27/12/2009

Desta vida nada se leva

     Mercedes era a cabeleireira mais afamada de Tabuí. Ganhava bem mais dinheiro do que o Hermenegildo, seu marido, que era comerciante de secos e molhados e que, tinha dia, não vendia nem um e nem outro. Ele passava o dia inteiro no seu comércio tocando, na gaita desafinada, os boleros mexicanos. Fora com essa gaitinha que conquistara Mercedes, numa noite de serenata e muita pinga. De forma que os dois levavam vida confortável, muito mais pelo trabalho dela, já que as mulheres da cidade, ultimamente, andavam querendo ficar cada vez mais bonitas pros seus homens, com os cabelos cheios de cortes modernos.     
      Foi observando isso que um dos amigos do Menê, resolveu dar-lhe uma alfinetada:
     - Menê, ocê anda cheio da bufunfa, heim, sô?
     - Quem? Ieu?
     - É, sô! Fiquei sabendo quiocê anda cheio da grana.
     - Isso é lorota, sô! Se num sesse a boca de cabelo da Mercede eu tava era falido, home!
     Mas como nessa vida tudo muda, tudo acaba, Hermenegildo, quase trinta anos mais velho que Mercedes, esticou as canelas. O amigo Ocride resolveu prestar uma última homenagem ao Menê, colocando, sem que ninguém notasse, a gaita entre as pernas do defunto. Mas Mercedes viu. E, chorando e falando alto, exclamou:
     - Oh, meu Deus! Como é a vida! O que eu mais gostava está indo embora entre as pernas do Menê!


Postar um comentário