14/09/2008

A Sogra do Zé do Zóio


Vida mansa. Um dia comia bem, outro mal, mas não reclamava. Tintiando sempre. Maior trabalho era buscar lenha, ali mesmo no mato do corgo, pra fazer o de comer. No pensamento, homem conformado.
- Levo vidinha simprória quisoveno, cuessa muiezinha feia quinté dói, mas que foi meu Deus quem me deu, uai!...
Mulher também não reclamava da vida não. É baxo! Feia de cara, mas muito boa pessoa. Tinha dias que Zé do Zóio tirava para dormir. Noutros, para contar as moscas varejeiras que chegavam no seu terreiro, atrás do mau cheiro deixado pelos restos de peixe que a mulher jogava em qualquer canto. Era o que naquela casa mais se comia. Dava pouco trabalho pescar. Foi de tanto contar moscas e segui-las no seu vôo pra lá e pra cá, - dizia o povo -, que ele ficou com o olho torto e ganhou o apelido. Em resumo, a gente pode dizer que Zé do Zóio vivia quase tranqüilo na sua casinha, de pau-a-pique e chão batido, na beira do corgo, ao lado da estrada.
Vivia. Porque, depois que ganhou na loteria, com aquela tantada de dinheiro, vida só mudou. O terreninho em volta da casa virou fazenda da melhor qualidade. A casa continuou no mesmo lugar, só que toda incrementada, grandona, de tijolo e telha e muito colorida. Encheu a fazenda de boi, porque não queria nem pensar em puxar enxada mais não, comprou jipe e carro fechado, último tipo, pros passeios com a patroa. Mandou até buscar a sogra pra participar da fartança.
Foi nessa quadra que apareceu o Godofredo, o amigo da onça lá da cidade, com a pergunta mais esquisita prum cristão não muito convicto.
- Izé, cê já tem uma amante?
- Ãhn?... Ieu? Quequéisso?... Tenho não, sô! Tenho vergonha dimai da conta!...
- Ó, Izé... cê é um home rico e todo home rico tem uma amante, asveis até mais de uma, sô! Cê já pensou ter uma menina nova só para fazer as suas vontade, tudo no escondidinho?!....
O Zé do Zóio ficou parafusando, pensando naquilo, como havera de ser. Teve até dor de cabeça. Durou tantico de nada, deu jeito de voltar à cidade e foi atrás do Godofredo para assuntar mais daquele trem. Foi batata.
- E aí, Izé? E a amante?
- Amante? Tem quem mi qué não, sô!
- Tem sim, rapaiz! Cê quessa grana toda, basta querê... já pensou uma menina nova esperano ocê de braços e pernas abertas e aquela quentura quisó?...
A semente, pelo Godofredo, fora relançada. Zé do Zóio ficou mais vesgo, engoliu em seco, quase teve engasgo e suava frio enquanto enfiava as mãos nos bolsos para esconder protuberânciazinha que, decadente, ressuscitava. Passou semana sem dormir direito até que, na tarde do sábado, arranjou desculpa para ir sozinho à cidade. No carrão. Lá num boteco do canto suspeito de uma rua suspeita, mira nos olhos da primeira sirigaita que lhe pareceu ajeitada.
- Cê me dá uma arruela de proseio, moça?
E ajeitou namoro escondido, com promessa de montar casa. Naquela noite a mocinha, agradecida, fez Zé do Zóio, dentro mesmo do possante, ver estrelas, sair do atraso e ficar de quatro, apaixonado.
- Ai, meu Deus, ela é cherosa cumas frô da noite!... Mai qui belêzz!...
Voltou tarde da noite para casa e fez como no filme da televisão. Tirou botinas para entrar no quarto, onde Maria roncava, a fim de não fazer barulho, deitou-se e dormiu como um anjo, sonhando com a namorada e com o pinto ardendo, de tão esfolado.
No domingo cedo, Maria quer porque quer ir com a mãe pra missa.
- Izé, vão pra igreja pramodi ovi missa!
O Zé, mal tem tempo de tirar a remela do olho e pisa fundo no acelerador do possante que sai trepidante estrada esburacada a fora. Mulher na frente, sogra atrás. Foi aí que Zé do Zóio viu, num relance, com o olho que olhava escanteado, o sapato vermelho de mulher, aparecer debaixo do banco da Maria. O homem teve batedeira, ficou branco, roxo e vermelho e começou a suar frio. O pensamento indeciso e confuso impedia-o de achar uma saída. Remoia as idéias na cabeça e nada. Até que viu o cachaço, dos mais bem nutridos, à beira da estrada, cheirando as coisas de umas marroas e não teve dúvida.
- Muiés! Óiem o cachaço do cumpade Belarmino... que belezura!...
Foi a deixa. Enquanto Maria e sogra olhavam pro lado da porcada, o Zé pegou o sapato que achava ser testemunha da sua noite de orgia, e, feito um raio, pinchou-o no mato, riso maroto e suspiro aliviado. Ao chegarem à igreja, todo cerimonioso, abre a porta pra Maria descer e vão subindo a escada. Como a sogra não os acompanhava, param e ficam esperando, esperando...até que não deu mais. Zé perde a paciência, não agüenta e grita pra velha:
- Ô dona Ermê, anda digero! Sinhora vai ficaí? Vem pa dem da igreja!
A velha, vermelha, afobada, abafada, suando e em posição incômoda, quase de quatro, ainda dentro do carro, responde, com um sapato vermelho na mão:
- Ó, Izé, péra um cadiquim, home! Tô percurano meu otro sapato e num há meio de achá o trem, sô!

16 comentários:

New disse...

Oiêee!
Que bom que voltou com a corda toda. Adorei o causo. Alías, como sempre.
Eu tb ando meia enrolada por aqui e não tenho postado como gosto e deveria. Mas, se estamos todos vivos e produzindo, menos mal, não é?
Apareceça sempre que puder e eu farei o mesmo.
Qto ao blog, obrigada mas sei que fico muito colorido. É por conta do astral quando o montei. Se enjoar logo dou uma limapda nele... rsrsrs...
Beijocas.

Coelho Sem Orelhas disse...

Olá Eurico. Sim, eu gostaria de fazer uma parceria com o seu blog. O que devo fazer? criar um banner ou apenas troca de links?

www.mirzesouza.blogspot.com disse...

Maravilhoso! Nunca vi nada tão autêntico. Conheço e passei dois meses seguidos nas Gerais, senão, iria precisar de dicionário. Lembro de meu primeiro dia em Belo Horizonte, quando a vizinha da minha filha reclamou que a filhinha dela de dois anos comia "tudo que é trem". Minha única reação foi: MEU DEUS! Aí ele começou a me ensinar o que era trem e outras coisas.
Eurico, você em prosa, surpreende!
Adorei e voltarei para ler mais. Muito Bom MESMO!

Parabéns!

Abraços

Mirze

Berenice disse...

Eurico,
me divirto com seus causos. Demais de bom! Adoro este palavreado típico. Aqui em Pernambuco temos um palavreado também característico. Já postei uma vez sobre isto, dá uma olhada:

http://blogdaberenice.blogspot.com/2007/06/vamo-fazer-um-fu-se-algum-que-voc-ama.html

Abraços,
Berenice

Eurico de Andrade disse...

New, obrigado pelo seu comentário e pelo seu carinho. Como sempre, vc é uma mãezona, sempre dando atenção à reca da filharada. Então, vamos em frente que atrás vem gente, né memo?

Eurico de Andrade disse...

Ao Coelho sem orelhas, informo que o Tabuí está aberto a parcerias sim. Na primeira página do blog, na coluna à direita, coloquei as instruções. É só vc colocar o banner de Tabuí e me mandar o seu ou o link. Aí, é negócio fechado.
Abração.

Eurico de Andrade disse...

Mirze, quando vc ler todo o Tabuí, de cado a rabo, vai estar craque no mineirês. É um modo de falar acaipirado sim, mas atrai simpatias demais da conta. Não afasta as pessoas. Prestenção, viu?

Eurico de Andrade disse...

Berenice, obrigado pelas suas palavras. Contudo, quando estive em Recife, já umas duas ou três vezes, me encantei com a maneira de vocês falarem. Falam bonito demais da conta! Acho que depois do falar do mineiro, o que mais gosto é do falar dos pernambucanos, aliás, das pernambucanas.

Leila disse...

Sossegue, mestre!
Falei de ocê lá no site do Lima. O poeta comemorou o milhão de acessos. Depois veja lá se tratei o amigo direitim, viu? Aceito reclamações.

Eurico de Andrade disse...

Pessoal! Vejam o que a Leila escreveu no site do Lima Coelho:
"E o homem de Tabuí, S'Eurico? É como se visualizasse, ao vivo e em cores, nossa gente caipira com seus cigarros de palha, contando seus causos na maior das simplicidades, como gostaríamos fossem simples nossos modos de viver."
Não é um amor essa menina! Quem puder dar um pulinho lá e ler a crônica toda, vai se cansar de ler coisa boa. A crônica da Leila chama-se "O grande mentor do Maranhão & receita de felicidade" e o endereço é http://www.limacoelho.jor.br/vitrine/ler.php?id=1951#comentarios
Valeu, Leila! Brigadim por mim e por Tabuí.

Andrey disse...

Caro companheiro Eurico Andrade, não entendi as suas insinuações tendo em vista que a sua publicação foi feita em 11/09/2008 enquanto a minha foi em 28/01/2008. Adimito que esse texto foi publicado após ter recebido por e-mail enviado por um amigo meu e tambem esta com título diferente. Se o Senhor, baseado na data de sua publicação, insiste em dizer que o texto foi sua criação só tenho a pedir desculpas. Porem nada me obriga a registrar a sua autoria diante de fatos que não me provam a veracidade dos seus argumentos.

Sds,

Andrey Lima.
http://andreylima.spaces.live.com/

Eurico de Andrade disse...

Prezado Andrey Lima,
Na verdade esse título "O movimento do trem" , do qual não gostei, diga-se de passagem, foi colocado pelo site da revista Globo Rural (http://globoruraltv.globo.com/GRural/0,27062,LTN0-4375,00.html). O título verdadeiro mesmo é "Apareceu emprego no Sertão", como vc pode ver em vários cantos da internet. É só você ir no Google e digitar esse título que aparecerão muitas páginas que já publicaram meu causo. E vc vai ver que quase todas as publicações são de alguns anos atrás. Se você for em http://www.vaniadiniz.pro.br/causosmineiros1.htm verá uma boa coleção de causos meus, inclusive este. Mas o que vale mesmo é que todos os meus causos e outros textos estão registrados na Biblioteca Nacional, o que me permite revindicar o direito autoral.
Mas não quero briga não, meu companheiro. Só queria pedir-lhe que dê o direito a quem o tem. Vc pode ver, pesquisando pela internet, que tenho muitos textos publicados em sites e blogs diferentes. Dou graças a Deus por isso. A única coisa que peço é que coloquem nome do autor e o nome do meu blog, além da amizade de quem me divulga. Nada mais. No seu caso, entendo que vc tenha recebido o texto de outra pessoa que não respeitou os direitos do autor. Tudo bem. Agora é só corrigir. E ficarei grato se você quiser colocar outros textos meus no seu blog que já andei lendo e ao qual quero voltar novamente, como amigo e ambos como admiradores e seguidores de alguém muito maior.
Grande abraço.
Eurico de Andrade
http://tabui.blogspot.com/

Eurico de Andrade disse...

OPS!!! Na mensagem anterior, onde está "revindicar", lei-se reivindicar. Que vexame!!!

Leila disse...

Prezado, você me deu uma dica maravilhosa. Não me importarei nunca de ser plagiada, como já fui, tanto no que trata das idéias, quanto nos textos. Me importa, sim, ser acusada de plágio. Aí eu viro bicho, meu santinho!
Vou ver como registro minhas "preciosidades". São feinhas e apenas minhas. Estou certa?
Grande abraço.

Eurico de Andrade disse...

Leila! Acho que devemos ter o cuidado de registrar nosso trabalho na Biblioteca Nacional. Aí, se vc for copiada ou plagiada, tem como reclamar, inclusive do ponto de vista legal. Olha, nunca me importei de ceder textos para uma grande variedade de sites e blogs e jornais e revistas e livros... Fico feliz com isto, desde que respeitem os direitos autorais, isto é, que citem o nome do autor e de onde foi tirado. Fico bravo é quando acho textos meus por aí a fora (e olha que isto é muito comum) sem constar nome do autor e fonte. E algumas vezes quem publica se faz de autor. E pensar que passo dias e dias, até meses para concluir um causo... Assim não dá, né?

Anônimo disse...

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