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02/05/2014

BENEDICAMUS DOMINUM

  
Padre Anacleto ia vez por outra pra Ingrizia batizar e confessar o povo e celebrar missa. Ingrizia, cê sabe, é lá aonde o vento encosta o cisco. Fim de mundo mesmo. Eis que, num certo dia, encontra a Credinha da Cruz que ele casara com o Sansão Vagina havia uns três anos.
- Cadê os figlios, bambina?
- Tenho inda não, padre!... A gente num fizemo nenhum...
- Ma che! O que falta procê ter figlios, figlia mia?
- Num sei, padre... A gente bem que tentamos, mais até agora, lencô tudo!....
- Ó, figlia, no mês que vem voi a Roma. Vou acender una vela procê e su marito terem muito filhos. Deus vai abençoar a famiglia com muitos e muitos herdeiros. Cê quer?
Credinha da Cruz deu um sorriso sem graça, suspirou fundo, olhou pro céu e respondeu:
- Uai, padre, ieu quero sim!
Nas cinco ou seis vezes seguintes que Padre Anacleto voltou a Ingrizia, não viu mais a Credinha, cujas terrinhas eram longe da igreja e nunca dava tempo de ir fazer-lhe uma visita. Até que, oito anos depois, eles se encontram, antes da missa.
- Então, figlia mia? Deus trouxe algum figlio procê mais o seu Sansão Vagina?
- Trazeu, padre. Deus foi bão demais da conta. Inté dizagerô... Dois trigême, dois geme e mais dois in seis parto. Incerramo a conta com doze briguelo lá in casa... E tem mais outro no caminho... – disse ela com timidez, olhando pro chão. Padre Anacleto ficou emocionado com a notícia. Com os olhos cheios d’água, falou:
- Ô, figlia mia! Benedicamus Dominum! Bendito seja o Pai!... Como é bom ter fé! E cadê o seu Sansão?
- Uai, padre, ele resorveu viajá. Foi lá in Roma vê se apaga essa vela qui o sinhô acendeu!...

18/05/2013

A HISTÓRIA SE REPETE



Jordelina tava com uns trens esquisitos pra sua juventude de dezoito aninhos. Umas tonturas misturadas com perdas de apetite e até uns danados de uns vômitos. Curuzes!... A moça quase não comia e, quando comia, vomitava... Tadinha!...
Médico fez exame e concluiu com seus botões “é gravidez, só pode!”. Pediu exame. Batata!...
- A Jordelina tá grávida, quase chegando nos três meses, dona Matilde!... E aposto que a senhora vai dizer que “ela não conhece homem”, não é dona Matilde?
- É dotô. Essa menine só veve dendecasa, sô! Onquiela foi arrumá gravidez, diacho?
- Diz aí, Jordelina! Diz pra sua mãe que você nunca esteve com um homem!...
- Mais é verdade, mãe! Nem nunca bejei um home! Cruzcredo! Que trem mais isquisito!
Enquanto as duas continuam conversando e às vezes discutindo, o médico, silenciosamente abre a gaveta e pega sua luneta, focaliza-o em algum lugar no firmamento e fica olhando, sabe-se lá o quê.
Dona Matilde, depois que não tinha mais o que conversar com a filha, certa do erro do médico, cheg-as e ele e pergunta, em tom superior:
- Pra que esse trem aí, ô dotô?
- Ó, dona Matilde, não quero de forma nenhuma perder o espetáculo. Da última vez que ocorreu de uma virgem ficar grávida, veio uma estrela do Oriente e no rastro dela, três reis magos. Não posso perder isto agora, entende?

06/02/2013

FUNCIONÁRIOS EFICIENTES





O chefe do posto de saúde da prefeitura de Tabuí chamou os dois funcionários da portaria e avisou:
- Não quero mulher grávida na fila. Elas têm prioridade no atendimento. É pré-natal. Entenderam?
- Entendido, chefe!...
Mas os dois funcionários, quando se viram a sós, começaram a bater papo. Conversa vai, conversa vem... Gente de tudo quanto é jeito, doente disso, doente daquilo... E a fila aumentando. Lá pelas tantas, no final da fila, entrou, até que enfim, uma mulher grávida. Mas os dois eficientes funcionários não a viram. E a conversa não acabava. Foi quando o chefe retornou da volta na rua. Aí os dois exemplares vigilantes lembram-se da ordem e dão uma corrida d’olhos na fila. Deparam com a barriguda. Ao mesmo tempo correm os dois pra ela, deixando-a assustada. E perguntam:
- É pré-natal?
- N-Não, moço!... É pa-pra otubre!... – gaguejou a grávida.

05/02/2013

DESEJO DE GRÁVIDA





 

Praxedes saíra de Tabuí com sua Marília uma semana atrás. Grávida, de cinco meses. Foram passar uns dias na praia para, na linguagem da Marília, curtir a gravidez, no que o Praxedes muita graça não tava achando. Aquela praia só tinha água e areia. Semana inteira, cruzcredo! Faltava diversão.
Naquela noite, tarde da noite, Marília dá vontade de comer caranguejos e obriga o coitado do Praxedes a providenciar um tanto pra ela. O moço até achou bom aquele desejo da cara metade pois, afinal, iria sair sozinho àquela hora, o que mudava um pouco a monotonia daqueles dias.
Foi assim que, numa esquina bem movimentada, quem ele viu? A namorada dos tempos de escola. Oi pra cá, oi pra lá e resolvem tomar uma cervejinha para comemorar o encontro. Uma cervejinha chamou outra e mais outras, acompanhadas de beijinho aqui, beijinho ali, mão na mão, mão chegando perto daquilo e empolgação demais da conta. Vão os dois lá pra praia e recordam e recordam e recordam os velhos tempos. Quando Praxedes dá por si, o dia tá amanhecendo e o sol começando a mostrar a cara. Aí ele dá um grito, assustando a coleguinha de escola, antes de sair correndo:
- Meu Deus! Os caranguejos!
Acha um pescador e compra umas três dúzias de crustáceo, bota tudo numa lata e sai correndo rumo da pensão, procurando descobrir a desculpa que iria dar para Marília por tão grande atraso.
- Vou ter que contar pra ela, meu Deus! É a única solução. Tô ferrado! Também quem manda gostar tanto de um rabo de saia? Se estrepei!
Assim que chega à pensão, pensando que a porta tava trancada, encosta-se nela para pensar mais um tiquim até ver se aparece aquela desculpa de que ele tanto precisava. Mas ao forçar a porta com a cabeça, a porta se abre repentinamente, a lata cai e despeja caranguejo pra tudo quanto é lado, e eles se espalham pelo corredor a fora.
Marília, preocupada com o sumiço do marido, tava só cochilando e acorda tonta e assustada. Aí ela viu que era, de fato, o marido e se emocionou quando o ouviu dizendo pros bichinhos caranguejos, enquanto os empurrava para dentro do quarto:
 - Vamos lá, caranguejada! Demoramos, mas chegamos… Agora todo mundo pra dentro!


(Da internet. Reescrito.)