07/06/2010

Tabuí pega em armas para salvar o Chile

     Época de revolução no Chile. As notícias que chegavam pela televisão e pelo rádio eram nada animadoras. Pelos jornais idem. Allende estava sendo massacrado e suas forças debandando. Foi quando começou a reação em Tabuí. Aristeu, Cozinho, Xulapa e Delei, no boteco, tomavam umas e outras e quase choraram ao ver uma gravação em que o Allende fazia um manifesto à nação. Aí resolveram que eram comunistas e que iriam ajudar o companheiro Allende.
     - Gente, isso num pode tá aconteceno! Tadinho do home!...
     - É memo, Xulapa! O quecagente faiz?
     O Cozinho que, pela aparência, era o menos bêbado dos quatro, arremata:
     - Acho mais mió a gente i socorrê o home, gente!
     - Mas, como, Cozinho? Esse país fica lá onde o vento incosta o cisco, sô!
     - A gente vamo no jipe do Delei, uai!
     Arranjaram duas espingardas de carregar pela boca, uma garrucha e um revólver, emprestados - os dois últimos sem munição - e nem foram em casa para as despedidas da famiage. Só deixaram recado no bar dizendo que iam salvar o companheiro lá no Chile. E se mandaram de jipe, das alterosas da Emigê rumo aos Andes, para enfrentar o exército chileno e resgatar o Allende, já encurralado no palácio presidencial.
     Rodaram bem umas duas léguas, com o jipe engasgando nas subidas, derramando óleo e com os pneus carecas, até que chegaram no Abacaxi e contaram pro Fiíco o motivo da viagem. Ganharam mais um companheiro que ainda chamou o Manqüeba - grande caçador de tico-tico com espingarda de chumbinho - para colaborar na perigosa missão e aumentar o poder de fogo do grupo.
     - Confofô, ieu vô... - disse o Manqüeba, arrematando - e tem golo?
     Quase escurecendo, resolveram, antes da partida para a guerra, como ninguém era de ferro e aproveitando a sugestão do Manqüeba, fazer uma despedida no bar do Bigode. Juntaram duas mesas e vai o Bigode descer cerveja e cachaça e a fritar frango e lambari que os seis entornavam e comiam num piscar d'olhos. Beberam tanto que, tarde da noite, nem conseguiram sair do bar. Aterrissaram por ali, bem trancados pelo Bigode. Este, com medo de lhe passarem a perna e preocupado porque não havia ainda recebido a conta.
     Quando acordam pelo meio da manhã, com ressaca braba e gosto de guarda-chuva velho na boca, demoram a entender o que faziam naquele lugar estranho. Aí lembram da missão, com desânimo... vão pra beira de um rádio Semp e ouvem que o Allende havia se suicidado, segundo a versão oficial.
     - Pronto, gente! Meu Deus do céu! Acabô nossa viage! O home morreu porque a gente ficamo fazeno hora e num cheguemo a tempo... mardita bebida! - choramingou o Delei, com enjôo e a cabeça estalando de dor.
     - Ô disgraça! E ieu, doido pra sê herói, quinem o Lampião, sô! Agora num vai dá mais... – constatou o Aristeu.
     Os quatro voltaram pra Tabuí a pé, - gastando meio dia de caminhada -, frustrados, revoltados, tristes e chorosos, convencidos de que, não fosse a festa de despedida, chegariam a tempo de salvar o companheiro Allende e não teriam ficado sem a condução, pois que tiveram que deixar o jipe do Delei como garantia de que um dia pagariam a conta do Bigode.
     - Mardito Bigode! Além de num intendê de patriotismo, comete a desumanidade de deixá a gente a pé!... – Reclamava o Xulapa, enquanto mancava, estrada a fora.


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