   - Então foi o senhor o porco sem-vergonha que cagou em cima da minha tartaruga, né?
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CAIPIRA NA CIDADE GRANDE


   O sonho do cidadão tabuiense é conhecer Belo Horizonte. Cada um sente que até o seu status muda dentro da sociedade quando fala que já foi à capital. Foi por isso que o Zé Tranquilim, mesmo sem conhecer Tabuí direito, vendeu umas cabeças de gado e se mandou pra Belzonte.
   Aquele monte de prédio caquele tantão de carros e o povão no meio da rua, fez o Tranquilim perder a tranquilidade. Ficou foi tonto. Aí, numa hora em que sentiu necessidade de atravessar a Afonso Pena, teve que chamar o guarda. Olhando pro Zé, com aquela cara de mocorongo, o guarda não teve piedade.
   - Atravesso o senhor... Mas custa trinta mangos... Topa?
   O Zé Tranquilim achou aquele trem danado de esquisito e não topou. 
   - Ah... Coá!... Diacho de trem caro, sô! 
   Ficou ali pensativo e pondo sentido no movimento do guarda apitando pra cá e pra lá para botar ordem na carraiada e no povo maluco. Foi nesse momento de confabulamento que parou ao seu lado uma moça com uma camisa muito decotada e colorida, uns colares e uma sainha chitada e curta. Na mão, uma bolsinha piquititita e no rosto um monte de pintura, além de batão nos beiço... O Zé até que achou ela ajeitada, mas, se fosse dele, não vestiria daquele jeito não... Aí viu que a moça ia atravessar a rua. Ela viu também a cara de mocorongo dele e já começou a pensar maldades. Quandefé ela olhou pra ele, deu uma piscadinha e convidou:
   - Vamo?
   - Quanto é, dona moça?
   - Só cobro cinquentinha... Tá bão procê?
   - Virgomaria! Que trem caro! Cuesse preço aí minha preferença é í com o guarda! 
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OS SERESTEIROS DA RUA


   Serenata todo mundo canta, todo mundo toca. Mas nunca quinem Garrolê e Cotó. Nomes estranhos, mas todo mundo sabia causdiquê. Cotó não tinha a mão esquerda – cortada pela maria fumaça em dia de esbórnia, quando ele dormia em cima da linha do trem. Mas cantava feito um sabiá, assim quando apaixonado. Garrolê, o tocador de violão, era um filósofo devorador de livros. Foi por isto que um dia passou mal. A mãe contava que ele a desobedeceu, depois de ter comido cinco pratadas de feijoada e foi ler um livrinho.
  - Aí garrolê o livro caqués letrinha miudinha e passô mar. Dimais da conta!..
   E “garrou a ler” virou Garrolê. Substantivo próprio.
Pois Garrolê e Cotó tavam numa madrugada fria soltando o verbo, bem ali no começo da subida da Rua do Tira Prosa. O primeiro tocava seu violão enquanto o outro, por ser maneta, batia o pandeiro na perna. E os dois cantavam acordes dissonantes. Cada um querendo mais agradar à princesa que dormia a sono solto na sua caminha virginal, sem nem imaginar que era homenageada pelos dois bebuns. Cantaram tanto que até roucos ficaram. E o efeito da canjebrina, supitando as mentes. O Cotó, que tinha também tomado umas três ou quatro cervejas, resolveu que tinha que tirar água do joelho, ali na rua mesmo. Mas tinha se esquecido de que comprara meio quilo de linguiça pro lanche da madrugada. Esquecera também que o bolso tava furado. Naquela sofreguidão de vontade de urinar, não deu outra. Abriu a calça e pegou a coisa errada. Urinou tudo o que tinha direito na roupa e, na hora de dar a clássica balangada, a linguiça quebrou em alguns pedaços que caíram por terra.
   O desespero foi total. Cotó, que cantara tanto pra amada, reverteu o cantar e começou foi a gritar, dando o maior escândalo na rua escura, pensando que tava cotó outra vez.
  - Gente, perdi meu bilau!... Buá!... O meu santo bilau! Buá!... Oquecofaço agora, meu Deus? Bem que minha santa mãe dizia quiessa vida de pingaiada ainda ia acabá em disgraça! Ô meu Deus!...
(Este causo foi escrito com base em relato enviado pelo amigo Joaquim da Silva Júnior, de Carmo do Rio Claro-MG).
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NA IDADE DO RECOLHIMENTO


   - Rapaz, entrei numa enrascada danada!... Todo tanto quiocê pensá, é mais maió ainda...
   - Enrascada? O que aconteceu cocê, home de Deus? Ocê passô mais de um mês sumido!
   Isto era o papo do João Manduca com o Chico Cobra-Preta. O primeiro com 75 e o segundo com 89 anos no costado, bem num banquinho da Praça Raul Torres, lá no Bambuí. 
   - A gente se encontrava aqui quase toda tardezinha e niquiocê sumiu, inté pensei que tivesse morrido.
   - Armaria! Vire essa boca pra lá, trem! O negóço, meu amigo, é que eu tava preso. Cê cunhece a Chica Maracajá, aquela mocinha lá de Tabuí, que trabaia ali no posto de gasolina, aquele da entrada da cidade? Aquela que fica fazeno carinho nos meus cabelo causdiquê é tudo branquinho?
   - Sim, sô!... Sei quem é!
   - Pois num há de vê, meu amigo, que falei pra Chiquinha quieu tinha otros cabelins branquins? E que aí ela me acusou de estupro?
   - Afff! Estupro? Ocê? Com 89 no costado? Que trem isquisito, home de Deus!...
   - Cumpade cê num querdita que fiquei foi orguioso do trem? Achei foi bão demais da conta, sô! Tão bão que saquecofiz? Nem rumei devogado e me declarei curpado!...
   - Curpado, sô? Querdito não... Ah, meu Deus!
   - Isso, meu amigo! Mas o juiz num entendeu o meu orguio e me condenô a trinta dia de xilindró... Por farso testemunho!... Juiz fedaputento, sô!...
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CASAMENTO DURADOURO


   O Mané Janta casou na maior simplicidade lá na igrejinha da Perdição. Botou a noiva na garupa da mula e foram, os três, estrada afora, em direção à fazendinha do pai dele, aonde iriam morar. Se o Mané não falava nada, a noivinha nada falava. Assustada com tanta novidade e preocupada com o que viria. Mané Janta, o pai e os irmãos não eram muito bem afamados na região não. Acostumados a não levar desaforos pra casa, já andaram aprontando algumas arruaças na região.
   De forma que iam, os dois, na mulinha, até que esta deu um tropeção. O Janta apenas falou bem alto:
   - UMA!...
   E continuaram em marcha lenta. De repente, outro tropeção da mula.
   - DUAS!... – falou de novo o noivo.
   Já chegando ao mata-burro da fazenda, a mula se distrai e tropeça num barranco alto. 
   - TRÊIS, dona mula! – Gritou o Mané Janta, nervoso. Parou, desceu a esposa da garupa, tirou um revólver que ficava sob o arreio, chegou o cano bem na cabeça da mula e puxou o gatilho. Matou a bichinha.
   Aquilo pra noiva foi um Deus nos acuda. Não gostou nadica de nada do acontecido e resolveu protestar.
   - Mas qui mardade, sô! Ocê foi muito burro de fazê isso. Seu estúpio... Matô a bichinha mode coisa à toa! Pudia tê feito isso coela não...
   Mané Janta nem deixou a moça continuar. Apenas limpou a garganta pra fala ficar mais clara e disse, bem alto, enquanto guardava o revolver, desta vez na cintura:
   - UMA!...
   Desse dia em diante, nunca mais houve discussão entre os dois.
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21/08/14

OU CASA OU COMPRA UMA VIOLA?

   O velho Argemiro aposentara da vida. Não queria nada com nada, a não ser ficar à sombra da jaqueira ao lado de sua casa, fumando e fabricando, pra consumo próprio e de alguns amigos, os seus pitinhos de palha de milho e fumo de rolo picado. Enquanto isso apreciava o movimento da Rua do Comércio, a mais movimentada de Tabuí, vendo a passagem de uma ou outra pessoa interessante. Só de vez em quando chegava alguém pra uma prosa.
   Deu num dia em que ia passando, como quem não quer nada, o Bené da Zulmira. Caboclo ajeitado, trabalhador e querido por todos da cidade. E chegou-se para uma prosa.
   - Cumé que vai, sô Gimiro?
   - Remano, fio... Remano! Tem dia que ando perrengue... Tem dia que tô bão... E vamo levano a vida...
   - Sê Gimiro, tô andano meio preocupado nos últimos tempo, sô!
   - Quê qui foi, fio?
   - Tô numa durda danada... Num sei se caso... O que o sinhô acha?
Argemiro entendeu a seriedade da colocação do moço. Mas ficou olhando bem distante, lá pra baixo na rua, parecendo que nem tinha ouvido a pergunta. Depois de um bom tempo, olhando meio de banda pro Bené, responde:
   - Ó, fio!... Tô aqui pitano meu pitim, mas tô pono sentido... E sá quê quiopensei? Siguinte, fio!... Andano por esse mundo aí em roda, discubri que casamento é quinem comprá fumo...
   Silêncio geral. Enquanto o Bené esperava a continuação da resposta, o velho Argemiro reacendeu o toquinho do pito de palha, coçou a barbinha rala, deu uma cuspidinha pro lado, olhou pra rua e continuou:
   - É sim, fio! Casá é o memo que comprá fumo... Desses fumo de rolo aqui, ó... Ocê vai e iscói o que acha mais mió e de acordo com o seu bolso, mas tem que comprá o rolo inteiro. E isso vale pros home e pras muié, uai... A primeira vorta do trem - de mais o meno um metro - ocê acha bão demais da conta, sô!... Mas o resto, meu fio... Ah, o resto!... Os quinze metro seguinte ocê só pita mode num perdê o investimento... né não?

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CURSO PRA MEMÓRIA FRACA



   Em Tabuí havia dois casais que todos os domingos revezavam-se almoçando na casa um do outro. Pra mais de vinte e cinco anos. Na maioria das vezes, um churrasquinho regado a uma cervejinha era o prato que mais aparecia nos encontros. Mas com o passar dos tempos, idade avançando, o Eufrásio chegou à conclusão de que as coisas estavam ficando diferentes. Aí disse pro seu compadre:
   - Num há de vê, cumpade Nicota, que fui no médico por causa da memória?
   - Ih, é? Que coisa, hein, sô?...
   - E o home me receitô um curso pra miorá a dita cuja...
   - Uai, cumpade Frazim, tamém tô picisano desse troço!... Onquié o trem?
   - Ah, sô!... É... Iscuita, cumé memo, cumpá Nicota, o nome da primeira muié, aquela lá da Bíblia?
   - Uai, mó quié a Eva... Né não, sô?
   - É memo, cumpade!... 
   Aí o velho Frazim virou pra sua mulher e perguntou:
   - Ô Eva, onde memo é o curso que tão dano pra memória?
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O TRIPLO ENGANO


   

   Tavam lá, em plena praça de Tabuí, o Cirino e o Pichula. Já que não tinham o que fazer, apreciavam o movimento de uma ou outra bicicleta, de dois ou três transeuntes, e de uma moçoila por hora até que passa um mancebo estranho, com uma perna da calça amarrada acima da botina, manquitolando. Apressado, desconfiado, olhando pros lados, como quem não quer ser visto... E o Cirino e o Pichula, como sempre, afiando a língua.

   - Acho que aquelali caiu da égua, Cirino. Ô de argum boi... Óia como ele tá mancano... Ispia pocê vê!...
   O Cirino, como sempre, trolado, concordou descombinando.
   - É mezz, sô! Tá inté de dá dó. Mas carculo caquilo é paralisia... Mó quele tá cuma perna mais fina que a otra...
   - Paralisia? Rummm! Borá priguntá prele?
   Foram. Cirino quem fez a pergunta:
   - Causdiquê quiocê manca? Ieu falei pro meu amigo Pichula quiera paralisia e ele – esse daqui, ó - acha quiocê caiu da égua ô dum boi. Cê pode isclarecê pra nóis?
   O manqueba, parado que foi bem no meio da praça, não teve escapatória. Teve que dar o seu veredito:
   - Ocêis tão inganado e eu tamém singanei. Pensei que era só um punzinho e tô todo cagado...
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