17/05/2013

PROVIDÊNCIA, A CACHAÇA MILAGROSA



Durante minha carreira de pescador, especializei-me na pesca de traíras. Vinte, trinta e até quarenta linhadas armadas nas beiradas mais sujas da represa, no meio de capituvas. A grande dificuldade sempre foi arranjar tanta isca para tanta armadilha. Certa vez, estava eu tentando pegar uns lambaris, que é sempre a melhor isca pra traíra, ali no Aterro dos Castilhanos, do lado oposto ao de Santa Quitéria, e nada de pegar uma isquinha sequer. Já estava quase desistindo, quando ouvi o ruído de seixos rolando barranco abaixo, bem nas minhas costas. Ao me virar, vi uma cobra passando atrás de mim, com um pequeno sapo na boca. Não pensei duas vezes. Num bote preciso, agarrei a cobra pelo pescoço e, pressionando a boca dela, roubei-lhe o sapinho que também é uma boa isca.
Antes de soltar o bicho, despejei uma boa talagada da pinga Providência - que eu trouxera de uma viagem que fizera a Tabuí, no mês anterior - goela abaixo dela. Não pense mal de mim. A pinguinha que levava era para tirar a friagem depois de ter que me enfiar na água para tirar as linhadas enroscadas nas galhadas. Peguei o sapo, isquei com ele uma linhada e lancei na beirada das moitas, dentro da represa. 
Depois de meia hora de muita tentativa de pegar mais iscas, eis que sinto um leve cutucão nas minhas costas. Ao me virar deparei com três cobras me olhando fixamente, cada uma com um sapinho na boca. 

(Causo recolhido e escrito por Joaquim da Silva Junior, de Carmo do Rio Claro-MG)
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