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25/04/2014

APELIDO É PROIBIDO

     
A estação ferroviária de Tabuí e toda a linha férrea estavam muito decadentes. Não só os trilhos, todos estragados, corroídos e bambos, como os próprios trens, em péssimas condições. A cidade fora escolhida para receber um bando de funcionários da rede ferroviária, vindos de várias cidades, para um treinamento de uma semana. E um dos técnicos que veio para as palestras, era um coreano que nunca viera ao Brasil e falava um português pra lá de sofrível.
     Ao fim do segundo dia de cursos e palestras, o coreano já tava puto da vida e foi reclamar para o chefe do treinamento:
     - Mim chateado funcionário todos...
     - Mas o que houve para o senhor ficar chateado?
     - Nome feio corocaro em eu...
     - Nome feio? Um apelido, por acaso? Que apelido eles colocaram no senhor?
     - Povo todo chamar eu Morróida... Não gostar...
     - Mas que povinho miserável este, hein? Chamar o visitante, um homem ilustre, de Hemorróida! Que coisa!...
     No início da palestra seguinte, o chefe foi enérgico e categórico.
     - Fiquei sabendo que vocês estão chamando o nosso visitante de Hemorróida! Nunca mais façam isso. É muita baixaria... Vocês entenderam?
     Todo mundo baixou a cabeça, parece que arrependidos, concordando com o chefe. Este voltou à carga:
     - Vocês devem tratar os visitantes como gostariam de ser tratados. Ele tem um nome e deve ser chamado pelo nome!... Afinal, qual é mesmo o nome do senhor, meu amigo?
     - Saissang Doku!...
     Não houve quem não se desmanchasse em gargalhadas no salão, menos o Morróida, é claro. 

21/04/2014

HABEMUS SEVERUS ARTHRITIS

     Em dia de pouco movimento no trem de ferro, ia ele, lentamente, como de costume, rumo a Tabuí, carregando uns minguados passageiros. Dentre eles, o padre que iria substituir o vigário, Padre Anacleto, nas suas férias. Ao lado do padre, absorto num jornal, com ares de intelectual, estava um bêbado que chegara cambaleante vindo do carro da frente. Assim que o padre avistou ao longe a cidade de Tabuí, o bêbado, educadamente, puxa conversa:

     - Sô padre! Suscristo!... Com licença!... Hic! Sabe o sinhô o que provoca – hic! - essa tar de artrite que fala aqui no jornali?
     Padre novo, descansado, conversador, ao notar o bafo espantante e represado saindo das entranhas do bebum, resolve dar-lhe uma sutil lição, mesmo sendo redundante:
     - Ah, meu amigo, artrite é doença perigosa... Sabe como ela chega? Pela vida cheia de pecados de alguns, com promiscuidade, sexo desregrado, muito fumo, farras intermináveis, parceiras sexuais variadas e, principalmente, consumo excessivo de bebidas alcoólicas...
     - O bêbado olhou pro padre com olhos arregalados, como quem estivesse duvidando. Abaixou a cabeça e continuou a ler o jornal.
     O padre, por sua vez, achando que tinha pego muito pesado com o bêbado, para não deixar má impressão, resolveu dar uma amaciada e foi a vez dele puxar conversa:
     - Há quanto tempo o senhor tem artrite?
     - Eu, sô padre? Deus – hic! - me livre! Dominus vobiscum!...Tenho não!... Hic!... Aqui no jornali tá dizeno que quem tem é o papa!... Hic!

27/04/2013

MINEIRO PERDEU O TREM



Vitalino chega apressado à estaçãozinha de Tabuí e procura logo o moço que vendia as passagens.
- Moço, quero uma palavra... Bem digero!
- Palavra agora? Comigo? Tem quisperá um tiquim, sô! Tenho que vendê as passages, uai!
Vitalino ficou rodando por ali, agoniado, enquanto o bilheteiro vendia as passagens. Voltou nervoso e falando grosso ao moço:
- Pois intão, sô? E a minha palavra? O trem tá quaicheganu...
- Inda num dá agora não....
Aí o trem chegou, parou, quem era de descer, desceu e quem era de subir, subiu. Aí é que o homem dos bilhetes veio procurar o Vitalino e achou emburrado num canto da estação.
- Agora tô aqui... pode sortá a palavra à vontade....
- Gora num dianta mais. O que covô fazê se o trem já partiu? E ieu quiria tanto í pa Lavra...