11/07/14

ESMOLA QUANDO É DEMAIS...


    Bem naquele dia é que Bentinho passou a admirar o amigo Alfredão. Foram à casa deste último jogar conversa fora, tomar um suco e comer um cubu, mais conhecido como bolo de fubá. Bentinho ficou encantado de ver como o Alfredão tratava sua mulher. Parecia uma rainha. Era meu benzinho pra cá, meu benzinho pra lá, que comida gostosa, vou servir-lhe uma caipirinha, meu bem, meu amor, cadê meu beijo, vou dar-lhe um abraço... E por aí a fora.
    - Ó, Bentinho, não foi sempre assim não, sô! Mas, niqui mudei meu tratamento com ela, nosso casamento miorô cem por cento, rapaiz!
    Bentinho não perdeu tempo. Queria ver se aquilo funcionava na sua casa, com a Cremilda. Ao chegar, tascou-lhe um abraço, deu-lhe um beijo, disse que a amava e queria saber se ela estava feliz. Mas não deu outra. Cremilda começou foi a chorar. Choro sentido, doído mesmo.
    - O que foi, Cremildinha? Quecaconteceu, sá?
    - Óia, Bentinho, o meu dia foi uma droga. Cedo o Júnior fez um corte na perna quando foi pegá um frango prassá pro armoço. Inhantes, lavei uma mala grande de roupa, tudim na mão, causdiquê a máquina quebrô. Niqui eu tava fazeno o armoço, tive que desligá tudo, menos o frango qui tava assano, e saí correno mode í na venda comprá sal. E, quando vortei, vi que o gás tinha acabado. Saí de novo, carregano o butijão no carrinho de mão. E agora, pra mode completá, ocê chega em casa bêbado!... Ah, não, Bentinho!... 
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TÁ VENDO O QUE DÁ FALAR INGLÊS?


    Conto causos do Camisola e os leitores podem pensar que é um homem que não vale um tostão furado. Não é bem assim. Camisola é homem que tem cultura. Não por ter ido à escola por muito tempo. É por ser um homem lido. Ele não trabalha. Sua ocupação é beber cachaça e ler. Lê de tudo, desde bulas de remédio, até jornais e livros que consegue emprestados com a diretora do grupo escolar de Tabuí.
    Em dia de muita inspiração, Camisola resolveu filosofar:
    - Ô, Bigode! Cê sabia que a chinesada come pouca gordura? É por isso quês quase num sofre do coração... Têm menos ataque cardíaco do que ozamericano e os ingrêis... Sabia, Bigode?
    - Sei disso não, ô Camisola!
   - Pois é, Bigode... E os francêis? Ô povim pra cumê gordura, sô! Mas tamém ês têm menos ataque do coração do que a ingrezada e ozamericano... 
    - E o quico, Camisola?
    - E tem mais ainda, Bigode! Cê sabia que a italianada vive se afogando no vinho?... Bebe, bebe e bebe até num guentá mais... E tamém ês têm menos ataque do coração que ozamericano e os ingrês, sô!
    - Mas causdiquê cê tá me contano essa potocada toda, sô?
    - Ó, Bigode! Cabei de discubri. A gente pode bebê e cumê o que quisé, home de Deus... E me dá mais uma aí pra mode comemorá minha discuberta, sô!... O que faz matá mais cedo é falá ingrês... Taí a grande discuberta, Bigode! Por isso, é que só falo a língua pátria... 
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NEM TUDO DEVE SER FALADO II


    O Abistemar saiu com os amigos e foi pra gandaia, começando pelo buteco, o Copo Sujo, bem ali num cantinho da Rua do Assobio que corre de pareio com a linha do trem. 
    Depois de entornar umas no bucho, a turma resolve que deveria ir prum lugar mais movimentado, a fim de ver as mocinhas da cidade e de alhures. Acanhado demais da conta, Abistemar nem sabia como começar uma conversa com uma moça que vira num cantinho do bar da rodoviária, no centro de Tabuí.
    - Quecofaço, gente? Quecofalo? Dasvêis ela é tamém da roça...
    - Carqué coisa, sô! Cê pofalá carqué coisa pa moça...
    Este o palpite do Horódoto, seu amigo do peito. Quando ele se dirige pronde ela tava, a moça sai de carreirinha. Abistemar bem viu o rumo que ela tomou, o do banheiro feminino. Ele apenas teve tempo de dizer “rummm” e voltou aos amigos que esperavam inquietos e curiosos:
    - Deusolive, gente! Oquecofalo prela niqui ela saí de lá?
    - Carqué coisa... A gente já falamo isso procê, sô! Pofalá carqué coisa...
    Depois de uns dez minutos de agonia do Abistemar, suando fedido e tremendo feito vara verde ao vento, a mocinha saiu, requebrante e saliente. Dá uma olhada pro moço que, de nervoso, quase invadia de fianco o banheiro das mulheres e sai apressada. Ele a acompanha e, já que poderia falar qualquer coisa – no dizer dos amigos - Abistemar resolveu falar o que ocupava seu pensamento no momento. Bateu no ombro dela, fazendo-a parar e tascou o seguinte cumprimento:
    - Tava dano uma cagadinha, hein?
(Causo contado pelo Divino Martins, de Itapuranga-GO)
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HOMEM BEIJANDO HOMEM?


   
    O Toizim Frescola era homem de muitas palavras em Tabuí. Tinha a palavra solta pra contar suas aventuras e muitas mentiras. Foi naquele dia que estavam ele e o Camisola sozinhos dentro do bar do Bigode, o Copo Sujo, q
uando entra uma mulher bonitona que senta à mesa dos dois. E puxa conversa:
    - Briguei com meu marido e quero afogar as mágoas na bebida...
    Ante tão pungente drama, o Frescola se entusiasmou e já foi pedindo pro Bigode servir uma dose da caninha Providência, a melhor da região. Enquanto a mulher bebia, o Camisola, todo tímido, foi se recolhendo prum cantinho e ficou o Frescola encompridando a conversa com a mulher.
    - Mas, sá, quem é o felizardo que é seu marido? Mó quiele num vê a beleza que tem em casa!...
    - Meu marido é o sargento Ribamar, ali do Bambuí.
    Nessa hora Frescola já arrepiou nas bases. Conhecia o sargento e a sua fama de durão e homem bravo. Mas continuou a conversa. Quando a mulher já estava na terceira dose da Providência e começava a falar coisinhas no ouvido do Frescola, o Camisola, que naquele dia estava enjoado de cachaça e, portanto, com a cuca mais ou menos no lugar, resolve acabar com a brincadeira. Chegou ao ouvido desocupado do Frescola e sussurrou:
    - Num óia agora não, Frescolete... Mas tá chegano ali um poliça de quase dois metro de artura e com cara de homem mau. É tá com um revorve e um filobé...
    O Frescola tremeu nas bases, amarelou e olhando com olhos de terror pro Camisola, implorou;
    - Camisola, pelamordedeus! Me dá um beijo na boca! Rapidim!... 
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06/07/14

CURSO PRA MEMÓRIA FRACA


   Em Tabuí havia dois casais que todos os domingos revezavam-se almoçando na casa um do outro. Pra mais de vinte e cinco anos. Na maioria das vezes, um churrasquinho regado a uma cervejinha era o prato que mais aparecia nos encontros. Mas com o passar dos tempos, idade avançando, o Eufrásio chegou à conclusão de que as coisas estavam ficando diferentes. Aí disse pro seu compadre:
   - Num há de vê, cumpade Nicota, que fui no médico por causa da memória?
   - Ih, é? Que coisa, hein, sô?...
   - E o home me receitô um curso pra miorá a dita cuja...
   - Uai, cumpade Frazim, tamém tô picisano desse troço!... Onquié o trem?
   - Ah, sô!... É... Iscuita, cumé memo, cumpá Nicota, o nome da primeira muié, aquela lá da Bíblia?
   - Uai, mó quié a Eva... Né não, sô?
   - É memo, cumpade!... 
   Aí o velho Frazim virou pra sua mulher e perguntou:
   - Ô Eva, onde memo é o curso que tão dano pra memória?
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MARIDO MADRUGADOR


   O Euzébio era danado pra chegar em casa tarde da noite, depois de ter tomado umas no Copo Sujo e ficado na esbórnia. Chegava, tirava os sapatos e ia bem devagarzinho pra cama, pois que a sua mulher, a Fadalarete era famosa por ter o sono pesado.
   Mas naquela madrugada, assim que o Euzébio tropeçou no penico esmaltado, Fadalarete virou-se na cama, exatamente quando ele desabotoava a camisa pra se deitar. Confundindo tudo, ela perguntou:
   - Onquiocê tá ino tão cedo, meu bem?
   - Ah, amô... Pensano bem, cê sabe quiocê tem razão? Vô é durmi mais um tiquim, né? 
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AFINAL, CÊ É FIO DE QUEM?


   O moço chegou em casa todo feliz.
   - Pai, eu vou casá!
   - O quê, fio? Casá? Casá com quem, sô?
   - Casá com a Zefinha, pai...- Qualé Zefinha, fio?
    - A Zefinha, fia do Osvaldo! 
   O pai quase teve um troço. Chegou a engasgar e tiveram que trazer água pro homem. Mais calmo o velho pai chama o filho:
   - Fio, cê num pode casá com a Zefinha não, sô! Nem deixe sua mãe discunfiá disso. Ela num possabê. Mas com a Zefinha não. Ela é sua irmã, fio!
   - Que mané irmã o quê, pai? Pois que ela é fia do sô Osvaldo, o Osvaldão, lá da Prefeitura!
   - É fio, o Osvardão viajava, saía muito de casa... Sacumé, né? Intonces que a Zefinha é sua irmã, fio... Pocasá cuela não. 
   Foi um auê. O moço foi pro seu quarto e chorou, chorou, até os olhos ficarem inchados. Aí chegou a mãe pra ver o que se sucedia com o filho.
   - Quecocê tá chorano, fio?
   - Mãe, é que eu quero casá e o pai ficou contrariado, num tá quereno deixá. Disse que a moça é minha irmã... 
   Foi a vez da velha quase ter um troço. Faltou-lhe ar, teve taquicardia... Mas resolveu perguntar:
    
- Qualé memo quié a moça?
   - É a Zefinha, mãe, a fia do sô Osvaldo. 
   - Besteira, fio. Pocasá cuela sim. Portânça não. Ela num é sua irmã não. Mas não conta pro seu pai não, viu meu fio? 
   - Uai, mãe... Cumé quié isso? 
   - Uai, meu fio, é qui seu pai saía muito de viagem por esse mundão de Deus... Sacumé quié essas coisa, né fio?
(Causo contado pelo amigo Divino Martins, de Itapuranga-GO)
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LADRÃO DE CAVALO


   Ladrão de cavalo na região. Polícia não resolvia. Davam parte, era o mesmo que nada e só sumindo cavalo. Aí os fazendeiros, em reunião para discussão dos acontecidos, confabularam e resolveram que iriam matar um ladrão de cavalo. “Aí a gente matando um, a cambada some no mundo e não aparece mais.”
   Depois dessa reunião, um fazendeiro conseguiu, com seus peões, prender dois ladrões de cavalo que deram bobeira. A turma foi se reunindo para apreciar a cara dos bandidos e começaram os palpites. “bamo matá”, “bamo capá”, “bamo cortá uma mão ou arguma coisa deles”... A turma dos puxa-saco respondia em coro: “isso, mata memo”, “capa memo”, “corta a mão memo”...
Na hora do pega pra capar, a turma do “bamo matá” venceu e foram todos gritando “mata memo”, em direção á beira do rio, puxando os dois, amarrados pelas mãos por um laço. 
   Na hora de dar o tiro ou a facada, não apareceu ninguém pra executar. Todo mundo foi tirando o seu da reta.
   - É um trem muito cruel, sô! Quero não... Dizia um.
   - Se eu dô um tiro nesse mondrongo, depois todo mundo fica sabeno que fui eu... Eu, hein? Tô fora!
   - A, neemm, sô! Sartei de banda... Dizia um terceiro.
   Foi aí que alguém deu uma ideia. “Vamo amarrá uma corda no pescoço de cada um e nóis passa a corda num gaio por cima do rio... Na hora que ele tivé quase morreno, nóis sorta e deixa ele caí no rio... Aí a piranhada come e num foi nenhum de nóis quem matô o fedazunha fedaputento.”
   A vez do primeiro ladrão. Amarraram o laço no pescoço dele e o passaram na galha da árvore e foram suspendendo o homem... Suspendendo... E ele, com a mão entre o laço e o pescoço, fazendo enorme esforço pra não ficar sem ar e a corda não apertar demais o cangote. Nisso o galho da árvore não resiste ao peso e quebra. O homem cai na água, rapidinho arranca o laço do pescoço e nada pra outra margem, feito um lambari. Antes de vazar na capoeira, grita pra turba:
   - Cês qué matá ladrão de cavalo? Cêis vai prendê outro, viu, cambada! Eu, cêis num mata não!...
Pegaram o segundo ladrão e foram fazer o mesmo, agora a turba com mais raiva ante a desfeita do desaforento que se foi. Arrumaram outro galho e passaram o laço com cuidado. Mas antes, o ladrão, gaguejando de nervoso, deu um alerta à turma:
   - Ó, minha gente!... Cêis arruma uma ga-gaia bem forte pra mo-mode que eu num se-sei nadá não, viu? 
(Causo contado pelo amigo Divino Martins, de Itapuranga-GO)
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30/06/14

O ATIRADOR DE FACAS

   
O casal ia, estrada a fora. Artistas de circo que se dirigiam a Bambuí, onde, à noite, fariam a sua apresentação no circo. Ela, a personagem que ficava presa a uma peça de madeira, enquanto o marido atirava facas e mais facas contornando o seu perfil, sempre saía ilesa ao final do espetáculo.
Mas eis que foram parados pela polícia rodoviária. E o policial que revistou o carro estranhou aquelas facas guardadas no porta-malas e quis logo uma explicação.
    - Sô guarda, és faz parte do nosso número. A gente somos artista de circo...
    O policial fez cara de não tô acreditando e quis tirar a história a limpo.
    - Ah, é, é?... Então mostra o seu número aí pra mim...
    Foram os artistas e os policiais para uma árvore grande, grossa e frondosa bem ali na beira da estrada e, enquanto o casal se posicionava, um terceiro policial tratava de parar o minguado trânsito. E começaram a voar facas atiradas pelo homem que se posicionou no meio da rodovia enquanto sua mulher estava com os braços abertos, encostada à árvore.
    Foi bem no meio do espetáculo proporcionado de graça pelo casal de artistas, que chegou o Janjão, lá de Tabuí, a cidade mais próxima do acontecimento, dirigindo seu possante fusca amarelo, abarrotado com a mulher, a sogra e uma reca de filhos, além do papagaio, dois gatos e um cachorro.
    - Minha Nossinhora! – exclamou Janjão, olhando de esguelha pra mulher – inda bem que parei de bebê. Óia aí, muié, o teste que a polícia tá fazeno agora! Virge Maria!...

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A FEIURA DÓI?

   
   Toinzim Guela, o menino feio demais da conta sobre o qual escrevi noutro dia, cresceu. Virou moço forte, nutrido e fornido, mas a feiura era o seu desarranjo. Tabuí em peso olhava pro moço e ficava desanimada de ver tanta feiura. Chegou a um ponto que o Toinzim nem mais saía de casa para não ficar sem graça ante tanto susto que passava nas pessoas quando o encontravam na rua.
   Mais aí, eis que surge uma boate no Tapiraí. Dia da inauguração os amigos conseguiram fazer com que Toinzim Guela fosse conferir a novidade. Chegou naquele antro barulhento, com música de extremo mau gosto e não achou jeito de e nem com quem dançar um tiquim. Achou foi um encosto numa parede bolorenta e, dali, ficou apreciando o movimento.
   Depois de bem umas duas horas vendo quem dançava com quem, etc e tals, chega uma menina e puxa assunto com o moço. Toizim ficou até emocionado.
   - Tô venocê tão quetim aqui... Cada vorta codô no salão vejo quiocê mó que tá triste, cabrunhado?...
   - É sá... O trem tá danado. E sabe causdiquê? É qui sô feio demais da conta...
   - Ah, não, sô! Bobage!... Ficassim não...
   - Não, moça, sô feio mezz... Tenho que conformá... Cê num há de vê que nem namorada eu arrumo pur causa dessa droga de feiura? Tem base um trem desse?
   A moça não sabia o que falar, já que a feiura dele tava na cara. Mas, com dó do moço, pensou em mostrar-lhe que havia pessoas em situação pior. 
   - Ó, moço! Ficasssim não pois quiocê não é tão feio assim. Aqui, ó, diz que feio mezz, que chega dói, é um tar de Toizim Guela, lá do Tabuí!..
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(Causo contado pelo amigo Antonio Israel de Oliveira, bambuiense que mora em Piumhi-MG)
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