20/03/2013

PALAVRAS CRUZADAS




Tõingalo era homem letrado. Aprendera sozinho quase tudo o que sabia de leitura. E viciou-se em palavras cruzadas. Mas, aliado a esse vício, tinha outro. Consumidor de cachaça de alambique, tão farta em Tabuí. Num certo dia ele teve que viajar às pressas pra Bambuí. O estoque de palavras cruzadas acabara e não deu tempo de fazer encomenda das revistinhas. Teve que viajar sem o passatempo predileto.
Ao pegar o trem, um misto de cargas, bois e passageiros, Tõingalo, já com umas canjibrinas na cuca, achou lugar vago ao lado de uma moça bem bonita, tão branquela quanto ele.  Sentou no banco e a moça tira da bolsa o quê? Isso mesmo, uma revistinha de palavras cruzadas. E começou a preencher sua revistinha sem dar o mínimo de atenção ao Tõingalo. Ele, com angústia, sofrendo com o descaso dela que não pedia nem uma ajudazinha, começou a suar e a exalar cheiro de suor nervoso, misturado com o bafo da pinga.
Com o efeito da mardita aumentando, Tõingalo foi avermelhando. Vendo a moça progredir nas palavras cruzadas, curioso demais da conta, foi encostando-se nela pra conseguir ler o que ela escrevia. Esquivar-se e espremer-se contra a parede do carro, até mais não poder, de nada adiantou. Quando não havia mais nenhum espaço entre os dois, o Tõingalo quase no colo da vizinha, ela não aguentou o comportamento e a catinga do companheiro de viagem. Olhou pra ele e tascou:
- Vermelho e fedido...
Ao que Tõingalo, pensando que ela estivesse pedindo ajuda, aliviado, prontamente respondeu:
- Se fô com cinco letra, tá no papo: é fiofó!...

                                                                    (Reescrito com base em causo enviado por Luzia N. Coelho, de Goiânia-GO)
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