27/04/2013

REMÉDIO CASEIRO PRA HEMORROIDA



 
Muita gente mais nova não conhece, mas os mais antigos sabem muito bem o que foi a figura do mascate, pelo interior do Brasil. Em certos aspectos, foram desbravadores, colonizadores, vetores do progresso e até civilizadores de nosso povo.
  No entanto, aqueles dois mascates, aproveitando da ingenuidade dos matutos do meio rural mineiro, almejavam se enriquecer passando todo mundo para trás, vendendo gato por lebre, passando a perna no povo. 
  Naquele dia, depois de muitas andanças, chegaram ao final do dia cansados e  famintos, caçando jeito de encontrar um lugarzinho para encostar o esqueleto , e um meio de matar a fome. Já estava escuro quando avistaram uma casinha simples, num sitio à beira da estrada, quase chegando em Tabuí.
- É aqui que vamos fazer a festa. Achar comida, uma cama quentinha, e até vender umas coisinhas.
Bateram palmas na frente da casa, e aguardaram uns minutos. Uma senhora, já avançada em anos, entreabriu a velha porta de madeira, perguntando quem eram, e o que desejavam. Com ares de muita humildade, eles disseram:
- Desculpe incomodar a senhora numa hora dessas, mas  estamos muito cansados de viajar o dia inteiro, sem comer desde ontem. Será que a senhora não podia deixar a gente passar a noite por aqui, num cantinho qualquer, e, se possível, arrumar alguma  coisa para matar a fome?
- Bamo entrá padento, sôs moço! Nimia casa ninguém fica sem abrigo não.
Levou-os até a cozinha, dizendo que iria preparar alguma coisa pra eles comerem. Enquanto papeavam, ela pegou farinha e alguns ingredientes para amassar uns bolinhos. Amassa daqui, amassa dali, e a massa ficou muito dura e ressecada. Então ela cuspiu nas mãos para amolecer cada bolinho, antes de jogar na gordura quente. Terminado o serviço, colocou os bolinhos num prato à frente deles, dizendo:
- Taí o que tenho procêis matá a fome.  Tô muito cansada, já vô drumi. Ali perto da dispensa, tem um quartinho, e ocêis pode se ajeitá lá. Ba noite! 
 Quando a velha desapareceu da cozinha, um olhou para a cara do outro, dizendo:
- Nem que eu morra de fome, não tenho coragem de comer este troço nojento não.
E o outro:
- Eu também não tenho coragem não.  Mas, dormir com fome, nós não vamos não. Olha ali.
E apontou para cima do fogão de lenha, onde, dependurada num arame, pendia uma tira de toucinho.
- Vamos pegar quele toucinho, que já tá bem defumadinho, e tirar a barriga da miséria.
Deram só uma esquentadinha, e mandaram ver no toucinho da velha, indo dormir mais sossegados. No dia seguinte foram acordados com os gritos da velhota que xingava Deus e o diabo, quando deu conta do prejuizo. 
- Cambada de safado! Capetada! Mascates disgraçado! Dero fim no meu toucim. Cumé que vô fazê agora? Era o remédim co tinha pa refrescá a minha murróidia. 

(Causo "garimpado" em Carmo do Rio Claro pelo pesquisador Joaquim da Silva Junior)
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