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22/04/14

NOS BRAÇOS DE MORFEU

     Este causo aconteceu foi mesmo em Tabuí, ali na pensão da Vitalina, a única da cidade. Um vendedor, homem experiente da vida, mas, com muito sono atrasado, foi lá e a espelunca não tinha quarto vago.
     - Dá um jeito, por 
favor, dona Vitalina, eu preciso dormir. Me arrume nem que seja uma cama, sá!
     Vitalina pensa, pensa e, querendo ganhar uns mirréis a mais, responde:
     - Óia... Tenho um quarto com duas cama. Interessa? E lá tá hospedado um moço que me disse que queria rachá a conta com alguém. Só que tem que ele ronca demais da conta. Tanto, que os vizinhos do quarto já fizero recramação dizendo que não conseguem dormir.
     - Nenhum problema. Fico com o quarto, dona Vitalina! Eu quero é dormir!
     Ela leva o viajante pro quarto, acorda o roncador, apresenta-os um ao outro e eles vão dormir.
     No dia seguinte, o vendedor chega ao refeitório para tomar café e, contrariando as expectativas, está bem disposto, alegre e assobiando “encoste tua cabecinha no meu ombro e chora!...”. Vitalina, com curiosidade, pergunta:
     - E aí, deu pra dormi?
     - Dei nada, dona Vitalina! Dormi assim mesmo! Aliás, dormi foi demais da conta, sá!
     - Mas os ronco do home num trapaiaro?
     - Nada! Ele não roncou nem um minuto. Nadica de nada!
     - Nepussive, sô! Quecocefez?
     - Bom, foi simples, uai! O sujeito já dormia, mal entrei no quarto. Aí, a primeira coisa que fiz foi me aproximar da cama dele e beijar sua bunda dizendo: - "Boa noite, coisinha linda"... O sujeito passou a noite acordado, desconfiado, sentado na cama e me olhando assustado com o rabo do olho...

(Este causo foi, com a devida autorização, surrupiado e adaptado do http://loucurasedevaneios.blogspot.com/ )

21/04/14

HABEMUS SEVERUS ARTHRITIS


     Em dia de pouco movimento no trem de ferro, ia ele, lentamente, como de costume, rumo a Tabuí, carregando uns minguados passageiros. Dentre eles, o padre que iria substituir o vigário, Padre Anacleto, nas suas férias. Ao lado do padre, absorto num jornal, com ares de intelectual, estava um bêbado que chegara cambaleante vindo do carro da frente. Assim que o padre avistou ao longe a cidade de Tabuí, o bêbado, educadamente, puxa conversa:
     - Sô padre! Suscristo!... Com licença!... Hic! Sabe o sinhô o que provoca – hic! - essa tar de artrite que fala aqui no jornali?
     Padre novo, descansado, conversador, ao notar o bafo espantante e represado saindo das entranhas do bebum, resolve dar-lhe uma sutil lição, mesmo sendo redundante:
     - Ah, meu amigo, artrite é doença perigosa... Sabe como ela chega? Pela vida cheia de pecados de alguns, com promiscuidade, sexo desregrado, muito fumo, farras intermináveis, parceiras sexuais variadas e, principalmente, consumo excessivo de bebidas alcoólicas...
     - O bêbado olhou pro padre com olhos arregalados, como quem estivesse duvidando. Abaixou a cabeça e continuou a ler o jornal.
     O padre, por sua vez, achando que tinha pego muito pesado com o bêbado, para não deixar má impressão, resolveu dar uma amaciada e foi a vez dele puxar conversa:
     - Há quanto tempo o senhor tem artrite?
     - Eu, sô padre? Deus – hic! - me livre! Dominus vobiscum!...Tenho não!... Hic!... Aqui no jornali tá dizeno que quem tem é o papa!... Hic!

20/04/14

SEMANA SANTA


     
     O Joaquim foi escalado pelo Padre Anacleto para fazer o papel do diabo na Semana Santa, lá no salão de festas da paróquia de Tabuí, onde um palco fora improvisado.    
      - Eu, o diabo, padre? Deus vai me castigá!
      - Porcamiseria, figlio mio! Castigaroquê? – Padre Anacleto ficava brabo quando contraditado.
     Na cena em que Joaquim trabalhava, ele entrava voando, num impulso dado por uma corda empurrada por um ajudante de palco. Quase na hora do espetáculo, Joaquim descobriu que o ajudante ficara doente e que fora substituído por outro paroquiano que nem participara do ensaio.
     - Seja o que Deus quisé, meu Deus! – Reclamava o Joaquim, vestido de capeta.
     Na hora da apresentação o paroquiano que substituíra o ajudante de palco, querendo mostrar serviço, exagera na força e joga o diabo muito acima do planejado. Quando o diabo sente a altura nunca atingida nos ensaios e analisa as consequências da queda, grita lá de cima, antes de se esborrachar no chão:
     - Me acode, Senhora da Aparecida!...
     
(Este causo me foi contado pelo amigo José Sallum, de Caxambu-MG)

18/04/14

A PROCISSÃO DESCAMBOU LADEIRA ABAIXO

  Aí o Manezinho, depois de perder as três mulheres, dar fiasco na lama, ficar sem a dentadura, chorar feito menino de cueiro, afinar a voz e perder a inspiração pras emboladas, não agüentava mais.
             - É muitumiação prum fio de Deus, sô!
         O moço resolveu mudar de vida. Primeiro mudou de cidade. Foi pra Tabuí. Em chegando lá, arranjou serviço de sapateiro, começou a tomar da Providência e a freqüentar as missas do Padre Anacleto. Virou homem de muita fé. Pegou amizade com o casal mais santo da cidade, a dona Ivani mais o sô Getúlio e, os três, só falavam de Bíblia. Vez em quando, pra refrescar, Ivani arrumava uns assuntos de umas tais de resenhas e o Getúlio arrancava música caipira chorosa de uma sanfona velha apaixonada. Manezinho até começou a sonhar em montar dupla com Getúlio.
            - Num sesse minha voz fina!...
Chegou a semana santa. Tabuí era toda respeito. Ninguém cantava, ninguém ria, ninguém assobiava, homem não mexia com mulher e a recíproca, dizem, era verdadeira. Providência ninguém bebia.
O Manezinho, na sexta-feira santa, convidado de última hora, influenciado pela conselheira dona Ivani, resolve participar da encenação da paixão que o padre Anacleto organizava todo ano na subida do Morro do Tiraprosa. O grande papel do Manezinho era ser soldado romano carregando um chicote.
Três da tarde, sol de rachar, ia o povo de Tabuí ladeira acima em procissão. Todo mundo lá. Até dona Eunice veio de longe com uma penca de filhos. Coroné Hélio, com os olhos fundos de mal dormidos, tinha saído da toca de recém-casado com a menina Patrícia. Professora Sterzinha segurava numa mão o gêmeo catarrento Pedrim e, na outra, o gêmeo Alvim, com um galo na testa. Os dois, de camisa vermelha e calças curtas listradas de verde e amarelo. Suspensórios azuis. A Eriquinha, com vestido de chita e precata roda, garrada na saia da mãe, ia atrás, limpando com as costas da mão o nariz, que teimava em escorrer, e chutando o calcanhar do Pedrim que só não caía porque grudunhava na mão da mãe. O Dió era o comandante da turma paramentada da Conferência Vicentina. Seu Josafá, dono do Bar Beirão, mais conhecido como Copo Sujo, seguia a procissão trocando, de vez em quando, umas idéias com o prefeito Waldir. Dona Sandra, a endinheirada dona da escola Ateneu, lá do Tapiraí, fez-se presente com um bando de molecas e moleques uniformizados, todos do jardim de infância. Coisa fina mesmo. O fazendeiro Zé Mariano resolveu sair da fila com o nhô Felipe de Paula enquanto tentava fechar um negócio de compra, venda ou troca de garrotes por cachaços. Seu Manoel tava brigando com dona Judite porque esta, distraída, olhando o movimento, trombara nas costas dele, num momento em que a procissão dera uma parada. -"Pois, pois, ó mnina! Não olha por onde anda, opá!". O estudante, futuro médico Chiquinho ia, todo de branco, olhando pro céu e sonhando com o hospital que um dia iria montar em Tabuí. Seu Brioso, cansado de ser lambe-lambe, não perdia, todo orgulhoso, um ângulo bom para, com a sua triplex, fazer a história da cidade. A Lu, chefe da Legião de Maria, puxava as cantigas com a voz mais afinada que surgira por aquelas bandas. O Dalton era o encarregado da matraca. Subia e descia o morro, - enquanto a procissão só subia -, arrancando até um chorinho da matraca sagrada. O André, dono do Açougue Vaca Profana, ia remoendo o pensamento, caçando uma maneira de inventar uma lei para extinguir com a Semana Santa, que acabava com o seu lucrinho, já minguado.
Pois bem. O Manezinho sentou praça na procissão como soldado romano. Junto com ele mais uma reca de soldados, uns apóstolos, umas mulheres, o padre Anacleto e o Jesus Cristo. Era a turma da frente da procissão. Subindo o morro. Suando bicas. O Cristo, um morenão forte, tava quase entregando os pontos, tamanho o peso da cruz. Mesmo assim, ia em frente, puxando o povaréu e xingando o carpinteiro.
 - Carpinteiro viado! Bem que podia ter feito uma cruz de pendão de piteira, mas não. Faz logo de cerne de aroeira!... Disgramado!
 O Manezinho, depois de - mesmo proibido - tomar umas talagadas da Providência pra criar coragem, tá lá atrás do Cristo com o seu chicote. Aí resolve puxar conversa.
 - Anda mais depressinha aí, ô Jesuis!
 Jesus, suando de monte, fedendo inhaca e puto da vida, olha pra trás pra ver de onde vem o atrevimento e quase desmancha o pobre do Manezinho com o olhar. Aí é que aconteceu o reconhecimento. Manezinho descobre que Jesus Cristo é o Rajão, o safado do homem que lhe tomara a primeira e única namorada que tivera na vida. Andou matutando um pouquinho e decidiu, falando com seus botões:
 - É hoje, gente! Esse Cristo me paga!...
 Aproximou-se mais do Rajão e, de leve, assim como que para experimentar a reação, dá-lhe uma chicotada. Rajão estranhou, mas aceitou resignadamente aquilo, sem entender bem de onde vinha. Outra chicotada. Mais forte. Rajão olhou por baixo da cruz, para trás, procurando padre Anacleto para achar uma explicação. O vigário tinha colocado um lenço pra tampar a careca e seguia contrito rezando seu rosário e nem viu o desespero do Jesus Cristo. Mal Rajão vira pra frente, vem outra chicotada. Ardida. Aí é que ele viu e reparou no franzino do Manezinho. Olha pra ele pedindo clemência. “É muitumiação prum fi de Deus, sô!”... A procissão continua. Quase todo mundo em silêncio, absorto em seus pensamentos e orações, alguns rezando contritamente. E, lá na frente, o chicote comeu mais uma vez.
 - Pára com isso, ô mardito nanico dos infernos!
 Quase ninguém ouviu, a não ser o próprio Manezinho, um ou outro soldado, e o Carlão, que fazia o papel do apóstolo Pedro. Rajão cuspia fogo pelos olhos e bafo pelas ventas. Manezinho deu um sorriso amarelo, um tempinho, e lasca sem dó outra chicotada que estalou na poupança quase nua do JC.
A dona Cristina, cozinheira das mais afamadas, dona do restaurante "Garrote Moído", que virou Madalena, estranhou aquela cena fora dos conformes. A Cremilda, que fazia o papel de Maria, a mãe do Homem, também estranhou a afronta ao filho. O Fábio Gomes, o apóstolo João, ficou com um pé atrás ao ver a cena.
Foi aí que desandou tudo. O Rajão, no desespero, jogou a cruz prum canto e pulou pra cima do Manezinho. Este, vendo que correr pra baixo era melhor que correr pra cima, desembesta ladeira abaixo, com o Cristo nos calcanhares. Dona Cristina, adivinhando que era briga, corre atrás dos dois para apartar a desavença, seguida logo atrás por Maria toda desconsolada. Os apóstolos Pedro e João, entendendo tudo, vendo que o negócio ia ficar feio, levantam as saias e correm também para não deixarem ninguém matar ninguém em plena sexta-feira santa. Padre Anacleto, quando descobre que alguma coisa não ia bem, vendo a frente sem o Cristo, levanta a batina até a cintura e se manda atrás dos seis, querendo esclarecimento. Os outros atores, que nem ensaio tiveram, pensando que aquilo era parte da encenação mandam-se também, ladeira abaixo, tropeçando uns nos outros. E o povo, ah, o povo! Assim que os primeiros da procissão dão com aquela correria, vêem o padre Anacleto correndo atrás de Jesus Cristo, começam a se perguntar - o que que se sucede?. E, sem entender nada, tratam de fazer meia volta e desabam também a correr ladeira abaixo. Dona Sterzinha, dona Eunice e a diretora Sandra perderam meninos no meio daquela embolada toda. Uniforme branco de meninos do Ateneu perdeu a cor. Prefeito Waldir gritava "calma, gente!" mas, por via das dúvidas, sem entender o motivo da correria, resolve ligar o motorzinho das canelas ladeira abaixo. Felipe de Paula perdeu-se do Zé Mariano quando tratavam dos finalmentes para trocar umas galinhas magrelas por 10 jacás de milho. Coroné Hélio, no meio da poeirada toda, ficou rodando, meio tonto, e gritando "benhê! Cadê ocê!". Seu Manoel só aí é que parou a discussão com dona Judite, porque um se perdeu do outro, cada qual caçando refúgio para se esconder do perigo iminente. O retratista Brioso foi o único que não correu. Ficou no meio daquela gentalha em fuga, triste, olhando pra sua triplex despedaçada no chão. Foi assim que a procissão se inverteu. No lugar de chegar lá em cima do Tiraprosa, foi parar no barraco do Manezinho. Padre Anacleto chegou a tempo de livrá-lo das garras do Rajão que, com uma mão só, segurava-o pelo pescoço, sojigando-o contra a parede, enquanto seus pezinhos balançavam a meio metro do chão.
(A história completa, chamada “Embolada das Letras”, escrita por três autores, em cinco partes, você pode ler no link http://tabui.blogspot.com/search?updated-min=2006-01-01T00%3A00%3A00-02%3A00&updated-max=2007-01-01T00%3A00%3A00-02%3A00&max-results=5

17/04/14

A PAIXÃO DE CRISTO

   Lá em Tabuí se não houver encenação na Semana Santa, tem briga. É tradição. Tem que ter a encenação pro povo ver, chorar e se arrepender dos pecados. Os fiéis chegam de tudo quanto é canto para prestar sua homenagem ao Filho de Deus, colocar suas orações em dia e contar alguns pecados pro padre Anacleto, quando possível. Naquele ano o vigário resolveu convidar para fazer o papel de Cristo o Pedro Bode, conhecido de todos não pela fé, mas pelo gosto à Providência, a pinguinha da terra.
Pedro foi confabular com o amigo Manuel:
   - Óia, Manel! O padre achô ieu com cara de santo, viu?
   -É não, Pedro! É quiocê tem memo a cara de Cristo, cuessa barbicha e esse oio de peixe morto... Aí a encenação fica mais verdadeira, né?
   Este, o papo dos dois amigos de golo no boteco conhecido como Copo Sujo, do Vadico.      Ensaio que é bom, o Pedro Bode perdeu todos. Mas padre Anacleto não desistia nunca do artista convidado e de uma possível alma arrependida. Queria porque queria o Pedro e ponto final.
   - Manel, vamo faze o seguinte: eu vô, mas ocê tem que í tamém.
   - Í ondé, sô?
   - Ieu vô sê Cristo, se ocê arranjá um papel tamém, uai!
   Mesmo golados, conseguiram arrumar com o padre Anacleto que o Manuel fosse um dos soldados que acompanhariam o Filho de Deus na subida ao Monte das Oliveiras. Manuel tentou escapulir de tudo quanto é jeito, mas não deu. Teve que apoiar o amigo. Às quinze horas da sexta-feira santa, tá o povão se acotovelando na Praça da Matriz, onde providenciaram um “Monte das Oliveiras”. Os dois amigos, morrendo de vergonha, totalmente sóbrios - já que os botecos estavam fechados - não conseguem entender como entraram naquela encalacrada. Silêncio total na praça. Pedro Bode já está crucificado e o soldado Manuel ao pé da cruz, suando frio e com dó do companheiro, com vontade de pedir-lhe perdão até pelos maus pensamentos. Foi aí que Manuel lembrou que, por dentro da cueca, tinha uma garrafinha de pinga para dar coragem. Deu um jeito de, sem que ninguém visse, escondendo atrás de um ou de outro, tomar um gole da cangebrina. Mas e o Pedro, - pensou ele -, cumé que faço para dar uma força prele? Foi nessa hora – de acordo com o “script” - que Jesus Cristo, aliás, Pedro Bode, pediu água:
   - Tenho sede!
   O soldado Manuel não esperou segundo pedido. Pegou a esponja onde devia colocar água para representar o fel e despejou nela tudo o que restava na garrafinha e, com a lança, forçou-a contra a boca do Cristo. As beatas choravam, crianças arregalavam os olhos, pecadores se prostravam, etc. e tals, e o povão revoltado com a maldade do soldado, tamanha a realidade da encenação. Qual não foi a surpresa de todos quando toda a cidade ouviu pelo serviço de alto falante o Jesus, que parecia quase desfalecido, em alto brado:
   - Manel, ô Manel! Mais fel, Manel!!!...

06/06/13

TOTÓ PROPÕE TROCA COM PADRE ARRUDA


Padre Anacleto marcou nova viagem de férias. Foi pra Itália rever a parentalha distante. Quem veio substituí-lo? Padre Arruda, um novato cuja função na diocese era ir de paróquia em paróquia substituindo padres doentes, de licença ou de férias. Só que padre Arruda tinha um problema: os rins. Quase não funcionavam.
Deu num dia em que ele teve que ir à fazenda do Totó do Venâncio para ouvir umas confissões e celebrar missa. Padre Arruda, bem na hora do almoço, resolve trocar um palavreado com o Totó, quase setenta anos no costado.
- Sabe, senhor Totó, meus rins doem demais... Os dois...
- Mas, sô padre, o sinhô nessa idade e já com essas ziquizira?
- É, meu amigo, não sei mais o que fazer...
Totó ficou um bom tempo pensando, pensando. Até que, de posse de uma idéia nova, olhou pro padre e falou:
- Padre, o senhor tá novo, sô! Num tá?
- De fato, senhor Totó, tenho a metade da idade do senhor...
- Pois antão!... E comigo tá quase tudo bão. Os rim funcionano, o fígado tamém. O coração tá feito novo, intestino bão dimais da conta... Só tem um pobrema. Aí eu tô propono uma troca. Eu dou um dos meus rins pro sinhô. E sabe oquecoquero? Um negócio que o meu tá cafenga e que o do sinhô num tem uso. Pinto de padre num tem uso mezzz, né?...

DEFEITO NA JANELINHA


- Alô, minha sogra tá quereno pulá pela janelinha da torre da igreja. Cês pode vim rápido?
- Moço, oncetá?
- Tô aqui na torre da igreja aconseiano ela...
- Aconseiano quem, sô?
- A sogra, uai!
- Ó, cê tem que ligá é pra puliça ô pra prefeitura!... Aqui é da serraieria!...
- Mas é isso mezzz, sô! É qui a porra da janelinha num qué abrí...

A MÁQUINA MILAGROSA

Gerardão sai lá de Tabuí para conhecer a capital junto com a mulher e mais dois filhos. Chegando a Belzonte, começam a passear pelo centro da cidade vendo aquela carraiada, os prédios grandes demais da conta, ruas entupidas de gente, muito vidro, muito poste e muita luz.
Numa certa hora Gerardão deixa a Zulmira descansando num banco de uma praça com o filho menor e sai apreciando mais coisas com o Zequinha, de 12 anos. Resolvem entrar num prédio pra conhecer o que tinha lá dentro daquele trem e ficam os dois espantados de ver tantas luzinhas piscando em volta de uma caixa grandona e queriam entender para que serviria aquilo. Era o elevador.
Enquanto tavam lá, embasbacados, chega uma velhinha loura manquitolando, com uma bengala.Entra na caixa e a porta se fecha atrás dela. Passam uns minutos a porta se abre e sai uma moça loira toda retumbante e, logicamente, sem bengala.
Gerardão não se conteve, deu uma piscadinha pro filho e, à boca pequena, falou:
- Zequinha, vai digero buscá sua mãe, fio!

ONQUIÉ O POBREMA MEZZ?

Terebinto Maricota deu que num dia amanheceu com o intestino preso. Ia lá na privada, no fundo do quintal, fazia força e nada de escapar nada. No dia seguinte, a mesma coisa. E chegou a preocupação.
- Oquecofaço, meu Deus?
Nem pra mulher Maricota teve coragem de falar. Vergonhento demais da conta. Resolveu conversar com seu compadre João Pelota, colocando-o a par do problema.
- Ó cumpade Maricota, acho que cê tem que í no médico, sô! Causdiquê isso daí pode dá um revertéro e í pu cébro... Já pensô, cumpade? Essa merdaiada toda na sua cabeça?
Aquela conversa deixou o Terebinto pronto pra ver o médico lá em Bambuí. Foram os dois. Entraram juntos no consultório para o Terebinto criar coragem. Médico japonês, o doutor Shidoe Eukuro.
- Ó, seu Terebinto Maricota o senhor leve este supositório e vai aplicar no ânus, ao chegar em casa. Certo?
- Certo, dotô!
Os dois compadres pegam cada qual seu cavalo e voltam pra casa. No meio do caminho, com a metade da vergonha já deixada pra trás, o Maricota pergunta por João Pelota:
- Cumpade, cê sabe o quié esse tali de ânus?
- Uai, sô! Sei não. Pensei quiocê sabesse!...
Voltaram pro médico Shidoe Eukuro. Humildemente bateram na porta e perguntaram:
- Cumé mezz dotô qui é pa tomá esse trem?
- Seu Maricota, introduza no reto, entende? Bem lá no fundo!...
Sendo tudo entendido, pegaram seus cavalos e se mandaram pra casa. Mas, no meio do caminho, a grande dúvida:
- Cumpade, o que quié reto?
- Sei lá, home de Deus! A doença é sua, ocê qui tinha qui sabê! Uai!... Bamo vortá lá de novo!
- Eu, cumpá Pelota? Nunquinha que eu vorto! Vai que ele fica nelvoso e mandáieu colocá isso no rabo? Rummm!....

GATINHO QUER LEITINHO

Sandoval tinha chegado da Bahia fazia pouco tempo. Mas logo assimilou usos e costumes de Tabuí e tornou aquela sua terra, mais da mulher, a dona Maroca, e dos quatro filhos. A exceção foi para a fala. Fala de baiano mesmo.
Num certo dia entra a família toda no trem de ferro para conhecer aquele negócio e darem uma chegada ao Bambuí. Bem no dia em que vinha no mesmo trem um bando de estudantes que, quando em grupo, quase sempre ficam maleducados, cada um querendo fazer mais gracinha que o outro.
Esqueci-me de dizer que a dona Maroca era, como dizem os baianos, um pitéu. Uma mulata bonita e encorpada. E, como o filho menor começou a chorar, Maroca, sem nenhuma cerimônia, tirou o peito pra fora e ofereceu-o à criança. Só que o menino parece que tava sem apetite e continuava o choro.
O Sandoval começou a ficar implicado com aquele berreiro e gritou para a mulher que estava num banco mais pro meio do vagão:
- Dá leite pra esse muleque, mainha!
- Mas ele num tá quereno, home de Deus!...
Essa foi a deixa pros estudantes iniciarem as brincadeiras de mau gosto. E começaram, assim tampando a boca, de forma que ninguém sabia quem estava falando:
- Miau!... Miau!... Miau!...
E houve até quem reconhecesse a origem da família pelo sotaque e gritava do outro lado:
- Meau!... Meaus!... Meaus!...
Sandoval não aguentou a provocação. Tirou de dentro de uma sacola um baita facão, brilhoso e de corte cantante e foi lá pra onde estavam os estudantes.Batia o facão no piso do vagão e gritava:
- Xanim!... Xanim!... Xanim!...

Sumiram os gatos na mesma hora e a turma só não pulou do trem porque ele estava à velocidade espetacular de 20 quilômetros por hora.

O CAIPIRA E OS CAVALOS


  Certa vez, vinha o Lidio trotando, em seu velho cavalo de tantos anos de lida, pela estradinha poeirenta que atravessava seu sítio, no cumprimento diário de faina de vistoriar a lavoura e apartar o gado. De repente aparece atrás dele, em alta velocidade, um carro de uma montadora estrangeira, recém-saído de fábrica e, ao volante um pleiboizinho que veio lá de São Paulo, exibia sua performance de motorista.  Freou o possante ao lado do cavaleiro e disse:
 - E aí, seu Zé. Aonde vai com este pangaré? Não quer trocar por 350 cavalos que eu tenho aqui?
  E, acelerando, deixou o Lidio comendo poeira. 
  A cem metros dali, a estradinha fazia uma curva que desembocava numa ponte sobre o córrego dos Castilhanos.
Sem conseguir fazer a curva e derrapando no cascalho, o carro foi lançado de bico no córrego. Quando, dali a pouco, chegou o Lidio, ele parou o cavalo no meio da ponte, deu uma tragada no cigarrinho de palha e interpelou o motorista:

 - E aí, Seu Moço, resorveu dá água pa tropa?

(Causo recolhido e enviado por Joaquim da Silva Junior, de Carmo do Rio Claro-MG)

26/05/13

PANEM ET CIRCENCES


Numa noite de muito calor e tempo abafado, tá lá o circo - fuleiro como todo circo que chega a Tabuí – lotado de neguinho caçando diversão. Povim baixou em peso para conhecer os tais dos leões, a grande novidade que a empresa “Panem et Circences” apresentava, segundo os anúncios, nas cidades mais importantes do país.
Pois naquela noite até o Careca da Jupira foi ver o trem para conhecer um leão. Careca, é bom que se esclareça, usa muletas, pois que nascera deformado das pernas e andava com dificuldade.
Na hora do espetáculo, os leões, tão apregoados, eram apenas dois. E não é que o domador comete o desarranjo de deixar escapar um deles da jaula? Cêis não imaginam o alvoroço que foi. Gente correndo pra tudo quanto é lado, uns subindo nas tábuas da plateia, outros trepando naqueles paus fincados no picadeiro, um bafafá nunca antes visto praquelas bandas. Menos o Careca, que, pequenino, mais conhecido como o aleijadinho, ficou esquecido por todo mundo. O leão, a dois metros dele, abria o bocão e passava a língua nos beiços, pronto para uma carne fresca.
As pessoas que estavam mais ou menos a salvo, vendo a iminência de uma tragédia maior, preocupadas com o aliejadinho, começaram, com desespero, a gritar:
- Óia o alejadinho!... Óia o alejadinho!!!...
Cada qual querendo que aparecesse alguém para salvar o Careca. Só que ninguém se atrevia a ir lá, com medo de colocar o pescoço em risco.
O Careca da Jupira, entendendo de forma errada a situação, ficou foi puto da vida, naquele risco iminente de ser devorado. E, numa hora em que a turba diminuiu o berreiro, ouviu-se o seu grito de desespero:

- Cambada de fedaputa! Calaboca!... Dexa o lião ô menos iscoiê, uai!...

PAPO DE COMADRES


Duas amigas, com muita quilometragem rodada, encontram-se após alguns anos de separação e trocam confidências na pracinha de Tabuí, assim bem sentadas no banquinho:
- Cumé cocê tá, sá?
- Tintiano, cumade Lilica... Tintiano. E a famiage vai bem?
- Famiage vai bem, sá! Ieu é que ando cumas coisa, cumade Mariana. Lá in casa o trem tá feio!
- O que qui tá feio, sá!
- O Ditão, uai! Niqui chega de noite lá vem ele com aquela mãozona boba!
- Rummm! E daí?
- Daí, sá, é qui eu ando tão sem vontade, cumade Mariana!...
- Ó cumade Lilica, é o seguinte: é só cumeçá a coçá qui o trem vorta, sá!
- Cê acha quié mezzz, cumade?

- Cumade Lilica, muié é iguar qui onça: fica véia, perde inté os dente, mas a vontade de cumê carne num passa não, sá!... 

(Baseado em relato de Luzia Nunes, de Aparecida de Goiânia-GO)

CORRENDO PELADO


Era dia de maratona em Formiga, lá onde mora o conterrâneo Edson Ferreira, mais conhecido como o Palhaço Rachid, e atletas e não atletas de toda região foram competir, querendo ganhar uns prêmios. Até o Marão saiu de Tabuí para Formiga, mas com outro objetivo. Tinha uma namorada na cidade e, como ficou sabendo que o marido dela estaria fora por uns dias, a corrida seria boa desculpa para dar à sua mulher e encontrar a outra amada. Passou uns dias treinando e na sua casa só se falava em maratona.
Bem na hora da corrida, chuva lá fora e Marão no quarto, nos braços da amada, quando, de repente, ouvem barulho.
- É meu marido, Marão! Pega sua roupa e pula a janela digero!... Corre home de Deus!...
Marão fica indeciso. Corpo quente da refrega, não queria tomar chuva no lombo. Mas ante a premência da situação, pensando em revólver, facas e facões, não teve jeito. Pulou a janela e caiu direto no meio dos atletas, em plena corrida. Como quem estivesse participando, Marão corre, acompanhando a turma que o olha de forma estranha. Foi quando um corredor, não resistindo à curiosidade, pergunta:
- Uai, cê corre sempre assim, pelado? – Marão se contempla e, sem graça, responde:
- Sim, colega! Gosto de ficá mais livre, uai!...
Outro corredor, para completar o assunto, aumenta o passo e entra na conversa:
- Mas pra mode quê ocê corre pelado e carregano as ropa?
- Uai, sô! É causdiquê ieu gosto, uai!...
Um terceiro corredor emparelha com os três e também entra na conversa:
- Mas ocê é muito engraçado, sô! Correno pelado, carregano as ropa e com uma camisinha aí no documento!... Ocê faz isso sempre?

       - Faço sempre não, sô! Só quando chove!... 

(Baseado em texto enviado pelo amigo Gilberto Nogueira de Oliveira, de Nazaré das Farinhas-BA)

CRAVOS ZACARIA


Zacaria montou em Tabuí uma fabriqueta de cravos. Trem da melhor qualidade. Só que você talvez nem saiba o que é esse negócio. Cravo é um prego rústico, de tamanhos variados que, lá no interior, é usado para botar ferraduras em cavalos, montar as rodas dos carros de bois, pregar as dobradiças das porteiras e portas antigas, fixar os trilhos da linha de ferro nos dormentes e por aí a fora. O período mais famoso dos cravos foi no tempo dos romanos, quando eram usados para prender os crucificados à cruz.
Pois bem. Zacaria começou a fabricar os ditos cravos e logo tava vendendo pra toda a região. Aí, depois de ler uns manuais de publicidade, resolveu que era possível vender muito mais. Encomendou um cartaz grande, com o Cristo crucificado, que pregou num painel, bem à entrada da sua fabriqueta, onde se lia “Cravos Zacaria: dois mil anos de garantia”!
Padre Anacleto logo baixou na fábrica do Zacaria. Com o argumento de “questo non se faz, figlio mio”, convenceu o empresário a retirar a propaganda do cartaz. Zacaria obedeceu ao padre Anacleto. Mas como achava a ideia muito boa, resolveu insistir e mudou um pouquinho o projeto. Mandou fazer outro cartaz, com a cruz fincada e o Cristo ainda no chão. No cartaz escreveu: “Com Cravos Zacaria, Cristo não cairia”.

Nem um dia durou a propaganda e padre Anacleto baixou lá. Conversa vai, conversa vem, excomunhão daqui, excomunhão dali, Zacaria foi novamente convencido a retirar do cartaz a propaganda conforme estava. Mas era teimoso. Voltou à carga. Já que o vigário não queria a figura do Cristo envolvida, Zacaria mandou fazer um desenho apenas da cruz. E, embaixo, mandou escrever: “Com Cravos Zacaria, Cristo não fugia”.

(Baseado em texto da Internet)