07/01/2013

TODO MUNDO TEM O RABO PRESO?




     Maria Cabrita aproveitou que tinha padre novo em Tabuí e resolveu ir conhecer a figura. O Padre Anacleto tirara férias e veio substituí-lo um padre novato, boa pinta, chegado numa caninha, tocador de viola e apreciador dos predicados das moças bonitas da cidade, diziam à boca pequena.

      Não posso deixar de dizer que Maria Cabrita era a maior bebum da cidade. Não havia dia de sobriedade para ela. E, naquele domingo, missa das cinco da tarde, a Cabrita já tava naquele estado. Mas ela tinha um detalhe perigoso: boa memória, além de conhecer todo mundo na região, inclusive os podres de cada qual. Na igreja, nossa heroína sozinha em um banco, - pois que sua companhia não era muito querida não – cochilando, enquanto a missa corria solta, dirigida pelo vigário novo. Tudo foi muito bem até na hora da comunhão, com os fiéis em fila. Nesse momento ela foi lá pra frente e começou a fazer uns comentários pra todo mundo ouvir.

     - Percivá, ocê comungano? E aquela história docê com a Antonha do Tacilo?

        - E ocê, Moeminha? Tão bonita e tão pecadora, né?

        - Ihhh! Lá vem a dona Zumira, a língua de trapo!... Eu, heim!!!...

       - Óia ali, ó! Hic!... Envem o Ernesto com cara de santo, o mesmo que eu vi onte na bera do rio executano a Carmelita!...

     Quando o padre novato olhou feio para a Maria Cabrita, ela já foi logo dizendo:

       - Padre, num óia pra mim que fico com tesão, viu amô?... Ai, meldels!!!...

    - Ocê comungano, Dirminha? E o robo quiocê feiz niqui trabaiava na prefeitura?

    Nessa hora veio, cheio de autoridade, um ministro da eucaristia, o Claudião, mandar a Cabrita abaixar o facho, ficar em silêncio, pois que ali era a casa de Deus...

      - Ah, é, né? E logo ocê, Claudião fariseu!... Num foi ocê que na semana passada queria me dá deis real mode eu forunfá cocê? Num foi?

      Claudião, sem saber onde botar a cara, sumiu, com as mãos no bolso, pros fundos da igreja, não sendo mais visto pelo resto do dia, nem em casa.

     E Maria Cabrita apontava e ria e fazia comentários ao ver tais e tais pessoas na fila da comunhão. E todos sérios, com cara de paisagem, querendo ficar livres do comentário certeiro e passar incólumes pela bêbada. Até que não houve jeito. A fila se desfez de repente. Cada um pegou seu rumo e foi procurar um canto pra se esconder, até sem comungar. Houve gente que passou mal e até quem saiu de fininho da igreja, com medo da língua ferina e afiada da Maria Cabrita. O padre nem olhava mais para ela e tratou logo de encerrar a missa, - já que a Cabrita ficara em pé perto do altar e ninguém teve a coragem de tirá-la de lá.


(Este causo me foi contado pela amiga Maria Idalina Ottoni de Andrade, de São José dos Campos-SP)
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