09/01/2013

E O CIRCO VOLTOU A TABUÍ



     O circo chegou de novo em Tabuí. Cirquinho fuleiro, com a lona rasgada, cobertura remendada, ferragem enferrujada, tábuas rachando, mas era circo. E o povinho, doido por uma diversão. Como todo circo, diziam que tinha uns palhaços, o mágico, a menina da bicicleta, o homem das facas e outras coisitas mais. Mas o que o povo queria mesmo eram os bichos anunciados: o tigre e o leão. Ah, Tabuí já tava ficando cidade grande, recebendo bichos estrangeiros que, decerto, nem entendiam a língua brasileira. Na noite que antecedeu o primeiro espetáculo, houve quem nem dormisse, de tanto alvoroçamento.
     Mas, como sempre tem uma coisa para atrapalhar a vida do pobre que se satisfaz com pouco, no dia do espetáculo, morre o leão. Um bafafá dentro do circo. Sem o leão a plateia seria menor, menos dindim entrando, um fiasco... O Palhaço Rachid, o mais ajuizado da empresa, deu a ideia:
     - Gente, vamo arrumá arguém pra se visti de leão... É a solução!...
     Assim, bem dentro do confabulamento, descobriram lá no canto da Rua do Assobio, o Godofredo que tava em época de safra de pinga, tomando todas, mesmo com o dinheiro ralinho. No começo, o Godô deu pra trás.
     - Eu, heim!?... Visti de leão? Nenunca vi isso... E cum tigre dentro da jaula? Tá brincano, sô!...
     Mas não precisaram insistir muito. Nada que uns trocados não pudessem resolver.
     - É... Tá certo. Tomo umas pinga e vô... E seja o que Deus quisé!...
     Duas horas antes da estreia, tá lá o Godofredo chapado, vestindo a pele do leão que fora tirada do bicho morto e já apresentava sinal de cheiro esquisito. O locutor, no maior suspense, anuncia para a cidade toda ouvir:
     - Agora com vocês, vindos direto da África, o leão e o tigre! Uma salva de palmas pros dois!...
     Povim não economizou nos aplausos. Barulho quisó. Godofredo, dentro da pele do leão e com muito enchimento em volta do corpo, entrou correndo na frente e com o desconfiômetro ligado. Morrendo de medo do tigre. Por isso, não perdia aquele bicho esquisito de vista. O domador dos bichos de vez em quando estalava um chicote que fazia o Godô se encolher todo. E quando o tigre foi chegando mais perto, Godô sentiu ânsia de gritar “ai Jesus!”, mas se segurou. Deixou ficar do jeito que tava pra ver como é que ficava. Na hora em que o tigre soltou um gritinho muito do senvergonha, quando o chicote estalou no seu ouvido, Godofredo sentiu que ia desmaiar. Mas foi bem por causa do gritinho do tigre que a plateia se levantou de tanta emoção e fez o maior barulho já que nunca tinha ouvido voz de tigre. Foi nesse momento de barulheira que Godofredo foi surpreendido com uma vozinha vinda do colega tigre:
     - Ô sô!... Quanto é quiocê tá ganhano?
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