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17/05/2013

PROVIDÊNCIA, A CACHAÇA MILAGROSA



Durante minha carreira de pescador, especializei-me na pesca de traíras. Vinte, trinta e até quarenta linhadas armadas nas beiradas mais sujas da represa, no meio de capituvas. A grande dificuldade sempre foi arranjar tanta isca para tanta armadilha. Certa vez, estava eu tentando pegar uns lambaris, que é sempre a melhor isca pra traíra, ali no Aterro dos Castilhanos, do lado oposto ao de Santa Quitéria, e nada de pegar uma isquinha sequer. Já estava quase desistindo, quando ouvi o ruído de seixos rolando barranco abaixo, bem nas minhas costas. Ao me virar, vi uma cobra passando atrás de mim, com um pequeno sapo na boca. Não pensei duas vezes. Num bote preciso, agarrei a cobra pelo pescoço e, pressionando a boca dela, roubei-lhe o sapinho que também é uma boa isca.
Antes de soltar o bicho, despejei uma boa talagada da pinga Providência - que eu trouxera de uma viagem que fizera a Tabuí, no mês anterior - goela abaixo dela. Não pense mal de mim. A pinguinha que levava era para tirar a friagem depois de ter que me enfiar na água para tirar as linhadas enroscadas nas galhadas. Peguei o sapo, isquei com ele uma linhada e lancei na beirada das moitas, dentro da represa. 
Depois de meia hora de muita tentativa de pegar mais iscas, eis que sinto um leve cutucão nas minhas costas. Ao me virar deparei com três cobras me olhando fixamente, cada uma com um sapinho na boca. 

(Causo recolhido e escrito por Joaquim da Silva Junior, de Carmo do Rio Claro-MG)

05/04/2013

O TESOURO DO BURACO DE TATU





- Celeste, deixa o Taviano í pescá Ca gente, sá!
- Deixo não! Ele vai é inchê a cara junto cocêis! Pode não!
- Mas, sá! A gente nem vamo levá pinga não, uai!
A insistência foi tanta que dona Celeste não teve mais como negar. A preocupação dela tinha procedência. Otaviano bebera tanto na juventude que, com pouco mais de 40 anos, já tava com começo de cirrose. Celeste vigiava-o pra tudo quanto é canto para que ele não mais colocasse um copo de cangebrina na boca. Mas, pescar, era a sua grande paixão e foi isso que deixou mole o coração da mulher.
- Intão, cês num leva bebida e vigia a capanga dele...
- Tá bão, Celeste. A gente vamo fazê isso.
Mas, apesar de tanta insistência, não ficaram sem levar bem escondida, uma garrafa da cachaça Providência. Chegando à beira do córrego, pensaram, pensaram e resolveram esconder a coisa num buraco de tatu. Acharam um, enfiaram a garrafa bem pro fundo e tamparam tudo com folhas secas, na certeza de que o Taviano jamais acharia o tesouro naquele lugar. E foram pescar. De vez em quando um dos companheiros sumia. O destino era o buraco do tatu e a pinguinha diminuindo na garrafa.
Numa certa hora, descobriram que o Taviano não estava no meio deles. Sumira. Procura daqui, procura dali, acharam o homem dormindo debaixo de uma gameleira. Ao acordar, notaram que ele tinha bebido. Tudo.
- Você bebeu, Taviano!... Cumé quiocê achô a pinga, home de Deus?
- Uai, sô! Cês num sabe que gambá chera gambá?