24/03/2009

Conversa de Banheiro

Zaqueu pegou malinha e marmita com frango e farofa e se mandou para Belzonte. Carona em caminhão boiadeiro. Chegando à capital, procura a rodoviária para deixar a malinha, - pois que a matula já acabara -, a fim de sair pela cidade à procura de emprego. Sente umas coisas na barriga e calcula é efeito da matula. Resolve dar uma aliviada antes de se aventurar pelas ruas daquela cidade desprovida de matinho. O revertério aumenta até que ele acha um banheiro, onde entra afobado e suando frio, quase sem tempo de descer a calça. Assim que começa o serviço, ouve alguém perguntar:
- E aí, tudo bem?
Zaqueu arregala o olho, olha para cima, olha pra baixo, olha de lado e, logicamente, não vê ninguém. Tava sozinho na “casinha”, com certeza. Mesmo assim, com medo do ridículo, mas para não parecer deseducado, responde inseguro um “tudo bem, uai...”.
- O que você tá fazendo agora?
O Zaqueu foi ficando sem jeito com a situação. Pensou e picisa perguntá? Calças arriadas, sentado no trono e tendo que responder a perguntas sabe-se lá de quem. Cruzcredo! Será que achara um conhecido por ali? Justo naquela hora, com o barro escorrendo feito água?... Mesmo assim, como era homem educado, responde “óia, tô aqui cagano agora e...”. O outro, apressadinho, nem espera pela resposta completa e casca outra pergunta:
- Ah é, é?... E a família, vai bem?
O revertério na barriga do Zaqueu tava dos mais complicados. A pergunta veio logo na hora em que ele se encolhia com a cólica enquanto, sem precisar força, o barro, farto, descia a jato, respingando água no traseiro. Fiofó ardia de quentura. Respondeu na marra “vai!”, junto com um gemido prolongado e choroso enquanto soletrava os versos de uma trovinha escrita a lápis, na porta do banheiro, bem à altura dos seus olhos cheios d’água: Sentado aqui neste trono, / Me dá uma tristeza profunda / Vendo a coisa bater na água / E a água bater-me na... canela.
E Zaqueu pensava “quem será esse home?... Será que é meu conhecido?... Será que tá me veno?...”. Mas logo veio a resposta às suas dúvidas. O indivíduo parece que tinha um alto-falante na boca. E disse bem alto:
- Olha, aqui ao meu lado tem um cara cagando que me responde a cada pergunta que te faço. Vou desligar, tá bom? Um abraço!
Zaqueu ainda não conhecia o tal do telefone celular, do qual pode se falar com o mundo, até quando se senta no trono.
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