Vivaldino, o dono da jardineira da cidade, foi fazer discurso no Pindura Saia. Candidato a vereador, com grandes planos de ficar rico logo e montar uma grande empresa de ônibus. Dois votos garantidos, o da mulher e o seu. Resolveu ganhar outros apelando para o povo da roça, que julgava mais fácil de levar na conversa, principalmente pra quem tinha a língua solta, como era seu caso.
Povinho no Pindura Saia, de ouvidos atentos e olhos arregalados, tentava entender a fala de Vivaldino, vulgo Valdino, em meio a uma ventania que jogava poeira pra tudo quanto é lado e levantava as saias das mulheres.
- Cêis pur acaso tão sabeno que fui eu que arrumei benzedô mode curá a broca da dona Deja? E o porco do sô Sebastião? Fui eu que curei ele! E a cachorra da Iracema? Quando ela pariu, eu que tava lá! Pois é. Sô home muito virtuoso, cheio de fartura pra mode que conheço muita gente.
E o homem foi tomando gosto pelo monólogo complicado e continuou, para platéia tão atenta, misturando alhos com bugalhos, falando das suas virtudes e dos seus feitos em prol da comunidade.
- Mas quantos docêis já me viro por aqui, pois que plantei muita mandioca na grota da comade Remunda! Cêis sabe tamém que aquele pau atravessado no rego da cumade Manoela foi obra minha! Pois é, aquele reguinho de barro cheroso, cercado por um matinho e com uma aguinha correndo no meio, - ninguém sabe - fui eu que botei pinguela nele pela primera vez. Por isso e mais muitos outros issos é que peço o voto docês. O meu sonho é acabá com as injustiça do mundo, meu povo. Desigualdade num vai havê mais. Quero acabá com esse negócio de rico dormi ni cochão de mola enquanto o pobre dorme na cama de pau duro!... Vote ni mim, meu povo!
Povinho, mesmo achando graça e vendo muita malícia na fala do Valdino, - pois que povim de Pindura Saia é bobo é nada - aplaude animado, principalmente na fala de acabar com o que era injusto no mundo. Aí o candidato resolve, no seu improviso, falar mal da vida alheia.
- Fiquei sabeno, meu povo, que aquelotro candidato, o Zé Falafina, - aquele cornudo - vive meteno o pau na minha muié por trás. Quero ver se ele é home e vem metê o pau nela pela frente. Aí ele vai vê com quantos pau faço uma canoa. E ocêis num sabe que o Tõe Arruda, o prefeito, com medo do que eu andava falano, - já que num tenho papo na língua - me chamou na casa dele pra mode cumê um churrasco! Ele queria era passar melzinho na minha boca mode eu ficá calado... Hum! Passa é bosta!
Nessa hora do discurso, povinho não conseguia mais segurar as risadas. Mas a vaia mesmo só explodiu, o discurso acabou e a festa ficou esculhambada, quando o Valdino tascou a última frase, cheio de esperanças:
- Meu povo! Cêis sabe que num sô daqui. Sô não! Sô um forastero sem era e nem bera. Sô quinem uma rosa, pois que nasci no Rincão e vim dá o botão no Tabuí.
08/12/09
O Candidato da palavra fácil
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04/12/09
Frango de pescoço dobrado
Naquela noite Cirino e Bentinho não agüentavam mais a vontade de tomar umas e outras. Antes de chegarem ao , resolvem que tão com fome e passam na venda da Carorina para comprar frango frito com farofa. Carorbotecoina corta o frango bem cortadinho, põe a farofa em cima, bota tudo numa travessa de plástico e os dois se mandam pra noite.
- Ô Bentinho, bora ali no Copo Sujo tomá uma daquesde lambique, vamo!
- Ó sô, inhantes vamo escondê o frango pra mode a gente num ficá sem ele, né memo? Tá cheio de bebum aí, doidos por um tira-gosto...
Botaram o frango no meio da moita de assa-peixe, ao lado do Bar Santo Antonio, apelidado de Copo Sujo e começam a labuta da noite. Bebem uma, duas...
Nessa hora, mais de dez da noite, passa pela moita de assa-peixe o Everaldo, mais tonto que gambá depois da briga. E com vontade de aliviar a barriga, já com atraso de dias, pois que tinha prisão de ventre, deixa lá, em cima do frango, a sua lembrança.
Cirilo e Bentinho, pela quinta, sexta ou décima dose da noite, mais pra lá do que pra cá, com fome, acertam a conta, doidos pra comerem o franguim assado. Voltam à moita de assa-peixe e começam a destroçar o comestível.
- Ô Cirino, cê comprô mais de um frango, home?
- Ieu? Ieu não, uai! Só um!
- Hum! Hum! Foi mais. Ó, só de pescoço já comi uns treis, e tudo cumprido!
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23/11/09
Uma Certa Menina do Interior
Ozária morava no Tabuí. De família pobre, como pobre era a cidadezinha. Mas Ozária tinha um sonho e resolveu colocá-lo em prática para mudar de vida. Decidiu ir pra capital. Ganhar a vida como empregada doméstica. Ser doméstica na capital não era coisa pra qualquer uma não. E lá se foi Ozária, vestidinho de chita, precata roda, trança no cabelo preto amarradinho na ponta com palha de milho e uma maletinha de papelão com umas bugigangas variadas.
Ozária batalhou na capital. Passou um ano. Passaram dois. No terceiro, não resistindo às saudades, resolveu voltar à terrinha. Dia marcado, tava Tabuí em peso esperando por ela naquilo que era um arremedo de rodoviária. Um frejo danado. Todo mundo queria ver Ozária que, segundo se dizia a boca pequena, tinha mudado na vida.
Quando chegou a jardineira do Valdino tudo se fez silêncio. Cada um queria ser o primeiro a avistar a Ozária. Parece que a cidade só tinha homens. Cada qual se virava como podia. Os de trás na pontinha dos pés, pescoço esticadinho, mãos apoiando nas costas do companheiro da frente. E ela, só para fazer suspense, foi a última a descer da jardineira. Tão diferente estava a moça! Cabelinho curtinho tingido de amarelo. Ruge no rosto. Batom vermelhão nos beiços. Brincos com argolões nas orelhas. Pinta pintada bem grandona na bochecha esquerda. Vestidinho decotado, deixando livre mais da metade da peitaria e, curtinho, quase mostrando as coisas de baixo. Alguns da platéia depois juraram que a roupa de baixo era vermelha. Nas costas um ziper, daqueles que abrem de cima a baixo rapidinho. No peito esquerdo o desenho de um coração com uma setinha e uma frase estranha, desconhecida daqueles olhos gulosos: "I love you". E para completar, Ozária usava uns sapatos com saltos dessa altura. E aquele bumbum arrebitado, que tinha já provocado muitos sonhos entre a machaiada de Tabuí, estava mais arrebitadinho ainda. Era outra Ozária. Pelo jeito, tinha mesmo mudado de vida...
O povão começou a gungunar baixinho, uns a olhar para ela com olhos de fome, outros com um risinho de gaiato brotando no canto da boca até que um mais animadinho resolveu, sob o olhar curioso e angustiado de todos, num suspense danado, perguntar o que queriam saber mas não tinham coragem para dirigir a palavra a uma donzelice tão distinta:
- Oi Ozária, cê tá tão diferente, né?
E ela, candidamente, dando uma empinadinha, ajeitando a bolsinha no ombro e olhando pro alto, com desdém para todos os machões, respondeu:
- Hã! Hã!... Emputeci!...
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Namoro em Tempo de Frio
Zé Mané sai de Tabuí. Baile na roça. E arruma namorada. Fazendeirinha bem ajeitada, novinha ainda, toda limpinha e cheirosa. Moça muito distinta e recatada....Tantos predicados deixam o Zé na maior paixão.
- Se ocê quisé memo namorá ieu tem que falá com o pai.
O rapaz fica desanimado. Mas depois de alguns dias, várias noites sem dormir, conclui com seus botões:
- Ela é moça boa demais da conta. Vô lá resorvê o pobrema.
Mandou recado. Vestiu a melhor roupa, calçou botina gomeira e foi rever a paixão e enfrentar o velho, futuro sogro. Andou horas e horas até chegar ao destino. A família recebe bem o nosso Zé Mané. Velho pega na mão, bate nas costas, velha chama-o de meu filho, paixão fica segurando sua mão e as três irmãs se derramam em sorrisos. Tudo era ânimo. Os dois apaixonados combinam, num momento em que conseguiram ficar a sós, que a conversa de homem pra homem seria no dia seguinte, na hora do almoço. Tudo muito bem, tudo muito bom, noite chegou. Era junho. Tempo de frio. O Zé, como não previa passar a noite em casa alheia, nem uma blusa trouxera.
- Tô sentino frio não, gente! Sô assim memo, num sinto frio!
A desculpa não colava, mas o rapaz não queria dar o braço a torcer. O negócio era impressionar. Queria dar uma de macho e, no seu conceito, macho que era macho não sentia frio.
A moça mostra-lhe o quarto e leva-lhe cobertores.
- Não, amô! Carece disso não. Nem lençor eu uso! Durmo só de cueca!
Donzela fica corada ao ouvir essa palavra indecente.
- Mas assim cê intangue, bem!
- Que nada. Tiau, amô! Té manhã!
Zé Mané fica sem os cobertores, tão quentinhos. Tira a roupa e, para honrar a palavra, fica mesmo só de cueca esperando o sono chegar. Mas o frio tava brabo e ele, tremendo, não consegue pegar no sono. Rola pra lá e pra cá, com raiva da sua burrice, até que se lembra do monte de palha de feijão lá no terreiro da sala. Pula a janela e tafuia dentro do monte pra afugentar o frio que lhe entrava até os ossos. E, de fato, lá embaixo, tava tão quentinho, que ele dormiu sono profundo. Tão profundo que o dia amanheceu e ele nem tium. Continuou lá, todo encoberto, só com a ponta do nariz num buraco por onde entrava o ar. Lá fora, tudo gelou por causa da geada que chegara de madrugada.
O pai acordou, mãe também e as quatro filhas. Sol mal dava as caras.
- Bamo lá botá fogo na paia de feijão pra mode a gente esquentá, mininas? Chamou o pai.
E lá se foram e meteram fogo sem dó nem piedade na palha de feijão. O fogo rodeou todo o monte, pegando com certa dificuldade, pois estava meio úmido devido ao orvalho. Por isso o fumacê que começou a sair dali não tava no gibi. E a fumaça foi entranhando pro meio do monte e o calor do fogo também. O Zé Mané, ainda dormindo, começa a ficar prejudicado pela fumaça e pelo calor. Sufocado e suando, acorda. Sem entender nada, o instinto de sobrevivência avisa que ele tem que cair fora. Assustado, dá um pulo, fica de pé levantando cinza e fumaça e o fogo começa a chamuscar-lhe a pele. Zé Mané sai correndo empretecido, quase pelado, só de cueca vermelha, desbotada, levando junto um canudo de fumaça e fogo. As moças, cada uma mais santa e donzela que a outra, são pegas de surpresa e não entendem nada. Nem reconhecem o moço. E vendo aquela figura estranha e inesperada saindo do meio do fogo, caem de joelhos, prontas para rezar, pensando estar vendo coisas do outro mundo.
- É o demônio! - Gritou uma.
- É o capeta, mãe! - Gritou outra.
- Livrai-nos Deus, Nosso Senhor! - Berrou a mãe.
Zé Mané nem no quarto passou. Cheio de vergonha, ainda sem entender direito o acontecido, se mandou estrada a fora e só foi descobrir que estava nu ao entrar em Tabuí, vaiado por um bando de moleques.
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15/11/09
Mijadô vira milionário
Você decerto não conhece Toá. Não, pois que, se conhecesse, não saía de lá. Terra boa, de gente simples, mas tacanha. Uma dificuldade de entender as coisas que só vendo! Além do mais, diz-se em Tabuí que o povo de Toá, uma vilazinha lá dos cafundós, é o mais besteirento do mundo.
Pois foi lá em Toá que o velho João Pechincha foi, em noite de lua cheia, atrás da moita de assa-peixe, na beira do campo de futebol, mode fazer xixi, assim um pouco afastado da platéia, bem ao lado do Godofredo, que também se aliviava na moita. Pechincha foi chegando, desabotoando a calça e parece que conversando sozinho, todo carinhoso, tascou um:
- Milionário!!!...
- Hã?... - Perguntou, sem entender nada, o Godofredo, pensando que o negócio era com ele.
- Nada não, Godô! Só tô chamando o meu mijadô de milionário!
- Mas milionário pra mode quê, home de Deus?
Aí o carinho do homem mudou rapidinho pra raiva, enquanto guardava a documentação, depois da clássica balangada:
- É que esse porra tá sempre numa boa, não fica duro nunca! Isso é uma merda pros meus sentimentos! Esse droga só presta pra mijá!
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27/10/09
Um defunto diferente
Tião Gordo, que até não era tão gordo, sempre foi muito bonachão e preguiçoso. Não gostava de jeito nenhum de fazer esforço. Certo dia tava ele na cidade e tinha, de todo jeito, que ir pra casa. Desanimado de enfrentar as duas léguas a pé, com a falta de coragem costumeira, resolve arranjar carona. Vem vindo um caminhão. Foi só Tião fazer sinal, o motorista parou.
- Dá carona pra mim?
- Pode entrá aí na carroceria. Só que tô levano um caixão. Vô buscá um difunto. Cê num importa?
- Importo não!
Tião não era homem de ter essas preocupações. O que ele queria mesmo era economizar trabalho para as pernas. Entrou na carroceria, junto com o caixão, e o motorista afundou o pé.
Depois de rodarem um pouquinho, começa uma chuvinha de molhar bobo. O Tião, que não era bobo nada, abriu o caixão e se enfiou lá dentro, fechando a tampa com cuidado. Dentro do caixão tava tão quentinho que o moço pegou no sono. Como o motorista era homem de bom coração, foi dando carona para um ou outro que ia na mesma direção.
Depois de alguns quilômetros havia uns dez caroneiros na carroceria, em volta do caixão, no maior respeito, julgando que lá dentro tinha um morto. Uma velhinha até rezava o terço.
Numa certa hora o caminhão passa a roda traseira num buraco e dá um sacolejo na “carga”. Tião Gordo acorda do sono profundo, lembra da chuvinha e resolve ver como está o tempo. Abre devagar a tampa do caixão, vê aquelas pessoas em volta e pergunta, na maior inocência:
- Gente, já parô de chovê?
O susto foi tanto entre os caroneiros que houve gente que até pulou do caminhão. Tudo porque ninguém esperava que o defunto estivesse vivo.
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13/10/09
E o circo chegou em Tabuí...
Depois de muitos anos a pão e água, chegou circo
Assim que notou a movimentação da montagem do circo, a Luiza Abete, moreninha pra lá de ajeitada, da ladeira do Beco, se ajeitou toda, botou brinco, passou batom e pó de arroz e foi pra rua. Pensando no mais tarde. Caçou com os olhos o Nildenô, - sua paixão -, distraído, ocupado em plena fiscalização do movimento. Ela interessada e o outro regateando, como quem não quer nada, mas querendo tudo.
– Cê vai no circo hoje, Nildenô?
– Sei não, sá! Confofoovô!...
Até a moça Jaquelina deixou bilhete pro coitado do chefe avisando que não ia trabalhar na loja de secos e molhados naquela tarde. Tava meio adoentada...
– Vô lá o quê! Aí o chefe pega no meu pé e num deixa eu ir no circo!...
A grande estréia seria às sete da noite. Às três o palhaço, devidamente paramentado, chamava a criançada para percorrer as três ou quatro ruas da cidade. Às quatro, mais menino que gente. Começa a bagunça, depois de pequeno ensaio. O palhaço, montado numa jumenta fogosa, enfeitada com flores de plástico descoradas, puxa a molecada pela rua do Comércio.
– Hoje tem espetáculo?
– Tem, sim sinhô!
– Hoje tem marmelada?
– Tem, sim sinhô!
– E o paiaço, o que é?
– É ladrão de muié!...
À molecada que acompanhasse o palhaço, fora prometido ingresso para a estréia. Assim que a tribuzana chega na praça, encontra o Mirto Ladeira, que vinha do trabalho na roça e, como sempre, com fome, cansado e puto com as injustiças da vida, mas cheio de amor a Deus. Esqueci de dizer que Mirto tava montado num jumentinho novo, gordinho e muito animado e que a jumentinha do palhaço tava no cio. Não deu outra. Paixão à primeira vista. Assim que se olharam, começaram aquela barulheira, correram um para a outra e vice-versa. Desobediência plena aos comandos dos freios e rédeas. Um zurro só. Não adiantou chicote e espora do Ladeira com os seus gritos de paracuisso e quequiéisso gente e nem a gritaria do palhaço, tudo captado pelo auto-falante. O jumento se armou todo e crau. O palhaço teve que pular fora para livrar o trazeiro e a zueira babenta do animal no seu cangote e caiu de mau jeito, batendo a testa numa pedra. Mirto Ladeira, no empino do jumento, caiu de costas, rolando no meio da meninada. Um grande e hilariante espetáculo, como há muito não visto
– Gente! Oquecouve? Oncotô? Poncovô? Qui trem mais esquisito, sô!...
O Mirto, ainda mais puto da vida pelo tombo e por aquela sem-vergonhice toda, arrancou a peixeira e queria achar o culpado pela tragédia.
– Arreda, sôs muleque! Cadê ele? Cadê ele?
O palhaço isalou no mundo, abandonando jumenta e catracagem de som. Da molecada, alguns chegavam a rolar no chão de tanto rir. Outros, mais inocentes, se retraiam, saindo de mansinho. As meninas, idem, tentando tapar olhos e ouvidos, ao mesmo tempo. E o povo, com aquela latumia toda, foi chegando, atraído pela tribuzana transmitida no alto-falante. Quando chegou o padre Dima, com sua maquininha de retratista sempre à mão, cheio de interrogações, correndo, arfando e suando dentro da longa batina preta, foi menino pra todo canto. Não ficou um pra contar a história e pra pegar o ingresso. Aí o seu Mirto Ladeira caiu de joelhos, aos pés do vigário, pedindo perdão por aquele pecado para o qual, inconscientemente, acabava de colaborar, trazendo a jumentinha pra praça, justo naquela hora.
Bem depois das sete em ponto começa o espetáculo. Quase só adultos. A meninada, correndo do padre, ficara sem o ingresso prometido. Como o circo só tinha lugar para uns poucos sentados nas tábuas empenadas, quem podia trouxe a sua cadeira de casa. No primeiro número, lá estava o palhaço de novo, precedido pelo retumbar de tambores que saía de uma radiola velha. Começou ele com aquele papo de palhaço, conseguindo uma ou outra risada amarela, até que pediu um voluntário para a mágica. Sim, era mágico o palhaço. O Milomem, - mais conhecido como Milinho - que havia entrado por baixo do pano, garoto assim duns treze anos, se ofereceu. O palhaço mágico mandou que ele se abaixasse, com as mãos nos pés e o traseiro arrebitado. Aí aprontava aquele monte de palhaçadas, conseguindo que algum ou outro risse. Nesse primeiro número de mágica, o palhaço arrancou do bumbum do Milinho, assim fazendo muita força, uma peteca, com penas bem compridas e um ramalhete de flores cheias de espinhos.
– Isso é uma indecência! – bradou a dona Daiana, doida para aparecer e fazer propaganda pra sua tendinha de ler a sorte lá no canto da Rua do Assobio.
– É memo! Aqui tem famia! Vamo pará cuisso! – gritou dengosa e virando o zoinho a menina Carorina, pendurada no pescoço do Zé Pretinho e numa esfregação quisó.
– Tadinho do minino! - gemeu a dona Cláudia - a mãe do ano de Tabuí - arrepiada no seu recatamento, crente que aquele monte de espinhos tinha, de fato, saído do traseiro do Milinho.
– Meu Deus do céu! Que trem escandaloso! – reclamou a moça Dianaminha, olhos carentes, na esperança de ser achada, dentro do circo, por aquele menino que queria ser padre....
O mágico palhaço, desconfiado que o mar ali não estava para peixe, rapidinho recolheu a aparelhagem. Fez gesto pro auxiliar e subiu novamente o rufar de tambores, enquanto ele caía fora do picadeiro. Passaram-se vários minutos, só tocando música militar de um bolachão arranhado, naquela radiola velha. O público impaciente. Aí, é anunciado pela voz do palhaço, o número do leão.
– Bicho feroz, vindo há poucos dias lá das banda da Floresta Amazônica!...
– Eu, heim?!... Leão tupiniquim? Nunca vi isso!... - era a professora Patricilda, - mostrando sapiência para os vizinhos da platéia.
O picadeiro foi cercado com uns pedaços de tela grossa mal emendados e o leão trazido, numa jaula, carregado por quatro pessoas, uma delas o palhaço, que era também o domador do circo, homem bem entendido de habitat animal. O bicho chegou cochilando e cochilando ficou, mesmo quando a jaula foi aberta. Deitado, magro, sujo e desanimado, só se levantou quando ouviu o estalo do chicote do palhaço domador. Aí a fera ficou brava e saiu da jaula soltando urros fortíssimos, fazendo muita gente na platéia ficar com o coração pequenininho na mão. Houve quem, aproveitando a oportunidade, pulasse no colo do vizinho, como aconteceu com a Carorina e a Analuiza – as duas já um pouco mal faladas pelas redondezas. A última porque dera, ultimamente, a andar com polícia e garrucha na cintura. O domador estala de novo o chicote e o leão se assusta, indo de ré e batendo na tela que o prendia ao picadeiro. Um pedaço dela cai pro chão. Não deu outra. Vendo o buraco aberto, o bicho cai fora e vai pro meio da platéia, - da turma que trouxera cadeira de casa - urrando e encarando um ou outro com olhos apetitosos. Foi nessa hora que o delegado Coríntio, que mal tinha chegado e arrumado um cantinho pra sua cadeira, sentindo o bafo do leão assim bem pertinho dele, mas querendo dar uma de machão, resolve apelar, sem decidir se corria ou se ficava. Recurso foi gritar, mais forte que o leão, para assustar o bicho:
– Larga d'eu, trem! Arreda, satanais!...
Cada um se vira como pode. Saindo de fininho. Alguns, pé ante pé, carregando sua cadeirinha. Ninguém queria encarar o bicho. De vez em quando ele, - o leão -, sem entender que estava livre, soltava urros que arrepiavam cabelo de neguinho. E o povo vazando fora, querendo distância da fera. Muita gente subiu pras tábuas que formavam a arquibancada do circo e aquilo foi pesando. O Pedro Alfaiate, mais conhecido por Pedroca, que conseguira lugar na emenda entre uma tábua e outra, estava quase vazando, com o traseiro afundado, já que as tábuas arrebitaram os cantos.
– Ai, meu Deus, desde pequena eu queria assistir o circo, mas o trem aqui num tá bão!... – isso era dona Renata, - que chegara recentemente lá do Arraial do Sossego -, gemendo, gungunando com seus botões, chorosa pelo tempo perdido e o dinheiro gasto.
Aí o leão resolve olhar e caminhar pro rumo do povo das tábuas, e a turma, quase em peso, se levanta e começa a pular, caindo e rolando de qualquer jeito, vazando por debaixo do pano e ganhando o mundo. Menos o Pedroca, que tava procurando os óculos para achar a bengala. Acontece que a turma, ao levantar da tábua, o peso sobre esta diminui e o Pedroca fica com o traseiro preso e os ovos espremidos. Esquecendo de óculos e bengala, gemendo, com os olhos cheios de lágrimas e muito mais alto que o domador palhaço, que chamava o leão pelo alto-falante, o Pedroca reuniu as parcas forças, premido pela dor, e gritou, implorando, na esperança de que alguém o atendesse:
– Senta, gente!... Senta meu povo! Senta que o leão é manso!...
E soltou um gemido de agonia com as forças que ainda tinha, prestes a desfalecer:
– Ai, meu saco!...
Ainda bem que, nessa hora, antes de vazar pelo buraco mais perto que achara na lona, dona Quiristina viu a cena, teve dó do homem e do seu documento, que já devia estar mais do que roxo, e se pendurou no meio da tábua para, forçando-a, libertar o Pedroca do sufoco.
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08/10/09
Aprendendo com a vida, aos trancos e barrancos
Para quem pensa que vida no interior é uma chatura só, muito se engana. Chatura é viver na cidade grande, cercado de carro e prédio e povo. Ninguém conhece ninguém. Aqui não. É um povo unido, alegre, vivendo com dificuldade, mas com muitas histórias para contar aos filhos. Tem aqui muita gente espirituosa, sempre inventando manhas pra rir da cara uns dos outros.
Outro dia, por exemplo, aprontaram uma com o Tadeu. Menino bão demais da conta, rezador, coroinha até, filho de mãe rigorosa e pai trabalhador.
- Tadeu, vai ali na rua do Comércio e descubra pra mim quanto custa um martelo para desentortar vidro...
- Hãn? Martelo? Pra desentortá vridro? já vô!
Quem pediu foi o Casemiro, sapateiro que vivia à custa de botar meia sola em sapatos furados nas ruas cheias de cascalho e poeira de Tabuí e que, enquanto trabalhava, enchia os ouvidos do Tadeu de potoca.
A rua do Comércio tinha umas duas ou três lojas. O Tadeu foi em todas até que, na sua simploriedade, depois de muito rirem da cara dele, descobriu que não existe o tal martelo desentortador de vidro. Aprendeu com a vida. Diferentemente da última vez, que foi no tapa. O Casemiro avisara pra ele e pro Geraldinho, debaixo de segredo, que, no Mercado da Linha, tavam contratando um menino para desentortar banana e que, daquele dia em diante, só iria vender banana reta. Os dois, doidos por uma graninha, saem na maior correria e, no meio do caminho, após se insultarem, começam a briga.
- O emprego é meu!
- Seu nada! É meu, seu viado!
Isto dito enquanto corriam ladeira acima, soltando os bofes. Aí, pararam e partiram para os tapas e pescoções e rolaram pelo chão, até que chegou a turma do deixa disso, inclusive o dono do Mercado da Linha.
- Não. Não tenho esse emprego não. Vou continuar vendendo banana torta mesmo!... - E caiu na risada, assim como a platéia que se formara, até o Casemiro que chegara a tempo de curtir a cara de sério dos dois briguentos.
Naquele dia, assim de tardezinha, chega na cidade o Niltão da Filó, montado numa égua mojando, bem adiantada. Niltão não se importava muito de dar carinho pros animais não e, talvez pelo excesso de esforço, a bichinha teve cria, que nasceu morta, bem na praça da matriz. Com preguiça de carregar dali o podrinho morto, chamou o Geraldinho e falou:
- Lá no açôgue Vaca Profana tão comprano bezerro e cavalo novo pra fazê sarsicha. Pudrinho nascido morto, então, vale o drobo pelo quilo. Vai lá! O que ocê conseguir é seu...
Geraldinho juntou com o Tadeu, com quem já tinha feito as pazes, e chamaram mais uns cinco moleques. Foram, rua acima, puxando a carga, que colocaram sobre um couro de boi. Enquanto subiam a ladeira, faziam planos do que fazer com a dinheirama que ganhariam. Até que descobriram a cilada em que caíram, pois que, no Vaca Profana, receberam foi um xingatório, indigno de nota, do açougueiro, puto da vida de ter, à sua porta, aquela imundície virando carniça.
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