14/04/2013

JOGO DE TRUCO



 
Lidio e Cida namoraram e casaram cedo. Morando na roça a vida tava dificultosa. Resolveram mudar-se para Tabuí onde passaram a morar numa casinha mal arrumada, ali na Rua do Assobio. Quarto, cozinha e banheiro davam para acomodar os trecos que trouxeram da roça. Ela cuidava do barraco e, vez ou outra, fazia uns bicos de faxina. Ele, depois de muita peleja, conseguiu se ajeitar como servente de pedreiro. O único divertimento do casal era se reunir com os amigos e vizinhos para jogar um animado truco nos finais de semana. Os dois faziam uma parceria quase imbatível. Combinavam os sinais, sabiam ler a cartada e blefavam como ninguém.
 Mas aí vieram os filhos. Um, dois três... Mais apertos, muitas preocupações. Num certo dia, Lidio chegou pra Cida e disse:
- Muié, os fios tá cresceno, e nóis continua amuntuado nesse quartim apertadim. Cumé qui a gente vai fazê di noite mode ês num percebê a gente brincá?
- É memo, Lidio. Tá dificir di num fazê baruio, né? Cumé qui nóis fais?
Depois de muito esquentar a moringa, ele sai com essa.
- Qui quiocê acha da gente fazê assim: no dia qui eu quisé arguma coisa, eu chego procê, e falo: “Truco” e si ocê quisé, fala: “Topo”. Si num quisé, fala: “Não”. Quando ocê quisé, fais a mema coisa. E eu respondo do memo jeito.
Assim foi, na base do truco pra lá, truco pra cá, o tempo passava sem maiores problemas. Um belo dia, Lidio chega do trabalho e passa pela Cida na cozinha, preparando a janta e cochicha no ouvido dela:
- Truco, muié! - E ela responde:- Não.
No dia seguinte, ele chega do serviço, toma banho e vai atrás da mulher.
-Truco, muié. - E ela: -Não
No terceiro dia, toma banho, passa um desodorante e:
-Truco. - Ela: - Não.
Foi a gota dágua. Nervoso, puto da vida, Lidio resolveu dar o troco. Deixou passar uns dias, e, quando a esposa o procurou com um charmoso “Truco!”, ele respondeu com um sonoro: “Não”. No dia seguinte, quando o marido chega em casa, Cida já tava de banho tomado e toda perfumosa. “Truco, meu bem!”. De novo, ele respondeu: “Não”. No terceiro dia, ela caprichou no visual e lascou outro “Truco, meu amor” toda insinuante. Irredutível ele retrucou: ”Hoje não”.
Ela então abraçou-o por trás, beijou-lhe a nuca, fez-lhe cafuné na cabeça, mordeu-lhe as orelhas, desabotoou-lhe a camisa, e acariciou-lhe o peito cabeludo com as pontas das unhas. Ronronando em seu cangote, foi descendo as mãos pela sua barriga, toda carinhosa. Ao chegar mais em baixo, sussurrou-lhe:
- Beeennnhêêê... Cumé cocê tem corage di corrê cum um zape desses?
Postar um comentário