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04/06/2014

NEM TUDO DEVE SER FALADO

     
     Baile no ranchão, assim num canto da praça central de Tabuí. Chega o cabra, com cara de gente da capital, bem apessoado, bom de fala e cheio de boa vontade de arrumar uma namorada. Para isso, cismou de dançar com as moças todinhas que havia no baile. Dançou, dançou e dançou e, quando pensou que havia dançado com todo mundo, viu uma senhorita escorada no pau da barraca. Pensou “com essa num dancei inda não”... Chegou-se a ela e fez o convite:
     - A senhorita poderia dançá comigo esse toque?
    - Não, moço, o sinhô me descurpe causdiquê eu num sei dançá. Quem dança é miirmã.
     - E cadê sua irmã?
     - Uai, ela foi no banheiro dá uma cagadinha, mas já vorta.
     O moço pensou “mas que trem isquisito esse? uma moça inté bonita falá uma coisa assim pra mim?...”. “Ela deve de tá co pensamento muito longe e nem atinô com o que falô... Deve ser boa de papo. Vou conversá coela mais”...
     - Mais, ô moça, ocê acha que sua irmã vai demorá muito?
     - Não, moço, vai demorá não... Ela já saiu daqui peidano... 
     O visitante resolveu deixar de arrumar namorada em Tabuí. 
(Causo contado pelo amigo Divino Martins, de Itapuranga-GO)
©By Eurico de Andrade, in Tabuí e seus Causos https://www.facebook.com/causos e http://tabui.blogspot.com.br/

09/09/2012

Aqui o buraco é mais embaixo


 Zeca da Luzia vivia pra baixo e pra cima medindo rua. Fugia do trabalho igual diabo da cruz. Andava de cacete às costas, procurando quem inventou o serviço, para matá-lo. Vivia do dinheirinho que a mãe ganhava lavando roupa pra quase todo mundo remediado de Tabuí. Zeca usava umas roupinhas surradas, nunca de acordo com a moda. Sempre na rabeira. Só os cabelos é que estavam dentro dos conformes pr'aquelas épocas. Grandes. Um verdadeiro mafuá, onde até piolho pensava duas vezes antes de neles fixar residência. Não podia se dar ao luxo de cortá-los uma vez por ano. Sapatos pés do Zeca nunca tinham tido prazer de encher de chulé. O máximo que conseguiram foi preencher a chinelinha havaiana já com a sola fina de tanto uso. Dentes do Zeca da Luzia eram uma cacaria de dar dó. Cada um, uma cratera cheia de dor. Raspas de casca de goiabeira é que davam um certo alívio. Banho? Só quando chovia. E a seca na região tava braba. Por isso e muito mais, o cheirinho do rapaz era tão suave quanto cheiro de gambá com depressão. O moço era feio... Mais feio que vira-lata quando briga na carvoeira.
Zeca não era dono só dessas qualidades não. Tinha mais. Era cantador. Cantador dos bons. Abraçado a um violão, dedilhando as cordas de aço e soltando aquela voz aveludada, já fez muita moça de Tabuí suspirar profundo em solitárias noites de serenata. E o rapaz já emprestara, dentro do confabulamento, sua voz afinadíssima pra muito garanhão das redondezas. Daqueles que queriam agradar à presa cantando, embaixo de uma janela, altas horas da madrugada, sem ninguém ver. Zeca da Luzia ligava muito pra esses detalhes não. Por isso era dono de tantos segredos e sabedor de tantas paixões proibidas. Bastava-lhe a pinguinha para esquentar o peito e molhar a goela. Tinha nada no coração que o incomodasse e seu pensamento era mais leve que vôo de tiziu. Zeca não conhecia mulher. Nem a Zildete que satisfazia todos os homens sem mulher - e até com mulher - da cidade. Sua maior preocupação, em se tratando desses assuntos, era com as mãos que de repente poderiam ficar cabeludas.
Mas um dia Zeca da Luzia mudou. O amor bateu naquele peito bruto. Ele que nunca amara, que não tivera ainda olhos de mulher presos nele, começou a sentir negócio estranho no coração. Um embondo gostoso tomando conta, chegando sem avisar... E quando Zeca viu, estava preso por laços de paixão.. Não era amor qualquer não. Por sirigaita de canto de rua não. Era amor por gente fina. Moça prendada. Cheia de grana e de bois. Filha de fazendeiro. Donzela se encantara com a voz do moço, com seus olhos carentes e a conversa fácil. Encantamento mútuo.
A paixão foi tanta que Zeca, contra todos os seus princípios, arrumou emprego de cidade. Dos mais finos de Tabuí: auxiliar de contabilidade. Cortou cabelo à escovinha, rapou barbicha e aparou as unhas. Até botinas rangedeiras, compradas no fiado, passaram a enfeitar seus pés embora sobrasse muito vago nas pontas... Nem de chuva precisava mais para tomar banho. Começou a ter cheiro de gente. Roupinha mais ajeitada. Chegou a sugerir à mãe juntar umas economiazinhas para colocar uma dentadura naquela sua boca dolorida.
- Zeca, só topo namoro se ocê falá com o pai! E ocê só faz barro na porta lá de casa se ele dé consentimento!
Aí Zeca resolveu mostrar que era rapaz sério e cheio de boas intenções. Tinha que agradar à moça de qualquer jeito, fazer bonito pro pai dela e conquistar a sogra. Tudo de uma vez. Em Deus ajudando o casamento tava no papo e a vidinha com futuro ajeitado. No domingo levantou cedo e, cheio de coragem, vestiu a roupinha de ver Deus: calça rancheira, camisa volta-ao-mundo... De botinas foi à fazenda conhecer sua futura propriedade e pedir a danada da autorização para o namoro. Ligeirinho, que nem peba pisando em areia quente. Mas quanto mais perto da fazenda, mais a coragem ia minguando.
Chegou mais suado que tampa de chaleira e a primeira pessoa que encontrou foi a futura sogra. Gorda igual melancia bem adubada. Velha. E calada, mais calada que sino em semana santa. Mas quando Zeca viu o candidato a sogro aí deu vontade de achar um buraco para tafuiar e nunca mais aparecer. Velho sistemático, com cara de quem amanheceu espirrando canivete, encarou o rapaz de alto a baixo, desde a ponta do cabelo desobediente até as botinas com o bico empinado, passando pelos caquinhos de dentes enfeitados de meleca, o bigodinho meio torto, a camisa mal passada e o cinto de couro cru furado a ferro quente. Rapaz tava mais perdido e sério que cachorro vira-lata dentro de canoa. Mais magro que gato de tapera. Tudo o velho viu num relance enquanto enrolava o bigodão com o polegar e o indicador da mão esquerda. Mãozona direita de vez em quando ajeitava o cabo dum trabuco meio escondido entre as banhas da cintura. Ninguém por perto. Amada lá fora, no alpendre, esperando com ansiedade as boas notícias.
- Qual é sua graça rapaz? O que ocê faz rapaz?
Foi o que primeiro quis saber de supetão o dono daquela propriedade que era o sonho do Zeca da Luzia. Este, sem muito desconfiômetro, até meio animado com o tom das perguntas, satisfeito por ter sido o velho a começar a conversa, recobra um pouco as forças perdidas e responde com certo orgulho no peito, abrindo-se que nem livro de missa:
- Eu sou o Zeca, uai!... Aliás, José Cristóvão!... Antes eu só vivia de zonzeira, agora tô num escritório. O escritório de contabilidade!... Lá em Tabuí!
- E a bufunfa? Enche o bolso? É salário compensatório? Quanto ganha?
- Óia, sem necessitá carecê de muita sinceridade, num é pra mim gambá não, mas ganho o salário mínimo sim sinhô!...
- Puta que pariu! Salário mínimo? Salário de fome? Se manda, pé rapado! Tem autorização minha não! Nem quando galinha ciscá pra frente! Essa merreca não dá nem pra comprar o papel higiênico que ela usa!
O velho estava nervoso demais, até cuspindo na carinha vermelha do rapaz. Zeca saiu fungando igual pinto com gogo, cego de raiva, chutando até a sombra. Humilhado. Ao passar pelo alpendre, vê a moça esperando ansiosa, com olhos perguntativos, pela resposta do consentimento. Olha-a com desdém, levanta uma sobrancelha, faz covinha no rosto e tasca o maior xingamento que lhe foi possível no momento:
- Sua cagona!!!...

07/08/2011

Azarado nem um pouquinho


Bentão arranjou namorada. Meio passada da idade mas que dava ainda para uma boa meia sola. Um dia resolve ir conhecer a família da bichinha. Arreia seu melhor cavalo, calça bota e espora, põe o 38 na cintura e se manda estrada a fora. Três léguas. Chega já com o sol baixo, a tempo de assistir ao futuro sogro tirar o leitinho da tarde das últimas vaquinhas magrelas.
Bentão conheceu o povo e, meio sem graça, fica por ali olhando uma coisa ou outra e até capiscando de trivela as belas pernas da cunhada. Sem assunto e sem o que fazer, resolve que tem que ir embora. É muito longe, pode chover, mãe vai ficar preocupada, tem compromisso amanhã cedo e outros babados de desculpa. O sogro e a sogra não concordam. Não querem perder um genro com tanta facilidade.
- Não senhor! Sem jantá ocê num vai!...
Envergonhado e a contragosto, mesmo com fome, aceita o convite. A sogra prepara, aliás, já vinha preparando um senhor jantar. Põe à mesa, além da toalha de crochê mais chique que tinha, umas louças das mais bonitas acompanhadas de muita faca, muita colher e garfo de montão. Apetrechos com os quais Bentão não tinha muita intimidade. Ao ir pra mesa ele nem sabia onde botar as mãos, de tão sem jeito. Mas assim que o sogro começa com seus papos de vacas e bois e cavalos e roça e pescarias e diabo a quatro, o Bentão fica mais animado e chega até a dar um bom desfalque no comestível. Bom mesmo Bentão achou aqueles catocos  de suã. Nunca os tinha comido tão gostosos. Pena que tinham mais osso que carne. E aquele miolinho!... Ah! Aquele miolinho!... Bentão não resistiu. Num instante em que não tinha ninguém olhando, resolve enfiar o dedo mínimo no buraco do osso para retirar o tutano, coisa de que ele gostava demais da conta, desde menino. Só que o dedo engastaiou no buraco do osso. Antes que alguém visse sua situação melindrosa, ele enfia a mão debaixo da mesa, esperando melhor oportunidade e continua a corresponder ao prosório usando uma só mão para  comilança e bebelança.
Foi aí que apareceu o leão, cachorro grandão e muito chegado num osso de suã. O danado do bicho foi logo se enfiando debaixo da mesa antes que Bentão o visse e tomasse algum providenciamento. Leão, sem nem pensar muito, abocanha aquele osso disponível entre as pernas do visitante e se propõe a sair correndo. Só que o dedo do Bentão tava ainda no meio do osso, bem preso, já meio inchado. O baque foi tão grande que o moço foi sendo puxado na marra. E aí sua espora garrou na toalha de crochê e ele foi arrastando tudo, derrubando pratos de louça com todos os acompanhamentos. Sogro, sogra e filhas assistem embasbacados à saída repentina do pretendente. Leão quase come junto com o osso um pedaço do dedo do rapaz.
Você pensa que terminou as desgraças do Bentão? Escuta só. Com vergonha e puto da vida ante tamanha desfeita, resolve ir embora sem se despedir de ninguém. Mas assim que vai montar no cavalo, com pressa e sem nenhum cuidado, o revólver se prende em não sei o quê e escapa um tiro dos mais potentes. Cavalo se assusta tanto que sai em desabalada correria deixando Bentão caído de quatro no meio da fedentina de estrume e urina das vacas. Todo melecado. O homem não vê outra solução. Saiu correndo atrás do cavalo, cuspindo fogo pelas ventas e nunca mais pôs os pés por aquelas bandas.


29/11/2008

Onde foi parar a peteca da noiva?

Um dia Bentão arranjou namorada. Gente de fora, pois que as da terra, se sérias fossem, dele fugiam. Não que fosse feio ou desarranjado. Não. Bentão até que era ajeitado, andava bem arrumado, trabalhava muito... Mas por que as moças de Tabuí não olhavam para ele com olhos de amor?
- Bentão é invicioneiro – dizia o povo.
E como o povo não inventa, só aumenta e quando o povo fala ou é, ou foi, ou será, o moço – dizia-se - era responsável por um monte de moças mal encaminhadas da cidade. Saiam um dia ou uma noite com ele, caiam na boca do povo, pois Bentão contava pra todo mundo muito mais do que não fez, mas disse que fez, do que o que fez. Aí passavam a ser olhadas com olhos tortos, as amigas se retraiam, as mães seguravam suas donzelas, apareciam conversas atravessadas e o diz-que-diz só aumentando. Por isso o cartaz de Bentão foi chegando a zero, com o moço ficando mais sujo que puleiro de pato. A ele, então, só sobravam as moças de fora, quando aparecia alguma na cidade e se engraçava pro seu lado. Foi quando surgiu a Manoela. Uma fortona, que não chegava a ser gorda, e compridona, bem maior que o Bentão. Loira, bela feição, bem vestida, moça pra lá de boa. Ia ser professora do grupo escolar. Gente fina e intelectual achou Bentão bonito e resolveu jogar um piscado pro lado dele, sem conhecer a fama do rapaz.
À piscadela, bem captada, Bentão já soltou aos quatro ventos:
- A professora tá apaixonada por mim e qué marcá encontro.
Após a conversa do primeiro encontro, à noitinha, no domingo, em plena praça, no banco do “Vaca Profana – o açougue dos amigos”, Bentão ficou apaixonado pela professora. Aí emudeceu, sufocando aquela boca fofoqueira.
- Minha boca é um túmbalo. Conto nada não, uai...
Ninguém imaginava que a paixão, quando chegasse, poria mudo o moço. Os amigos provocavam e nada. Até o dia em que Bentão apareceu de olho roxo e namoro terminado. A turma queria porque queria saber o motivo do quiprocó de qualquer jeito. Depois de insistência de vários dias, ele não agüentou e, sufocado, soltou o verbo.
- Eu tava jogando peteca com a minha noiva, no dia em que nós foi com as professora do grupo escolar fazer piquenique na fazenda do prefeito...
- Sim. E aí, Bentão?
- Aí todo mundo resolveu jogá peteca tamém. Apareceu peteca de tudo quanto é cor. E entre uma petecada e outra, eu mais minha noiva era um amasso aqui, outro ali, um beijinho pra cá, outro pra lá, e o negócio só ficando danado de bão. Eu, doido pra mexer na documentação da minha noiva, mas com medo de avançar demais da conta, só falei bem, vamo enchê a barriga de bebê hoje? Ela ficou toda sem jeito e, com aquela força que Deus deu, tascou um tapa tão forte na peteca, que a coisa foi cair lá no meio das vacas do prefeito...
- Marrapá, vai peidá n'água, vai! Até agora cê num falô do oio roxo, sô!
- Aí, menino, põe sentido, a gente procuramo aqui, procuramo ali e a peteca sumiu. Isalou. Veio mais gente ajudá. Era peteca de estimação, a da Manoela. Daí a pouco, todo o corpo docente do grupo escolar tava atrás da peteca de pena roxa da Manoela.
- A não, sô! Larga mão disso! Até agora cê tá enrolano a gente, home!
- Não, moço! Pêra aí, uai! De repente, olho pro traseiro duma vaca, uma holandesa bem fortona, peitaria arrastando pelo chão, e quem eu vejo, presa entre o rabo da dita-cuja e sua perseguida? Isso mesmo, a petequinha da Manoela tava debaixo do rabo da vaca do prefeito, bem escondidinha e apertadinha. Aí é que deu merda. Foi azá demais da conta, sô! Eu só fiz perguntar, com toda inocência do mundo, enquanto segurava o rabo da vaca, levantano o danado, pra mode sortá a peteca da minha Manoela daquele sufoco:
-Amô, essa aí é paricida com a sua, não é não?