04/09/2014

OS SERESTEIROS DA RUA


   Serenata todo mundo canta, todo mundo toca. Mas nunca quinem Garrolê e Cotó. Nomes estranhos, mas todo mundo sabia causdiquê. Cotó não tinha a mão esquerda – cortada pela maria fumaça em dia de esbórnia, quando ele dormia em cima da linha do trem. Mas cantava feito um sabiá, assim quando apaixonado. Garrolê, o tocador de violão, era um filósofo devorador de livros. Foi por isto que um dia passou mal. A mãe contava que ele a desobedeceu, depois de ter comido cinco pratadas de feijoada e foi ler um livrinho.
  - Aí garrolê o livro caqués letrinha miudinha e passô mar. Dimais da conta!..
   E “garrou a ler” virou Garrolê. Substantivo próprio.
Pois Garrolê e Cotó tavam numa madrugada fria soltando o verbo, bem ali no começo da subida da Rua do Tira Prosa. O primeiro tocava seu violão enquanto o outro, por ser maneta, batia o pandeiro na perna. E os dois cantavam acordes dissonantes. Cada um querendo mais agradar à princesa que dormia a sono solto na sua caminha virginal, sem nem imaginar que era homenageada pelos dois bebuns. Cantaram tanto que até roucos ficaram. E o efeito da canjebrina, supitando as mentes. O Cotó, que tinha também tomado umas três ou quatro cervejas, resolveu que tinha que tirar água do joelho, ali na rua mesmo. Mas tinha se esquecido de que comprara meio quilo de linguiça pro lanche da madrugada. Esquecera também que o bolso tava furado. Naquela sofreguidão de vontade de urinar, não deu outra. Abriu a calça e pegou a coisa errada. Urinou tudo o que tinha direito na roupa e, na hora de dar a clássica balangada, a linguiça quebrou em alguns pedaços que caíram por terra.
   O desespero foi total. Cotó, que cantara tanto pra amada, reverteu o cantar e começou foi a gritar, dando o maior escândalo na rua escura, pensando que tava cotó outra vez.
  - Gente, perdi meu bilau!... Buá!... O meu santo bilau! Buá!... Oquecofaço agora, meu Deus? Bem que minha santa mãe dizia quiessa vida de pingaiada ainda ia acabá em disgraça! Ô meu Deus!...
(Este causo foi escrito com base em relato enviado pelo amigo Joaquim da Silva Júnior, de Carmo do Rio Claro-MG).
©By Eurico de Andrade, in Tabuí e seus Causos https://www.facebook.com/causos e www.tabui.blogspot.com.br/
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