01/11/2008

Dona, cadê minha viola?

O nome dele era Simplício. Simplício da Simplicidade. Homem erado já, beirando os setenta. Pobre, magrelo e banguela, faltando os dentes da frente e só tendo as duas presas para, em forma de grampo, segurar o que entrasse boca adentro.
Simplício era cantador dos melhores. E bom de viola. Nas redondezas ninguém tirava uma folia melhor que ele. Folião de mão cheia fazia dessa sua arte, viola e folia, um meio de vida. Por isso é que vivia como um andarilho, de déu em déu, pr'aqui e pr'ali à procura de onde mostrar seus dotes.
Foi aí que dona Argentina, viuvona rica, proprietária duma baita fazenda, mandou chamar o Simplício pra ser o puxador da folia de Reis.
Na véspera chega ele lá. Paletozinho seca-poço encarnado numa mão e a velha viola debaixo do braço. Vai entrando de mansinho sem ver o Tufão. Cachorro vira-lata dos grandes, cheio de fome, de magreza, de berne, de sujeira e com as vistas fracas. Tufão, mal viu o paletó cor de carne, não pensou nem uma vez, já que cachorro não pensa. Deu um bote e... Era uma vez um paletó encarnado! Simplício só ficou com um pedaço dele na mão.
Agoniado, pesaroso com o acontecido, nervoso com o atrevimento do vira-lata, acaba de chegar, falando de Simplício para Simplício: "tem nada não, despois duma curva sempre tem uma reta...". Conversa vai, conversa vem, fica no alpendre esperando a noite chegar e, junto com ela, os companheiros da folia. Raiva não foi embora não.
Numa certa altura dos pequenos acontecimentos, tão comuns na vida de Simplício, ele ouve a fazendeira gritar pro filho:
- Mundico! Vai pegá caju pro gato!
Passa um tempo e a mesma lenga:
- Anda ligero, minino! Cadê os caju do gato!
Simplício, muito calmamente pega o que sobrou do paletozinho, levanta do banquinho, chama dona Argentina e pede:
- Dona, me dê minha viola!
- Uai, sô Simplício, vai tocá arguma coisa pra gente?
- Vô nada! Vô é m'imbora!
Quem ouviu se assustou com a decisão do velho. E ele, já começando a se mandar, resolve dar uma explicação:
- Em lugá que cachorro come palitó e gato chupa caju, Simplício da Simplicidade velho num canta e nem toca! Inté!...

12 comentários:

Dalinha Catunda disse...

Olá Eurico,

Em lugar que cachorro come poletó.
E gato chupa caju.
O pobre Felício ficou com medo
que sua viola virasse angu.

Botou a viola no saco,
e saiu de lá bem jururu.
com medo de coisa pior,
Tomou o caminho do sul.

Um abraço,
Dalinha

Anônimo disse...

Muito boa esta história do Simplício.
Vim retribuir sua visita e desejar que tenha uma semana excelente.

Eurico de Andrade disse...

Dalinha! Que chique que tô, né? Já tem personagem meu virando assunto pros seus corddéis? Muito obrigado pelo carinho!

Eurico de Andrade disse...

Catarino,
Obrigado pela visita, parceiro! Seu blog tá de parabéns. De vez em quando tô lá!

Leila disse...

Velha mais estranha, sô!
Simplício escapou de uma bela encrenca.Ainda bem!

Raquel disse...

Com certeza as regras normativas da nossa bela Língua Portuguesa confundem muita gente.Confesso que não domino todas as regras, mas acho fascinante descobrí-las e desvendá-las.

Vou aceitar sua sugestão e preparar um post sobre o ESSE/ESTE em breve.

Abs
Raquel

Ah, depois volto para comentar especificamente esse post com calma. Acabei de chegar do trabalho agora e estou meio que correndo por aqui.

Eurico de Andrade disse...

Raquel, obrigado por aceitar minha sugestão. Há muitas dúvidas, de muita gente, sobre certos detalhes da LP. No seu blog você pode ajudar a tirar muitas dessas dúvidas.

New disse...

Oiêeee!
Obrigada pela visita e voltei sempre que puder. Adorei.
Demorei a vir agradecer pois estive, totalmente, sem tempo. Perdoe-me.
Quanto ao nosso amigo Simplício ele, de fato, não é chegado em nada estúrdio, né? rsrsrs... certo ele.
Beijos e uma boa quarta.

Eurico de Andrade disse...

New, obrigado pela visita! Vc, sempre, muito gentil e atenciosa. É um prazer recebê-la aqui.

SADY FOLCH disse...

Taaarde Compadre Eurico !

Nhô Dito Sabiá manda um abraço. E diz que saiu de férias com dona Maroca, prá móde de buscá ferramenta nova pro Dedo de Prosa. Tá lá prás banda de Cuiabá, no Mato Grosso.

Eu, me achego nestas paragens prá lhe agradecer pela inscrição no acompanhamento do SCRIPTOR IN DESASSOSSEGO. Saiba que é uma honra para mim a sua presença.

Logo que Nhô Dito voltar, mecê será dos primeiros a serem avisados.

Um forte abraço com os parabéns por suas produções.

Sady Folch

www.mirzesouza.blogspot.com disse...

Muito bom! Simplício da Simplicidade. Esse é dos meus! Minha avó dizia que quando Deus tira os dentes, alarga a guela!
Que cachorro danado esse, viu? Tadinho do Simplício.

Parabéns, Eurico!
Um forte abraço

Mirze

Anônimo disse...

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