11/06/09

OS CATIREIROS

A venda do Severo, bem na entrada da ponte do córrego da Lage, era o ponto obrigatório das catiradas. Trocavam de tudo: arreio velho por galinha choca, dia de serviço por lata de banha, porco por cavalo e assim por diante. Qualquer um desencravava de qualquer coisa. Uns sempre mais espertinhos que os outros. Tucão e sô Zeca Clemente eram os mais respeitados e velhacos. Ninguém viu ou ouviu dizer que os dois cruzassem uma catira. Diziam que se respeitavam muito entre si. Os dois tinham medo de levar manta um do outro e ficarem mal afamados, pois aí um ia sair esparramando pra todo mundo que o outro havia levado a pior...

Certa quadra o Tucão comprou a preço de galinha morta uma égua baia troteira, velha e cheia de pisaduras. O animal já era conhecido de todos. O catireiro não tinha como passar o animal pra frente. Ninguém queria. Foi então à cidade, comprou tinta preta e barro de cerâmica e arranjou um pouco de óleo queimado na oficina. Chegando em casa, colocou os ingredientes no pilão e socou até ficarem bem misturados. Buscou a égua, pegou um baita pincel e pintou o animal. Ficou pretinha, pretinha. Amarrou a criação no poste do curral e deixou-a passar o dia exposta ao sol. Quando chegou a tardinha, montou no seu cavalo de estimação e foi puxando pelo cabresto a égua pintada rumo à venda do Severo. Era noite quando chegou.

Apeou do cavalo, cumprimentou a todos e foi logo dizendo:

- Hoje eu tenho esta égua pra breganhá numa outra coisa qualquer. Este animal é de boa procedência, neta do cavalo pampa do Zé Maricota. Boa de cela, marchadeira, só teve uma muda e é mansa de coçar!

O Ocride do Cornélio, catireiro principiante, interessou-se pelo negócio e foi fazendo uma oferta:

- Tucão, te dou dois garrotes da mesma era pela égua!

- Qual é a era?

- Dois e meio!

Tucão matutou, matutou e catimbou:

- Quero treis garrote. Se não, num tem negócio!

- Não! Só dou dois e pronto!

Ora, a égua não valia nem um garrote. O iniciado estava levando uma manta medonha. Tucão não perdeu tempo. Calou a boca, coçou o bigode e perguntou:

- Cadê os garrotes?

- Tão aqui, amarrados no pau de aroeira!

Levaram um lampião a querosene. Tucão olhou, agradou e disse:

- Ocride, tá feito o negócio! Leve a égua que eu levo os garrotes!

Daí a pouco o céu estrelado foi desaparecendo e São Pedro foi avisando: relâmpagos e trovoadas. Ocride montou no seu cavalo, pegou a égua pelo cabresto e se mandou pra casa. Mal acabara de chegar e soltar os animais, São Pedro abriu as torneiras do alto. Foi quase um dilúvio.

No outro dia, manhã beleza, pássaros cantando, céu azul. Ocride e mulher despertam. O entusiasmo era grande, não se conteve mais e disse:

- Muié do céu! Só cê vendo a manta medonha que passei no veiaco do Tucão!

- Divera?

- Divera, sá! Escalavrei o home! Breganhei aqueles dois garrote incroados numa égua neta do pampa do Zé Maricota! Vou fazê a cruza da égua com o dourado e o fiote vai valer uma bufunfa doida. Vô lá no pasto buscar o animal pra ocê vê qui tetéia!

Chegando ao pasto chamou:

- Cá... cá... cá... vem... vem... vem...

Os animais foram se chegando. E para espanto do catireiro, cadê a égua? Sumiu? Roubaram? Quando ele observou direito, viu que tinha no meio da tropa uma égua meio preta e meio baia. A chuva lavara a pintura do animal.

Ocride ficou furioso. Arriou um animal e correu pra casa do Tucão. Lá chegando encontra o careca narigudo com um pito grosso de palha, escumando no canto da boca.

- Que que foi, Ocride? Apêia!

- Não! Só vim desmanchá o negócio! Ocê me enganou! Pintou a égua! E ainda mais ela é véia, pisada e troteira! Vô levá os garrote e ocê busca a égua!

- Não senhor! Negócio é negócio! O mundo é dos mais sabidos. Não dizem que dinheiro de trouxa é matula de malandro?

O aprendiz de catiras ficou com medo do Tucão. Deu um golpeado na rédea, virou o cavalo e voltou para casa. No caminho foi matutando sobre como se vingar do velhaco catireiro. Lembrou-se do sô Zeca Clemente, o outro catireiro velhaco e espertalhão. Ocride mudou a rota e foi parar na fazenda do velho Zeca. De longe o velho avistou o visitante e foi esperá-lo na sombra do pé de cedro.

- Bom dia, sô Zeca!

- Bom dia! Pra dentro!

- Cumo vão as coisas, seu Zeca?

- Vão remando, mais pro lado da perrenguesa!...

- Tá doente?

- Uai, sô, tô numa remeleira, num toçume e numa catarreira danada! E ainda pru riba meti a pataca do juêio na cadeira. Tá c’um inchume danado! Mas deixando de lado a queixança, o que trais ocê na minha casa?

- É sobre aquele desgraçado do Tucão!

Aí Ocride relatou o acontecido para o velho Zeca.

- E antão Ocride? Qui qué qui eu faça?

- Quiria qui’ocê me vingasse passano uma manta nele!

- Pelo que vejo, ocê quer que eu repasse a égua nele?

- É isso aí, sô Zeca!

- Ocê ainda tá muito verde em negócios. Nem pensar em égua. Tenho um plano. Ocê guarda segredo?

- Icha! Garanto levá no caixão!

- Antão vô te contá a tramóia que vou tentá fazê. Tenho uma porca, comedeira de pinto. Não há galinha que agüenta chocar pintinhos pra diaba comer. Vô tentar passar ela no Tucão. Combinado?

- Combinado!

No outro dia o Tucão recebe um convite do seu Zeca para ir à casa dele. Convite aceito, teve que cavalgar duas léguas para chegar à casa do velho Zeca.

- Vamo apiá, Tucão!

- O que qui’ocê tem pra breganhar?

Gaguejando e chupando os beiços, ele respondeu:

- Tenho cavalo, tenho bezerros, tenho roda de fiar, tenho monjolo d’água e tenho uma porca criadeira pra fazê inveja em quarqué fio de Deus!

- Óia, Zeca, só me interessa a porca se ela não for comedeira de pinto!

- Ocê tá ficando doido? Isso eu te garanto! Nas minhas mãos ela nunca comeu pinto!

- Verdade?

- Pura verdade!

- Se eu ti comprar ela ocê garante que nas suas mãos ela nunca comeu pintos?

- Garanto!

- Quanto quer na porca?

- 450 réis.

- Não posso!

- Quanto ocê dá?

- 400 réis!

- Negócio feito. Dinheiro pra cá, porca pra lá!

Sô Zeca recebeu o dinheiro e se encarregou de entregar a criação na casa do comprador. Alguns dias depois volta o Tucão à casa do velho Zeca. Não quis apear do animal e foi gritando:

- Ô Zeca! Vem cá!

O velho chegou no alpendre com a cara bem lerda e disse:

- Apêia, uai!

- Seu velho mentiroso! Ocê me garantiu que a porca nunca tinha comido pinto nas suas mãos! E lá em casa ela fez uma dirriça!

- E por acaso eu menti?

Sô Zeca fitou o colega, esticou os braços, abriu as mãos e falou:

- Óia bem aqui: nestas minhas mãos ela nunca comeu pintinhos!

O velho, depois de fingir estar nervoso, voltou à calma e completou:

- Dinheiro de trouxa é matula de malandro. Aqui se faz, aqui se paga!

19/05/09

MALUCO TROCADO

Lá na prefeitura, certa quadra, trabalhou o Miguel Generoso. Era o quebra-galho do prefeito. Fazia qualquer serviço bem feito e sem reclamar. Até o dia em que apareceu na cidade o Quequé, um doido ora carinhoso, ora violento. Suas atitudes malucas começaram a preocupar povinho de Tabuí. Prefeito foi pressionado a tocar Quequé da ciade. Mas pradonde?
Após muita deliberação ficou resolvido que a prefeitura iria assumir os gastos de mandar Quequé para um hospital de doidos na capital. Miguel Generoso foi escalado para fazer o serviço. No dia marcado os dois embarcam no trem noturno. Miguel sempre de olho no Quequé, pronto a qualquer atitude suspeita. Um pouco antes de chegar à capital, o trem fica retido numa estaçãozinha por várias horas por causa de um troço lá pra frente. E a viagem que deveria ter demorado cinco horas retardou umas treze. Nesse tempo todo, enquanto Quequé dormia tranquilo, seu acompanhante não pregou o olho. Preocupado em cumprir bem sua tarefa, não queria correr o risco de deixar o doido fugir.
Chegando a Belo Horizonte, o Miguel tava um bagaço. Pegaram um taxi e foram direto para o hospital. Lá, como sempre acontece em hospital público, foram atendidos de má vontade. Depois de muita encheção de saco, mandaram os dois entrarem numa sala grande e esperar. Sala cheia de gente de olhares estranhos e gestos esquisitos. Arrumaram um banco, sentaram e esperaram, esperaram...
O Generoso não aguentou a tensão e o cansaço e dormiu sentado. Quequé, que tava na sua fase de doido carinhoso, caiu fora. Miguel acordou com um cutucão nas costas. Era um negão cheio de músculos:
- Vai lá dá seu nome! É sua vez!
Miguel, tonto de sono, nem se lembrou do Quequé. Foi lá no guichê e deu seus dados pessoais. Recobrou a razão quando ouviu do atendente uma ordem pra dois brutamontes que estavam atrás dele:
- Tudo em ordem! Podem levar mais este!
Quando Miguel quis refugar, os brutamontes o agarraram e o foram levando meio arrastado por um longo corredor.
- Gente! Eu num sô doido! O doido é o outro!
Quanto mais o Miguel esperneava e reclamava, mais era prensado contra a parede, seguro pelos cabelos e tinha os braços torcidos. Ele só resolveu parar de reclamar quando ouviu o negão brutamontes dizer pro outro:
- Esse doido parece que é mais maluco que os outros. Só uma injeção daquelas de 20 centímetros cúbicos para dar um jeito nele!...
Miguel foi jogado numa sala cheia de doidos e ficou esperando a hora de tomar a injeção prometida. Desesperado, preocupado, agoniado, sem saber como provar que ele não era doido. Até que, num certo momento, ele olha para um canto da sala e tava lá o Quequé sorrindo e dando tiau para ele. Nessa hora o Miguel ficou bravo. Pegou o Quequé pelo colarinho, deu uma boa esfrega nele e o obrigou a contar quem era o doido de verdade. Ainda bem que, naquele dia, Quequé era doido carinhoso.

24/04/09

No escurinho do cinema

Cinema só uma vez existiu em Tabuí. Durou nem um mês. Funcionava no Bar Ganha, do Cidão. Na hora do filme botavam bancos compridos no salão improvisado, com uma tela na parede do fundo e o bar virava cinema. Nas noites de sábado só entrava mulher e os homens ficavam pra domingo.
O filme, único, era “Amor ao Entardecer”, um faroeste de quarta ou quinta categoria. Nas primeiras duas semanas, nenhum incidente. Mas na terceira...
Tava lá, no sábado à noite, um bando de mulheres vendo o filme que elas diziam ser de amor. Todas ansiosas esperando a cena final. O mocinho dava um beijo na mocinha, provocando arrepios na platéia, e ia indo embora por uma estrada reta que sumia de vista. Lá bem na frente ele se virava para dar adeus à amada abanando a mão. Só que o Cidão, o dono do boteco, acendeu as luzes um pouquinho antes do “The End”, a tempo de o mulherio todo ver a Fiíca do Boanerge dando adeus, também abanando a mão e chorando um choro contido.
No dia seguinte era a vez dos homens. Gente de tudo quanto é canto, até lá dos cafundós, aparecia para ver a novidade. Quase todo mundo com trabuco na cintura. Era moda. Numa cena do “Amor ao Entardecer” a mocinha está amarrada a uma árvore enquanto vem descendo uma cobra. Ao mesmo tempo vem chegando uma onça. A emoção era tamanha entre a platéia e o silêncio tão completo, que cada um podia ouvir as batidas fortes do próprio coração agoniado. Aí o coronel Tião Crispim, que nunca tinha visto um filme e nem tinha costume com esses modernismos, não resistiu a tanto suspense. Misturou ficção com realidade. Arrancou o revólver e pregou fogo na onça e na cobra destruindo a tela do cinema e acabando com a mais moderna diversão de Tabuí.

12/04/09

O assassinato da mula

Julgamento. Tá lá o juiz cochilando. Advogado do réu metendo a lenha, pronto a enfiar a mão no bolso de alguém. Platéia espremida feito sardinha. Grande acontecimento em Tabuí. No banco das testemunhas, só, o Tõinzin Carapina, velhinho e franzino, piscando miudinho, recebendo a saraivada verborréica do advogado perfumado que, embora ninguém dali nem notasse, tropeçava nos pronomes e nas concordâncias. Tõinzin doido pra ganhar um troco da outra parte, pra tapar os prejuízos, era inquirido pelo advogado.
- Este homem, senhor juiz, assim que aconteceu o acidente, disse que não tinha nada, não quis ajuda de ninguém e foi embora! - esbravejava o advogado, apontando diretamente pro nariz do Tõizin.
- É não, sô juiz! Ieu...
- Senhor Antônio Carapina! O senhor, ao entrar na sua caminhonete velha, amarrar a porta com uma corda e sumir no mundo, não disse que estava bem e que não precisava de ajuda?
- Ieu?... Quero expricá!... Vô contá do começo, de inhantes do acontecimento!...
Tôinzin era só humildade. Tremia, alvo de tantos olhares e o cheiro do seu suor nervoso viajava pelo salão do júri improvisado
- O senhor não tem que explicar nada! É só me responder: o senhor afirmou ou não que estava bem?
- Ieu?... Sim e não...
Foi aí que o juiz achou que era hora de interceder, tomando interesse pelo assunto.
- Deixe o homem falar, doutor! Para esclarecer a verdade, precisamos ouvir os dois lados.
Tõinzin respirou aliviado.
- Brigadim, dotor juiz! Eu e a minha muié, plena madrugada, acordemo a mulinha, coloquemo ela na caminhonete e eu vinha pela rodovia a fora. Só eu e ela, a mulinha. Ela na carroceria e eu na buléia. Aí veio aquela rural doida, saindo não sei donde do meio do mato e trombou na porta da minha caminhonete. Eu me machuquei muito, pois a porta do outro lado se abriu e eu caí. Caí e saí rolando estrada a fora. Nem conseguia me levantar. Minha mulinha, tadinha, tamém num tava em situação boa não. Zurrava feito besta, caída do outro lado da rodovia. Eu dei conta de levantá a cabeça e vi a bichinha, a uns 15 metros, esperneando e estrebuchando. Aí chegou o home da polícia e, no lugar de vir me olhar primeiro, foi ver a mulinha que dava mais escândalo. Acho que ele avaliou a situação e disse não tem jeito. Pegou o trabuco e deu um tiro bem na testa da bichinha que quetou na paz de Deus Pai. Aí ele veio cambaleando pro meu lado, com o trabuco na mão, ainda soltando fumacinha, e explicou: "Não teve jeito. Tive que matar sua mula que tava muito mal. E o senhor, está bem?". - O que o senhor queria que eu dissesse, sô juiz e sô adevogado?

(Nota: este causo é muito conhecido em Minas Gerais. E muito divulgado. Esta é apenas mais uma das versões que ele recebeu).



06/04/09

Nos braços de Morfeu

Este causo aconteceu foi mesmo em Tabuí, ali na pensão da Vitalina, a única da cidade. Um vendedor, homem experiente da vida, mas, com muito sono atrasado, foi lá e a espelunca não tinha quarto vago.
- Dá um jeito, por favor, dona Vitalina, eu preciso dormir. Me arrume nem que seja uma cama, sá!

Vitalina pensa, pensa e, querendo ganhar uns mirréis a mais, responde:

- Óia... Tenho um quarto com duas cama. Interessa? E lá tá hospedado um sujeito que me disse que gostaria de rachar as despesas com alguém. Só que tem que ele ronca demais da conta. Tanto, que os vizinhos já fizero recramação dizendo que não conseguem dormir.

- Nenhum problema. Fico com o quarto, dona Vitalina! Eu quero dormir!

        Ela leva o viajante pro quarto, acorda o roncador, apresenta-os um ao outro e eles vão dormir. 

No dia seguinte, o vendedor chega ao refeitório para tomar café e, contrariando as expectativas, está bem disposto, alegre e assobiando “encoste tua cabecinha no meu ombro e chora!...”. Vitalina, morta de curiosidade, pergunta:
- E aí, deu pra dormi?
- Dei nada, dona Vitalina! Dormi assim mesmo! Aliás, dormi foi demais da conta, sá!
- Mas os roncos do homem num atrapaiaro?
- Nada! Ele não roncou nem um minuto. Nadica de nada!
- Nepussive, sô! Quecocefez?
- Bom, foi simples, uai! O sujeito já dormia, mal entrei no quarto. Aí, a primeira coisa que fiz foi me aproximar da cama dele e beijar sua bunda dizendo: - "Boa noite, coisinha linda"... O sujeito passou a noite acordado, desconfiado, sentado na cama e me olhando assustado com o rabo do olho...


(Este causo foi, com a devida autorização, surrupiado e adaptado dohttp://loucurasedevaneios.blogspot.com/ )

03/04/09

De Maníaco e de Louco...

Na pacata Santa Maria do Tabuí, onde nada acontecia, um dos seus habitantes resolveu virar maníaco. Mas não um maniacozinho qualquer não. Era maníaco de matar. Matar na base do cacete. Sua tara era contra os bêbados da cidade. Bêbado tretou, relou, tava no pau. Maníaco dava a paulada e esperava prazeroso a careta do quase defunto para dar risada. Mas tudo na moita, debaixo dum quieto. Crime perfeito.
Primeiro bêbado apagado, o maníaco encafuou-o no porão escuro da igreja do Padre Anacleto, que ficava bem perto do rio Sorongo. O segundo, mesma coisa, um dia depois. O terceiro também.
Foi aí que os bêbados da cidade, em reunião de sindicato, após descobrirem o sumiço dos três colegas, confabularam, confabularam e resolveram maneirar a mão dando um tempo à cachaça. A partir daquele dia Tabuí não tinha mais bêbado. Ninguém nem agüentava mais o cheiro da canjebrina. Davam até vômito se vissem, mesmo que fosse de longe, um litro da Providência, a preferida de todos.
Enquanto isso, o maníaco lá do começo da história, já com três defuntos armazenados, estava meio preocupado, - maníaco também tem suas preocupações -, sem saber o que fazer com tanto presunto. Mas como ele só era maníaco e não era bobo, arranjou uma solução fácil, fácil. Chamou Dejalma. O doido da cidade.
- Dejalma, tem uns bêbados ali. Vamo carregá eles e jogá no rio pra curarem a bebedeira?!... Vamo que depois te dô uns trocado!
Dejalma foi. Plena madrugada, pegou os defuntos, cada qual mais fedido que o outro e pinchou tudo no rio.
Pensando que a brincadeira continuava, voltou a procurar outro bêbado mas não achou mais nenhum. Ficou embaixo da escada da igreja esperando aparecer o home que prometera os trocados, conforme o combinado. Mas o maníaco tinha, bem misturadas numa lata, urina e fezes. Lá do alto da escada despejou toda aquela gororoba na cabeça do doido do Dejalma. Este, apavorado com a fedentina, caiu no mundo, sem nem olhar de onde vinha aquela chuva mais que de repente.
Quando a cidade achou os corpos dos três bêbados boiando no rio, foi um bafafá danado. Quem-foi, quem-não-foi, meu-Deus-do-céu e por aí adiante.
O delegado, sem nenhuma testemunha, não sabia a quem apelar. Até que a boataria chegou no ouvido do Dejalma.
- Sô delega! Otro dia eu pinchei treis bebo no rio pr'ês tomá banho!...
O maluco terminou a frase com uma risadona, daquelas de doido varrido. E o delegado, querendo mais informações, passa a especular o Dejalma de tudo quanto é forma, com todo tipo de questionamento. Até que perguntou:
- Que dia foi isso Dejalma?
O nosso simpático doido pensou, pensou, deu mais umas gaitadas, mas só conseguiu se lembrar de uma coisa. E simplesmente respondeu:
- Foi naquele dia que choveu merda!

24/03/09

Conversa de Banheiro

Zaqueu pegou malinha e marmita com frango e farofa e se mandou para Belzonte. Carona em caminhão boiadeiro. Chegando à capital, procura a rodoviária para deixar a malinha, - pois que a matula já acabara -, a fim de sair pela cidade à procura de emprego. Sente umas coisas na barriga e calcula é efeito da matula. Resolve dar uma aliviada antes de se aventurar pelas ruas daquela cidade desprovida de matinho. O revertério aumenta até que ele acha um banheiro, onde entra afobado e suando frio, quase sem tempo de descer a calça. Assim que começa o serviço, ouve alguém perguntar:
- E aí, tudo bem?
Zaqueu arregala o olho, olha para cima, olha pra baixo, olha de lado e, logicamente, não vê ninguém. Tava sozinho na “casinha”, com certeza. Mesmo assim, com medo do ridículo, mas para não parecer deseducado, responde inseguro um “tudo bem, uai...”.
- O que você tá fazendo agora?
O Zaqueu foi ficando sem jeito com a situação. Pensou e picisa perguntá? Calças arriadas, sentado no trono e tendo que responder a perguntas sabe-se lá de quem. Cruzcredo! Será que achara um conhecido por ali? Justo naquela hora, com o barro escorrendo feito água?... Mesmo assim, como era homem educado, responde “óia, tô aqui cagano agora e...”. O outro, apressadinho, nem espera pela resposta completa e casca outra pergunta:
- Ah é, é?... E a família, vai bem?
O revertério na barriga do Zaqueu tava dos mais complicados. A pergunta veio logo na hora em que ele se encolhia com a cólica enquanto, sem precisar força, o barro, farto, descia a jato, respingando água no traseiro. Fiofó ardia de quentura. Respondeu na marra “vai!”, junto com um gemido prolongado e choroso enquanto soletrava os versos de uma trovinha escrita a lápis, na porta do banheiro, bem à altura dos seus olhos cheios d’água: Sentado aqui neste trono, / Me dá uma tristeza profunda / Vendo a coisa bater na água / E a água bater-me na... canela.
E Zaqueu pensava “quem será esse home?... Será que é meu conhecido?... Será que tá me veno?...”. Mas logo veio a resposta às suas dúvidas. O indivíduo parece que tinha um alto-falante na boca. E disse bem alto:
- Olha, aqui ao meu lado tem um cara cagando que me responde a cada pergunta que te faço. Vou desligar, tá bom? Um abraço!
Zaqueu ainda não conhecia o tal do telefone celular, do qual pode se falar com o mundo, até quando se senta no trono.

14/03/09

E o padre ficou no preju

Padre Anacleto tirou férias. Pro batizado do domingo, bispo mandou lá um padre itinerante, desses que não se adaptam a lugar nenhum e que, quando arrumam uma oportunidade de ganhar um trocado, não gostam de perdê-la.
Por outro lado, o Toinzin Sossego, quando achava jeito de economizar trocado, ganho com tanto suor, fincava pé, perigava perder sangue, mas não botava a mão na algibeira. Pois bem. Toinzin, a mulher, os padrinhos e madrinhas se mandaram pra cidade. Batizar o Galileu que andava mal das pernas.
- Carece batizá o minino, Sossego. Pode ficá pagão não!
Isso era Malvina, com medo do menino morrer antes da hora.
Padre cascou o batismo no Galileu em questão de segundos e encarou guloso os olhos do Sossego.
- São vinte reais, senhor Antonio! É o preço do batizado!
O Sossego quase ficou sem fôlego, depois de ter perdido as cores. Pensou em quatro dias de capina, no cabo da enxada, de sol a sol, a cinco reais o dia. Arrependeu-se de não ter tentado chegar a padre.
- Sô vigaro, é que tô meio desprivinido!...
- Veja aí, senhor Antonio, os seus compadres e comadres...
- Dá não padre, tão tudo pió do que eu...
Sossego já tava pensando eu vou ter que deixar o menino como garantia... O padre piscava miudinho, pensando, preocupado, em como garantir aquela grana no bolso.
- Mas o senhor não tem alguém na cidade, um parente, um amigo, a quem pedir emprestado? Ou alguém a quem eu possa mandar a conta?
- Óia, padre, tê, até que tenho. Duas parente, mas as duas disgarrada. S’extraviaro...
- Como? Extraviaram-se?
- É, padre. Uma virô prostitute e a ota virô freira. As duas tão aí. Uma no cabaré, só ganhano pro gasto e a outra no convento, sem tê o que gastá.
- Mas, senhor Antonio, extraviada? Sua irmã? Freira é esposa de Cristo, senhor Antonio!
- Ah, bão, padre! Intão, inda bem! Se ela é esposa de Cristo, tamo resorvido. O sinhô bota o batizado do Galileu na conta do meu cunhado, qui é seu chefe... Inté!