29/12/2010

Namoro em Tempo de Frio


     Zé Mané sai de Tabuí. Baile na roça. E arruma namorada. Fazendeirinha bem ajeitada, novinha, limpinha e cheirosa. Moça muito distinta e recatada.... Tantos predicados deixaram o Zé na maior paixão.
     - Se ocê quisé memo namorá ieu tem que falá com o pai.
     O rapaz fica desanimado. Mas depois de alguns dias, várias noites sem dormir, conclui com seus botões:
     - Ela é moça boa demais da conta. Vô lá resorvê o pobrema.
     Mandou recado. Vestiu a melhor roupa, calçou botina gomeira e foi rever a paixão e enfrentar o velho, futuro sogro. Andou horas e horas até chegar ao destino. A família recebe bem o nosso Zé Mané. Velho pega na mão, bate nas costas, velha o chama de meu filho, paixão fica segurando sua mão e as três irmãs se derramam em sorrisos. Tudo era ânimo. Os dois apaixonados combinam, num momento em que conseguiram ficar a sós, que a conversa de homem pra homem seria no dia seguinte, na hora do almoço.  
     Tudo muito bem, tudo muito bom, noite chegou. Era junho. Tempo de frio. O Zé, como não previa passar a noite em casa alheia, nem uma blusa trouxera.
     - Tô sentino frio não, gente! Sô assim memo, num sinto frio!
     A desculpa não colava, mas o rapaz não queria dar o braço a torcer. O negócio era impressionar. Queria dar uma de macho e, no seu conceito, macho que é macho não sente frio.
     A moça mostra-lhe o quarto e leva-lhe cobertores.
     - Não, amô! Carece disso não. Nem lençor eu uso! Durmo só de cueca!
     Donzela ficou corada ao ouvir essa palavra de baixo calão.
     - Mas assim cê intangue, bem!
     - Que nada. Tiau, amô! Té manhã!
     Zé Mané fica sem os cobertores tão quentinhos. Tira a roupa e, para honrar a palavra, fica mesmo só de cueca esperando o sono chegar. Mas o frio tava brabo e ele, tremendo, não consegue pegar no sono. Rola pra lá e pra cá, com raiva da sua burrice, até que se lembra do monte de palha de feijão lá no terreiro da sala. Pula a janela e tafuia dentro do monte pra afugentar o frio que lhe entrava até os ossos. E, de fato, lá embaixo tava tão quentinho que ele dormiu sono profundo. Tão profundo que o dia amanheceu e ele nem tium. Continuou lá, encoberto, só com a ponta do nariz num buraco por onde entrava o ar. Lá fora, tudo gelou por causa da geada que chegara de madrugada.
     O pai acordou, mãe também e as quatro filhas. Sol mal dava as caras.
     - Bamo lá botá fogo na paia de feijão pra mode a gente esquentá, mininas? Chamou o pai.
     E lá se foram e meteram fogo sem dó nem piedade na palha de feijão. O fogo rodeou o monte, pegando com certa dificuldade, pois tava meio úmido devido ao orvalho. Por isso o fumacê que começou a sair dali não tava no gibi. E aquela fumaça foi entranhando pro meio do monte e o calor do fogo também. O Zé Mané, ainda dormindo, começa a ficar prejudicado pela fumaça e pelo calor. Sufocado e suando, acorda. Sem entender nada, o instinto de sobrevivência avisa que ele tem que cair fora. Assustado, dá um pulo, fica de pé levantando cinza e fumaça e o fogo começa a chamuscar-lhe a pele. Zé Mané sai correndo empretecido, quase pelado, só de cueca vermelha desbotada, levando junto um canudo de fumaça e fogo. As moças, cada uma mais santa e donzela que a outra, são pegas de surpresa e não entendem nada. Nem reconhecem o moço. E vendo aquela figura estranha e inesperada saindo do meio do fogo, caem de joelhos, prontas para rezar, pensando estar vendo coisas do outro mundo.
     - É o demônio! - Gritou uma.
     - É o capeta, mãe! - Gritou outra.
     - Livrai-nos Deus, Nosso Senhor! - Berrou a mãe.
     Zé Mané nem no quarto passou. Cheio de vergonha, ainda sem entender direito o acontecido, se mandou estrada a fora e só foi descobrir que estava nu ao entrar em Tabuí, sendo vaiado por um bando de moleques.
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