20/07/2010

DOENTE POR SUGESTÃO

     Vitalino, menino sério, vergonhento e de mãos calejadas de pegar no guatambu de sol a sol foi à cidade procurar médico. Enfrentou fila do tal de Ienepeesse num calor de rachar. Suando, com sede e amarelo de fome, esperou com toda paciência. Caladinho, sem reclamar.
     Quando chamaram seu número, meio sem jeito, entrou na sala do médico. Miudinho diante do homem, não sabia nem como começar a falar.
     - Que que foi rapaz?
     - É que... Eu... Óia, dotô!...
     - Fala logo, menino, só tenho dez minutos pra cada um e não há tempo para perder!
     - É meu pai, dotô. Tá doente! Eu quiria...
     - Se é seu pai que está doente, porque você não o trouxe?
     - É qui ele num güenta vim, dotô! Tá muito runho!...Tá com tontera... Vumitô sangue...
     - Ah menino! Isso não é nada! Deve ser falta de comer direito. Manda ele se alimentar bem. Comer carne, verduras, frutas, ovos, leite... Logo, logo ele fica bom. A tonteira, pode ter certeza, é só impressão. Seu pai tá com impressão que tá doente, mas não está.
     - Mas, dotô...
     - O próximo!...
     Vitalino se manda. Caladinho. Obediente. Cabeça baixa e triste. Onde ele ia arrumar tudo aquilo para o pai comer? E o pai, acamado, nem reconhecendo as pessoas direito, sem nem poder se levantar, como é que ia comer alguma coisa que o menino porventura arranjasse? Situação braba. Carestia demais da conta.
     Antes de deixar a cidade, passa na padaria e compra dois pães. Come um para remediar a fome que tava fazendo seu estômago bater palminhas e leva o outro para o pai. Não dava para comprar carne, verduras, frutas, ovos, leite...
     O pai passa dois dias lutando com a morte. Mais pra lá do que pra cá. Menino não sabe o que fazer. Miséria muita. No escondido lágrimas doloridas correm-lhe pela face, a toda hora. Só ele e o pai no mundo. Mais ninguém. Não queria ficar sozinho. Tinha que ter solução. Volta à cidade. Procura o médico.
     - Já lhe disse menino, que seu pai só está impressionado! É sugestão. Só sugestão! Diga isso para ele. Fale que a vida é boa, que ele deve deixar de bobagem e aproveitar a vida!
     - Dotô, ele num pode nem mais falá!...
     - Olha, se você tiver dúvida do que estou lhe falando, só tem uma solução: traga seu pai aqui. Mais nada posso fazer. Tenho outros pacientes, tenho meu consultório... Traz ele aqui.
     - Dotô, ma nem um remedinho?
     - Posso receitar remédio sem examinar o paciente não, menino! Só com ele aqui, certo?
     Passam uns quinze dias. Médico chega lá na fazenda onde Vitalino trabalhava com o pai. Foi ver o fazendeiro que tivera uma gripe. Homem rico que podia pagar a consulta. Quando o doutor viu o menino, reconheceu-o.
     - E aí, ô menino, seu pai, como vai?
     - Meu pai, dotô, tá divera impressionado. Agora tá pensano qui morreu. Tá lá no cimintéro. Interrado tem oito dia!
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