Ditão e Toinzin saem de Tabuí no meio da tarde pra pescar no Sorongo. Antes de montarem cada um na sua bicicleta – que lá eles chamam de “magrela” - resolvem conferir a trenheira que tão levando.
- Uai, cumpade Toinzin, pra mode quê ocê tá levano duas capanga?
- Uai, cumpade Ditão, é que tô levano uma piguinha aí, sô! Tá bem amoitada, junto cuns papel, mode ficá bem iscundida!...
- Mas, cumpadi, nóis num tinha cumbinado num bebê mais nas nossas pescaria? É pirigoso dimais da conta, uai!
- Mas, sô! Óia aqui, ó: e vai que aparece uma cobra e pica a gente, heim! Já pensô nisso? E qual é o remédio mais mió pra disinfetamento de mordidura de cobra? Cê num sabe que é pinga, cumpade Ditão?
- Sei, mas e o quico?
- O quico? O quico é que nóis disinfeta com a pinga e toma umas talagada pra num sinti muita dô, uai!
- Ah, bão, cumpade Toinzin! Cê pensô bem, sô! E na ôta capanga, quequitem?
- Uai, cumpade Tonhão, é uma jararaca! Pode num tê cobra no disgramado do Sorongo hoje, né?
30/01/09
A pesca no Sorongo
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24/01/09
A Mulher Que Queria Ser Viúva
Prefeito de Tabuí resolve construir um galpão para abrigar a feira da cidade. Contrata dois pedreiros e um servente e manda executarem o empreendimento. Já quase no final da obra, estão lá os três tirando as estacas que seguravam a laje quando o servente, o Raimundo Capeta, tem uma puta dor de barriga e corre pra privada lá no fundo do terreno. Os dois pedreiros continuam sua tarefa mas nem bem terminam de tirar o escoramento, o teto vem abaixo. Morrem os dois amassados pela laje mal feita.
Prefeito fica apertado. Medo de processo, de indenizações, etc. e tal. Resolve agradar às famílias dos mortos. Decreta luto no município por três dias e eleva os pedreiros à condição de heróis da cidade. Uma semana depois manda celebrar missa e convida o povo à Câmara Municipal para as condecorações “post mortem”. Faz discurso. Promete salário vitalício às viúvas , estudo e material escolar de graça para os filhos e até um tal de plano de saúde.
Povinho todo fica satisfeito com o prefeito e houve mulher que queria estar na pele daquelas viúvas. Até que a mulher do Raimundo Capeta não agüenta tanto sufocamento e solta o verbo enquanto tasca um beliscão na barriga do marido:
- E ocê, heim? Tinha que tá cagano naquela hora?
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22/01/09
Perdido no Mundo
Aruerinha era doido por feijoada. Andava léguas e léguas quando corria notícia de uma, principalmente se fosse boca livre. Foi por isso que saiu de madrugada para a Fazenda Boi Atolado onde haveria entrega de folia de Reis. Na hora do almoço o sol tava de rachar. Mas Aruerinha não perdoou. Comeu cinco pratadas da sua comida predileta e tomou umas boas talagadas da água que passarinho não bebe. Tudo de graça. E caiu no mundo com a pança cheia. Queria chegar em casa, lá no Tabuí, antes de escurecer.
Só que Aruerinha, com aquele calor todo, suando em bicas, foi sentindo um empanzinamento, umas tonteiras, uma ruindade danada e teve que parar na sombra fresquinha duma pindaíba. Foi vindo aquela zonzeira estranha e o homem caiu no sono enquanto a feijoada seguia seu curso nas entranhas do Arueira.
Lá pelas tantas ele acorda. Tonto, deslocado no mundo, com os gases da feijoada fazendo efeito no intestino e pressionando o cérebro. Sem entender o que estava acontecendo, Aruerinha apela para um pessoal que estava passando e que também vinha da festa:
- Gente! Quem co sô? Oncotô? Poncovô?
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17/01/09
Tem trololó na bitaca do Cirilo
d’água, tem a estrada do Sapo, mais conhecida como Sapolândia. Numa curva, onde bambu era mato, ficava a venda do Cirilo. Na parede, um cartaz da Providência, a melhor cachaça da região, onde se lia, em bom Português: “cana na roça, dá pinga e pinga na cidade, dá cana”. Umas prateleiras de pranchões de sucupira recebiam a mercadoria mais miúda, empilhada com traquejo pela dona Rita. Lá no fundo, dois barris, cheios de querosene, - o combustível da roça -, e a balança pra pesar capado.A maior atração da bitaca do Cirilo não era pinga não. Era a sinuca. Para caber a mesa grandona, o comerciante teve que espichar o cômodo da venda. E lá ficava ele, comandando a sinuca e vendendo rapadura pra um, pão sovado pra outro, prato esmaltado prum terceiro, pedaço de fumo para um quarto, enquanto enricava pegando um trocado daqui e outro dali, anotando tudo num caderninho onde tava escrito “dever de casa” e “Brasil, um país que vai pra frente”, dado por um programa do governo.
Chegava tardinha, antes do sol sumir, começava a juntar gente. Vizinhos, vaqueiros, peões, amigos, roceiros de tudo quanto é naipe, terminavam sua labuta diária e vinham bater ponto na venda do Cirilo. Uns para rezar o terço na igrejinha ao lado, comandados pela dona Rita, mas a maioria vinha era para jogar sinuca mesmo. Um Deus-nos-acuda. Prosório, risadas e a gritaria chegavam a atrapalhar as orações da turma da igrejinha. Naquela noite, o Tonico Vergina é quem ia puxar o terço. Brincando, conversando, fofocando, se ajoelharam, falando mal da vida alheia, se armaram do rosário e ficaram a postos para fazer o nome do Pai. Mas da cabeça do Tonico Vergina, não saia aquela moda de viola durante noites e noites tocada na vitrola do Cirilo, até afundar os sulcos do bolachão. A música começava com o refrão “Seriema do Mato Grosso, seu canto triste, me faz chorar...”. O nosso puxador de terço passava dias a pedaços de noite com esse refrão na cabeça. Foi por isso que, ao puxar o nome do Pai, no lugar de dizer as palavras de costume, o que saiu foi o refrão da moda de viola “çariema do Mato Grosso...”, enquanto se persignava. Aí o terço virou bagunça. As risadas não puderam ser contidas, nem com os psius e ameaças da dona Rita. O Tonico não sabia onde meter a cara e se persignava repetindo “perdão, meu Deus”, “perdão, meu Deus...”!
Terminada a reza, o povo começava a ralear, ficando só o pessoal da sinuca, revezando até a madrugada, enquanto o Cirilo, cansado e com sono, maldizia entre dentes “um dia indaacabo com a disgraça dessa sinuca. A merreca de lucro que ela me dá num há de fazê farta...”.
Naquela noite só ficaram os mais amigos do Cirilo. Resolveram aprontar. Esqueci de dizer que Cirilo era homem sistemático e brabo. Andava com faca na cintura e, enfiado num saco de farinha de mandioca, um revólver pronto para eventualidades, além de uma garrucha enferrujada, carregada, misturada com as lingüiças, penduradas no varal. Mais de 10 da noite, tarde demais da conta pro povo da roça, o Cirilo, como sempre, reclamando pros seus botões, se ajeitava em cima duns sacos de farinha, milho e açúcar, tirava as botinas espalhadeiras de chulé, e puxava o ronco, enquanto a turma continuava a jogatina. Quando viram que ele dormia a sono solto, apagaram o lampião e continuaram, no escuro, a fazer barulho, com bolas e tacos, conversando, rindo, soltando piadas. Até que um aprontou um escarcéu, borrifou cachaça em cima do dorminhoco e gritou ô Cirilo. O homem acordou, meio tonto, e, sem ver nada, naquela escuridão, foi logo perguntando, com a mão já segurando a peixeira:
- O quê? Oncotô?... O quê que foi, gente?
- Aí a moça procê atendê, Cirilo!
- Moça? Que moça, home?
- Aí no barcão, uai!
- No barcão? Num vejo nada, sô!
- Credo! Parece que tá cego! Tá inventano moda, home de Deus?
- Gente, num tô veno nada não! Devera! Juro por Deus! – gritou agoniado.
Da turma, uns riram, segurando-se, espremendo-se. Um deles, mais gaiato, todo romântico, falou:
- Cê num tá veno a lua lá fora, Cirilo? Tão bonita!...
Aí o vendeiro se desesperou mesmo.
- Gente! Tô cego!... Meu Deus do céu! Que será de mim e dos meus fio!?... Ô vida!...
Aí o povo não agüentou mais tanto estancamento. Foi risada pra todo lado, até que um desavisado resolveu acender um pito. Não deu outra. Cirilo descobriu a tramóia e o cacete comeu solto. Quando achou um isqueiro e acendeu o lampião, até encontrar a garrucha no meio da lingüiça, não tinha mais ninguém na venda. Todo mundo chispara, conhecendo a brabeza do homem.
Aquela foi um dia, em que a bitaca do Cirilo fechou antes da meia noite e ele pôde, após tanto tempo, no aconchego dos lençóis, chamar a dona Rita para um tête a tête, depois da raiva passada.
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Histórias do povinho de Deus
Festa em Tabuí. Dia da padroeira Santana. Povão cotovelo com cotovelo na praça, frente da matriz. Todo mundo olhando prum lado só, chegando a ficar na ponta dos pés, ver se via na estradinha única da chegada e da saída algum sinal de poeira. Esperando senhor bispo dar os ares de sua graça na visita anual. Poerinha que vez ou outra aparecia na curva da estrada provocava frejo danado. Cada qual queria ser o primeiro a beijar a mão do homem santo, chegado de Deus. Vários alarmes falsos. Vários é... Vários não é...
Depois de tempão danado, povão suando suor grudento misturado com poeira, fedendo mais que subaco de aleijado, crianças berrando de fome, de calor e de agonia da espera, eis que apareceu uma poeirinha mais avantajada. Uma manchinha cada vez crescendo mais. É o homem!... É não!... É!... Não é!... Era.
Duas horas e um punhado de minutos de atraso e lá vem chegando a chimbica do homem santo, íntimo do Padre Eterno. Chimbica mesmo. Um fordinho que já naquela época, parecia peça de museu. Senhor bispo tinha perdido a cor avermelhada do rosto e o branco dos poucos cabelos que circulavam a careca. Todo bazé. Poeira quissó. Vinha sentado no banco de trás da chimbica, balançando as banhas, mãos cruzadas sobre a pança, dedos polegares circulando um sobre o outro pra cá e pra lá... Cara de poucos amigos, suando por tudo quanto é poro debaixo daquela negra batina também bazé de poeira. Olhinhos pequenininhos demonstrando sono, mas vermelhos e melecados de tanta poeira.
Assim que o chofer parou a chimbica no meio do povaréu e correu do outro lado para abrir a porta pro patrão bispo descer, o povão, aplaudindo e gritando vivas para o recém-chegado, abafou o homem de vez. Cada qual querendo tocar no homem santo, beijar-lhe a mão, dar-lhe tapinha nas costas. Enquanto o chofer guardava-lhe as retaguardas, ele discretamente empurrava um, beliscava outro, pisava no pé de outra, emitia comentários depreciativos pra mais outra, limpava na batina empoeirada as costas da mão melecada de beijos, e nome feio não parava de sair daquela boca de louvar a Deus. Povão mais afoito descobriu que o homem não estava para brincadeira não. Estava era a fim de brigar com quem lhe atravessasse o caminho. Arredamento geral.
Padre Anacleto leva a autoridade conterrânea à casa paroquial para um santo banho e um almocinho rápido onde ele trucidou só um prato de macarronada, um frango assado com farofa e meia panela de couve com angu antes de correr pra igreja. Mais de três horas de atraso para começar missa com casamento, crisma e batizado.
Igreja era um bafo só. Poeira, sovaqueira, xixi azedo, tudo contribuindo mais para o mau humor do bispo. Povinho de Deus tão apertadinho que nem podia olhar de lado. Se alguém tirasse o pé do lugar estava condenado a ver a cerimônia num pé só.
Três horas e meia de atraso começa a reza do senhor bispo.
- Dominus vobiscum!
- Articum ispritutu ô!...
Povinho maneiro danado de poliglota o de Tabuí. Respondia ao bispo na ponta da língua, como se entendesse tudo.
Chega a hora do casamento. Noivos e noivas, ansiosos que acabasse tudo aquilo a fim de chegar mais depressa na hora do vamos ver coisas. O senhor bispo começa umas instruções misturando língua pátria dele com dialeto do povinho de Tabuí. Sotaque brabo daquele santo homem das estranjas.
- Minha gente... benvenuti tuti vocês qüi nesta casa, a casa de Dio, onde tuti il mondo tranca a língua e não fala do vizinho. Aqui ninguém mete o pau no vizinho, nem in frente nem in trás. Aqui se ora...
E vai por aí a fora.
Chegando ao primeiro casal - logicamente aquele era um casamento comunitário - o bispo avisa pra noivinha espevitada, distraída, sonhando com o que ainda não aconteceu:
- Dona moça ripita comigo tudo qui voi parlare!...
- Sinhô?!...
- Parla comigo, va bene?
- Nhor?...
- Fala com eu, sua surda!
- Nhor sim!...
- Diga: Eu...
- O sinhô!...
- Sinhô não, sua burra!...
O homem tava ficando nervoso outra vez, todo vermelhão.
- Comicemos de novo novamente, porcamiseria! Diga: Eu...
- Eu... soltou a moça toda insegura.
- Ti recebo, meu amor!
- Tirei sebo, meu amô!...
- Ma che! Num é tirei sebo não, sua mula! É ti recebo! Parla, sua antona!...
Noivo nem sabia onde colocar a cara vendo todo mundo olhando pra sua imaculada noivinha. Toda vermelhinha, já com cara de inaugurada. Os outros casais num treme-treme danado, vontade de dar no pé, arrependidos de estarem ali para serem compromissados pela autoridade. E o casamento continua por aí a fora, com altos e baixos.
Aí chega a hora do sermão. Senhor bispo esquece um pouco a raiva de estar no meio do cheiro daquele povinho e resolve dar uns conselhos depois de ter lido uns pedaços da santa Bíblia.
- Minha gente!... Meu povo!... Triste do homem que vai per il camino da perdiçon...
Zé Brole fica com a pulga atrás da orelha e cutuca no Gerardantonha cochichando no ouvido:
- Ih sô! Escuta o home! Veja só o que o santidade tá ensinando!
- Meus irmãos!... O homo que vai per il camino da perdiçon por livre vontade está condenado al fogo eterno. Il camino da perdiçon é sempre il mais facile, il mais prazeroso, il mais curto... Mas é o que leva mais depressa a il fogo dos quintos dos infernos! Meus irmons! Sigam o camino mais longo, que exige mais sacrifícios, mas que leva à salvaçon. Fujam do caminho da perdiçon!...
Zé Brole e Gerardantonha cutucam um no outro, pegam cada qual seu chapéu, ficam de pé, indecisos, sem saber se vão ou se ficam. E quem estava por perto não pôde deixar de ouvir o primeiro perguntar pro segundo:
- Cê entedeu o mesmo que eu entendi? E agora, sô? Cumé que a gente vai pra casa?... Cumé que a gente vai pra Perdição? Ou a gente nem vai mais?
Negócio é que o senhor bispo, por desconhecer a geografia da região, ignorava que no sertão de Tabuí tem uma roça muito movimentada chamada Perdição.
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