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21/08/2014

A LEITOINHA DO FLORÊNCIO


   Vocês não sabem, mas foi lá em Tabuí que aconteceu esta história, tão conhecida por aí a fora. Deu numa quadra em que juiz só ia lá de ano em ano, para julgar os casos mais graves, fazendo o salão da prefeitura defórum. O caso do Florêncio tava demorando demais pra ser resolvido, vários anos engastaiado na mesa do juiz lá do Bambuí e nada de ter solução. Aí o Florêncio resolveu aconselhar-se com o seu advogado:
   - Óia, dotozim, acho que vô mandá pro juiz uma leitoinha mode fazê um agrado. Oquecocêacha?
   O advogado quase teve um troço. Desaconselhou na hora a ideia que considerou de jerico. Informou que o juiz era homem muito carrasco e severo e que não gostava desse tipo de coisa.
   - Mas quem sabe ele comeno a leitoinha vai lembrá do meu caso com mais carinho, né não?
   - Se você fizer isso, Florêncio, pode contar a sua como causa perdida – concluiu o advogado.
   Não demorou nem um mês era tempo do juiz fazer sua passada por Tabuí. O Florêncio foi chamado e o caso dele dado como resolvido, com a causa totalmente ganha. O advogado foi dar-lhe os parabéns e começou a contar umas vantagenzinhas, talvez pensando em ganhar uns trocados a mais em cima da inocência do cliente.
   - Que nada, dotô! Se num sesse ieu essa causa tava enrolada ainda. Num falei que uma leitoinha ajudava?
   - Não é possível, senhor Florêncio que o senhor mandou a leitoa pro juiz?
   - Craro que mandei, uai! Mas no nome do meu diversário, uai!... 
©By Eurico de Andrade, in Tabuí e seus Causos https://www.facebook.com/causos e www.tabui.blogspot.com.br/

04/03/2013

FAZENDO CONFUSÃO




     O senhor juiz estava em dia de vó atrás do toco. Bravo até com a sombra. Sua raiva era de ter que atender em Tabuí, naquele arremedo de fórum, que era uma sala da prefeitura municipal, abarrotada de gente. O cheiro de suor do povo humilde exalava pelas janelas.
     Sem nem ler o processo a que ia julgar, o meritíssimo, para acalmar as partes que estavam à sua frente, abaixou um pouco a voz e começa:
     - E a olaria? Produzindo muito tijolo? Ou parou de funcionar?
     O advogado, um moço esperto, estranhando a coisa, foi logo consertando:
     - Há um equívoco, Meritíssimo! Não é olaria, é dona Olária, a autora da ação...
     Senhor Juiz não tinha onde botar a cara. Vermelha, feito pimentão. Recriminando-se internamente pela pressa e pela falta de cuidado de nem ler o processo.

27/02/2013

VALDÊNCIO QUASE VIRA PAI




Valdêncio dormiu mal. Noite agoniada já que seria a primeira vez a apresentar-se ao juiz. Medo é característica marcante do caipira que prefere ver o cão chupando manga a enfrentar uma autoridade.
Na hora certa, tá lá o Valdêncio na frente do homem. Um juiz de fora que, vez ou outra, vinha a Tabuí julgar umas causas. O cidadão suava frio, fedia inhaca, mas tava lá, acompanhado de um advogadozinho fuleiro.
- O senhor é o pai, de acordo com o exame de DNA que está aqui nos autos. Portanto, se fez, agora paga.
O juiz deu uma examinada nas folhas do processo e continuou:
- O senhor já deve ter calculado e já decidiu quando vai poder pagar de pensão, não é? É só falar e pronto. Eu julgo e o senhor está liberado...
Ao ouvir o discurso da autoridade, Valdêncio arregalou os olhos, como se não tivesse entendendo nada. Deu tremedeira, dor de barriga e boca seca enquanto o suor brotava na fronte. Olhou pro advogado com olhos pidões de socorro. E o advogado, inexperiente, calado. Como ninguém falou nada, o juiz voltou à carga:
- O que o senhor acha de três salários mínimos por mês?
Foi aí que o advogado criou coragem para intervir:
- Excelência!...
- Não senhor! O senhor não precisa falar nada. Deixe o réu responder ao que perguntei!
O advogado engoliu em seco, tremeu nas bases, mas voltou humildemente e timidamente a insistir:
- Mas, Excelência!...
O senhor juiz, que naquele dia estava de bom humor – pois que arrumara namorada nova - resolveu dar uma chance ao rábula.
- Tudo bem. Está com a palavra o advogado de defesa!
- Excelência, a ação não é de investigação de paternidade. É de indenização por colisão de veículos!...
O Excelência, meio sem graça, para tirar o dele da reta, jogou a culpa no escrevente:
- Trocou os processos, heim senhor escrevente?
E o Valdêncio, que amarelo estava, só começou a recobrar as cores quando o advogado providenciou-lhe um copão d’água.