02/04/2008

A n g ú s t i a




Me dá uma raiva danada de todo dia ter de ser eu quem aparto essas vacas. Quero só ver quando eu não estiver mais aqui. Meu Deus do céu, me ajude para que as vacas não entrem no mato hoje. Eu morro de medo de entrar atrás delas. Lá é assombrado. E se eu não for atrás para tocá-las elas não saem. Ficam lá encafuadas. Minha Nossa Senhora Aparecida, ontem eu lhe prometi cinqüenta cruzeiros a seus pés lá na igrejinha pra senhora ter dó de mim e não deixar as vacas entrarem no mato. Me ajude, pelo amor de Deus! Eu não posso pagar agora porque não tenho dinheiro, a senhora bem sabe. Mas no final do ano o pai vai plantar arroz e na safra me dá um saco mode eu vender.
Aí eu pago a senhora. Me ajude, tenha dó! Eu morro de medo!
Ai, desgraça! Esses espinhos só servem para machucar a gente. Hum!
Santo Antonio, ajunte os outros santos pra me ajudarem. São José, que era tão bom para o menino Jesus, vai ser bom pra mim também.
Menino Jesus, me ajude também. Lembre-se de como o senhor sofria quando era pequeno e não me deixe sofrer agora. Não deixe que as vacas entrem no mato. Borro de medo. Lá, além de ter assombração, tem cobra e outros bichos que podem matar. E eu não quero morrer...
Guie-as para mim e assim basta eu tocar... São Jerônimo, me ajude também. São Sebastião, lhe prometo uma dúzia de ovos quando a minha galinha botar... Eu vendo os ovos e ponho o dinheiro a seus pés lá na igrejinha. Eu tenho medo! São Paulo, vou pegar um pedaço de bambu aqui.
Não é para bater nas vacas não, porque sei que é pecado. É para matar alguma cobra que atravessar no meu caminho. Sei que bicho ruim não é pecado matar. Me ajude também, São Paulo!
Chame o São Pedro pra lhe ajudar a ficar pondo sentido nessas meninas chifrudas!
Prometo rezar um terço hoje à noite na sua intenção...
Santa Maria, as vacas estão ali! Me ajude para que elas não se enfiem pelo mato a fora, senão eu vou ficar com muita raiva e sei que isso é pecado e eu não quero pecar. Me ajude então que assim eu não peco!
Vamos Mimosinha! Tá na hora! Roseira, deixe de senvergonhice! Larga de cheirar a outra! Laranja, pegue o seu bezerrinho e ache o seu caminho! Mas pelo amor de Deus, não se enfiem no mato! O menino Jesus vai guiando. Ele tá lá na frente. É só seguí-lo que ele sabe o caminho. Vamos Cerveja! Estrela! Barroso, vai na frente! Não deixe que suas mulheres entrem no mato! Não seja ruim pessoa comigo não, tá?! Vamos bezerrinho, vai junto com sua mamãe vaca!
Ai, minha Nossa Senhora Aparecida, nã deixe que elas entrem no mato!
Lá tem espinhos... Tem atoleiros... Tem cobras... E, o pior, tem assombração...
Senhora Aparecida! As desgraçadas estão entrando no mato! Acuda logo antes que eu comece a chorar!...
!!!...
Mimosinha, volte, pelo amor de Deus!... Sai daí! Siga o merda do menino Jesus que devia tá lá na frente! Desgraçadas! Ô vacaiada capeta! Voltem, cambada de fedaputa! Suas desgramadas lambisgóias, não vêem que eu tenho medo! Barroso, moleque dos quintos, hoje foi você quem puxou suas mulheres pro mato! Foi má pessoa comigo! Também essa merdaiada desses santos não ajudam a gente!
Ai, meu Deus do céu, agora tenho que entrar no mato! Me vigie, tenha dó! Nunca vi santos tão atoas assim!... Nem ligam de ajudar um menino como eu!... Vou parar de rezar um mês inteirinho agora. Quero ver se eles não vão me ajudar de outra vez. Que santaiada bosta esses que Deus arrumou!
Mimosa desgraçada! Ande, saia do mato pras outras irem atrás! Ai, meu Deus! Vou dar uma paulada nesse bezerro da diaba da Estrela para ele nunca mais querer entrar aqui! Vamos, magrelada, vocês entraram no atoleiro do meio do mato, agora têm que sair! Cambada de tentação! Nossa Senhora, meu Deus, me dê assunto para eu não parar de falar! Se eu ficar calado, nem sei o que vai acontecer! Qualquer barulho me assusta... O escuro do mato me lembra noite... A noite me lembra medo...
Ai, minha cabeça! Pra que tanto pau torto neste meu caminho cheio de atoleiro, meu Deus!
Nossa Senhora, que inferno este em que vivo! Ninguém do meu tamanho sofre como eu! Meu pai é um sem consciência... Botar um menino do meu tamanho para fazer uma droga de serviço desses, onde já se viu? E depois ainda fala que sou preguiçoso!...
Vamos, sua dentuda! Não precisa ficar olhando para mim que o pau vai comer! Já quebrei o bambu, mas arrumei um cacete mais forte! Vocês que não andem e vão ver! Olhe São Sebastião, ainda lhe dou o dinheirinho dos ovos se o senhor me ajudar!... Até o capeta serviria pra me dar um adjutório... Era só ele não aparecer pra mim! Eu não quero é ficar aqui no meio do mato, feito bocó, chorando sozinho e gritando com estas miseráveis sem juízo e sem coração...
O pior é que já está escurecendo... O coisa ruim bem que podia tocar estas vacas para mim! Mas não quero que o chifrudo me apareça...
Cruz credo! Eu seria capaz de xingar todos os santos que não me ajudaram se ele me desse uma forcinha... Vamos, suas vacas desgraçadas!...
Já estão se mexendo!... Vão sair, graças a Deus, meu Deus! Ah cambada! Deixem eu crescer e vocês vão ver se fazem mais isto comigo! Serei capaz até de matar uma pras outras aprenderem a lição... Graças a Deus que estão saindo!... Cambada de vagabundas fiadazunhas! Deviam ir todas pro meio dos quintos! Não vou cumprir nenhuma das promessas que fiz! Nenhum santo me ajudou, por isso não pago a ninguém. E Nossa Senhora Aparecida, a chefa da santaiada, a quem eu já devia cinqüenta cruzeiros não vai receber mais nem esses cinqüenta. Só por desaforo! Ela tem precisão de aprender mais a ajudar os outros. Quero ver se assim esse povo do céu não me ajuda da próxima vez!
O meu Deus, não tenho nada com o coisa ruim, heim?! O que eu disse dele era só brincadeira! Era porque eu estava meio enjerizado. Eu gosto mesmo é do Senhor, e para mostrar que gosto, vou rezar três Pai Nossos e três Ave Marias, com um Glória ao Pai, esta noite... E não vou mais esconder as bonecas da minha irmãzinha, tadinha! Nem colocar caldo de pimenta na mamadeira dela... Não deixa então o coisa ruim vir me amolar, senão eu borro de medo!...
Vamos, bezerrada sem vergonha! Agora vocês vão ficar separados e não precisam berrar agoniados que eu não tenho um pingo de dó de quem não teve compaixão de mim! Bem feito ficarem sozinhos sem as suas mães! Quem mandou vocês aprenderem a judiarem de mim também!
Graças a Deus estou livre! Cumpri mais uma obrigação, a pior de todas. Posso ficar alegre e ir brincar de caminhãozinho antes de acabar de escurecer...
Mas que tristeza, meu Deus! Não adianta eu ficar alegre! Amanhã tenho que apartar as vacas de novo! Que merda!..
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