28/01/2010

A fotografia


     Lá no Tabuí acontece muita coisa. Umas engraçadas, outras boas ou tristes e, até, ruins. Como em qualquer lugar do mundo. Mas também acontecem coisas misteriosas...
     Vitalino, cansado da mulher, já amarrotada e gasta pela vida, arranjou namorada. Tudo debaixo de segredo grande. Saía da suas terrinhas, de uns quatro ou cinco alqueires, distantes quase uma légua, e ia bater na cidade, toda tardinha, levando ovo, abóbora, galinha, banha e banda de porco, lingüiça e o que mais pudesse. Abastecê a dispensa da Mariinha, mode ela fica fortona... pensava ele com seus botões. Voltava para casa tarde da noite, refestelado, olhava tristonho pra cara da mulher, à luz da lamparina, dormindo pesado, cansada da labuta diária, deitava e também dormia. Zefinha, cheia de amor e respeito, não abria a boca para falar um a, mesmo notando mudanças no marido. Mariinha, com o tempo, é que mudou o comportamento.
     - Óia, Vitalino, quero que ocê vem aqui agora só uma vez na semana, nas quarta-feira, tá bão?
     - Mas pruquê, Mariinha? Ce num qué mais ieu?
     - Né isso não, deixa de sê bobo, home! E, quando ce vié, traz bastante coisa de cada vez, viu? Arroz, feijão, farinha, fubá, carne e mais misturas, ta bão?
     - Tá bão, Mariinha... Só quarta-feira?
     - É. Só te recebo na quarta-feira. Nos outros dias, nem pensar. Quero descanso.
     Mariinha era moça nova, fogosa, bonita, bem menos da metade da idade do Vitalino, que chegava a mais de quarenta. A moça, saída da roça, aprendera logo manhas da cidade, até a de conquistar homens usando o corpo e viver às custas deles. Chegada em sexo, se esvaía e se contorcia de prazer, trazendo juventude àqueles seus parceiros insatisfeitos, quase nunca bem servidos em casa. A cada noite, a horas e dias marcados com rigor, chegava, sorrateiro, homem naquela casinha de canto de rua, com sacolas, sacos e outras bruzundangas. Poucos novos. A maioria, caindo pelas tabelas, mais pra lá do que pra cá, mas serelepes para ver a amada, cada qual pensando ser sua única paixão. Mariinha, pelo jeito, sabia agradar a todos. Segredo se fazia necessário. Quando não casados, comprometidos com moças da alta grã-finagem de Tabuí. Segredo do negócio era fazer segredo do ofício.
     Ao único amigo, sabedor da história do Vitalino, - e doido para entrar de sócio -, que perguntara porque ele não mais estava indo amiúde à cidade, o apaixonado respondeu simplório:
     - Quero cansá ela não, sô! Só vô quarta-feira que é quando ela mandou. Sou home bedecedô, uai!...
     Certo dia, Vitalino resolveu mudar a situação.
     - Cê casa c'oeu, sá?
     - Casar? Como, se ocê já é casado?
     - A gente dá jeito, uai!
     - Então dê!
     Mariinha até chegou a considerar ter umas terrinhas, assim na beira do rio, todas planas, plantadas, cheias de frutas e criação, com casinha boa. Mas, depois, pensou na responsa de cuidar de casa, fazer comida pra pião, tratar dos bichos, lavar roupa e ter um homem só, sem ganhar nada... Bobagem, sô! Quero é vida mansa!... Espantou pensamento e esqueceu a proposta.
     As visitas do Vitalino continuaram até que, no dia do aniversário dela, ele propôs:
     - Bamo lá em casa, Mariinha?
     - Lá? Fazê o quê?
     - Drumi cumigo, uai!
     - E sua mulher, homem de Deus?
     - Tá lá mais não. Foi embora!...
     Vitalino queria que ela, acobertada pela noite, conhecendo suas posses, resolvesse de vez ficar com ele, agora casando, já que a mulher fora embora. Mariinha montou na garupa, já tarde da noite, sem olhares bisbilhoteiros e fiscalizadores e foram. Não sem antes passar no Tõinzin retratista.
     - Quero tirá retrato c'ocê lá em casa, sá! Lembrança da primeira noite em nossa casa...
     Tõinzin colocou o casal em várias poses e cômodos diferentes, mas não dava certo. Um sombra sempre atrapalhando o foco. Desmontou a máquina, limpou, lavou, soprou e nada. A sombra persistia. Vitalino, cansado de poses com a Mariinha, querendo ficar a sós com ela, para os principalmentes, mandou o Tõinzin bater assim mesmo.
     - Bamo vê no que vai dá, sô!
     Surpresa na hora da revelação. A sombra tomou forma. Bem atrás do casal de amantes, o corpo de uma mulher deitada. Mandada a foto para investigação, desvendou-se o crime e foi encontrado o corpo da Zefinha, enterrado no canto do quarto, debaixo da cama, onde ela, por anos e anos seguidos, dormira com o seu amado.






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