31/07/2009

Entrou pra crente e não avisou

Ninguém conhecia o José Vicente por este nome. Era só Izé. Pra cá e pra lá, o Izé era motorista da prefeitura e, de vez em quando, já que ele dirigira caminhão boiadeiro, era o único com condições de levar o prefeito à capital e andar naquele trânsito dos infernos.
Um dia foram os dois, Izé e prefeito, pra Belzonte na rural da prefeitura. Época de chuva, muito atoleiro, chegam já na hora do almoço.
- Me deixa ali na casa do compadre Bilico, Izé! Vou almoçar lá, enquanto cê come um trem por aí. Em uma hora cê me busca, tá bão?
Izé resolve comer uns pães de queijo por ali mesmo, pois que a casa do Bilico era perto da rodoviária, deixando a rural estacionada na frente da casa do compadre do prefeito.
Depois de uma hora tá o Izé de volta, do jeitinho que o prefeito mandara e bate na porta, sendo atendido pela Bilica, mulher do Bilico.
- Ele num tá aqui mais não. Saiu com o Bilico. Foro’os dois pr’Assembléia!
O Izé, sem nem pensar, tasca um palavrão desrespeitoso na cara da comadre do prefeito:
- Esse prefeito é memo fedaputa! Nem me disse que tinha virado crente!

10/07/2009

Safra de rapadura encalhada

Naquele ano Amoroso ria a toa, achando que tirara a barriga da miséria.

- Lavei a briosa, gente!

Lá no seu varjão nunca dera tanta cana e ele, em conseqüência, bamburrou na rapadura. Fez tantas que teve que arrumar carro de boi para levar a produção para a cidade, a fim de garantir uns trocados. Viagem de dois dias. Só que, em lá chegando, o negócio que parecia tão bom, desgringolou. Parece que todo o povo de toda a região de Tabuí tinha feito rapadura. Ninguém comprava os tijolinhos doces do Amoroso e tinha gente com a mercadoria mofando.

Aí Amoroso pensou vou ficar aqui por uns dias... Quem sabe desencalho minha produção... Mandou de volta o carro de boi alugado e empilhou as rapaduras na praça. Só que os trocados que tinha levado para garantir o sustento, por uns dois ou três dias, chegaram ao fim, enquanto a fome começava. Solução foi comer rapadura. Tempo de seca. Água raleada. De tanto comer rapadura e beber pouca água, deu revertério na barriga do Amoroso. Intestino não agüentou. Resolveu devolver tudo de forma rápida. Mas o nosso herói não tinha conhecimento com o povo da cidade não. Sem banheiro e sem privada. O que fazer?

Ao lado da pracinha havia uma área livre, mas sem matinho. Só uma moitinha de assa-peixe, magrinha e balançante, no meio daquela sequidão. Amoroso deixou a rapadura empilhada e pensou aquela moitinha serve. Falou vou lá e foi. Arriou as calças e soltou o freio deixando o barro descer à vontade, enquanto escondia pelo menos os olhos atrás das mirradas folhas do assa-peixe.

Mas, bem naquela hora, o vento ficou bravo, balançando a moita como se fosse um gravetinho. Não teve outro jeito. Muito aperreado, não querendo ser visto pelo povo que andava pela praça, não quis ir contra a natureza. Pro lado que a moita ia, Amoroso, embora agachado, acompanhava-a no seu movimento, pra lá e pra cá, enquanto fazia o serviço e se contorcia de cólica.