23/08/2009

Nem todos os gatos são pardos

O Juca Traveco não perdia a oportunidade de passear, sempre de trem de ferro, por aqueles caminhos que já conhecia de cor e salteado. Toda viagem a monotonia de sempre era o de que ele mais gostava. Mas certo dia, dia de jogo do Brasil na Copa, o povo do trem tava meio ouriçado. Mais ouriçado ainda quando entra, na estação de Tapiraí, um rapaz todo estranho. Cabelos compridos, pintados, com mechas de várias cores, paletó e calça de couro, brincos nas orelhas, ferro nos lábios e na bochecha, pulseiras nos braços, anéis de monte nos dedos, bota de salto alto e cano fino... Um trem raro, coisa nunca vista por aquelas bandas. E o coiso veio tomar assento logo de frente pro Traveco.

Juca ficou assustado ao ver aquela papagaiada toda e encarou, curioso, o recém-chegado, rindo e pensando com seus botões dondé que me apareceu essa figura, meu Deus do céu? Cruzcredo, quanto mais a gente reza, mais sombração aparece! Um rapaz até simpático, cuessa trenheira no corpo, num demora tá no sal.

Já o moço ficou incomodado com tanta observação e com o sorriso de gozo do Juca Traveco e resolveu encarar, falando na maior altura:

- Quequiá, ô véio? Nunca viu gente não, é? Vai dizer que quando ocê era novo num andou aprontando também, fazeno coisas diferente?

O Juca ficou todo sem graça, não sabia onde pôr a cara, mas, mesmo assim, respondeu na bucha:

- Óia, moço! Quando na sua idade, andei fazendo muita coisa diferente e danada de loca. Incrusive uma vez transei com uma arara. Agora, vendo ocê tão colorido, tô aqui pensando é se ocê num será meu fio, sô!...

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