02/02/2013

A SORTE RONDOU TABUÍ




Policarpo era considerado intragável pelos colegas de repartição da prefeitura. Chato, encrenqueiro, mal humorado e mais umas outras qualidades que não vou citar. Vez ou outra inventava uns bolões que, segundo ele, cercava todas as opções de se ganhar na Megasena. Com este argumento ele praticamente obrigava os colegas a fazerem uma fezinha nos seus palpites. Tinha convicção de que um dia a sorte grande o atingiria.
Colegas viviam de saco cheio com Polica – seu único apelido carinhoso – pela sua fixação na Megasena e por mais uns vinte e sete outros defeitinhos. Aí, um dia, resolveram aprontar com o mancebo para vingarem anos e anos de sofrimento. Era uma bolada das maiores e alguém, sabedor dos números que Polica sempre jogava, apresentou aqueles números como sendo o resultado do sorteio. O pobre homem arregalou os olhos, bambeou as pernas, teve suadeira e taquicardia, mas permaneceu em silêncio. Quando recuperou um pouco a cor e os ânimos, pegou o guarda-chuva, botou o chapéu, engoliu em seco e gaguejou:
- Ge-gente, piciso dá uma saidi-dinha...
- Onquié quiocé vai, sô?
- Vô ali um ti-ti-quim e vorto já-já!
A turma, séria, conhecedora da história, se segurava para não cair na gargalhada. O que aconteceu, mal ele saiu. Polica deu uma passadinha pela praça, sentou no banco, fez uma horinha, confabulou com seus botões como que para colocar os pensamentos em ordem e foi à lotérica, pronto para dar calote nos companheiros de bolão. Queria conferir o resultado, para ter certeza de que era só ele o ganhador e, portanto, o homem mais rico de Tabuí e das redondezas.
Um fiasco só. Decepção total, a informação passada pela moça da lotérica. Aí foi que Policarpo entendeu a história. Não deu outra. Chegou à repartição puto da vida e gastou todos os xingamentos do dicionário, que conhecia muito bem. Daquele dia em diante Polica nunca mais falou em bolão e nem em loteria com a cambada do trabalho.
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