14/07/2010

AS APARÊNCIAS ENGANAM

     Seu nome era Felisberto. Apenas Felisberto. De onde veio ninguém sabia. Aparecera por Tabuí e em pouco tempo era o mendigo mais conhecido das redondezas. Andava escorado num par de muletas, com um pé no ar e a perna estirada pra frente, em forma de gancho. Mais parecia uma múmia paralítica com as pontas dos ossos aparecendo no rosto carcomido que cercava aquela boca cheia de dentes apodrecidos. Vivia montado na muleta cúmplice e na fisionomia cadavérica.
     Certo dia estava Felisberto na sua tarefa árdua de pedir esmola, capengando pela rua a fora, quando, de repente, ouviu um berreiro danado.
     - Sai da frente, minha gente!
     - Cuidado, gente!
     - Sai fora que é rabo!
     A gritaria era provocada pela correria de uma manada de bois bravos, uns vinte, que tinham se desgarrado de uma boiada que passava por um canto da cidade. Vinham os bichos em carreira desabada. Fungando, babando e investindo até na sombra. E o povão num berreiro que só vendo.
     - Arreda minha gente! Cuidado, meu povo!
     Acontece que o Felisberto, o mendigo lá do começo da história, na sua labuta de pedir esmola manquitolando pela rua, estava bem no rumo da boiada desembestada. Assim que viu aqueles baitas bois, crescendo cada vez mais, bem na sua frente, não teve dúvidas. Jogou as muletas bem longe e... Pernas pra que te quero! Mandou-se numa desabalada correria esquecendo que era paralítico. Aí encontrou o primeiro muro disponível que saltou de um pulo só. Platéia boquiaberta olhando e nem acreditando. Daquele dia em diante Felisberto nunca mais apareceu em Tabuí e nem notícias dele tiveram mais.






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