17/03/2012

Safra de rapadura encalhada

     Naquele ano Amoroso ria a toa, achando que tirara a barriga da miséria.
     - Lavei a briosa, gente!
     Lá no seu varjão nunca dera tanta cana e ele, em conseqüência, bamburrou na rapadura. Fez tantas que teve que arrumar carro de boi para levar a produção para a cidade, a fim de garantir uns trocados. Viagem de dois dias. Só que, em lá chegando, o negócio que parecia tão bom, degringolou. Parece que todo o povo de toda a região de Tabuí tinha feito rapadura. Ninguém comprava os tijolinhos doces do Amoroso e tinha gente com a mercadoria mofando.
     Aí Amoroso pensou vou ficar aqui por uns dias... Quem sabe desencalho minha produção... Mandou de volta o carro de boi alugado e empilhou as rapaduras na praça. Só que os trocados que tinha levado para garantir o sustento, por uns dois ou três dias, chegaram ao fim, enquanto a fome começava. Solução foi comer rapadura. Tempo de seca. Água raleada. De tanto comer rapadura e beber pouca água, deu revertério na barriga do Amoroso. Intestino não agüentou. Resolveu devolver tudo de forma rápida. Mas o nosso herói não tinha muito conhecimento com o povo da cidade não. Sem banheiro e sem privada. O que fazer?
     Ao lado da pracinha havia uma área livre, mas sem matinho. Só uma moitinha de assa-peixe, magrinha e balançante, no meio daquela sequidão. Amoroso deixou a rapadura empilhada e pensou aquela moitinha serve. Falou vou lá e foi. Arriou as calças e soltou o freio deixando o barro descer à vontade, enquanto escondia pelo menos os olhos atrás das mirradas folhas do assa-peixe.
     Mas, bem naquela hora, o vento ficou bravo, balançando a moita como se fosse um gravetinho. Não teve outro jeito. Muito aperreado, não querendo ser visto pelo povo que andava pela praça, não quis ir contra a natureza. Pro lado que a moita ia, Amoroso, embora agachado, acompanhava-a no seu movimento, pra lá e pra cá, enquanto fazia o serviço e se contorcia de cólica.


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