14/03/2009

E o padre ficou no preju

Padre Anacleto tirou férias. Pro batizado do domingo, bispo mandou lá um padre itinerante, desses que não se adaptam a lugar nenhum e que, quando arrumam uma oportunidade de ganhar um trocado, não gostam de perdê-la.
Por outro lado, o Toinzin Sossego, quando achava jeito de economizar trocado, ganho com tanto suor, fincava pé, perigava perder sangue, mas não botava a mão na algibeira. Pois bem. Toinzin, a mulher, os padrinhos e madrinhas se mandaram pra cidade. Batizar o Galileu que andava mal das pernas.
- Carece batizá o minino, Sossego. Pode ficá pagão não!
Isso era Malvina, com medo do menino morrer antes da hora.
Padre cascou o batismo no Galileu em questão de segundos e encarou guloso os olhos do Sossego.
- São vinte reais, senhor Antonio! É o preço do batizado!
O Sossego quase ficou sem fôlego, depois de ter perdido as cores. Pensou em quatro dias de capina, no cabo da enxada, de sol a sol, a cinco reais o dia. Arrependeu-se de não ter tentado chegar a padre.
- Sô vigaro, é que tô meio desprivinido!...
- Veja aí, senhor Antonio, os seus compadres e comadres...
- Dá não padre, tão tudo pió do que eu...
Sossego já tava pensando eu vou ter que deixar o menino como garantia... O padre piscava miudinho, pensando, preocupado, em como garantir aquela grana no bolso.
- Mas o senhor não tem alguém na cidade, um parente, um amigo, a quem pedir emprestado? Ou alguém a quem eu possa mandar a conta?
- Óia, padre, tê, até que tenho. Duas parente, mas as duas disgarrada. S’extraviaro...
- Como? Extraviaram-se?
- É, padre. Uma virô prostitute e a ota virô freira. As duas tão aí. Uma no cabaré, só ganhano pro gasto e a outra no convento, sem tê o que gastá.
- Mas, senhor Antonio, extraviada? Sua irmã? Freira é esposa de Cristo, senhor Antonio!
- Ah, bão, padre! Intão, inda bem! Se ela é esposa de Cristo, tamo resorvido. O sinhô bota o batizado do Galileu na conta do meu cunhado, qui é seu chefe... Inté!
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