27/04/2008

Aqui o buraco é mais embaixo

Zeca da Esmeralda vivia pra baixo e pra cima medindo rua. Fugia do trabalho igual diabo da cruz. Andava de cacete às costas, procurando quem inventou o serviço, para matá-lo. Vivia do dinheirinho que a mãe ganhava lavando roupa pra quase todo mundo remediado de Tabuí. Zeca usava umas roupinhas surradas, nunca de acordo com a moda. Sempre na rabeira. Só os cabelos é que estavam dentro dos conformes pr'aquelas épocas. Grandes. Um verdadeiro mafuá, onde até piolho pensava duas vezes antes de neles fixar residência. Não podia se dar ao luxo de cortá-los uma vez por ano. Sapatos pés do Zeca nunca tinham tido prazer de encher de chulé. O máximo que conseguiram foi preencher a chinelinha havaiana já com a sola fina de tanto uso. Dentes do Zeca da Esmeralda, uma cacaria de dar dó. Cada um, uma cratera cheia de dor. Raspas de casca de goiabeira é que davam certo alívio. Banho? Só quando chovia. E a seca na região tava braba. Por isso e muito mais, o cheirinho do rapaz era tão suave quanto cheiro de gambá com depressão. O moço era feio... Mais feio que vira-lata quando briga na carvoeira.
Mas Zeca não era dono só dessas qualidades não. Tinha mais. Era cantador. Cantador dos bons. Abraçado a um violão, dedilhando as cordas de aço e soltando aquela voz aveludada, já fez muita moça de Tabuí suspirar profundo em solitárias noites de serenata. E o rapaz já emprestara, dentro do confabulamento, sua voz afinadíssima pra muito garanhão das redondezas. Daqueles que queriam agradar à presa cantando, embaixo de uma janela, altas horas da madrugada, sem ninguém ver. Zeca da Esmeralda ligava muito pra esses detalhes não. Por isso era dono de tantos segredos e sabedor de tantas paixões proibidas. Bastava-lhe a pinguinha para esquentar o peito e molhar a goela. Tinha nada no coração que o incomodasse e seu pensamento era mais leve que vôo de tiziu. Zeca não conhecia mulher. Nem a Zildete que satisfazia todos os homens sem mulher - e até com mulher - da cidade. Sua maior preocupação, em se tratando desses assuntos, era com as mãos que de repente poderiam ficar cabeludas.
Mas um dia Zeca mudou. O amor bateu naquele peito bruto. Ele que nunca amara, que não tivera ainda olhos de mulher presos nele, começou a sentir negócio estranho no coração. Um embondo gostoso tomando conta, chegando sem avisar... E quando viu, estava preso por laços de paixão.. Não era amor qualquer não. Por sirigaita de canto de rua não. Era amor por gente fina. Moça prendada. Cheia de grana e de bois. Filha de fazendeiro. Donzela se encantara com a voz do moço, com seus olhos carentes e a conversa fácil. Encantamento mútuo.
A paixão foi tanta que Zeca, contra todos os seus princípios, arrumou emprego de cidade. Dos mais finos de Tabuí: auxiliar de contabilidade. Cortou cabelo à escovinha, rapou barbicha e aparou as unhas. Até botinas rangedeiras, compradas no fiado, passaram a enfeitar seus pés embora sobrasse muito vago nas pontas... Nem de chuva precisava mais para tomar banho. Começou a ter cheiro de gente. Roupinha mais ajeitada. Chegou a sugerir à mãe juntar umas economiazinhas para colocar uma dentadura naquela sua boca dolorida.
- Zeca, só topo namoro se ocê falá com o pai! E ocê só faz barro na porta lá de casa se ele dé consentimento!
Aí Zeca resolveu mostrar que era rapaz sério e cheio de boas intenções. Tinha que agradar à moça de qualquer jeito, fazer bonito pro pai dela e conquistar a sogra. Tudo de uma vez. Em Deus ajudando o casamento tava no papo e a vidinha com futuro ajeitado. No domingo levantou cedo e, cheio de coragem, vestiu a roupinha de ver Deus: calça rancheira, camisa volta-ao-mundo... De botinas foi à fazenda conhecer sua futura propriedade e pedir a danada da autorização para o namoro. Ligeirinho, que nem peba pisando em areia quente. Mas quanto mais perto da fazenda, mais a coragem ia minguando.
Chegou mais suado que tampa de chaleira e a primeira pessoa que encontrou foi a futura sogra. Gorda igual melancia bem adubada. Velha. E calada, mais calada que sino em semana santa. Mas quando Zeca viu o candidato a sogro, aí deu vontade de achar um buraco para tafuiar e nunca mais aparecer. Velho sistemático, com cara de quem amanheceu espirrando canivete, encarou o rapaz de alto a baixo, desde a ponta do cabelo desobediente até as botinas com o bico empinado, passando pelos caquinhos de dentes enfeitados de meleca, o bigodinho meio torto, a camisa mal passada e o cinto de couro cru furado a ferro quente. Rapaz tava mais perdido e sério que cachorro vira-lata dentro de canoa. Mais magro que gato de tapera. Tudo o velho viu num relance enquanto enrolava o bigodão com o polegar e o indicador da mão esquerda. Mãozona direita de vez em quando ajeitava o cabo dum trabuco meio escondido entre as banhas da cintura. Ninguém por perto. Amada lá fora, no alpendre, esperando com ansiedade as boas notícias.
- Qual é sua graça rapaz? O que ocê faz rapaz?
Foi o que primeiro quis saber de supetão o dono da propriedade, o sonho do Zeca da Esmeralda. Este, sem muito desconfiômetro, até meio animado com o tom das perguntas, satisfeito por ter sido o velho a começar a conversa, recobra um pouco as forças perdidas e responde com certo orgulho no peito, abrindo-se que nem livro de missa:
- Eu sou o Zeca, uai!... Aliás, José Cristóvão!... Antes eu só vivia de zonzeira, agora tô num escritório. O escritório de contabilidade!... Lá em Tabuí!
- E a bufunfa? Enche o bolso? É salário compensatório? Quanto ganha?
- Óia, sem necessitá carecê de muita sinceridade, num é pra mim gambá não, mas ganho o salário mínimo sim sinhô!...
- Puta que pariu! Salário mínimo? Salário de fome? Se manda, pé rapado! Tem autorização minha não! Nem quando galinha ciscá pra frente! Essa merreca não dá nem pra comprar o papel higiênico que ela usa!
O velho estava nervoso demais, até cuspindo na carinha vermelha do rapaz. Zeca saiu fungando igual pinto com gogo, cego de raiva, chutando até a sombra. Humilhado. Ao passar pelo alpendre, vê a moça esperando ansiosa, com olhos perguntativos, pela resposta do consentimento. Olha-a com desdém, levanta uma sobrancelha, faz covinha no rosto e tasca o maior xingamento que lhe foi possível no momento:
- Sua cagona!!!
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