Um dia Bentão arranjou namorada. Gente de fora, pois que as da terra, se sérias fossem, dele fugiam. Não que fosse feio ou desarranjado. Não. Bentão até que era ajeitado, andava bem arrumado, trabalhava muito... Mas por que as moças de Tabuí não olhavam para ele com olhos de amor?
- Bentão é invicioneiro – dizia o povo.
E como o povo não inventa, só aumenta e quando o povo fala ou é, ou foi, ou será, o moço – dizia-se - era responsável por um monte de moças mal encaminhadas da cidade. Saiam um dia ou uma noite com ele, caiam na boca do povo, pois Bentão contava pra todo mundo muito mais do que não fez, mas disse que fez, do que o que fez. Aí passavam a ser olhadas com olhos tortos, as amigas se retraiam, as mães seguravam suas donzelas, apareciam conversas atravessadas e o diz-que-diz só aumentando. Por isso o cartaz de Bentão foi chegando a zero, com o moço ficando mais sujo que puleiro de pato. A ele, então, só sobravam as moças de fora, quando aparecia alguma na cidade e se engraçava pro seu lado. Foi quando surgiu a Manoela. Uma fortona, que não chegava a ser gorda, e compridona, bem maior que o Bentão. Loira, bela feição, bem vestida, moça pra lá de boa. Ia ser professora do grupo escolar. Gente fina e intelectual achou Bentão bonito e resolveu jogar um piscado pro lado dele, sem conhecer a fama do rapaz.
À piscadela, bem captada, Bentão já soltou aos quatro ventos:
- A professora tá apaixonada por mim e qué marcá encontro.
Após a conversa do primeiro encontro, à noitinha, no domingo, em plena praça, no banco do “Vaca Profana – o açougue dos amigos”, Bentão ficou apaixonado pela professora. Aí emudeceu, sufocando aquela boca fofoqueira.
- Minha boca é um túmbalo. Conto nada não, uai...
Ninguém imaginava que a paixão, quando chegasse, poria mudo o moço. Os amigos provocavam e nada. Até o dia em que Bentão apareceu de olho roxo e namoro terminado. A turma queria porque queria saber o motivo do quiprocó de qualquer jeito. Depois de insistência de vários dias, ele não agüentou e, sufocado, soltou o verbo.
- Eu tava jogando peteca com a minha noiva, no dia em que nós foi com as professora do grupo escolar fazer piquenique na fazenda do prefeito...
- Sim. E aí, Bentão?
- Aí todo mundo resolveu jogá peteca tamém. Apareceu peteca de tudo quanto é cor. E entre uma petecada e outra, eu mais minha noiva era um amasso aqui, outro ali, um beijinho pra cá, outro pra lá, e o negócio só ficando danado de bão. Eu, doido pra mexer na documentação da minha noiva, mas com medo de avançar demais da conta, só falei bem, vamo enchê a barriga de bebê hoje? Ela ficou toda sem jeito e, com aquela força que Deus deu, tascou um tapa tão forte na peteca, que a coisa foi cair lá no meio das vacas do prefeito...
- Marrapá, vai peidá n'água, vai! Até agora cê num falô do oio roxo, sô!
- Aí, menino, põe sentido, a gente procuramo aqui, procuramo ali e a peteca sumiu. Isalou. Veio mais gente ajudá. Era peteca de estimação, a da Manoela. Daí a pouco, todo o corpo docente do grupo escolar tava atrás da peteca de pena roxa da Manoela.
- A não, sô! Larga mão disso! Até agora cê tá enrolano a gente, home!
- Não, moço! Pêra aí, uai! De repente, olho pro traseiro duma vaca, uma holandesa bem fortona, peitaria arrastando pelo chão, e quem eu vejo, presa entre o rabo da dita-cuja e sua perseguida? Isso mesmo, a petequinha da Manoela tava debaixo do rabo da vaca do prefeito, bem escondidinha e apertadinha. Aí é que deu merda. Foi azá demais da conta, sô! Eu só fiz perguntar, com toda inocência do mundo, enquanto segurava o rabo da vaca, levantano o danado, pra mode sortá a peteca da minha Manoela daquele sufoco:
-Amô, essa aí é paricida com a sua, não é não?
29/11/2008
22/11/2008
Tabuí pega em armas para salvar o Chile
Época de revolução no Chile. As notícias que chegavam pela televisão e pelo rádio eram nada animadoras. Pelos jornais idem. Allende estava sendo massacrado e suas forças debandando. Foi quando começou a reação em Tabuí. Aristeu, Cozinho, Xulapa e Delei, no boteco, tomavam umas e outras e quase choraram ao ver uma gravação em que o Allende fazia um manifesto à nação. Aí resolveram que eram comunistas e que iriam ajudar o companheiro Allende.
- Gente, isso num pode tá aconteceno! Tadim do home!...
- É memo, Xulapa! O quecagente faiz?
O Cozinho que, pela aparência, era o menos bêbado dos quatro, arremata:
- Acho mais mió a gente i socorrê o home, gente!
- Mas, como, Cozinho? Esse país fica lá onde o vento incosta o cisco, sô!
- A gente vamo no jipe do Delei, uai!
Arranjaram duas espingardas de carregar pela boca, uma garrucha e um revólver, emprestados - os dois últimos sem munição - e nem foram em casa para as despedidas da famiage. Só deixaram recado no bar dizendo que iam salvar o companheiro lá no Chile. E se mandaram de jipe, das alterosas da Emigê rumo aos Andes, para enfrentar o exército chileno e resgatar o Allende, já encurralado no palácio presidencial.
Rodaram bem umas duas léguas, com o jipe engasgando nas subidas, derramando óleo e com os pneus carecas, até que chegaram no Abacaxi e contaram pro Fiíco o motivo da viagem. Ganharam mais um companheiro que ainda chamou o Manqüeba, - grande caçador de tico-tico com espingarda de chumbinho -, para colaborar na perigosa missão e aumentar o poder de fogo do grupo.
- Confofô, ieu vô... - disse o Manqüeba, arrematando - e tem golo?
Quase escurecendo, resolveram, antes da partida para a guerra, como ninguém era de ferro e aproveitando a sugestão do Manqüeba, fazer uma despedida no bar do Bigode. Juntaram duas mesas e vai o Bigode descer cerveja e cachaça e a fritar frango e lambari que os seis entornavam e comiam num piscar d'olhos. Beberam tanto que, tarde da noite, nem conseguiram sair do bar. Aterrissaram por ali, bem trancados pelo Bigode com medo de lhe passarem a perna e preocupado porque não havia ainda recebido a conta.
Quando acordam pelo meio da manhã, com ressaca braba e gosto de guarda-chuva velho na boca, demoram a entender o que faziam naquele lugar estranho. Aí lembram da missão, com desânimo... Vão pra beira de um rádio Semp e ouvem que o Allende havia se suicidado, segundo a versão oficial.
- Pronto, gente! Meu Deus do céu! Acabô nossa viage! O home morreu porque a gente ficamo fazeno hora e num cheguemo a tempo... Mardita bebida! - choramingou o Delei, com enjôo e a cabeça estalando de dor.
- Ô disgraça! E ieu, doido pra sê herói, quinem o Lampião, sô! Agora num vai dá mais... – constatou o Aristeu.
Os quatro voltaram pra Tabuí a pé, - gastando meio dia de caminhada -, frustrados, revoltados, tristes e chorosos, convencidos de que, não fosse a festa de despedida, chegariam a tempo de salvar o companheiro Allende e não teriam ficado sem a condução, pois que tiveram que deixar o jipe do Delei como garantia de que um dia pagariam a conta do Bigode.
- Mardito Bigode! Além de num intendê de patriotismo, comete a desumanidade de deixá a gente a pé!... – Reclamava o Xulapa, enquanto mancava, estrada a fora.
- Gente, isso num pode tá aconteceno! Tadim do home!...
- É memo, Xulapa! O quecagente faiz?
O Cozinho que, pela aparência, era o menos bêbado dos quatro, arremata:
- Acho mais mió a gente i socorrê o home, gente!
- Mas, como, Cozinho? Esse país fica lá onde o vento incosta o cisco, sô!
- A gente vamo no jipe do Delei, uai!
Arranjaram duas espingardas de carregar pela boca, uma garrucha e um revólver, emprestados - os dois últimos sem munição - e nem foram em casa para as despedidas da famiage. Só deixaram recado no bar dizendo que iam salvar o companheiro lá no Chile. E se mandaram de jipe, das alterosas da Emigê rumo aos Andes, para enfrentar o exército chileno e resgatar o Allende, já encurralado no palácio presidencial.
Rodaram bem umas duas léguas, com o jipe engasgando nas subidas, derramando óleo e com os pneus carecas, até que chegaram no Abacaxi e contaram pro Fiíco o motivo da viagem. Ganharam mais um companheiro que ainda chamou o Manqüeba, - grande caçador de tico-tico com espingarda de chumbinho -, para colaborar na perigosa missão e aumentar o poder de fogo do grupo.
- Confofô, ieu vô... - disse o Manqüeba, arrematando - e tem golo?
Quase escurecendo, resolveram, antes da partida para a guerra, como ninguém era de ferro e aproveitando a sugestão do Manqüeba, fazer uma despedida no bar do Bigode. Juntaram duas mesas e vai o Bigode descer cerveja e cachaça e a fritar frango e lambari que os seis entornavam e comiam num piscar d'olhos. Beberam tanto que, tarde da noite, nem conseguiram sair do bar. Aterrissaram por ali, bem trancados pelo Bigode com medo de lhe passarem a perna e preocupado porque não havia ainda recebido a conta.
Quando acordam pelo meio da manhã, com ressaca braba e gosto de guarda-chuva velho na boca, demoram a entender o que faziam naquele lugar estranho. Aí lembram da missão, com desânimo... Vão pra beira de um rádio Semp e ouvem que o Allende havia se suicidado, segundo a versão oficial.
- Pronto, gente! Meu Deus do céu! Acabô nossa viage! O home morreu porque a gente ficamo fazeno hora e num cheguemo a tempo... Mardita bebida! - choramingou o Delei, com enjôo e a cabeça estalando de dor.
- Ô disgraça! E ieu, doido pra sê herói, quinem o Lampião, sô! Agora num vai dá mais... – constatou o Aristeu.
Os quatro voltaram pra Tabuí a pé, - gastando meio dia de caminhada -, frustrados, revoltados, tristes e chorosos, convencidos de que, não fosse a festa de despedida, chegariam a tempo de salvar o companheiro Allende e não teriam ficado sem a condução, pois que tiveram que deixar o jipe do Delei como garantia de que um dia pagariam a conta do Bigode.
- Mardito Bigode! Além de num intendê de patriotismo, comete a desumanidade de deixá a gente a pé!... – Reclamava o Xulapa, enquanto mancava, estrada a fora.
Na missa ninguém põe o pinto pra fora
Lá em Tabuí, querendo ou não, a pessoa que tá mais em cima da carne seca é o padre Anacleto. Quase todo mundo faz reverências a ele. Qualquer fuá na cidade, sempre chega aos seus ouvidos. E a sua fama, de homem bom, embora rigoroso e intransigente com quem fere os dogmas da Santa Igreja, cresce sertão a fora. E o senhor vigário, aos trancos e barrancos, vai levando a vida, como Deus quer. Falando mal o Português, embora tenha chegado da Itália pra mais de vinte anos, trabalhando muito, careca aumentando, engordando cada vez mais e a barriga crescendo. Não que sua mesa seja farta. A pobreza da cidade atinge também quem cuida das almas. O negócio é que dia sim, dia não, tem missa na roça. E, em cada lugar que chega, é festa das mais bacanas. Frango, o prato principal. E ele devora um frango tranqüilo, seja acompanhado com quiabo, pequi, mandioca, inhame, angu, ou sem companhia mesmo. O povo até fala que, por lá, cemitério de frango é a barriga do padre Anacleto. Vive só o homem de Deus, celibatário convicto desde a juventude, tendo apenas a companhia da velha Nicota que vai à casa paroquial toda manhã para arrumar a casa e fazer o almoço, quando precisa. Gercino é o sacristão. Rapaz novo ainda, mas entende tudo de missas e de cerimônias de igreja. Quase sempre acompanha o vigário nas suas andanças pelas roças. Único problema do sacristão, além de não conseguir arrumar namorada, é exagerar nas doses do vinho de missa que surrupia do padre Anacleto e manda pro peito, a ponto de ajudar nas missas meio grogue.
Pois bem. Um dia, padre Anacleto vai, com Gersino, celebrar missa na Perdição. Mesmo povinho de sempre, vendendo piedade. De repente, quase na hora da consagração, burburinho lá fora. E entra aquela horda na igreja, com olhares interrogativos e respiração ofegante.
- Ma che!!!... Quequéisso, gente?!... – pergunta, gritando, o padre Anacleto, interrompendo a missa.
Os invasores olham um pro outro, com cara de susto, ninguém querendo falar, até que o Vitrolino resolve abrir o bico.
- É que a gente pensemo que o sinhô tinha morrido, sô vigário!...
- Io? Ma per che?
Aí Vitrolino sentiu espaço para esclarecer a história. Fora o Zé Lapada o culpado por todo aquele rebuliço. Corria fama de que ele era o maior mentiroso das redondezas, mas, mesmo assim, naquele dia, recebeu crédito. Chegando a Tabuí a galope, cavalo pingando suor, encontrou, logo na entrada da cidade, o Expedito e a mulher Gravitolina, consertando a cerca de bambu do seu lote.
- Vem cá, Zé Lapada! Vem contá umas mentiras pra nóis, enquanto a gente descansamo!
- Hoje não posso não, sô! Tô vino lá da Perdição. Padre Anacleto morreu e vim avisá o povo...
- É divera?... Meu Deus do céu! Tadinho do padre Anacleto! O que será de nóis?...
Gravitolina deixou o marido engasgado, pronto para o pranto, e já saiu chorando para contar a triste novidade à vizinhança.
- E ondé qui tá ele, home de Deus?
- Tá lá, na igrejinha da Perdição, em cima de um banco, seno velado e chorado pelo povo.
E Zé Lapada, feito herói de novela, partiu de novo a galope, chicoteando o pangaré, rumo da praça da matriz. A notícia correu como fogo em palha seca. Não demorou meia hora tava o povo chorando em massa e, a cavalo, a pé, de charrete, caminhão, fusca, perua, chimbica e o diabo a quatro, foi, todo mundo que podia, baixar na Perdição, quase légua e meia de distância. Chegaram a tempo de assistir mais da metade da missa celebrada pelo ex-defunto, enquanto Zé Lapada, tranqüilo, esperando o circo pegar fogo, molhava a goela com água que passarinho não bebe, num boteco da praça da matriz.
Senhor vigário, a princípio, não gostou muito da história não, mas, na hora do Pai Nosso, já tava rindo embutido da criatividade do Lapada. Igrejinha empetecada de gente, dentro e fora, suor escorrendo, fedentina aumentando... nem chegou a hora da comunhão, outro rebuliço. O povo já tava acostumado, durante as rezas e missas, a ver entrar bicho na igreja. Passarinhos, galinhas, gatos e cachorros eram fregueses assíduos. Até uma porca e cinco leitões resolveram, numa missa, marcar presença. Mas nesse dia, mesmo não cabendo mais ninguém, um pinto pelado, desgarrado, achou caminho para entrar. E, porque desgarrado estava, piava um pio tão estridente e choroso que fazia eco doído no ouvido de cada fiel. Aquilo foi pondo padre Anacleto nervoso e o povo agoniado. O vigário tolerou enquanto pôde, até que explodiu, para susto do povaréu:
- Cadê os homes desse lugar? Dio mio! Tanto home na minha frente e ninguém é capaz de botar o pinto pra fora?!!! Porcamiseria!!!...
Pois bem. Um dia, padre Anacleto vai, com Gersino, celebrar missa na Perdição. Mesmo povinho de sempre, vendendo piedade. De repente, quase na hora da consagração, burburinho lá fora. E entra aquela horda na igreja, com olhares interrogativos e respiração ofegante.
- Ma che!!!... Quequéisso, gente?!... – pergunta, gritando, o padre Anacleto, interrompendo a missa.
Os invasores olham um pro outro, com cara de susto, ninguém querendo falar, até que o Vitrolino resolve abrir o bico.
- É que a gente pensemo que o sinhô tinha morrido, sô vigário!...
- Io? Ma per che?
Aí Vitrolino sentiu espaço para esclarecer a história. Fora o Zé Lapada o culpado por todo aquele rebuliço. Corria fama de que ele era o maior mentiroso das redondezas, mas, mesmo assim, naquele dia, recebeu crédito. Chegando a Tabuí a galope, cavalo pingando suor, encontrou, logo na entrada da cidade, o Expedito e a mulher Gravitolina, consertando a cerca de bambu do seu lote.
- Vem cá, Zé Lapada! Vem contá umas mentiras pra nóis, enquanto a gente descansamo!
- Hoje não posso não, sô! Tô vino lá da Perdição. Padre Anacleto morreu e vim avisá o povo...
- É divera?... Meu Deus do céu! Tadinho do padre Anacleto! O que será de nóis?...
Gravitolina deixou o marido engasgado, pronto para o pranto, e já saiu chorando para contar a triste novidade à vizinhança.
- E ondé qui tá ele, home de Deus?
- Tá lá, na igrejinha da Perdição, em cima de um banco, seno velado e chorado pelo povo.
E Zé Lapada, feito herói de novela, partiu de novo a galope, chicoteando o pangaré, rumo da praça da matriz. A notícia correu como fogo em palha seca. Não demorou meia hora tava o povo chorando em massa e, a cavalo, a pé, de charrete, caminhão, fusca, perua, chimbica e o diabo a quatro, foi, todo mundo que podia, baixar na Perdição, quase légua e meia de distância. Chegaram a tempo de assistir mais da metade da missa celebrada pelo ex-defunto, enquanto Zé Lapada, tranqüilo, esperando o circo pegar fogo, molhava a goela com água que passarinho não bebe, num boteco da praça da matriz.
Senhor vigário, a princípio, não gostou muito da história não, mas, na hora do Pai Nosso, já tava rindo embutido da criatividade do Lapada. Igrejinha empetecada de gente, dentro e fora, suor escorrendo, fedentina aumentando... nem chegou a hora da comunhão, outro rebuliço. O povo já tava acostumado, durante as rezas e missas, a ver entrar bicho na igreja. Passarinhos, galinhas, gatos e cachorros eram fregueses assíduos. Até uma porca e cinco leitões resolveram, numa missa, marcar presença. Mas nesse dia, mesmo não cabendo mais ninguém, um pinto pelado, desgarrado, achou caminho para entrar. E, porque desgarrado estava, piava um pio tão estridente e choroso que fazia eco doído no ouvido de cada fiel. Aquilo foi pondo padre Anacleto nervoso e o povo agoniado. O vigário tolerou enquanto pôde, até que explodiu, para susto do povaréu:
- Cadê os homes desse lugar? Dio mio! Tanto home na minha frente e ninguém é capaz de botar o pinto pra fora?!!! Porcamiseria!!!...
14/11/2008
Por falar em sofrimento
- Como Fofó não tem mais mió. Ôta home bão, sô!Era assim que a turma chamava Fofó, o companheiro humilde, sério, bom exemplo e pau pra toda obra. Ninguém mais conhecido, estimado e querido por todos os filhos de Tabuí. Mais pelo que não dizia do que pelo vice-versa.
O único defeito de Fofó foi ter casado com a Aniceta, a cabeleireira mais afamada da cidade que – sinal dos novos tempos - ganhava muito mais que o marido. Mas aí é que a porca torcia o rabo. Mulher difícil, arrogante e que falava de tudo e de todos, por todos os cotovelos. Fofó não fazia nada sem pedir a benção da dona Aniceta. Mesmo com opiniões erradas e contraditórias, tinha que ser daquele jeito. Por isso, ele foi ficando homem triste, de tanto sofrer nas unhas daquela encrenca.
Fofó comerciava na sua venda, ali na esquina da Rua do Comércio com a do Assobio, secos e molhados, mas, tinha dia, não vendia nem um e nem outro. Vez por outra matava um capado e colocava as bandas de toucinho, costelas, suã, pernil, lingüiça, chouriço, e tudo o mais que tivesse direito, sobre o balcão para atiçar a freguesia. Nos tempos livres, quase o dia todo, tocava, na gaita desafinada, os boleros mexicanos. Fora com essa gaitinha, tocando “Las Mañanitas” que conquistara a Aniceta numa noite de serenata e muita pinga e torresmo como tira-gosto. Era também com a gaitinha que Fofó às vezes conseguia acalmar Aniceta quando ela aprontava fuzuê pra cima dele. A venda, nos finais de tarde, era ponto obrigatório para quem quisesse saber das novidades da cidade, uma vez que lá todo assunto era discutido. Não que Fofó fosse fofoqueiro. Não. Da boca dele, não saía um a. Mas o povinho tinha jeito não. Tretou, relou, nomes das pessoas mais insuspeitas iam pra boca do mundo, enquanto Fofó ficava pra cá e pra lá, vendendo suas coisinhas ou fazendo frin-fron.
Apesar dos pesares, o casal levava vida confortável, muito mais pelo trabalho dela, já que as mulheres da cidade, ultimamente, andavam querendo ficar cada vez mais bonitas pros seus homens, com os cabelos cheios de tinta e de cortes modernos. Assim, Aniceta ganhava uns bons troquinhos.
Foi observando isso que um dos amigos do Fofó resolveu dar-lhe uma alfinetada:
- Fofó, ocê anda cheio da bufunfa, heim, sô?
- Quem? Ieu?
- É, home! Fiquei sabendo quiocê tá cheio da grana.
- Isso é lorota, sô! Se num sesse a boca de cabelo da Aniceta eu tava falido, home!
Numa tarde chuvosa e fria quando a pinga já tava rolando e o assunto escasseava, a dona Jaquelina, que fora comprar umas peles de porco mode fritar, começou a falar em sofrimento, carestia, pobreza, falta de leitura e mais outras tristezas. O tema pegou fogo. Uns falavam das injustiças, outros de mais misérias e outros de montão de doenças. Mas o Dionésio, vendedor de balas e bolachas, abismado com a fofocaiada, tentou contornar o assunto com uma ênfase espiritual e, filosoficamente, argumentou:
- Gente, nos sofrimentos e nos espinhos da vida é que colhemos as mais lindas flores. Isso tudo que a gente lamentamos não é nada. Muito mais do que isso Jesus Cristo sofreu!...
Foi aí que o sô Fofó, meio que distraído, mão no queixo e cotovelo fincado no balcão, aprumou o corpo, passou a mão no cabelo alisado à força, piscou um olho, levantou a sobrancelha e deu sua opinião - não sem antes olhar na porta para ver se a mulher não estava chegando - que calou todo mundo:
- Mais, ô minha gente, óia aqui, ó! Meu Jesuscristinho não sofreu tanto assim. Ele não era casado com a Aniceta!... Ó céus! Ó vida! Ó cruiz!...
Mas como nesta vida tudo muda, quase tudo acaba, Fofó, quase vinte anos mais velho que Aniceta, esticou as canelas. O amigo Dionésio resolveu prestar uma última homenagem ao falecido, colocando, sem que ninguém notasse, a gaita entre as pernas do defunto. Mas Aniceta viu. E, já com saudade do frin-fron, chorando e falando alto, exclamou:
- Oh, meu Deus! Como é a vida! O que eu mais gostava está indo embora entre as pernas do meu Fofó!
07/11/2008
As marcas da aparência
Lá em Tabuí tinha um negão brilhoso, azulado e teimoso. Tão teimoso que ficou rico zunhando daqui e zunhando dali, fazendo umas malandragenzinhas e muito dentro do pãodurismo. No começo todo mundo o conhecia por Pitoco do Rolamoça. Depois, na abastança, virou senhor Epitácio da Silva. Ai de quem o chamasse pelo antigo nome. Era cacete na certa.
Mas o senhor Epitácio da Silva não estava satisfeito com a vida de rico só não. Enricara e queria mais. Era ambicioso e orgulhoso. Passou a querer caber onde muita gente achava que ele não cabia. Povo racistazinho o de Tabuí!... A coisa começou a entornar o caldo para o lado do Epitácio quando ele resolveu que era hora de entrar para a política. Logo o Epitácio, que mal conseguia juntar as letrinhas para escrever seu nome, querendo virar político!...
- Eles tão no bem-bão e eu tamém quero entrá nessa. Quero ajudá a resorvê os pobrema do país...
Como todo político que se preza.
Foi lá no vigário pedir aconselhamento e orientação.
- Sô vigaro, tô com dois pobrema...
- Sim, figlio mio? Qual o segundo?
Padre Anacleto, embora sotaqueando, gostava muito de perdoar atentados gramaticais de qualquer um não. Muito menos do senhor Epitácio da Silva que todo mundo, dentro do confabulamento, sabia qual era seu sonho.
- Sabe, sô padre, quero entrá na política e quero sabê o que qui o senhor acha. Quero ajudá muito o sinhô e a igreja, se Deus quisé!
- Olha, senhor Epitácio, io num acho niente, muito menos pelo contrário.
- O senhor acha que dô para político?
- Io non lo so! Mas digo-lhe que se o signore tem um sonho e pode tentar executá-lo, que tente! E veja no que dá.
- Pois é sô vigaro. Acho que posso ajudá a resorvê a pobremada do Brasil rapidinho. Já tenho uns projeto...
- Si, signore Epitácio da Silva. Todos pensam assim no começo. Depois é só venha a nós. Mas seja o que Deus quiser!... Fé n'Ele e pé na tábua.
Senhor Epitácio da Silva, todo aperuado, começou sua campanha política com festanças e discursos que poucos entendiam. Dava botinas pra tudo quanto é homem e cortes de chita e de chitão pras mulheres. Tornou-se o maior caridoso da paróquia. Seu negócio era virar deputado estadual de qualquer maneira. Ir pra capital. Ser respeitado... Sair no jornal, na televisão... Seria a glória.
Para parecer uma pessoa importante candidato Epitácio comprou um carrão último tipo. Naquele tempo o carrão de gente importante era Itamaraty. Foi nesse mesmo que nosso amigo começou a cortar o mundo e a mostrar sua riqueza. Dificuldade danada para aprender a dirigir. Analfabetismo brabo. Mas aos trancos e barrancos Epitácio ia levando seu nome pra todo lado, até nos confins de Tabuí. Todo mundo já conhecia o negão, aquele do carrão. E o pessoal começou a achar que o Epitácio era homem esforçado e que, sendo rico, não ia precisar de roubar quando entrasse na política. Esses baratos todos... Voto de muita gente tava garantido, principalmente daqueles que, vendo nele um raro exemplo da raça que se sobressaia na riqueza, despejaria voto no conterrâneo.
Depois de conquistar Tabuí, senhor Epitácio da Silva resolveu levar seu nome para o conhecimento da vizinhança. Outras cidades. Pequenas como Tabuí. Primeiro foi Uruburetama. No caminho, deu carona para um abotoadinho de paletó e gravata, todo empertigado, que carregava Bíblia e pastinha. Uma em cada mão. Era um pastor protestante batalhador, testemunha de Jeová, disposto a arrebanhar ovelhas pro seu rebanho assim como nosso herói arrebanhava votos. O pastor assentou no banco traseiro do carro e lá se foram os dois papeando. Epitácio na frente, choferando, e o pastor atrás. Chegam ao posto de gasolina na beira da estrada. Poderia ser mais um voto o do rapaz da bomba.
- Compreta o tanque, meu pobre rapaz!
O rapaz ficou meio aziado com o tratamento. Pensou: "pobre é a mãe". Mas fez o serviço.
- É treis mil cruzeiro!
O candidato, mais que depressa, dá uma nota de cinco mil novinha, junto com um santinho da sua campanha e diz:
- Pode guardá o troco!
O rapaz, também analfabeto, satisfeito com tanta bondade, julgando que o do banco traseiro, o do terninho, é que era o dono do carro, foi para a janela traseira e se desmanchou em agradecimentos:
- Deus lhe pague, meu senhor! Hoje minha muié e meus dois fio vão podê jantá!... Deus te dê em drobo, meu patrão!
O pastor, caladinho, não sabia o que dizer, tão cômica a situação. E o Epitácio, tão enfezado que nem olhava para trás, pensava consigo mesmo: "que desaforo, eu sê cunfundido com um pé rapado desses, como se ele fosse o dono do carro e o doadô da gorjeta..."
Disse então ao pastor, depois de muito craniar:
- O senhor sabe dirigir?
- Sei, sim senhor!
- Então passa pra frente. Fica'qui no meu lugá!
Depois de andarem mais um bom pedaço, param noutro posto para botar mais combustível. O empregado, um gorducho bonachão, encheu o tanque, sem tirar um riso zombeteiro e um palito do canto da boca. Epitácio passa cinco mil para o pastor pagar dois mil e quinhentos e repetir a história de antes.
- Pode ficar com o troco, meu amigo!
O gorducho muito satisfeito agradece, cheio de palavras, ao pastor. Depois se dirige ao negão piscando um olho e retirando o palito do canto da boca:
- Aí negão! Pegano carona, heim?
Mal eles somem de vista do posto, o candidato manda parar o carro. Resolve abandonar o pastor e voltar pra sua Tabuí. Desanimado e puto da vida.
- Sô vigaro, quero mais sê político não. Vô pará. Quem nasceu pra sê Pitoco, num consegue chegá a Sua Excelência senhor Epitácio da Silva nunca não!...Inté!
Mas o senhor Epitácio da Silva não estava satisfeito com a vida de rico só não. Enricara e queria mais. Era ambicioso e orgulhoso. Passou a querer caber onde muita gente achava que ele não cabia. Povo racistazinho o de Tabuí!... A coisa começou a entornar o caldo para o lado do Epitácio quando ele resolveu que era hora de entrar para a política. Logo o Epitácio, que mal conseguia juntar as letrinhas para escrever seu nome, querendo virar político!...
- Eles tão no bem-bão e eu tamém quero entrá nessa. Quero ajudá a resorvê os pobrema do país...
Como todo político que se preza.
Foi lá no vigário pedir aconselhamento e orientação.
- Sô vigaro, tô com dois pobrema...
- Sim, figlio mio? Qual o segundo?
Padre Anacleto, embora sotaqueando, gostava muito de perdoar atentados gramaticais de qualquer um não. Muito menos do senhor Epitácio da Silva que todo mundo, dentro do confabulamento, sabia qual era seu sonho.
- Sabe, sô padre, quero entrá na política e quero sabê o que qui o senhor acha. Quero ajudá muito o sinhô e a igreja, se Deus quisé!
- Olha, senhor Epitácio, io num acho niente, muito menos pelo contrário.
- O senhor acha que dô para político?
- Io non lo so! Mas digo-lhe que se o signore tem um sonho e pode tentar executá-lo, que tente! E veja no que dá.
- Pois é sô vigaro. Acho que posso ajudá a resorvê a pobremada do Brasil rapidinho. Já tenho uns projeto...
- Si, signore Epitácio da Silva. Todos pensam assim no começo. Depois é só venha a nós. Mas seja o que Deus quiser!... Fé n'Ele e pé na tábua.
Senhor Epitácio da Silva, todo aperuado, começou sua campanha política com festanças e discursos que poucos entendiam. Dava botinas pra tudo quanto é homem e cortes de chita e de chitão pras mulheres. Tornou-se o maior caridoso da paróquia. Seu negócio era virar deputado estadual de qualquer maneira. Ir pra capital. Ser respeitado... Sair no jornal, na televisão... Seria a glória.
Para parecer uma pessoa importante candidato Epitácio comprou um carrão último tipo. Naquele tempo o carrão de gente importante era Itamaraty. Foi nesse mesmo que nosso amigo começou a cortar o mundo e a mostrar sua riqueza. Dificuldade danada para aprender a dirigir. Analfabetismo brabo. Mas aos trancos e barrancos Epitácio ia levando seu nome pra todo lado, até nos confins de Tabuí. Todo mundo já conhecia o negão, aquele do carrão. E o pessoal começou a achar que o Epitácio era homem esforçado e que, sendo rico, não ia precisar de roubar quando entrasse na política. Esses baratos todos... Voto de muita gente tava garantido, principalmente daqueles que, vendo nele um raro exemplo da raça que se sobressaia na riqueza, despejaria voto no conterrâneo.
Depois de conquistar Tabuí, senhor Epitácio da Silva resolveu levar seu nome para o conhecimento da vizinhança. Outras cidades. Pequenas como Tabuí. Primeiro foi Uruburetama. No caminho, deu carona para um abotoadinho de paletó e gravata, todo empertigado, que carregava Bíblia e pastinha. Uma em cada mão. Era um pastor protestante batalhador, testemunha de Jeová, disposto a arrebanhar ovelhas pro seu rebanho assim como nosso herói arrebanhava votos. O pastor assentou no banco traseiro do carro e lá se foram os dois papeando. Epitácio na frente, choferando, e o pastor atrás. Chegam ao posto de gasolina na beira da estrada. Poderia ser mais um voto o do rapaz da bomba.
- Compreta o tanque, meu pobre rapaz!
O rapaz ficou meio aziado com o tratamento. Pensou: "pobre é a mãe". Mas fez o serviço.
- É treis mil cruzeiro!
O candidato, mais que depressa, dá uma nota de cinco mil novinha, junto com um santinho da sua campanha e diz:
- Pode guardá o troco!
O rapaz, também analfabeto, satisfeito com tanta bondade, julgando que o do banco traseiro, o do terninho, é que era o dono do carro, foi para a janela traseira e se desmanchou em agradecimentos:
- Deus lhe pague, meu senhor! Hoje minha muié e meus dois fio vão podê jantá!... Deus te dê em drobo, meu patrão!
O pastor, caladinho, não sabia o que dizer, tão cômica a situação. E o Epitácio, tão enfezado que nem olhava para trás, pensava consigo mesmo: "que desaforo, eu sê cunfundido com um pé rapado desses, como se ele fosse o dono do carro e o doadô da gorjeta..."
Disse então ao pastor, depois de muito craniar:
- O senhor sabe dirigir?
- Sei, sim senhor!
- Então passa pra frente. Fica'qui no meu lugá!
Depois de andarem mais um bom pedaço, param noutro posto para botar mais combustível. O empregado, um gorducho bonachão, encheu o tanque, sem tirar um riso zombeteiro e um palito do canto da boca. Epitácio passa cinco mil para o pastor pagar dois mil e quinhentos e repetir a história de antes.
- Pode ficar com o troco, meu amigo!
O gorducho muito satisfeito agradece, cheio de palavras, ao pastor. Depois se dirige ao negão piscando um olho e retirando o palito do canto da boca:
- Aí negão! Pegano carona, heim?
Mal eles somem de vista do posto, o candidato manda parar o carro. Resolve abandonar o pastor e voltar pra sua Tabuí. Desanimado e puto da vida.
- Sô vigaro, quero mais sê político não. Vô pará. Quem nasceu pra sê Pitoco, num consegue chegá a Sua Excelência senhor Epitácio da Silva nunca não!...Inté!
01/11/2008
Dona, cadê minha viola?
O nome dele era Simplício. Simplício da Simplicidade. Homem erado já, beirando os setenta. Pobre, magrelo e banguela, faltando os dentes da frente e só tendo as duas presas para, em forma de grampo, segurar o que entrasse boca adentro.
Simplício era cantador dos melhores. E bom de viola. Nas redondezas ninguém tirava uma folia melhor que ele. Folião de mão cheia fazia dessa sua arte, viola e folia, um meio de vida. Por isso é que vivia como um andarilho, de déu em déu, pr'aqui e pr'ali à procura de onde mostrar seus dotes.
Foi aí que dona Argentina, viuvona rica, proprietária duma baita fazenda, mandou chamar o Simplício pra ser o puxador da folia de Reis.
Na véspera chega ele lá. Paletozinho seca-poço encarnado numa mão e a velha viola debaixo do braço. Vai entrando de mansinho sem ver o Tufão. Cachorro vira-lata dos grandes, cheio de fome, de magreza, de berne, de sujeira e com as vistas fracas. Tufão, mal viu o paletó cor de carne, não pensou nem uma vez, já que cachorro não pensa. Deu um bote e... Era uma vez um paletó encarnado! Simplício só ficou com um pedaço dele na mão.
Agoniado, pesaroso com o acontecido, nervoso com o atrevimento do vira-lata, acaba de chegar, falando de Simplício para Simplício: "tem nada não, despois duma curva sempre tem uma reta...". Conversa vai, conversa vem, fica no alpendre esperando a noite chegar e, junto com ela, os companheiros da folia. Raiva não foi embora não.
Numa certa altura dos pequenos acontecimentos, tão comuns na vida de Simplício, ele ouve a fazendeira gritar pro filho:
- Mundico! Vai pegá caju pro gato!
Passa um tempo e a mesma lenga:
- Anda ligero, minino! Cadê os caju do gato!
Simplício, muito calmamente pega o que sobrou do paletozinho, levanta do banquinho, chama dona Argentina e pede:
- Dona, me dê minha viola!
- Uai, sô Simplício, vai tocá arguma coisa pra gente?
- Vô nada! Vô é m'imbora!
Quem ouviu se assustou com a decisão do velho. E ele, já começando a se mandar, resolve dar uma explicação:
- Em lugá que cachorro come palitó e gato chupa caju, Simplício da Simplicidade velho num canta e nem toca! Inté!...
Simplício era cantador dos melhores. E bom de viola. Nas redondezas ninguém tirava uma folia melhor que ele. Folião de mão cheia fazia dessa sua arte, viola e folia, um meio de vida. Por isso é que vivia como um andarilho, de déu em déu, pr'aqui e pr'ali à procura de onde mostrar seus dotes.
Foi aí que dona Argentina, viuvona rica, proprietária duma baita fazenda, mandou chamar o Simplício pra ser o puxador da folia de Reis.
Na véspera chega ele lá. Paletozinho seca-poço encarnado numa mão e a velha viola debaixo do braço. Vai entrando de mansinho sem ver o Tufão. Cachorro vira-lata dos grandes, cheio de fome, de magreza, de berne, de sujeira e com as vistas fracas. Tufão, mal viu o paletó cor de carne, não pensou nem uma vez, já que cachorro não pensa. Deu um bote e... Era uma vez um paletó encarnado! Simplício só ficou com um pedaço dele na mão.
Agoniado, pesaroso com o acontecido, nervoso com o atrevimento do vira-lata, acaba de chegar, falando de Simplício para Simplício: "tem nada não, despois duma curva sempre tem uma reta...". Conversa vai, conversa vem, fica no alpendre esperando a noite chegar e, junto com ela, os companheiros da folia. Raiva não foi embora não.
Numa certa altura dos pequenos acontecimentos, tão comuns na vida de Simplício, ele ouve a fazendeira gritar pro filho:
- Mundico! Vai pegá caju pro gato!
Passa um tempo e a mesma lenga:
- Anda ligero, minino! Cadê os caju do gato!
Simplício, muito calmamente pega o que sobrou do paletozinho, levanta do banquinho, chama dona Argentina e pede:
- Dona, me dê minha viola!
- Uai, sô Simplício, vai tocá arguma coisa pra gente?
- Vô nada! Vô é m'imbora!
Quem ouviu se assustou com a decisão do velho. E ele, já começando a se mandar, resolve dar uma explicação:
- Em lugá que cachorro come palitó e gato chupa caju, Simplício da Simplicidade velho num canta e nem toca! Inté!...
Palavra de Bêbado Vale?
Dois negociantes da cidade grande resolvem sair pelo interior a fora a fim de passar a perna na capiauzada.
Foi aí que chegaram a Tabuí, cidadezinha alterosa. Num boteco de um cantinho da cidade, caladinho, sentado num tamborete, estava o velho Vito. Cavalinho piquira lá fora, esperando o dono tomar umas e outras para depois carregá-lo com toda paciência para casa.
Só que o velho Vito, capiau desconfiado e esperto, sem nem um tostão no bolso, estava esperando alguém para também dar um golpe.
Quando os dois bacanas entram no boteco, tendo visto o cavalinho lá fora, olham gulosos para o velho. E este, vendo os dois, mira sedento nos olhos de cada um e faz aquele ar tristonho de capiau sofredor e ignorante. E o Vito, mesmo olhando a importância dos dois, pensa com os seus poucos botões: "pra quem tá com fome e com sede duma branquinha, formiga é pimenta do reino. Vô enguli essas duas formigonas engravatadas..."
- Não quer vender o cavalo, meu amigo?
- Vendo uai! Vinte mil mango é o preço dele. Quem pagá leva!
Os negociantes se entreolham e resolvem executar um plano que já tinha dado certo diversas vezes. Encher de cachaça o vendedor para levar o animal praticamente de graça.
- Não quer acompanhar a gente num traguinho, meu amigo?
- Carece não, moço! vô injeitá! Responde o velho Vito já arrependido da resposta. Boca seca. Sede danada duma branquinha queimadeira.
- Eu insisto, meu amigo! Venha pra junto de nós!
O velhinho sai, morrendo de humildade, do seu cantinho, e de uma golada só entorna no bucho meio copo de cachaça e ainda lambe os beiços.
Os negociantes gostam da reação do velho e pensam: "já está no papo". Mandam encher outro copo que o velho Vito entorna novamente de uma golada só.
- Quanto é mesmo o cavalinho, meu amigo?
- É trinta. Trinta mil mango é o preço dele. Quem pagá leva.
Os dois da cidade grande se olham meio assustados; Pedem mais uma talagada para tirar a dúvida, e o velhinho emborca tudo de uma só virada.
- O cavalinho é quanto mesmo, meu amigo?
- É corenta. Corenta mil mango. Quem pagá leva.
Depois de mais uns três copos da branquinha, com o velho Vito já bêbado, de quatro e trocando as palavras, o cavalinho já estava custando setenta mil paus. Os dois negociantes cada vez mais assustados e ficando sem graça com a história. Entornam mais bebida no velho.
- E o cavalinho, velho, diga quanto você quer por ele?
- Ieu? Hic... Quero nada não, moço! Hic... Num é pra vendê mais não! Hic... Ia vendê ele pra tomá uns golo. Já tomei dimais da conta, agora vendo mais meu amiguinho não, uai! Hic!..
Foi aí que chegaram a Tabuí, cidadezinha alterosa. Num boteco de um cantinho da cidade, caladinho, sentado num tamborete, estava o velho Vito. Cavalinho piquira lá fora, esperando o dono tomar umas e outras para depois carregá-lo com toda paciência para casa.
Só que o velho Vito, capiau desconfiado e esperto, sem nem um tostão no bolso, estava esperando alguém para também dar um golpe.
Quando os dois bacanas entram no boteco, tendo visto o cavalinho lá fora, olham gulosos para o velho. E este, vendo os dois, mira sedento nos olhos de cada um e faz aquele ar tristonho de capiau sofredor e ignorante. E o Vito, mesmo olhando a importância dos dois, pensa com os seus poucos botões: "pra quem tá com fome e com sede duma branquinha, formiga é pimenta do reino. Vô enguli essas duas formigonas engravatadas..."
- Não quer vender o cavalo, meu amigo?
- Vendo uai! Vinte mil mango é o preço dele. Quem pagá leva!
Os negociantes se entreolham e resolvem executar um plano que já tinha dado certo diversas vezes. Encher de cachaça o vendedor para levar o animal praticamente de graça.
- Não quer acompanhar a gente num traguinho, meu amigo?
- Carece não, moço! vô injeitá! Responde o velho Vito já arrependido da resposta. Boca seca. Sede danada duma branquinha queimadeira.
- Eu insisto, meu amigo! Venha pra junto de nós!
O velhinho sai, morrendo de humildade, do seu cantinho, e de uma golada só entorna no bucho meio copo de cachaça e ainda lambe os beiços.
Os negociantes gostam da reação do velho e pensam: "já está no papo". Mandam encher outro copo que o velho Vito entorna novamente de uma golada só.
- Quanto é mesmo o cavalinho, meu amigo?
- É trinta. Trinta mil mango é o preço dele. Quem pagá leva.
Os dois da cidade grande se olham meio assustados; Pedem mais uma talagada para tirar a dúvida, e o velhinho emborca tudo de uma só virada.
- O cavalinho é quanto mesmo, meu amigo?
- É corenta. Corenta mil mango. Quem pagá leva.
Depois de mais uns três copos da branquinha, com o velho Vito já bêbado, de quatro e trocando as palavras, o cavalinho já estava custando setenta mil paus. Os dois negociantes cada vez mais assustados e ficando sem graça com a história. Entornam mais bebida no velho.
- E o cavalinho, velho, diga quanto você quer por ele?
- Ieu? Hic... Quero nada não, moço! Hic... Num é pra vendê mais não! Hic... Ia vendê ele pra tomá uns golo. Já tomei dimais da conta, agora vendo mais meu amiguinho não, uai! Hic!..
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