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04/06/2014

NEM TUDO DEVE SER FALADO

     
     Baile no ranchão, assim num canto da praça central de Tabuí. Chega o cabra, com cara de gente da capital, bem apessoado, bom de fala e cheio de boa vontade de arrumar uma namorada. Para isso, cismou de dançar com as moças todinhas que havia no baile. Dançou, dançou e dançou e, quando pensou que havia dançado com todo mundo, viu uma senhorita escorada no pau da barraca. Pensou “com essa num dancei inda não”... Chegou-se a ela e fez o convite:
     - A senhorita poderia dançá comigo esse toque?
    - Não, moço, o sinhô me descurpe causdiquê eu num sei dançá. Quem dança é miirmã.
     - E cadê sua irmã?
     - Uai, ela foi no banheiro dá uma cagadinha, mas já vorta.
     O moço pensou “mas que trem isquisito esse? uma moça inté bonita falá uma coisa assim pra mim?...”. “Ela deve de tá co pensamento muito longe e nem atinô com o que falô... Deve ser boa de papo. Vou conversá coela mais”...
     - Mais, ô moça, ocê acha que sua irmã vai demorá muito?
     - Não, moço, vai demorá não... Ela já saiu daqui peidano... 
     O visitante resolveu deixar de arrumar namorada em Tabuí. 
(Causo contado pelo amigo Divino Martins, de Itapuranga-GO)
©By Eurico de Andrade, in Tabuí e seus Causos https://www.facebook.com/causos e http://tabui.blogspot.com.br/

BÊBADO REGENERADO


      Naquele comecinho de noite o Dejalma, como sempre fazia, saía à cata de um boteco onde pudesse tomar uma dose pra molhar a goela e tirar a poeira que entrara na dita cuja durante o dia. Chega ao Copo Sujo e já vai gritando:
     - Ô Bigode! Bota aí pra mim meio copo de leite de rã integral!
O Bigode, assustado com a estranheza do pedido, pensou “aí tem coisa”...
     - Tem não, Dejalma. Nem desse e nem de nenhum otro leite, sô. Aqui é um bar, cê bem sabe!
     - Antão, cê dicerto num vai tê leite de cobra tomem não, né? Cobra sucuri?
     - Mas que maluquice é essa, ô Dejalma! Ondé que já se viu cobra dá leite?
     - E leite gelado de porca, Bigode? Num me diga quiocê num tem!...
     - Ô Dejalma, acho quiocê tá quereno fazê hora ca minha cara, né?... Acho qui é mais mió cê í simbora daqui...
     O Dejalma ficou meio tristonho, cabeça baixa... Aí, depois de uns 10 segundos filosofando, dá um murro no balcão, olha pro Bigode e diz:
     - Ó, Bigode, ocê é a prova de que eu quiria tomá leite... Já que num tem, vô tê que tomá uma pinguinha memo... Bote uma aí!... Digero!...
©By Eurico de Andrade, in Tabuí e seus Causos https://www.facebook.com/causos e http://tabui.blogspot.com.br/
    

QUEM CANTA SEUS MALES, ESPANTA


 - Môôô, mó quiocê num gosta do meu canto?
     Era a bela Maricleusa, reclamando pro coitado do marido, assim no finalzinho da tarde, quando ela ia tomar banho e começava a cantoria diária. Voz de taquara rachada, tentando cantar os insucessos mais modernos. O Dantão, homem da paz, discreto e calado, sempre saía do quarto e ia pra varanda – do outro lado da casa - sem falar nada. Mas o que ele não queria mesmo era magoar a mulher, reclamando dela, por obrigá-lo a – todos os dias – ouvir aquele martírio.
     - Querida, gosto do seu canto sim. Ainda mais que sei quiocê canta só pra mim.
     - Então, mô, causdiquê toda vez quieu canto cê sai do quarto?
    - Meu bem... É por causa da vizinhança. Cê sabe cumé quié esse povim de Tabuí, né? Não quero que pensem que tô judiano docê...
©By Eurico de Andrade, in Tabuí e seus Causos  https://www.facebook.com/causos e http://tabui.blogspot.com.br/

03/06/2014

MULHER MAL AGRADECIDA


        Havia tempos que o casamento não ia bem. Passara o fogo dos primeiros anos, chegaram as preocupações, veio o sedentarismo e, consequentemente, o aumento de peso. No décimo ano de casamento, o Varisto até esqueceu a data e a Telminha ficou brava.
    - Amanhã ocê me paga. Quero o meu presente. E vô iscoiê. Quero ele na garage. Um presente que vai de 0 a 100 em 6 segundos...
     - Mas, bem!...
    - Nã-nã-ni-na-não!... Nada de bem!... É mió ocê atendê ao meu desejo. Se não atendê, vai vê com quantas tábuas faço uma canoa, viu!?
     O Varisto levanta bem cedo e, como faz todos os dias, vai para o trabalho na Prefeitura de Tabuí. A mulher só levanta mais tarde, bem mais tarde. E resolve conferir na garagem se suas ameaças tinham surtido efeito. Achou lá uma caixa de presente. Pequena, para o que pretendia. Mas, curiosa, abriu para ver a surpresa: uma balança de banheiro, que ia de 0 a 100 em menos de 6 segundos.
Só que o Varisto nunca mais quis voltar pra casa para saber se Telminha gostara do presente.
(Causo contado pelo amigo Divino Martins, de Itapuranga-GO)
©By Eurico de Andrade, in Tabuí e seus Causos  https://www.facebook.com/causos e http://tabui.blogspot.com.br/

CONVITE INESPERADO

     O Amâncio, cansado da vida na cidade grande, resolveu que era hora de aposentamento. E sabem ondé que ele foi parar? Em Tabuí, claro. Bem pros lados do Sapé comprou uma fazendinha, a Flor do Vale, longe de tudo e de todos. O homem queria ficar sozinho. Quanto mais longe da vizinhança, melhor. Só buscaria a famiage se conseguisse adaptar-se à vida solitária de homem da roça.
   Começou com umas vaquinhas leiteiras. Sem pasto pronto, foi arranjar a pastagem roçando a capueraba, primeiro em volta da casa e depois, distanciando-se aos poucos, jogando semente de capim meloso, que dá um leite mais gordo, bom pra queijo. Aí passou a fazer as cercas, sozinho mesmo, formando os piquetes.
     Vez ou outra a solidão tomava conta do coração do Amâncio. Sentia saudades da família lá em Beozonte, vontade de contar umas piadas, beber uma cervejinha, bater uns papos fiados com qualquer um...
     E não é que Deus condoeu-se da solidão de Amâncio? Mandou-lhe um visitante, o Pedrão. Caipira, homem rústico, barbinha rala, bigode comprido, botas de cano longo, chapéu de palha furado na aba. Revólver e peixeira na cintura pra fazer o tipo machão. Chegou num cavalinho piquira, fraquinho de fazer dó. E o papo rolou. Amâncio juntou a fome com a vontade de comer. Abriu o coração pro Pedrão e contou da sua vida. E Pedrão retribuiu.
     - Daqui lá em casa tem umas três légua, sô. A minha fazenda faz divisa ca sua, daquela mata indiante. Me contaro quiocê mora aqui sozinho e vim mode confiri e convidá o vizinho pro meu niversário, no sábado. A gente vamo passar a noite bebendo e comendo pra mode comemorá. E vai tê cachaça, causdiquê sem cachaça num tem festa, num é mezz?
     - Mas eu não tomo cachaça, senhor Pedrão. É claro que não tenho nada contra os que tomam...
     - Mas, óia, sô... Tem mais. Pode sê de acontecê arguma briga, viu Amanço?...
     - Problema não, Pedrão. Não entro em briga de ninguém. Meu negócio é paz...
Foi nessa hora que o Pedrão montou no seu cavalo, pronto para ir embora e resolveu dar mais um aviso:
     - Ó, sô... Vai podecê que role por lá um séquiço servage tamém...
     Nessa hora o Amâncio engoliu a fala e ficou pensativo... “O que será que esse caipira entende por sexo selvagem?... Que trem mais esquisito esse, uai!”.
Curioso com o assunto, antes que o visitante saísse no piquira em desabalado galope, arriscou uma última pergunta:
     - Que roupa devo vestir para a festa, Pedrão?
     - Se prucupe não, Amanço. Pode ir de quarqué jeito. A festa é só pra nóis dois memo, uai!...
(Causo contado pelo amigo Divino Martins, de Itapuranga-GO)
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REMÉDIO ERRADO, DOENÇA PROLONGADA


     Pedro e Pedrina estavam casados há uns cinco anos e as diferenças já aumentando. Foi por essa época que Pedro descobriu que Povim de Tabuí comentava, à boca pequena, que o moço casara por interesse, já que a sogra era dona da Penção Socêgo, com três ou quatro quartos. Grande demais da conta pra tão pacata currutela.
     Tio Marcolino chegou a falar pro Pedro:
     - Ó sô, casa por dinheiro não. Tem empréstimo mais barato!...
     Mas eis que nasce o segundo filho. Logo no dia em que Pedro levou um tombo e teve uma séria inflamação muscular, ficando mesmo bem mal da perna. Pedrina também não ficou bem, pois teve descolamento da placenta. Os dois começaram a tomar remédio e, para o filho mais velho, de quatro anos, não bulir, colocaram os medicamentos em cima da geladeira.
    Enquanto isso, o tempo passava e Pedro brigava em dias alternados com a mulher e com a sogra. Ah, se arrependimento matasse!... E meditava com seus botões: “quem me dera o meu tempo de namoro aqui e ali, quando o amô era um jardim frorido. Pois, agora, com essa droga desse casamento, virou um campo de urtiga”. Descobriu o moço que um solteiro pode ser tão idiota quanto um homem casado, mas ele ouve isso muito menos vezes. “Ainda mais com essa jararaca de sogra zucrinano minha vida”. Cruzcredo!
     Só que Pedro, como a maioria dos habitantes de Tabuí, não sabia ler direito e as caixas dos medicamentos lá em cima da geladeira, eram bem parecidas... Daí pra misturar tudo foi um pulo. Resultado. Pedrina, que tomava o seu remédio direitinho, sarou logo, mas Pedro teve a inflamação piorada. E a sogra, para pisar um pouco mais na ferida do coitado do genro, gozava:
      - O Pedroca pode num tê sarado da inflamação, mas discolamento de pracenta ele nunca vai tê!...
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01/06/2014

ME LEVA, MEU BEM

Totonha do Prudêncio era o cão em forma de gente. Implicava com todo mundo na rua e ai de quem caía em desgraça com ela. A língua da mulher era afiada por demais. Foi por isso e muitos outros issos que Totonha não era benquista no seu meio.
Totonha tinha o amor do Prudêncio e isto lhe bastava. Mas não é que num certo dia o Prudêncio resolveu que era hora de ir embora? Bateu as botas e foi levado pelos amigos para o cemitério. Totonha entrou em desespero e gritava, descabelando-se, acompanhando o caixão:
- Me leva, Prudêncio! Me leva cocê! Ai, meu Deus, que mundo triste o meu!...
Os gritos eram tão fortes que passaram a incomodar até ao Padre Anacleto que ia puxando o terço enquanto ajudava a levar o amigo pra última morada.
Chegando ao cemitério, tava todo mundo pedavida com a gritaria de Totonha.
- Me leva, Prudencinho, eu quero í tamém... Me leva, meu bem! Buáááá....
Os amigos não sabiam se choravam a morte do Prudêncio ou se passavam uma espinafrada na Totonha. Alguns chegando a pensar que aquele exagero era forçado e que não havia muito sofrimento ali não.
Foi aí que ela se descuidou, olhando pro Prudêncio dentro do caixão, no fundo da cova - o que veio a trazer gostinho de vingança pros amigos. Escorregou e bateu deitada em cima do caixão do marido, bem cara a cara com ele. E Totonha, que tanto queria ir com o Prudêncio, olhos arregalados de pavor, deu revertério no desejo e, aos gritos, suplicava:
- Me tira daqui, meu povo! Me larga Prudêncio!... Socoooorrrro!!! Pelamor de Deus, me tira daqui, gente!!!!
(Causo contado pelo amigo Divino Martins, de Itapuranga-GO)
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20/05/2014

CASTIGO DE GENRO

     Resolveram fazer uma viagem em família. De Tabuí pra Beraba. A mulher com o marido, uns três filhos ainda pequenos, o cachorro, o gato, o papagaio e a mãe da mulher. Tudo em santa paz no começo da viagem, em plena madrugada. 
    Cachorro dormindo, meninos dormindo, mulher e papagaio cochilando e o gato quietinho. Menos a sogra do coitado do marido motorista. Ela não parava de resmungar e às vezes chegava a gritar e a dar murros na lataria do carro... Pior eram os palavrões que proferia, coisa de sogra engirizada mesmo.
     Dirigindo e ouvindo aquela latumia, o genro foi indo não aguentou. Brecou o carro no acostamento e tomou uma atitude drástica, mal o dia começava a apontar a cara. Abriu a porta, saiu do carro, destrancou o cadeado do porta-malas – é verdade, estava trancado a cadeado, por fora. E falou pra sogra:
     - Tá bom, minha sogrinha!... A senhora pode ir sentá lá cos minino. Mas se reclamá ou se dé um pio, vorta pra cá de novo, viu?
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URUBU PELADO NÃO VOA EM BANDO

Cê já viu dessas fazendas antigas onde a sede está misturada com chiqueiro, curral, engenho, galinheiro e o diabo a quatro? Pois bem. Imagine uma fazenda assim, onde morava o Toinzim Pitiú com a Maria Canarana, muitos anos no costado de cada um. Lá, a visita para chegar à sala, tinha primeiro que passar pelo curral e para ir embora, mesma coisa.
Bem no meio do curral o Toinzim mandou fincar o tronco de aroeira. Qualquer animal que precisasse de um tratamento, de castração ou de um exame mais detalhado, era laçado e contido nesse tronco. Era nele também que quem chegava à fazenda a cavalo, amarrava o animal enquanto tomava um cafezinho ou filava uma boia da cozinha afamada da dona Canarana. E foi nesse esteio de aroeira que o gato Xodó aprendeu a encarapitar quando um dos cachorros da fazenda resolvia persegui-lo. Nesse caso, Xodó subia no tronco e ficava lá, se preciso fosse, o dia inteiro, até o cachorro desanimar e ir embora.
Mas numa certa manhã de tempo de frio, o tronco arrumou outra serventia. Apareceu um urubu meio perdido e, até que entendesse os rumos por onde andava, resolveu tirar um descanso em cima do tronco de aroeira. Enquanto descansava, abria as assas pra pegar os raios do sol da manhã e foi bem nessa hora que o cachorro resolveu implicar com o gato Xodó. E este, aonde foi subir pra fugir da perseguição? No tronco de aroeira, onde descansava o urubu. Só que o gato tava tão assustado que subiu num relâmpago e, no aperto, subiu no urubu também. Já o urubu, vendo que o negócio ali tava ficando esquisito, levantou voo com aquela coisa estranha em cima das suas costas. Bem que o gato queria pular daquele trem, mas a altura desaconselhava tamanha desventura. Solução do gato foi abrir um berreiro de fazer dó, miando feito doido, enquanto o urubu fazia voltas em torno da fazenda, querendo livrar-se da carga incômoda.
Foi aí que o urubu passou por cima do paiol, bem onde dona Maria Canarana tava descascando umas espigas de milho para os porcos. Olhou e viu aquela maçaroca danada passando por cima dela. Sem conseguir entender o acontecimento, preocupada, gritou pro Toinzim Pitiú:
- Ô, meu Deus! O mundo vai acabá hoje, Toinzim!... Causdiquê urubu já tá miano!... 

(Causo contado pelo amigo Divino Martins, de Itapuranga-GO)

15/05/2014

CONFUSÃO DE BURACOS

     
    Juquinha Dodói saiu de Tabuí pra ganhar a vida na capital. Virou gente importante por lá, ao ponto de aprender a jogar o tal do golfe, um joguinho danado de esquisito, com um campo gramado cheio de buraquinhos. E não é que num dia o Dodói encontra, pelo campo de golpe, uma dama que lhe chamou a atenção e supitou nele a vontade de trocar umas ideias?
   Tão lá os dois, meio na paquera, mas jogando cada um por si. Numa certa altura ficam bem próximos e ele cria coragem e resolve puxar conversa.
    - A senhora me descurpe, mas tô meio perdido... Pode me dizê qualé o buraco meu?
   - Olha, moço, eu estou no buraco número 43. O senhor está um buraco atrás de mim. Portanto, no 42...
   E continuaram o jogo. De vez em quando olhando um pro outro, até trocando sorrisos. Aí ele outra vez puxa assunto: 
   - Perdido de novo. Agora em que buracotô? 
   - Eu estou no buraco número 95. O senhor, um buraco atrás, no número 94... 
   E cada qual recomeça o seu jogo. Até que, cansados de andar, param ao mesmo tempo, sem querer querendo, num lugar que vendia água de coco. E um papinho pra cá, outro pra lá, os dois se assuntando, buscando aproximação. Mas Dodói não queria de forma alguma que o assunto girasse em torno de profissão. Achava inconveniente que a moça bonita soubesse o que ele fazia. Mas não deu outra. Cada um se disse comerciante. “Afff” - pensou ela - “ainda bem que ele não perguntou comerciante de quê”. Como o leitor notou, a moça também tava preocupada e preferiria não falar do que fazia. Juquinha Dodói resolveu – já que ela iria querer saber – perguntar primeiro.

   - A senhora comercia o quê?
  Sem graça, ela perdeu um pouco as estribeiras, mas controlou-se. E pensou “seja o que Deus quiser”.
    - Errr... Eu vendo... Vendo... Trabalho com absorventes higiênicos...
   Dodói deu um sorriso amarelo enquanto esperava a pergunta que tinha certeza de que viria... Logo a que ele não queria:
    - E o senhor, vende o quê no seu comércio?
  - Eu?... Errr.... Vendo.... Humm... Vendo... Óia, moça, continuo um buraco atrás da senhora... Vendo papel higiênico.

(Causo contado pelo amigo José Vasconcelos C. de Souza. Ele é de Santa Bárbara-MG e mora em Brasília-DF).

08/05/2014

CALÇA SUJA

    
    Ia o Aristeu viajar de avião primeira vez. Saindo de Belzonte pra Bahia, terra do Zé Sudário, mode conhecer umas praias. Nervoso demais da conta, passou a falar pelos cotovelos, enquanto suava frio e dava batedeira. A entrada no avião foi um Deus nos acuda. Aristeu queria refugar, no que foi cercado pela aeromoça que vinha atrás, subindo a escada. O tabuiense senta lá, amarram-lhe o cinto e a agonia aumenta. Quando o avião começa a levantar voo, Aristeu começa a ter vertigem e só não vomitou por que tinha economizado no café da manhã.
Após o avião estabilizar-se lá em cima, apareceu uma voz, enchendo todo o ambiente:
- Senhores passageiros, aqui é o comandante Prestes, conduzindo-os num voo seguro. Nossa altitude é de 1.200 metros e a temperatura beira zero grau... prim... trim... prec... trec... o que é isto? O que aconteceu aeromoça?...
Nesse momento, pânico geral no avião. Cada passageiro olha pro outro com olho mais arregalado. Havia gente que fazia o sinal da cruz e enchia os ouvidos divinos de promessas. Aristeu apenas gemia, fechando um olho de medo e abrindo o outro pra ver os acontecimentos...
Novamente a voz do comandante:
- Desculpem senhores passageiros!... É que a aeromoça derrubou café quente em mim. Imaginem o estado em que ficou a parte da frente da minha calça!...
Aristeu não aguentou o sofrimento entalado e desabafou num grito, olhando pro teto do avião, como se procurasse o dono da voz:
- E ocê picisa vim aqui pavê cumé qui ficô a parte traseira da minha carça, seu disgramado!...

07/05/2014

ADVERSÁRIOS POLÍTICOS


O Raimundo Barbeiro sempre tinha confusão na sua barbearia já que atendia sem escrúpulos a toda a fauna de Tabuí. No sábado que antecedeu a Páscoa, apareceu o coronel Realejo Jambiró pra fazer a barba. Coincidentemente, na barbearia, sendo atendido pelo Tõinzim Capeta, estava o Benedito Tendodito, roceiro pobre, humilde, dali do Bananal, ferrenho adversário político do coronel.
Os dois não se bicavam, mas, em nome da democracia, em terra tão civilizada como Tabuí, olharam um pro outro, sem se cumprimentarem. Apenas fizeram “Rummm”. Os dois barbeiros, conversadores e conhecedores das fofocas da cidade, nem sabiam que assunto começar, com medo de que saísse discussão e o coronel, sempre armado com um trabucão, aprontasse um fuzuê ali dentro. É preciso explicar que o Benedito não deixava por menos e carregava sempre uma faquinha peixeira de meio metro de cumprimento. Foi um barbear ao silêncio profundo.
Terminado o serviço no coronel Realejo, o Tõinzim foi pegar na prateleira a loção pós-barba pra borrifar a cara do freguês. Este, mais que depressa, negou a deferência.
- Quero não, Capeta! A muié lá in casa vai sintí esse chero e num vai gostá... Vai pensá que isso é perfume de puteiro...
Nessa mesma hora o Raimundo terminava a barba do Benedito Tendodito, a quem ofereceu também a loção pós-barba.
- Uai, sô! É bão demais da conta. Popassá e muito! Quero chegá in casa pirfumado... A muié lá in casa nem sabe cumé o chero do putero... Nunca trabaiô lá!...
Foi por isto que o estabelecimento do Raimundo Barbeiro ficou seis meses ”fechado para reforma”.

02/05/2014

BENEDICAMUS DOMINUM

  
Padre Anacleto ia vez por outra pra Ingrizia batizar e confessar o povo e celebrar missa. Ingrizia, cê sabe, é lá aonde o vento encosta o cisco. Fim de mundo mesmo. Eis que, num certo dia, encontra a Credinha da Cruz que ele casara com o Sansão Vagina havia uns três anos.
- Cadê os figlios, bambina?
- Tenho inda não, padre!... A gente num fizemo nenhum...
- Ma che! O que falta procê ter figlios, figlia mia?
- Num sei, padre... A gente bem que tentamos, mais até agora, lencô tudo!....
- Ó, figlia, no mês que vem voi a Roma. Vou acender una vela procê e su marito terem muito filhos. Deus vai abençoar a famiglia com muitos e muitos herdeiros. Cê quer?
Credinha da Cruz deu um sorriso sem graça, suspirou fundo, olhou pro céu e respondeu:
- Uai, padre, ieu quero sim!
Nas cinco ou seis vezes seguintes que Padre Anacleto voltou a Ingrizia, não viu mais a Credinha, cujas terrinhas eram longe da igreja e nunca dava tempo de ir fazer-lhe uma visita. Até que, oito anos depois, eles se encontram, antes da missa.
- Então, figlia mia? Deus trouxe algum figlio procê mais o seu Sansão Vagina?
- Trazeu, padre. Deus foi bão demais da conta. Inté dizagerô... Dois trigême, dois geme e mais dois in seis parto. Incerramo a conta com doze briguelo lá in casa... E tem mais outro no caminho... – disse ela com timidez, olhando pro chão. Padre Anacleto ficou emocionado com a notícia. Com os olhos cheios d’água, falou:
- Ô, figlia mia! Benedicamus Dominum! Bendito seja o Pai!... Como é bom ter fé! E cadê o seu Sansão?
- Uai, padre, ele resorveu viajá. Foi lá in Roma vê se apaga essa vela qui o sinhô acendeu!...

25/04/2014

APELIDO É PROIBIDO

     
A estação ferroviária de Tabuí e toda a linha férrea estavam muito decadentes. Não só os trilhos, todos estragados, corroídos e bambos, como os próprios trens, em péssimas condições. A cidade fora escolhida para receber um bando de funcionários da rede ferroviária, vindos de várias cidades, para um treinamento de uma semana. E um dos técnicos que veio para as palestras, era um coreano que nunca viera ao Brasil e falava um português pra lá de sofrível.
     Ao fim do segundo dia de cursos e palestras, o coreano já tava puto da vida e foi reclamar para o chefe do treinamento:
     - Mim chateado funcionário todos...
     - Mas o que houve para o senhor ficar chateado?
     - Nome feio corocaro em eu...
     - Nome feio? Um apelido, por acaso? Que apelido eles colocaram no senhor?
     - Povo todo chamar eu Morróida... Não gostar...
     - Mas que povinho miserável este, hein? Chamar o visitante, um homem ilustre, de Hemorróida! Que coisa!...
     No início da palestra seguinte, o chefe foi enérgico e categórico.
     - Fiquei sabendo que vocês estão chamando o nosso visitante de Hemorróida! Nunca mais façam isso. É muita baixaria... Vocês entenderam?
     Todo mundo baixou a cabeça, parece que arrependidos, concordando com o chefe. Este voltou à carga:
     - Vocês devem tratar os visitantes como gostariam de ser tratados. Ele tem um nome e deve ser chamado pelo nome!... Afinal, qual é mesmo o nome do senhor, meu amigo?
     - Saissang Doku!...
     Não houve quem não se desmanchasse em gargalhadas no salão, menos o Morróida, é claro. 

23/04/2014

AFANARAM O PERU DO CRAVINHO

Tabuí tem o Zé Cravinho que não é advogado, mas é como se fosse. Tretou, relou, tá ele metendo palavras complicadas no meio dos seus comentários. Palavras tão difíceis que as frases chegam a perder o sentido. E Zé Cravinho ficou tão famosos com suas prosopopeias e outras figuras de linguagem que o povinho vinha fazer-lhe consultas, julgando-o, de fato, um advogado. Ainda bem que, diferentemente da maioria dos advogados, o nosso rábula cobrava barato pela consulta.
Pois bem. Eis que o Natal ia chegando e o Cravinho, dois ou três dias antes, resolveu comprar um peru para a festança. Soltou o inocente no quintal para engordar mais um pouquinho e no dia combinado com a mulher, véspera do Natal, acorda de madrugada, faca em punho e vai em busca do peru. Depois de procurar por todos os cantinhos chegou à conclusão de que o dito sumira. Suspeito número um, o vizinho. Delegacia na hora.
- Senhor delegado, o motivo que me traz aqui é que na noite anterior ao dia em que vos falo, um desses marginais da lei, que o vulgo chama de ladrão, penetrou os umbrais do meu acotijado tugúrio e dele surrupiou o meu ágape dominical que na Escala Zoológica de Renner denomina-se “galinaceos parvos occidentalis”.
O delegado arregalou os olhos, abriu a boca e não sabia o que falar. Zé Cravinho entendendo aquilo como sinal de admiração, continuou a verborreia:
- Senhor delegado, não é o valor intrínseco do semimovente que me traz aqui. É que ilibados confrades meus iriam imolá-lo em holocausto ao meu honomálio...
Foi aí que a autoridade não aguentou mais e resolveu retrucar, com aquela elegância característica dos delegados às antigas:
- Ou traduz ou tá preso!
O Cravinho ficou tão aborrecido com o revertério da situação que se assentou na cadeira, arregaçou a manga da camisa, cruzou as pernas e os braços, olhou pro delegado e sussurrou com tristeza:
- Roubaram o meu peru!...

22/04/2014

NOS BRAÇOS DE MORFEU


     Este causo aconteceu foi mesmo em Tabuí, ali na pensão da Vitalina, a única da cidade. Um vendedor, homem experiente da vida, mas, com muito sono atrasado, foi lá e a espelunca não tinha quarto vago.
     - Dá um jeito, por favor, dona Vitalina, eu preciso dormir. Me arrume nem que seja uma cama, sá!

     Vitalina pensa, pensa e, querendo ganhar uns mirréis a mais, responde:
     - Óia... Tenho um quarto com duas cama. Interessa? E lá tá hospedado um moço que me disse que queria rachá a conta com alguém. Só que tem que ele ronca demais da conta. Tanto, que os vizinhos do quarto já fizero recramação dizendo que não conseguem dormir.
     - Nenhum problema. Fico com o quarto, dona Vitalina! Eu quero é dormir!
     Ela leva o viajante pro quarto, acorda o roncador, apresenta-os um ao outro e eles vão dormir.
     No dia seguinte, o vendedor chega ao refeitório para tomar café e, contrariando as expectativas, está bem disposto, alegre e assobiando “encoste tua cabecinha no meu ombro e chora!...”. Vitalina, com curiosidade, pergunta:
     - E aí, deu pra dormi?
     - Dei nada, dona Vitalina! Dormi assim mesmo! Aliás, dormi foi demais da conta, sá!
     - Mas os ronco do home num trapaiaro?
     - Nada! Ele não roncou nem um minuto. Nadica de nada!
     - Nepussive, sô! Quecocefez?
     - Bom, foi simples, uai! O sujeito já dormia, mal entrei no quarto. Aí, a primeira coisa que fiz foi me aproximar da cama dele e beijar sua bunda dizendo: - "Boa noite, coisinha linda"... O sujeito passou a noite acordado, desconfiado, sentado na cama e me olhando assustado com o rabo do olho...


(Este causo foi, com a devida autorização, surrupiado e adaptado do http://loucurasedevaneios.blogspot.com/ )

21/04/2014

HABEMUS SEVERUS ARTHRITIS

     Em dia de pouco movimento no trem de ferro, ia ele, lentamente, como de costume, rumo a Tabuí, carregando uns minguados passageiros. Dentre eles, o padre que iria substituir o vigário, Padre Anacleto, nas suas férias. Ao lado do padre, absorto num jornal, com ares de intelectual, estava um bêbado que chegara cambaleante vindo do carro da frente. Assim que o padre avistou ao longe a cidade de Tabuí, o bêbado, educadamente, puxa conversa:

     - Sô padre! Suscristo!... Com licença!... Hic! Sabe o sinhô o que provoca – hic! - essa tar de artrite que fala aqui no jornali?
     Padre novo, descansado, conversador, ao notar o bafo espantante e represado saindo das entranhas do bebum, resolve dar-lhe uma sutil lição, mesmo sendo redundante:
     - Ah, meu amigo, artrite é doença perigosa... Sabe como ela chega? Pela vida cheia de pecados de alguns, com promiscuidade, sexo desregrado, muito fumo, farras intermináveis, parceiras sexuais variadas e, principalmente, consumo excessivo de bebidas alcoólicas...
     - O bêbado olhou pro padre com olhos arregalados, como quem estivesse duvidando. Abaixou a cabeça e continuou a ler o jornal.
     O padre, por sua vez, achando que tinha pego muito pesado com o bêbado, para não deixar má impressão, resolveu dar uma amaciada e foi a vez dele puxar conversa:
     - Há quanto tempo o senhor tem artrite?
     - Eu, sô padre? Deus – hic! - me livre! Dominus vobiscum!...Tenho não!... Hic!... Aqui no jornali tá dizeno que quem tem é o papa!... Hic!

20/04/2014

SEMANA SANTA


           O Joaquim foi escalado pelo Padre Anacleto para fazer o papel do diabo na Semana Santa, lá no salão de festas da paróquia de Tabuí, onde um palco fora improvisado.    
      - Eu, o diabo, padre? Deus vai me castigá!
      - Porcamiseria, figlio mio! Castigaroquê? – Padre Anacleto ficava brabo quando contraditado.
     Na cena em que Joaquim trabalhava, ele entrava voando, num impulso dado por uma corda empurrada por um ajudante de palco. Quase na hora do espetáculo, Joaquim descobriu que o ajudante ficara doente e que fora substituído por outro paroquiano que nem participara do ensaio.
     - Seja o que Deus quisé, meu Deus! – Reclamava o Joaquim, vestido de capeta.
     Na hora da apresentação o paroquiano que substituíra o ajudante de palco, querendo mostrar serviço, exagera na força e joga o diabo muito acima do planejado. Quando o diabo sente a altura nunca atingida nos ensaios e analisa as consequências da queda, grita lá de cima, antes de se esborrachar no chão:
     - Me acode, Senhora da Aparecida!... 

    (Este causo me foi contado pelo amigo José Sallum, de Caxambu-MG)

18/04/2014

A PROCISSÃO DESCAMBOU LADEIRA ABAIXO


  Aí o Manezinho, depois de perder as três mulheres, dar fiasco na lama, ficar sem a dentadura, chorar feito menino de cueiro, afinar a voz e perder a inspiração pras emboladas, não agüentava mais.
             - É muitumiação prum fio de Deus, sô!
         O moço resolveu mudar de vida. Primeiro mudou de cidade. Foi pra Tabuí. Em chegando lá, arranjou serviço de sapateiro, começou a tomar da Providência e a freqüentar as missas do Padre Anacleto. Virou homem de muita fé. Pegou amizade com o casal mais santo da cidade, a dona Ivani mais o sô Getúlio e, os três, só falavam de Bíblia. Vez em quando, pra refrescar, Ivani arrumava uns assuntos de umas tais de resenhas e o Getúlio arrancava música caipira chorosa de uma sanfona velha apaixonada. Manezinho até começou a sonhar em montar dupla com Getúlio.
            - Num sesse minha voz fina!...
Chegou a semana santa. Tabuí era toda respeito. Ninguém cantava, ninguém ria, ninguém assobiava, homem não mexia com mulher e a recíproca, dizem, era verdadeira. Providência ninguém bebia.
O Manezinho, na sexta-feira santa, convidado de última hora, influenciado pela conselheira dona Ivani, resolve participar da encenação da paixão que o padre Anacleto organizava todo ano na subida do Morro do Tiraprosa. O grande papel do Manezinho era ser soldado romano carregando um chicote.
Três da tarde, sol de rachar, ia o povo de Tabuí ladeira acima em procissão. Todo mundo lá. Até dona Eunice veio de longe com uma penca de filhos. Coroné Hélio, com os olhos fundos de mal dormidos, tinha saído da toca de recém-casado com a menina Patrícia. Professora Sterzinha segurava numa mão o gêmeo catarrento Pedrim e, na outra, o gêmeo Alvim, com um galo na testa. Os dois, de camisa vermelha e calças curtas listradas de verde e amarelo. Suspensórios azuis. A Eriquinha, com vestido de chita e precata roda, garrada na saia da mãe, ia atrás, limpando com as costas da mão o nariz, que teimava em escorrer, e chutando o calcanhar do Pedrim que só não caía porque grudunhava na mão da mãe. O Dió era o comandante da turma paramentada da Conferência Vicentina. Seu Josafá, dono do Bar Beirão, mais conhecido como Copo Sujo, seguia a procissão trocando, de vez em quando, umas idéias com o prefeito Waldir. Dona Sandra, a endinheirada dona da escola Ateneu, lá do Tapiraí, fez-se presente com um bando de molecas e moleques uniformizados, todos do jardim de infância. Coisa fina mesmo. O fazendeiro Zé Mariano resolveu sair da fila com o nhô Felipe de Paula enquanto tentava fechar um negócio de compra, venda ou troca de garrotes por cachaços. Seu Manoel tava brigando com dona Judite porque esta, distraída, olhando o movimento, trombara nas costas dele, num momento em que a procissão dera uma parada. -"Pois, pois, ó mnina! Não olha por onde anda, opá!". O estudante, futuro médico Chiquinho ia, todo de branco, olhando pro céu e sonhando com o hospital que um dia iria montar em Tabuí. Seu Brioso, cansado de ser lambe-lambe, não perdia, todo orgulhoso, um ângulo bom para, com a sua triplex, fazer a história da cidade. A Lu, chefe da Legião de Maria, puxava as cantigas com a voz mais afinada que surgira por aquelas bandas. O Dalton era o encarregado da matraca. Subia e descia o morro, - enquanto a procissão só subia -, arrancando até um chorinho da matraca sagrada. O André, dono do Açougue Vaca Profana, ia remoendo o pensamento, caçando uma maneira de inventar uma lei para extinguir com a Semana Santa, que acabava com o seu lucrinho, já minguado.
Pois bem. O Manezinho sentou praça na procissão como soldado romano. Junto com ele mais uma reca de soldados, uns apóstolos, umas mulheres, o padre Anacleto e o Jesus Cristo. Era a turma da frente da procissão. Subindo o morro. Suando bicas. O Cristo, um morenão forte, tava quase entregando os pontos, tamanho o peso da cruz. Mesmo assim, ia em frente, puxando o povaréu e xingando o carpinteiro.
 - Carpinteiro viado! Bem que podia ter feito uma cruz de pendão de piteira, mas não. Faz logo de cerne de aroeira!... Disgramado!
 O Manezinho, depois de - mesmo proibido - tomar umas talagadas da Providência pra criar coragem, tá lá atrás do Cristo com o seu chicote. Aí resolve puxar conversa.
 - Anda mais depressinha aí, ô Jesuis!
 Jesus, suando de monte, fedendo inhaca e puto da vida, olha pra trás pra ver de onde vem o atrevimento e quase desmancha o pobre do Manezinho com o olhar. Aí é que aconteceu o reconhecimento. Manezinho descobre que Jesus Cristo é o Rajão, o safado do homem que lhe tomara a primeira e única namorada que tivera na vida. Andou matutando um pouquinho e decidiu, falando com seus botões:
 - É hoje, gente! Esse Cristo me paga!...
 Aproximou-se mais do Rajão e, de leve, assim como que para experimentar a reação, dá-lhe uma chicotada. Rajão estranhou, mas aceitou resignadamente aquilo, sem entender bem de onde vinha. Outra chicotada. Mais forte. Rajão olhou por baixo da cruz, para trás, procurando padre Anacleto para achar uma explicação. O vigário tinha colocado um lenço pra tampar a careca e seguia contrito rezando seu rosário e nem viu o desespero do Jesus Cristo. Mal Rajão vira pra frente, vem outra chicotada. Ardida. Aí é que ele viu e reparou no franzino do Manezinho. Olha pra ele pedindo clemência. “É muitumiação prum fi de Deus, sô!”... A procissão continua. Quase todo mundo em silêncio, absorto em seus pensamentos e orações, alguns rezando contritamente. E, lá na frente, o chicote comeu mais uma vez.
 - Pára com isso, ô mardito nanico dos infernos!
 Quase ninguém ouviu, a não ser o próprio Manezinho, um ou outro soldado, e o Carlão, que fazia o papel do apóstolo Pedro. Rajão cuspia fogo pelos olhos e bafo pelas ventas. Manezinho deu um sorriso amarelo, um tempinho, e lasca sem dó outra chicotada que estalou na poupança quase nua do JC.
A dona Cristina, cozinheira das mais afamadas, dona do restaurante "Garrote Moído", que virou Madalena, estranhou aquela cena fora dos conformes. A Cremilda, que fazia o papel de Maria, a mãe do Homem, também estranhou a afronta ao filho. O Fábio Gomes, o apóstolo João, ficou com um pé atrás ao ver a cena.
Foi aí que desandou tudo. O Rajão, no desespero, jogou a cruz prum canto e pulou pra cima do Manezinho. Este, vendo que correr pra baixo era melhor que correr pra cima, desembesta ladeira abaixo, com o Cristo nos calcanhares. Dona Cristina, adivinhando que era briga, corre atrás dos dois para apartar a desavença, seguida logo atrás por Maria toda desconsolada. Os apóstolos Pedro e João, entendendo tudo, vendo que o negócio ia ficar feio, levantam as saias e correm também para não deixarem ninguém matar ninguém em plena sexta-feira santa. Padre Anacleto, quando descobre que alguma coisa não ia bem, vendo a frente sem o Cristo, levanta a batina até a cintura e se manda atrás dos seis, querendo esclarecimento. Os outros atores, que nem ensaio tiveram, pensando que aquilo era parte da encenação mandam-se também, ladeira abaixo, tropeçando uns nos outros. E o povo, ah, o povo! Assim que os primeiros da procissão dão com aquela correria, vêem o padre Anacleto correndo atrás de Jesus Cristo, começam a se perguntar - o que que se sucede?. E, sem entender nada, tratam de fazer meia volta e desabam também a correr ladeira abaixo. Dona Sterzinha, dona Eunice e a diretora Sandra perderam meninos no meio daquela embolada toda. Uniforme branco de meninos do Ateneu perdeu a cor. Prefeito Waldir gritava "calma, gente!" mas, por via das dúvidas, sem entender o motivo da correria, resolve ligar o motorzinho das canelas ladeira abaixo. Felipe de Paula perdeu-se do Zé Mariano quando tratavam dos finalmentes para trocar umas galinhas magrelas por 10 jacás de milho. Coroné Hélio, no meio da poeirada toda, ficou rodando, meio tonto, e gritando "benhê! Cadê ocê!". Seu Manoel só aí é que parou a discussão com dona Judite, porque um se perdeu do outro, cada qual caçando refúgio para se esconder do perigo iminente. O retratista Brioso foi o único que não correu. Ficou no meio daquela gentalha em fuga, triste, olhando pra sua triplex despedaçada no chão. Foi assim que a procissão se inverteu. No lugar de chegar lá em cima do Tiraprosa, foi parar no barraco do Manezinho. Padre Anacleto chegou a tempo de livrá-lo das garras do Rajão que, com uma mão só, segurava-o pelo pescoço, sojigando-o contra a parede, enquanto seus pezinhos balançavam a meio metro do chão.

(A história completa, chamada “Embolada das Letras”, escrita por três autores, em cinco partes, você pode ler no link http://tabui.blogspot.com/search?updated-min=2006-01-01T00%3A00%3A00-02%3A00&updated-max=2007-01-01T00%3A00%3A00-02%3A00&max-results=5)