28/03/2013

O GALÃ SURDO




Tavam lá os dois, rodopiando no meio do salão. Baile da festa de aniversário de Tabuí. Saiu gente de tudo quanto é biboca pra fazer o comemoramento. Os dois que eu digo, eram a Luzia de Bem – mocinha regateira, prendada e formosa, vinda do Tapiraí – e o Mário QuatroPaus.
É bom explicar que o QuatroPaus viera de longe, pois que morava na roça, bem umas duas léguas da cidade. Chegara cansado e suado, com o desodorante vencido, fedendo a cigarro e com bafo da cachaça que tomara “mode criá corage”, conforme disse pro seu amigo Manelão. E, de tanto rodopiarem os dois pelo salão, aquilo começou a mexer as entranhas da Luzia e deu tontura nela. Coitada. Tava sentindo uns troços. Levantou o rosto e falou no ouvido do parceiro:
- Moço, me larga quieu vumito!...
Aquilo arrancou sorriso nos lábios do moço QuatroPaus. Feliz, olhando pra tudo quanto é lado como que para se mostrar. E ele comentou, abaixando a cabeça e soltando o bafo:
- Nem tanto, sá! São seus zóio...
Conversa danada de esquisita, pensou a Luzia. Depois de uns dois minutos dançantes, volta ela ao assunto:
- Ó, moço! To falano sério e vô ripiti: me larga quieu vumito!...
- Ah, sá! Gradicido, viu? O trem bão!...
A Luzia não teve alternativa. Entornou o caldo que tinha no estômago bem no peito do QuatroPaus. E o coitado do rapaz, melado e mais fedido, não entendeu como ela fez isso sem avisar. “Ô menos pudia tê virado a cara proutro lado, uai!” - Pensou ele com seus botões. E aquele vomitado, juntado com o cheiro do suor e do cigarro e da cachaça e mais outros cheiros do salão, causava até arrepio em quem se aproximava do QuatroPaus.
- Uai, Mário, o que foi quiocê fez com a moça, home de Deus? Parece que ela até passô mal!... Né não? - Foi o que perguntou o Manelão, em vista do acontecido.
- Uai, Manelão!... Intindi nada, sô! Ela tava me elogiano e de repente intornou o cardo fidido em riba de mim!...
- O que quiela falô procê, sô?
- Uai, ela falô e ripitiu “como ocê é bunito!”... Eu, hein!... Quem quintende as muiés, né?
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