24/04/2009
No escurinho do cinema
O filme, único, era “Amor ao Entardecer”, um faroeste de quarta ou quinta categoria. Nas primeiras duas semanas, nenhum incidente. Mas na terceira...
Tava lá, no sábado à noite, um bando de mulheres vendo o filme que elas diziam ser de amor. Todas ansiosas esperando a cena final. O mocinho dava um beijo na mocinha, provocando arrepios na platéia, e ia indo embora por uma estrada reta que sumia de vista. Lá bem na frente ele se virava para dar adeus à amada abanando a mão. Só que o Cidão, o dono do boteco, acendeu as luzes um pouquinho antes do “The End”, a tempo de o mulherio todo ver a Fiíca do Boanerge dando adeus, também abanando a mão e chorando um choro contido.
No dia seguinte era a vez dos homens. Gente de tudo quanto é canto, até lá dos cafundós, aparecia para ver a novidade. Quase todo mundo com trabuco na cintura. Era moda. Numa cena do “Amor ao Entardecer” a mocinha está amarrada a uma árvore enquanto vem descendo uma cobra. Ao mesmo tempo vem chegando uma onça. A emoção era tamanha entre a platéia e o silêncio tão completo, que cada um podia ouvir as batidas fortes do próprio coração agoniado. Aí o coronel Tião Crispim, que nunca tinha visto um filme e nem tinha costume com esses modernismos, não resistiu a tanto suspense. Misturou ficção com realidade. Arrancou o revólver e pregou fogo na onça e na cobra destruindo a tela do cinema e acabando com a mais moderna diversão de Tabuí.
12/04/2009
O assassinato da mula
- Este homem, senhor juiz, assim que aconteceu o acidente, disse que não tinha nada, não quis ajuda de ninguém e foi embora! - esbravejava o advogado, apontando diretamente pro nariz do Tõizin.
- É não, sô juiz! Ieu...
- Senhor Antônio Carapina! O senhor, ao entrar na sua caminhonete velha, amarrar a porta com uma corda e sumir no mundo, não disse que estava bem e que não precisava de ajuda?
- Ieu?... Quero expricá!... Vô contá do começo, de inhantes do acontecimento!...
Tôinzin era só humildade. Tremia, alvo de tantos olhares e o cheiro do seu suor nervoso viajava pelo salão do júri improvisado
- O senhor não tem que explicar nada! É só me responder: o senhor afirmou ou não que estava bem?
- Ieu?... Sim e não...
Foi aí que o juiz achou que era hora de interceder, tomando interesse pelo assunto.
- Deixe o homem falar, doutor! Para esclarecer a verdade, precisamos ouvir os dois lados.
Tõinzin respirou aliviado.
- Brigadim, dotor juiz! Eu e a minha muié, plena madrugada, acordemo a mulinha, coloquemo ela na caminhonete e eu vinha pela rodovia a fora. Só eu e ela, a mulinha. Ela na carroceria e eu na buléia. Aí veio aquela rural doida, saindo não sei donde do meio do mato e trombou na porta da minha caminhonete. Eu me machuquei muito, pois a porta do outro lado se abriu e eu caí. Caí e saí rolando estrada a fora. Nem conseguia me levantar. Minha mulinha, tadinha, tamém num tava em situação boa não. Zurrava feito besta, caída do outro lado da rodovia. Eu dei conta de levantá a cabeça e vi a bichinha, a uns 15 metros, esperneando e estrebuchando. Aí chegou o home da polícia e, no lugar de vir me olhar primeiro, foi ver a mulinha que dava mais escândalo. Acho que ele avaliou a situação e disse não tem jeito. Pegou o trabuco e deu um tiro bem na testa da bichinha que quetou na paz de Deus Pai. Aí ele veio cambaleando pro meu lado, com o trabuco na mão, ainda soltando fumacinha, e explicou: "Não teve jeito. Tive que matar sua mula que tava muito mal. E o senhor, está bem?". - O que o senhor queria que eu dissesse, sô juiz e sô adevogado?
(Nota: este causo é muito conhecido em Minas Gerais. E muito divulgado. Esta é apenas mais uma das versões que ele recebeu).
06/04/2009
Nos braços de Morfeu
Este causo aconteceu foi mesmo em Tabuí, ali na pensão da Vitalina, a única da cidade. Um vendedor, homem experiente da vida, mas, com muito sono atrasado, foi lá e a espelunca não tinha quarto vago.
- Dá um jeito, por favor, dona Vitalina, eu preciso dormir. Me arrume nem que seja uma cama, sá!
Vitalina pensa, pensa e, querendo ganhar uns mirréis a mais, responde:
- Óia... Tenho um quarto com duas cama. Interessa? E lá tá hospedado um sujeito que me disse que gostaria de rachar as despesas com alguém. Só que tem que ele ronca demais da conta. Tanto, que os vizinhos já fizero recramação dizendo que não conseguem dormir.
- Nenhum problema. Fico com o quarto, dona Vitalina! Eu quero dormir!
Ela leva o viajante pro quarto, acorda o roncador, apresenta-os um ao outro e eles vão dormir.
No dia seguinte, o vendedor chega ao refeitório para tomar café e, contrariando as expectativas, está bem disposto, alegre e assobiando “encoste tua cabecinha no meu ombro e chora!...”. Vitalina, morta de curiosidade, pergunta:
- E aí, deu pra dormi?
- Dei nada, dona Vitalina! Dormi assim mesmo! Aliás, dormi foi demais da conta, sá!
- Mas os roncos do homem num atrapaiaro?
- Nada! Ele não roncou nem um minuto. Nadica de nada!
- Nepussive, sô! Quecocefez?
- Bom, foi simples, uai! O sujeito já dormia, mal entrei no quarto. Aí, a primeira coisa que fiz foi me aproximar da cama dele e beijar sua bunda dizendo: - "Boa noite, coisinha linda"... O sujeito passou a noite acordado, desconfiado, sentado na cama e me olhando assustado com o rabo do olho...
(Este causo foi, com a devida autorização, surrupiado e adaptado dohttp://loucurasedevaneios.blogspot.com/ )
03/04/2009
De Maníaco e de Louco...
Primeiro bêbado apagado, o maníaco encafuou-o no porão escuro da igreja do Padre Anacleto, que ficava bem perto do rio Sorongo. O segundo, mesma coisa, um dia depois. O terceiro também.
Foi aí que os bêbados da cidade, em reunião de sindicato, após descobrirem o sumiço dos três colegas, confabularam, confabularam e resolveram maneirar a mão dando um tempo à cachaça. A partir daquele dia Tabuí não tinha mais bêbado. Ninguém nem agüentava mais o cheiro da canjebrina. Davam até vômito se vissem, mesmo que fosse de longe, um litro da Providência, a preferida de todos.
Enquanto isso, o maníaco lá do começo da história, já com três defuntos armazenados, estava meio preocupado, - maníaco também tem suas preocupações -, sem saber o que fazer com tanto presunto. Mas como ele só era maníaco e não era bobo, arranjou uma solução fácil, fácil. Chamou Dejalma. O doido da cidade.
- Dejalma, tem uns bêbados ali. Vamo carregá eles e jogá no rio pra curarem a bebedeira?!... Vamo que depois te dô uns trocado!
Dejalma foi. Plena madrugada, pegou os defuntos, cada qual mais fedido que o outro e pinchou tudo no rio.
Pensando que a brincadeira continuava, voltou a procurar outro bêbado mas não achou mais nenhum. Ficou embaixo da escada da igreja esperando aparecer o home que prometera os trocados, conforme o combinado. Mas o maníaco tinha, bem misturadas numa lata, urina e fezes. Lá do alto da escada despejou toda aquela gororoba na cabeça do doido do Dejalma. Este, apavorado com a fedentina, caiu no mundo, sem nem olhar de onde vinha aquela chuva mais que de repente.
Quando a cidade achou os corpos dos três bêbados boiando no rio, foi um bafafá danado. Quem-foi, quem-não-foi, meu-Deus-do-céu e por aí adiante.
O delegado, sem nenhuma testemunha, não sabia a quem apelar. Até que a boataria chegou no ouvido do Dejalma.
- Sô delega! Otro dia eu pinchei treis bebo no rio pr'ês tomá banho!...
O maluco terminou a frase com uma risadona, daquelas de doido varrido. E o delegado, querendo mais informações, passa a especular o Dejalma de tudo quanto é forma, com todo tipo de questionamento. Até que perguntou:
- Que dia foi isso Dejalma?
O nosso simpático doido pensou, pensou, deu mais umas gaitadas, mas só conseguiu se lembrar de uma coisa. E simplesmente respondeu:
- Foi naquele dia que choveu merda!