03/02/2013

O BARBEIRO CHAPADO





     O Raimundo Barbeiro, como o próprio nome indica, era o barbeiro mais afamado de Tabuí. Isso quando tava são, pois, na maioria das vezes, vivia trolado. Aí, se facilitasse, Raimundo fazia desfeita e tratava de forma deselegante a clientela. Não por maldade, mas por não saber o que estava fazendo.
     Certo dia chegaram ao mesmo tempo dois clientes. Um da cidade, o Antão, e o outro, um forasteiro que ninguém conhecia. O Antão, vendo que o Raimundo tava chapado, já conhecendo a fama, resolveu fazer uma graça com o que veio de fora e cedeu-lhe a vez. Mas não foi embora não. Ficou por ali, como quem não quer nada, para ver no que ia dar o serviço. O homem tinha o rosto cheio de entrâncias e saliências e, como decerto não tinha os dentes de trás, seu rosto era chupado. O Raimundo, cambaleante em torno do cliente, botou a cuca pra funcionar à procura de uma forma de descobrir como fazer bem feita a barba do homem. E pensou com seus botões: “com a cara desse jeito, cheia dessa buraquera, tá pió do que a estrada que vai pra Tapiraí, uai”.
     Chapado como estava, Raimundo só viu uma solução. Como não conseguia passar a lâmina de barbear nos buracos do rosto do homem, enfiou um dedo na boca dele a fim de empurrar a pele pra fora e passar a lâmina. Não teve apelo. O forasteiro subiu nas tamancas e ficou bravo.
      - Seu fio da mãe! Disgraçado! Cumé quiocê infia esse dedo sujo e catinguento na minha boca desse jeito?
     Ao que o Raimundo responde na maior calma:
     - É só pra mode fazê as bochecha, sô!
     Só não houve morte dentro da barbearia porque o Antão, que era bem grandão, resolveu botar ordem no pedaço, o que acalmou o forasteiro.
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