09/05/2013

GOSTO ESTRANHO


Este causo é muito esquisito e renegado por todo mundo de Tabuí. Mas, como aconteceu, o cronista não pode deixar de narrá-lo, pra não cair em descrédito. O Décio Zeloso chegou pra Tabuí de mãos abanando. Gostou do lugar, muito diferente daquela cidade do Sul, de onde viera corrido, - diziam as más línguas – e depois de muito trabalho conseguiu comprar o seu pedacinho de terra.
Até o linguajar e os costumes do povim, o forasteiro assimilou e virou um verdadeiro cidadão de Tabuí, embora morasse na zona rural. Mas eis que certo dia ele precisou ir um poquinho mais longe pra fazer exame de próstata. Tava sentindo umas treteiras lá nos ligamentos fundiários e os amigos começaram “é prósta”, “é prósta” e ele marcou médico, no Ibiá. Preferia um médico estranho e de longe a correr o risco de um dia encontrar com ele na rua e ficar sem ter onde botar a cara, de vergonha.
Quando o médico botou aquela luva e veio com o dedo em riste e enfiou, sem dó e nem piedade, o Zeloso gemeu feio.
- Dotô, tô guentano não!... Acho que vô gritá!...
- Socê gritá vai ficá ruim demais da conta, sô! A recepção tá cheia de gente... Com que cara você vai sair depois?
O médico continuou o exame, apalpando detalhes e tentando descobrir os porquês dos queixumes do paciente. E o Zeloso avisando:
- Dotô, eu vô gritá!...
- Guenta aí, sô Zeloso! Causdiquê tá quaiscabano!... – O médico, acostumado com o pessoal do interior, gostava de imitar o dialeto da região.
- Não, dotô, vô tê qui gritá! – Foi o que ele disse, dando uns gemidos estranhos...
Nessa hora o médico, já de saco cheio desse negócio de gritar, deu a ordem:
- Então grita home de Deus!...
E o Zeloso botou a boca no mundo, assim como se tivesse descobrindo novidades:
- ÔÔ trem bão, meu Deus do Céu!...
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