27/09/2009

Meu primo aviador

- Rapaz, sabe adundé qui’eu moro? Em Tabuí, uai! Sou filho de lá. Lá me nasci e lá me criei... Minha parentaia mora toda lá... Ieu? Não senhor. Trabaio inda não. Patrão só qué pagá micharia. Como quem trabaia de graça é relógio, prefiro aguardá. Enquanto isso, vô tocano minha dirdas, chamano urubu de meu louro...

Isso era o papo do Letsgo, orgulhoso do seu berço, com um estranho, colega de infortúnio. Infortúnio, porque estavam viajando de trem de ferro, um misto de carga com boi e passageiros. Puxado por uma maria fumaça desconjuntada, ofegante e mal das rodas. Nos dois últimos vagões, os de passageiros, só um banheiro fedido para atender a tantas necessidades. Gente dando enjoo e chamando o juca. Não, sô! Só vendo o sofrimento de todo mundo. Aí, o Letsgo, para não sentir mal, enchia o ouvido do companheiro de viagem de potoca, aumentando ainda mais o seu infortúnio.

- Ó, lá em Tabuí, todo mundo assim mais de bem, mais da alta, é meu parente. Ispia só. Meu pai é militar aposentado. Minha tia mais velha é diretora do grupo escolar. Meu tio-avô Florêncio é empresário, dono de pedreira. O outro tio, o Lebideu, vive de passado, pois é professor de História. Meu cunhado é dono do posto de gasolina. Meu outro cunhado é sacristão. Um outro é sócio do clube... . E tenho um primo que é aviador. Até meu padrim Feverêncio - o senhor sabe que quem tem padrim rico, não morre pagão, né? - é dono de um carrinho de pipoca. Oto padrim meu é comerciante, dono da Loja Gambira mas, coitado, vive no preju, pois, como o senhor sabe, quem trabalha no comércio, nunca vive sossegado; quando escapa do ladrão, cai no gorpe do fiado...

E Letsgo não parava de falar. Até que alguém toca no seu ombro. Ele olha e vê o seu conterrâneo, o Himineu, que, pelo jeito, tinha ouvido todo o monólogo.

- Óia, Lets, sei que seu pai já foi puliça, o seu tio vende cal da pedrera, aquele cara que robou sua irmã era o sãocristão, mas nunca ovi falá quiocê tem um primo aviadô...

- Ih, sô! Ingano seu, Himineu! Cê num cunhece puracaso o Ispedito? O aviadô de receita lá da Farmácia do Povo? Pois é. Ele é meu primo, uai!...

15/09/2009

O Prefeito e a Providência

Prefeito de Tabuí era uma negação. Nenhum progresso trazia pra cidade que parecia caranguejo. Só ia pra trás. Entrava ano, saia ano e Tabuí continuava na mesmice de sempre. Nas redondezas aquela terrinha começou a ser chamada de "já teve". Já teve campo de futebol, já teve rodoviária, já teve escola municipal boa, já teve zona decente...
Um dia prefeito recebe uma reclamação:
- Sô prefeito, o teto do grupo caiu!
- Que grupo, meu fio?
- O grupo, sô prefeito! O grupo escolá! L'adonde a gente aprende a lê!
- Ah, bão! Dexa comigo que vô tomá providência!
Tomava providenciamento nenhum. Esquecia. Ia pra casa, escondia dos problemas e não dava mais o ar da graça.
- Prefeito, a ponte do corgo seco quebrô!
- Quebrô? Pode deixá! Vô tomá providência!
- Prefeito, a gente picisa duma iscola no Pindura Saia! Dá um jeitinho!
- É cumigo memo! Vô tomá providência!
Povo foi ficando chateado. Nervoso. Revoltado até com o descaso do prefeito. O homem não queria nem saber quem lustrou as costas da barata e nem quem botou fogo no inferno. Vivia encafuado dentro de casa. Vez ou outra é que apontava o nariz. Bastava ouvir reclamação sumia de novo. E ainda dizia que ia tomar providência...
O caso ficou mais sério no dia da enchente. Rio Sorongo não deu conta de segurar aquele aguão todo dentro das suas caixas. Entornou água na metade da cidade. De quebra lavou tudo no cemitério. Era defunto boiando, esqueleto escorrendo rua a fora, caveira descendo ladeira abaixo... Tanta mortaria pelas ruas que arrepiava até cachorro vira-lata. O defunto da gorda Dorotéia, enterrado dois dias antes do dilúvio, deu o maior trabalho pra ser encaixado de novo na sua última morada. Continuou teimosa na morte como o foi em vida. E o prefeito dizendo:
- É comigo memo! Deixa que tomo providência!
Povo desorientado resolveu tirar o desgramado do prefeito de dentro do seu esconderijo. Alguns cidadãos mais indignados invadiram a casa da autoridade. Tava lá o homem, num quartinho dos fundos, só de cueca, cercado de garrafas vazias, num porre danado e tomando mais uns goles de Providência, a famosa pinga do vale do Sorongo.

05/09/2009

Radialista, o conselheiro noturno

Programa noturno de rádio, com participação de ouvintes de todo o país, sobre os mais variados assuntos. O locutor, cheio de dedos, evitava assuntos polêmicos e, para não desagradar a mineiros e a goianos, ficava sempre em cima do muro. No bate-papo com os ouvintes, por telefone, lá pelas tantas da noite, começam a falar de educação e vida sexual.

O radialista procura dar umas lições de moral, dessas que todo mundo fala, mas nem sempre praticam, tipo sexo só com amor, sexo só depois de casado, sexo só com camisinha e por aí a fora.

Foi aí que ligou a Ritinha, lá de Tabuí. Menina de voz melosa, faladeira, bem de mansinho foi conquistando o locutor.

- Por que você ligou, Ritinha?

- Liguei pra mandá um abraço pro meu namorado, o Luiz dos Prazeres, lá em Belzonte!...

O locutor, curioso com o papo da garota, resolve perguntar a idade dela.

- Tô com 13, respondeu.

- Mas, menina, você só com treze anos e já tem namorado?

- Hhum! Ce num sabe de nada! Tá por fora! Eu inté já fudo!...