26/10/2008

Godô recupera precisão de enforcar o ganso


Godofredo e Cornélia, depois de longa vida em comum, andavam não mais se suportando. Tudo era motivo para brigas, das mais rancorosas, onde ruminavam o passado, passando de cor e salteado toda a lista de desavenças. Certa feita, bem cedinho, pegaram o velho jipe e tocaram pra fazenda. Godofredo fora bom motorista nos velhos tempos, mas, agora, distraia-se com qualquer coisa e se esquecia até de que estava dirigindo. Dona Cornélia é que gritava a fim de colocar o marido no caminho certo para ele não fazer tanta barbeiragem.
Naquele dia, enquanto ficaram na fazenda, tiveram tempo de brigar 17 vezes antes do almoço. Num intervalo, antes da próxima briga, chega um bando de moças. Sete. Tavam ali por perto, tomando banho de cachoeira e, como sabiam que na fazenda tinha uma máquina de limpar arroz com uma balança, queriam conferir a massa. Assim que chegou aquele mulherio pouca roupa, Godofredo, ouriçado, saltitante e fagueiro, virou mestre de cerimônia. Mansinho, meninou e levou as gurias pra tudo quanto é canto, cascou laranja, mostrou as galinhas, a porcada, o gado nelore, com o touro Tanajura cheirando as coisas da novilha Princesa e matando as moças de vergonha e muito mais. Aí o fazendeiro conquistou intimidades com as meninas e alisava ora o braço de uma, ora o cabelo d'outra, e não tirava os olhos daqueles traseiros salientes, da peitaria quase à mostra, procurando adivinhar outros segredos guardados, vistos há tempos, na distante juventude. Sim, Godofredo fora homem de dar muito trabalho à sua Cornélia nos primeiros anos de casamento, bem diferente de agora, quando olhava para ela e nem tium, sem nenhuma inspiração.
Também Cornélia esquecera da vida. Engordara, sem perfume, sem esmero, sem cuidados e a velhice chegou primeiro que a idade. Era um sol que se apagava. Não tinha mais encantos para Godofredo. Na última briga, de manhã, ele falou inhantes cê era um fogo quisó, muié! Me sirvia no engenho, no paió, no curral, no canaviá e agora não me serve mais... Cê pensa que vô dexá de usá minhas faculdades sexuais? Vô não. Ocê só tem chero de aio e desses tempero de cozinha... Credo muié! Nem ropa de baixo cê usa mais, parece que gosta de deixá os pobrema à vontade, né? Pois óia, vô caçá um rabo de saia que me sirva...
Enquanto ele passeava pra baixo e pra cima com as moças, a patroa tava enfurnada dentro de casa, só assuntando, pondo sentido, gungunando com seus botões, de olho no assanhamento do velho que, segundo ela, não dava mais no couro. Mas, como pra cavalo velho, capim novo é santo remédio, Godofredo, para as meninas, virara Godô e, doido para afogar o ganso em lagoa nova, a todas já tinha, no particular, convidado para aparecer mais amiúde na fazenda, enquanto pensava ôtas menina mais gostosas que margarina, que derrete a toa... É com uma dessas que eu vô, meu Jesuscristinho!...
- Ó, sá, miudinho tô aqui, viu? Vem cá, sá! Vem sozinha procê cunhecê a fazenda mais mió!... Vai sê bão demais da conta, sá!
Até que uma das meninas resolveu se lembrar do motivo que as trouxera ali.
- É memo, gente! Vamo lá na balança, vamo, meus bem! Vô pesá ocêis!
Godofredo, em vista de tanta fartura de mulher, perdera a auto-censura e a noção do ridículo. Dispensou a ajuda do empregado que cuidava da máquina, mandou-o catar gabiroba e coquinho e foi, ele mesmo, conferir a massa de cada uma, tim-tim por tim-tim, todo carinhoso e meloso.
- Ispia só, fia! Seu peso é 37! Livre!...
- O seu é 45, bem! Livre!...
- Ih, meu amô! Tá gordinha! 53! Livre!...
E, assim, Godô foi conferindo a massa de uma por uma, na maior animação. Todas, segundo ele, livres. E as visitantes, muito boazinhas, oferecendo-se para a alisação do velho que tava quase em ponto de bala, com a arma em meia engorda, enquanto elas, às suas costas, riam a mais não poder.
- Mas, senhor Godofredo...
- Tira o senhor, meu amozinho!... Godô! Só Godô, tá?...
- Então, Godô, por que você disse “livre” para todas nós? Não entendi!
Aí o Godofredo, na sua sabedoria roceira, depois de anos e anos na prática de pesar volumes e mais volumes de arroz, milho e feijão, esclareceu:
- Livre sim, fia! Livre de saco. É peso líquido, já que ocês não têm saco, uai!...
As meninas riram amarelo e foram despistando, caindo fora, enquanto Godofredo, trepado na porteira do curral, acenava, com os olhos ardentes e merejantes, até a última delas sumir dentro do capão do mato.
Depois de mais 59 brigas com a Cornélia, por causa das inocentes meninas, nosso Godô acha que tá na hora de irem embora, para não dirigir à noite. Bem de tarde, pegam o caminho de casa, chegando à cidade no lusco-fusco da tarde. E não é que naquele dia a prefeitura tinha mandado consertar os buracos da rua do Assobio, onde moravam? Como o serviço não estava terminado, o Didico da Prefeitura mandou colocar uma corda de bacalhau para impedir que carros de boi, carroças e mesmo automóveis, passassem naquele pedaço de rua.
O Godofredo, com a vista cansada, a rua escura, o farol caolho iluminando pouco, não dá sinal de que ia parar antes da corda. A Cornélia, então, não teve outro jeito e botou a boca no mundo.
- Godofredo! A corda! A corda, Godofredo!
E ele, distraído, cantando pra si a musiquinha que fizera com a frase "da vida o que se leva é o que se come e que se ama", sorrindo e sonhando com todas as meninas do mundo, cai na dura realidade de ter Cornélia ao seu lado, gritando descontrolada, feito siriema choca, antes do jipe atolar em asfalto novo.
- Quê? Acorda o quê, dona increnca? Quem disse que tô drumino?

18/10/2008

Cada doido com sua sabedoria

Padre Anacleto ia pra Perdição. Estradinha a fora, cheia de buracos e de poeira, dirigindo seu fusquinha velho. Curva em cima de curva. Matão danado em volta. Se Tabuí já é sertão, imagine só o que era o sertão de Tabuí. Fusquinha ora engasgava, ora tremia, ora dava umas rateadas, mas ia indo. Subida então, era um desarranjo. Carrinho aprontava berreiro danado, soltava fumaça por tudo quanto é buraco, mas ia rodando. Seu vigário um tanto quanto pesado.
Aí chegam os dois, Padre Anacleto e o fusquinha, no matão mais fechado. Aquele onde todo mundo falava que tinha umas onças... Bichanas nem podiam sentir cheiro de carne humana que tavam em cima da carniça. De tão fechado o mato, parecia até que tinha escurecido. E, para arrematar, povão dizia que assombração ali também era mato. Sô vigário não acreditava muito nessas coisas não, mas por via das dúvidas, era bom ficar prevenido. Foi lá que aconteceu a desgraça: pneuzinho careca do fusquinha furou. Rodar com pneu furado prejuízo na certa. Paróquia pobre. Padre pobre. Sair do carro risco grande demais. Coragem pouca. Padre Anacleto craneia, craneia e não acha solução. Nenhum vivente à vista. Ninguém para uma demãozinha. Viu que tava mesmo cagado de arara. Casamento lá na Perdição tinha hora marcada. Noivinha já devia estar chegando à igrejinha na charrete toda enfeitada. Agoniada esperando a grande hora.
Com um friozinho na barriga coitado do padre resolve sair do carro e trocar o pneu. Rezando o Creindeuspadre. Atento a qualquer barulho. Suando frio dentro da batina larga e puída. Olhando de rabeira pra tudo quanto é sombra. Pronto para refugar frente a qualquer sinal suspeito. Trabalhão danado pra tirar pneu furado. Mãos acostumadas a rezar missa, sem traquejo com chaves, macaco e parafusos. E a tralha velha não colaborava: macaco sem óleo, chave da boca maior que as cabeças dos parafusos... Tirou o bicho mais no muque, com uns palavrões seguidos de Padrenossos, do que com a ajuda do macaco e da chave de rodas. Pegou a calota, virou-a de boca pra cima e nela colocou cuidadosamente os quatro parafusos pra não perder nenhum e nem pegarem poeira. Como o carrinho estava meio mole, freio de mão avariado, resolve procurar uma pedra para calçar o danado. Bem no barranco, assim perto duma moitinha, vê uma pedrona boa. Borrando de medo, mas com muita fé em Deus, sai de perto do carro e vai pegá-la. Um pé na frente e o outro atrás, pronto para a refugada. Quando tá com a bruta nas mãos, fazendo força, ouve um barulhão dentro da moita. Sente aquela friagem na espinha, pernas amolecem, coração acelera e os poucos cabelos arrepiam. Mas instinto de sobrevivência fala mais alto e o pobre do Padre Anacleto sai numa desabalada corrida carregando a pedra. Reto no rumo do fusquinha. Chega perto do carro, solta a dita cuja de qualquer jeito e tafuia dentro dele esperando pelo pior.
Fica no quieto tempão danado, a ponto de rezar quase todo o rosário, e... nada. Bicho nenhum aparece. Nem assombração. Negócio era criar coragem novamente e voltar ao que tinha começado. Melhor pensar que o barulho era de algum lagarto ou de um gato do mato assustado. Assim que o padre sai do carro é que vê a burrada que fez. A pedra caíra na borda da calota e, com a queda, jogou os parafusos pra longe, no meio do mato. Achá-los, impossível. Procurar, nunca. Desespero toma conta do coitado. Xinga umas palavras em italiano, mas rapidinho se arrepende e pede perdão a Deus. Já sujo, molhado de suor, rezando baixinho, com fome, senta lá dentro do carro esperando solução. Noite chegando. Medo agoniado e inconfesso espremendo o peito.
Depois de muito rezar, vê um vulto aparecer lá no alto do morro. Põe óculos, tira óculos... E o vulto descendo. Devagarinho. Pára, anda, pára de novo. E o Padre Anacleto tremendo e butucando de olho arregalado:
- Ai Dio mio, agora é sombração mesmo!... O que eu fiz de errado, meu Deus? Virgem!...
O santo homem sente vergonha de si mesmo, do medo que estava sentindo e se lembra até dos sermões que fazia na missa do domingo contra essas crendices pagãs. Na prática teoria era outra. Novamente põe óculos, tira óculos e o vulto vindo. Sem pressa, naquele mato escurecente. Quando o vulto chegou bem perto foi que o Padre Anacleto entendeu que era gente. Gente de verdade. E não é que ele conhecia o dito? Era o Dejalma. O doido lá de Tabuí.
Aí Padre Anacleto se encheu de coragem e saiu do carro. Foi com santo alívio que cumprimentou o recém-chegado:
- Boa tarde, Dejalma! O que que anda fazendo por estas bandas, figlio mio?
- Tarde!
- Tá passeando, Dejalma?
- Pensano!...
- Pensando em que, Dejalma?
- Cê leva ieu?
O padre pensou consigo mesmo: "que adianta eu querer conversar com este maluco? O maledetto não diz coisa com coisa mesmo!". Mas, como não queria perder a companhia, mesmo sendo de um lelé da cuca, continuou o papo como se fosse tudo dentro da maior normalidade.
- Levar, levo, figlio! Negócio é que o pneu tá furado...
- Por que ocê num troca?
- Era o que eu ia fazer, Dejalma, mas perdi todos os parafusos desta roda e não tenho outros para colocar no lugar...
Dejalma parece que esquece do que estavam falando. Fica olhando pro mundo. Resolve dar uma volta em torno do carro como se o examinasse com olhos de comprador. Olha daqui, olha dali... Desenha uma careta no vidro empoeirado... Dá uma risada... Abre porta, fecha porta... Pára. Olha pra moita na beira do barranco onde vê um pé de murcha-mulata carregadinho de flor. Vai lá, pega um galhinho e vem cheirando. Sô vigário só de butuca. Quando ia perguntar se podia contar com aquela companhia maluca noite a fora, naquele ermo, Dejalma dá uma aspirada na murcha-mulata e olhando para um ponto fixo no espaço, diz:
- Por que ocê num tira um parafuso de cada rodeira e põe nessa?
Foi tudo muito rapidinho. Padre Anacleto e o Dejalma chegaram à Perdição quando a noiva, triste e chorosa, estava dentro da charrete pronta pra ir pra casa e o povão já indignado com o que seria uma grande desfeita do seu vigário. Ninguém entendeu foi porque o Padre Anacleto estava andando na companhia daquele maluco. Também ninguém perguntou. Povo da Perdição é assim: não é especula, só sabe o que é pra ser sabido.

Esmeraldo em estado interessante

Esmeraldo vivia à cata de emprego. Situação braba. Filhos passando fome, comendo do pão que o diabo amassou. Mas não desistia. Entre uma canjebrina e outra recebia uma negativa de trabalho e ia em frente.
Até que um dia Esmeraldo faz concurso para merendeira na escola do Estado e é aprovado. Mesmo com os poucos conhecimentos que tinha. Só faltavam os exames médicos. Embora um pouco avariado, mal das pernas e meio perrengue, achava que conseguiria enganar o médico. Mas e os exames de laboratório? No Laboratório Cademicróbio deram-lhe uns vidrinhos para colocar as necessidades durante três dias seguidos.
Esmeraldo pensou... Pensou... Chamou a mulher:
- Ô muié, manda a Ritinha fazê as necessidade dela nos vidrinho! Ela tá fortona, já é grandona e sem doença... Aí eu passo nos exame, né?
Assim falou, assim foi feito. Urina e fezes da Ritinha foram levadas para exames de laboratório como se fossem do Esmeraldo.
No dia da entrega dos resultados, todos os que tinham passado nos exames estavam lá. Satisfeitos. Cada um rindo mais arreganhado do que o outro. Esmeraldo, com um bafinho de cachaça, também foi. Agoniado, estranhando porque não chamavam logo seu nome . Foi aí que apareceu a enfermeira.
- Sô Esmeraldo, o dotô tá lhe chamano!
- Ahn?!... Ieu?... É pra já, dona moça!
Esmeraldo, bastante cismado da vida, carente, suando frio, fedendo bafo e com sovaqueira, entra na salinha do médico. Preocupação qui só. Olhando meio cabreiro e perguntativo pro médico, doido pra saber o motivo de ter sido o único honrado com o chamamento doutoral.
- Estou espantado, seu Esmeraldo! Muito espantado! Já fiz e refiz seus exames, com vários testes, e dá sempre a mesma coisa!...
- Já sei, sô dotô! Carece cerimonha não! Levei pau, né?
- Acho que sim, meu amigo. Pelo menos o senhor está grávido!
Esmeraldo só teve tempo de levar as mãos à cabeça e exclamar antes do desmaio:
- Ai, meu Deus do céu!... Minha Ritinha!...

12/10/2008

Nós sofre, mas nós goza


A jardineira que carregava o povo de Tabuí era desengonçada. E põe desengonçada nisso. Mas o dono da dita cuja, o Vivaldino, homem caprichoso e cheio das invenções, sempre tava arrumando uma melhoria na sua máquina de ganhar a vida. Arruma daqui, arruma dali, a coisa foi melhorando. O máximo mesmo foi quando ele inventou de colocar uma porta na traseira da dita cuja e uma catraca com o cobrador no meio do corredor. Povo de Tabuí ficou tão orgulhoso da sua empresa de transporte que nunca mais a jardineira viajou de banco vazio. Todo mundo queria experimentar a novidade que, segundo se dizia, sem tirar nem pôr, era igual aos coletivos de Bel'Zonte. E Vivaldino, vivo pra danar, ganhando dinheiro. Carregava gente, galinha, porco, bode, pato, ovos, saco de carne, abóbora, tudo, em troca de uns trocados.
Foi aí que um dia entrou o velho Honorato com sua cara metade, a Honorina e mais umas muquiças na jardineira. Indo pra Tabuí. Se ajeitaram como puderam. Jardineira quase desmontava nas subidas e descidas. Ar parado. Sol do meio-dia. Calor de matar. Fedentina braba. Poeira sufocante deixando todo mundo meio bazé. Honorina, de pandu cheio, vendo aquilo tudo, sentindo aqueles cheiros, vendo as árvores passando de carreirinha, ouvindo a conversa mole do Tõe Carapina, com bafo de cachaça misturado com cheiro da gasolina, começou a sentir tonteira. Honório não teve conversa e soltou o verbo:
- Pára! Pára! Pára aí, Vardino!
Vivaldino, todo cheio de paciência, pára a condução, olha pra trás e pergunta:
- O quê que foi home de Deus?
- É a muié qui tá cum pobrema, sô! Nóis vai descê um tiquinho! Péra aí!
Desceram. Honorina respirou um ar mais puro, sem poeira e fedentina, e melhorou.
Toca a jardineira. Tõe Carapina, com a garrafa da Providência no bolso trazeiro, de vez em quando dava uma bicada para molhar a palavra. Soltava o verbo e ficava cada vez mais bêbado e chato contando potocas e piadas sem graça e até inconvenientes. Ninguém mais tava agüentando sua conversa mole na parte traseira da jardineira, de pé e trocando as pernas.
Aí é que entrou a madama. Gente fina, com jeito de cidadã. Todo mundo viu. Sapatos de salto alto. Batom vermelhinho nos lábios. Bolsa das mais chiques no ombro. Vestido verde, longo e decotado. E um perfume!... Ôta perfume! Daqueles que atraem qualquer nariz.
Madame, toda dengosa, com passo de veada e nariz arrebitado, não olha pra ninguém. E tava injuriada sentindo a capiauzada silenciosa de olhos pregados nela. Tõe Carapina, o bebum, de butuca, ficou de boca aberta e foi seguindo a recém-chegada pelo corredor da jardineira. Acontece que a madame, ao fazer força para passar na catraca, se descuidou um pouquinho e deixou escapar um sonoro pum.
Todo mundo volta a olhar para a distinta, agora, com cara de surpresa e reprovação. Mas nem precisava. Ela já não tinha onde botar a cara. Vermelha como um pimentão maduro. Pum todo mundo solta mas, assim, vindo de uma madame, ele tinha uma cor muito especial. Ela passa pela roleta, passa pelo Honório mais a Honorina e vai lá pra frente, sem nem olhar de lado, tonta de vergonha.
Mas voltemos ao Tõe Carapina. Passa também pela roleta e vem vindo meio cambaleante. Cai aqui, cai acolá... Senta no colo dum negão que lhe dá um chega pra lá. Aí vem pra bem junto da madame e, todo serioso, dá mais uma bicada na Providência e, meio consolativo, fala bem alto, pra todo mundo ouvir:
- Dona madama! Fica com vergonha não, tá? Hic!... Óia, todo mundo peida, sá! Óia, motorista peida, cobradô peida, hic!... Eu peido, aquela véia peida... Hic!... Fica com vergonha não, tá?
Madame não tinha onde colocar a cara. Honorina, quando viu ser citada como "aquela véia" que peida e os passageiros olhando para ela com cara de riso, não agüentou. Passou mal outra vez. Chamou o juca com todo o entusiasmo. Uma parte do vomitado lambuzou o vidro e a outra foi misturar-se à poeira da estrada. Honorina cutuca no Honorato e gunguna umas coisas tampando a boca com a mão. E o velho outra vez põe a boca no mundo:
- Pára! Pára! Pára aí, Vardino! A muié tá com pobrema de novo!
- Que que foi dessa vez?
- É que ela foi lançá e gumitô a dentadura!
- Foi longe?
- Não... Foi bem ali acolá lá atrais! Dá uma macharré pa trais, dá Vardino!
Vivaldino engata uma marcha-ré na jardineira que volta sacolejando de má vontade uns cem metros.
- Pára! Pára, Vardino! Foi aqui!
Honorato desceu. Procurou a danada da dentadura tempão danado enquanto a Honorina ficou dentro da jardineira tampando, com a mão, a boca murcha. Depois de um bom tempo, volta o Honorato, meio triste e com cara de nervoso.
- Uai, Honorato, num achô a dentadura não?
- Uai, sô! Inté que achá ieu achei! Mas num é que a rodera passô in riba e ismagaiô ela?

05/10/2008

Otávio Vira Otário

Otávio tinha uma fazendinha perto de Tabuí. Um gadinho leiteiro, uns capados, porcos de cria, galinhada, cafezal e o diabo a quatro. A fazendinha sustentava Otávio. Acontece que a carestia pela região tava grande demais. Ninguém com dinheiro. Otávio não tinha a quem vender sua produção. E começou a faltar dinheiro pra tudo, até para a cachacinha, já que ele não era de ferro. Quando ia à cidade ninguém brincava com Otávio não. Tinha resposta pra tudo. Não levava desaforo pra casa. Escreveu não leu, pau comeu. Isso se já estivesse com a cachacinha na cabeça. Principalmente se fosse a Providência, a mais amada de todos. Junto com a Providência ele passava dias e dias na cidade, dormindo em qualquer lugar, comendo sabe Deus onde. Virava bebum. Em cada boteco e em cada esquina, como qualquer bebum que se preza, ele tinha lá seus conhecimentos. Ele e seu violão eram sempre bem recebidos pelos companheiros de copo. Mas com aquela carestia, faltava dinheiro para suas necessidades mais prementes, inclusive para a compra da branquinha.
Aí Otávio ouviu falar que em Bel'Zonte a coisa tava boa. Tinha dinheiro a rodo. Preço bom pra tudo quanto é produto agrícola. Quem fosse vender lá voltava com os bolsos abarrotados da bufunfa. Ele não precisou pensar muito para decidir. Juntou tudo quanto podia: leite, queijo, coalhada, lingüiça, pele de porco, lombo, pernil, ovo, galinha, frango, pato, café em coco, café moído, café torrado, abóbora, moranga, repolho, milho de pipoca, carne seca... Alugou um caminhãozinho meio derrubado e se mandou pra capital. Com motorista e tudo. Chegou lá sonhando com o rio de dinheiro que ia levar de volta. Mas Otávio logo descobriu que o negócio na capital tava pior que em Tabuí. Vendia nada do que trouxera. Foi ficando desanimado, desesperado, com as carnes apodrecendo no caminhão, o leite azedando, o repolho fedendo e o povo reclamando do mau cheiro de tudo aquilo. Para piorar mais, Otávio, traindo a Providência, para criar coragem, resolveu tomar uns goles de qualquer uma e começou a andar de zonzeira pela cidade oferecendo seus produtos e... nada! Ninguém entendia o sofrimento do homem.
A coisa começou a entornar o caldo quando Otávio entrou num elevador. Ia oferecer suas coisas naquelas salas chiques daquele predião danado, bem em frente ao local onde estava o caminhãozinho fedendo. Junto com ele, no elevador, um casal todo respeitoso. O homem, de terno e gravata e a mulher com um vestido chique e brillhoso, cheia de balangandãs, pulseiras e anéis de ouro, sapato de bico fino e salto alto.
Otávio dá uma manjada assim meio de trivela pro casal de braços dados que nem tomou conhecimento da sua existência. De repente ele sente uma necessidade braba. Tenta soltar um vento silencioso. Ressaca bruta. Intestino avariado. Erra o cálculo e faz um baita dum barulhão. Parece que tinha um alto falante no traseiro. O cavalheiro, aquele do terno, não só pelo barulho mas também pela fedentina de carniça, sobe nas tamancas e exige explicação:
- O senhor não tem educação? Fazendo isso na frente dos outros? Peidando na frente da minha mulher?
O Otávio, sem graça, humilde, mas não submisso, não perdeu o fio da meada:
- O senhor queira discurpá eu, excelença! Acontece que eu num sabia que era a vez dela! Aliáis, eu nem sabia que tinha que entrá na fila pra peidá aqui na capitá!... Inté!
Saiu de fininho na primeira parada do elevador. Desceu as escadas e quando chegou perto do caminhãozinho notou um movimento estranho. Cheio de gente em volta e o motorista brigando, chutando gente e gritando. E o povo em coro: "Fora, fora com a carniça! Fora, fora com a imundiça!" Polícia tava rodeando igual mosca varejeira. Aí chegou a imprensa. Televisão, rádio e jornal. Tudo de uma vez. Otávio até entrevista na televisão deu. Falou mal do governo, xingou aquele povo que não tinha o que fazer e perguntou o que a polícia tava fazendo ali se ninguém tinha matado, ninguém tinha morrido e ele tava ali só porque queria vender seus troços, seus trens, para não passar fome. Falou até do boato que corria lá em Tabuí de que a grana andava solta em Bel'Zonte e ele viu que era nada disso. Povo da capital também tava lambendo beira de penico. Foi uma entrevista comovente.
Otávio voltou pra casa com o rabo entre as pernas não sem antes vender o que ainda prestava, a preço de banana, para um espertalhão. Puto da vida, com os bolsos vazios e prejuízo grandão. Quando chegou a Tabuí, todo mundo já sabia da sua história. Viram-no na televisão. Mas quando mostraram para ele o jornal, ele não conseguiu deixar de xingar pedra noventa pra todo mundo ouvir. A implicância dele foi com o que leu na manchete: "OTÁRIO PERDE SUA PRODUÇÃO EM PLENA RUA"
- Cambada de fedaputa! Além de me dá prijuízo, ainda erraro no meu nome!

A morte manda mensagens

Lá no sertão é crença comum que quando se vai levar um defunto para enterrar, não se pode parar. Pra nada. O morto tem que estar sempre em movimento. Sempre pra frente. Se os carregadores querem fazer mal a alguém é só parar com o defunto nas terras desse alguém ou na frente da sua casa. É desgraça na certa para o dito cujo. Por isso, donos de terra ficam de butuca quando passa carregamento de defunto. Até tiro dão se há ameaço de parar. Os carregadores têm que ser rapidinhos. Dar sossego depressa à alma do morto pra o distinto não ficar com raiva nem vagando por aí.
Pois bem. Num certo dia de janeiro, eis que morre o Deusdete. Homem novo ainda. Cufou por causa do barbeiro. Choro para os parentes e pesar entre os amigos. Defunto tinha que ser enterrado. Xico Vitrola, seu amigão do peito, arruma mais cinco para carregar o corpo do Deusdete até o cemitério de Tabuí. Caminho longo, de quatro léguas. Botam o defunto numa rede, onde passam uma vara bem grossa e, dois a dois, vão carregando o amigo até a cidade dos pés juntos. Cansaço muito. Diminuem um pouco a marcha e andam e andam. Tardezinha chegando. Pispiando a noite concluem que não dá para chegar a Tabuí antes do fechamento do cemitério. Negócio é descansar e continuar no rompante da manhã.
Cada um se ajeita como pode. Morto é deixado num canto. Puxam o ronco. Cansaço dos diabos. Só o Xico Vitrola, pesaroso com a morte do amigo e medroso como ele só, não consegue pegar no sono e fica apreciando a lua cheia, toda brilhosa, no céu. Lá pelas tantas, com os olhos ainda arregalados, vê uma coisa que o deixou de cabelos em pé. O morto parece que se levanta e vem caminhando em direção ao grupo de amigos, no rumo dele. Passa por cima de um, assim meio no ar. Passa pelo outro e mais outro, até passar pelo quinto. Tudo muito de leve, parecendo fantasmado. Quando Deusdete vai passar por cima do Xico, este não se contém e apronta o maior berreiro, soltando os gritos represados na garganta:
- Pra cima de mim não, coração! Por amô de Deus, Deusdete! Vai pro seu corpo, diabo! Cruzcredo!... Avemaria!... Creindeuspadre!...
Com a gritaria do Xico da Vitrola, companheirama acorda pedindo explicação. Quecofoi? Queco não foi? Deixa disso, minha gente! Nossa Senhora da Aparecida!... Explicado bem explicadinho, alguns acharam graça e outros ficaram com a pulga atrás da orelha, preocupados. Um deles foi o Ocride:
- Óia, gente! Isso é castigo de Deus. O morto num discansô até agora porque a gente num interrô ele. Deusdete deve tá divera puto da vida cagente!
- E o diacho é que ele passô inriba de nóis, né sô?... Isso é mau siná. Queira Deus que certas coisa qui o povo fala seja só boataria...
Foi o que conseguiu completar João Bentinho, todo cismado, o primeiro que o espírito do Deusdete passou por cima. Daquela hora pra frente ninguém mais dormiu. Só o Juca Morais é que ainda, de madrugadinha, conseguiu tirar uma pestana. Afinal, ele não acreditava nas lorotas que o povo conta.
- Uai, sô! Dexa de bobage, gente! Larga de mão disso! Quem morreu, morreu! Num vorta mais. O Xico tava era com sonhação!
Na metade da manhã chegaram com o corpo frio e duro do Deusdete no cemitério. Enterraram o amigo. Passaram num boteco para molhar a goela e se mandaram de novo, estrada a fora, rumo do sertão, cada qual pro seu canto.
Xico Vitrola, naquele ano, teve que fazer o trajeto de carregamento de defunto mais cinco vezes.

03/10/2008

Tabuí e seus Causos




Nada como ver um trabalho reconhecido!


Convido os meus leitores para uma visita ao Superdicasss, da Jaqueline Amorim, para ler o que ela escreveu sobre o meu trabalho. É claro que há por lá elogios desmerecidos, mas ela conseguiu fazer um apanhando bem legal do que andei fazendo por este mundão de Deus. À Jaqueline o meu agradecimento pelo carinho, pela estima e pela demonstração de amizade. Sim, na blogosfera também há amigos!