05/06/2014

DESCONFIARAM DO MOÇO

   
Rolando Tapioca tinha quatro filhos homens, acostumados à labuta do dia-a-dia no serviço da roça. Tão dedicados ao trabalho que mal tinham tempo e jeito pros namoricos. Pela pouca experiência, o mais novo, Epílogo Tapioca, fez indecências com a primeira namorada e teve que casar às pressas. Festão na fazenda, com toda a alegria do pai. Aí o segundo filho, o Verso Tapioca, que viu gosto no casamento do irmão, resolveu também se casar, com a filha do vizinho. Outra festa na fazenda, com gosto dobrado do Rolando que ia vendo os filhos progredindo e seguindo as leis da natureza, enquanto continuavam trabalhando todos juntos. Mesma coisa com o terceiro filho, o Poema Tapioca. Mais festa na fazenda. O pai não cabia em si de tanto contentamento, com a tapiocada se ajeitando na vida. Mas ficou faltando o Soneto Tapioca. Tão bonito o moço, mas só que o Soneto não era lá muito bom da cuca não. Meio passado das ideias.
 O pai pensava: “Soneto vai ficá beato... e ter um filho beato é dose pra cacete, chato pra caramba”. “Vou esperá um pouco mais e se, de toda maneira, ele continuá sortero, dô um jeito e pago nem que seja uma quenga mode casá cuele”. Mas eis que um dia chegou o Soneto com um papo estranho:
 - Pai, arranjei uma namorada ali e tô gostano dela, pai!...
 Passa um tempinho e lá vem o Soneto com nova conversa:
 - Pai, vô ficá noivo e vô casá em setembro, pai!...
 - Ô, fio... Recebo a notíça com gosto. A mesma festa que fiz pros zoto, vou fazê procê tamém, viu? Vou matá umas duas nuvia, umas porca gorda, uns duzentos frango e chamá a parentada e seus amigos... Pode ficá tranquilo.
 Casou o moço. E o pai pensou “esse meu fio é meio bobo, vai que não dá conta do recado, a moça vai largá dele”...
Com muito jeito o Rolando resolve sondar o filho, depois de uns meses de casado, para saber das suas intimidades.
 - Meu fio...
 - O que quié, pai?
 - Acamifii, cê já abraçô e já beijô sua muié?
 - Não, pai, num abracei e num beijei ela não...
 A resposta causou arrepiaço na espinha do Rolando Tapioca... Cheio de dedos, meio gaguejando, medindo palavras, ele continuou:
 - E vc já tomô banho cuela, assim só cêis dois lá na casinha?
 - Afffemaria, pai! Curuiz! Não... Nunca tomei banho cuela não...
 - E botá ela na cama, pelada, passá a mão nas coisas dela?...
 - Eita, pai!... Nunca!... Milive, sô! Nunca fiz isso coela não...
 O pai tava desconcertado com as informações... Pensou “tá danado”... E resolveu mandar uma última pergunta, indiscreta, mas era o jeito:
 - Mas, fio, o que quiocê já feiz cuela até hoje?
 - Pai, pa sê franco pu sinhô, causdiquê gosto muito do sinhô, inté hoje só carquei pica nela, pai, todo dia...
(Causo contado pelo amigo Divino Martins, de Itapuranga-GO)
©By Eurico de Andrade, in Tabuí e seus Causos https://www.facebook.com/causos e http://tabui.blogspot.com.br/
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