29/10/2012

A lavadeira e o fumo de rolo



     Bastiana saiu de Tabuí muito cedo. Buscar mundo, ganhar uns trocados e caçar jeito de ser feliz.
     - Aqui num tem bera pa pobre não, mãe!... Vô simbora!
     E foi. Empreguinho aqui, empreguinho ali, Bastiana correu seu mundo e comeu do pão que o diabo amassou. Mas como a vida é dura só pra quem é mole, a moça arranjou profissão que atendia aos seus predicados, pois não exigia instrução. Lavadeira. Correu boato – que chegou aos ouvidos de Bastiana - de que lá em Carmo do Rio Claro a profissão tinha futuro. Cidade muito católica, com muitos padres, religiosos do colégio e do seminário e dúzias de estudantes. “Homaiada sem muié deve de tê monte de ropa pa lavá”, matutava a tabuiense.
     Ao chegar ao Carmo, depois de uma via-sacra por várias cidades, Bastiana em pouco tempo arranjou companheiro, mais manso que carneiro de rifa, que lhe fez duas filhas. Mas como ovos e juras são feitos para quebrar, ele, por sua vez, também fincou pé no mundo e foi caçar jeito de ser feliz. Enquanto as filhas cresciam em tamanho, sabedoria e graça, Bastiana, dia e parte da noite, lavava as roupas do povo do seminário, dos religiosos, de uma ou outra madame da cidade e da roça e até de uns fazendeiros. Dentre eles, o sô Gláucio, muito antes de ficar rico fabricando e vendendo sorvetes.
     Lavadeira organizada. Aos sábados, entregava limpinhas e bem passadas as roupas dos seminaristas. Nas segundas, as dos irmãos do seminário e do Colégio Montfort. Nas terças e quartas, roupas das madames fulana e sicrana; até que chegava naquelas do fazendeiro Gláucio. Todas as roupas que passavam pela Bastiana eram levadas ou buscadas em sacos de pano e cobradas por saco, embora este não entrasse na conta. A lavada e a passada do dito-cujo eram brindes da lavadeira e das filhas. O sô Gláucio, como gostasse dos serviços da Bastiana, estabeleceu o costume de toda sexta, quando ia buscar o seu saco de roupa, deixar como agrado para a lavadeira um pedaço de fumo de rolo, que ele mesmo fabricava. Durante anos ficou o costume. Uma forma de agradecimento por um serviço tão bem feito, sabedor que era do gosto da mulher por um pitinho de palha.
     Mas, quando o rico geme é o pobre quem sente a dor, o agrado teve um dia que chegou ao fim. O fazendeiro, num dia em que amanheceu comendo fogo e arrotando brasa, chegou para a Bastiana e começou a se queixar da vida. Tudo muito difícil, os negócios lencando, a crise era geral.
     - De hoje em diante, dona Bastiana, vô tê que descontá o preço do fumo. Vô abatê na conta da roupa lavada...
       Primeira vez na vida que Bastiana ficou brava com um freguês. Já que em pé de pobre é que o sapato aperta, botou os cachorros em cima, encarou o fazendeiro e retrucou no ato:
     - Ô sô Gláucio! Se o sinhô vai suspendê o fumo, eu vô tê que levantá a ropa... E óia aqui, ó: vai tê que entrá tudo, o saco tamém!...

(Este causo me foi contado pelo meu amigo e ex-professor Joaquim da Silva Junior, de Carmo do Rio Claro-MG)

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