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06/06/2013

O CAIPIRA E OS CAVALOS


  Certa vez, vinha o Lidio trotando, em seu velho cavalo de tantos anos de lida, pela estradinha poeirenta que atravessava seu sítio, no cumprimento diário de faina de vistoriar a lavoura e apartar o gado. De repente aparece atrás dele, em alta velocidade, um carro de uma montadora estrangeira, recém-saído de fábrica e, ao volante um pleiboizinho que veio lá de São Paulo, exibia sua performance de motorista.  Freou o possante ao lado do cavaleiro e disse:
 - E aí, seu Zé. Aonde vai com este pangaré? Não quer trocar por 350 cavalos que eu tenho aqui?
  E, acelerando, deixou o Lidio comendo poeira. 
  A cem metros dali, a estradinha fazia uma curva que desembocava numa ponte sobre o córrego dos Castilhanos.
Sem conseguir fazer a curva e derrapando no cascalho, o carro foi lançado de bico no córrego. Quando, dali a pouco, chegou o Lidio, ele parou o cavalo no meio da ponte, deu uma tragada no cigarrinho de palha e interpelou o motorista:

 - E aí, Seu Moço, resorveu dá água pa tropa?

(Causo recolhido e enviado por Joaquim da Silva Junior, de Carmo do Rio Claro-MG)

27/02/2013

VALDÊNCIO QUASE VIRA PAI




Valdêncio dormiu mal. Noite agoniada já que seria a primeira vez a apresentar-se ao juiz. Medo é característica marcante do caipira que prefere ver o cão chupando manga a enfrentar uma autoridade.
Na hora certa, tá lá o Valdêncio na frente do homem. Um juiz de fora que, vez ou outra, vinha a Tabuí julgar umas causas. O cidadão suava frio, fedia inhaca, mas tava lá, acompanhado de um advogadozinho fuleiro.
- O senhor é o pai, de acordo com o exame de DNA que está aqui nos autos. Portanto, se fez, agora paga.
O juiz deu uma examinada nas folhas do processo e continuou:
- O senhor já deve ter calculado e já decidiu quando vai poder pagar de pensão, não é? É só falar e pronto. Eu julgo e o senhor está liberado...
Ao ouvir o discurso da autoridade, Valdêncio arregalou os olhos, como se não tivesse entendendo nada. Deu tremedeira, dor de barriga e boca seca enquanto o suor brotava na fronte. Olhou pro advogado com olhos pidões de socorro. E o advogado, inexperiente, calado. Como ninguém falou nada, o juiz voltou à carga:
- O que o senhor acha de três salários mínimos por mês?
Foi aí que o advogado criou coragem para intervir:
- Excelência!...
- Não senhor! O senhor não precisa falar nada. Deixe o réu responder ao que perguntei!
O advogado engoliu em seco, tremeu nas bases, mas voltou humildemente e timidamente a insistir:
- Mas, Excelência!...
O senhor juiz, que naquele dia estava de bom humor – pois que arrumara namorada nova - resolveu dar uma chance ao rábula.
- Tudo bem. Está com a palavra o advogado de defesa!
- Excelência, a ação não é de investigação de paternidade. É de indenização por colisão de veículos!...
O Excelência, meio sem graça, para tirar o dele da reta, jogou a culpa no escrevente:
- Trocou os processos, heim senhor escrevente?
E o Valdêncio, que amarelo estava, só começou a recobrar as cores quando o advogado providenciou-lhe um copão d’água.