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26/05/2013

CABARÉ PROCESSA IGREJA


Chegou pra Tabuí um pastor de uma igreja nova. Bão demais da conta. Povim entregando pra Jesus a rodo. Padre Anacleto preocupado com a perda de fiéis. E o pastor Evangelildo visitando os arrabaldes da cidade, os cafundós do sertão e mais gente entrando pra sua igreja.
E deu que nessa quadra a dona Diva Gina, proprietária da pequena zona da cidade, resolveu que tava na hora de fazer uma reforma no puteiro, pra dar mais conforto pras meninas e pros clientes. Decidiu fazer um puxadinho. E o pastor Evangelildo descobriu as ideias modernísticas e mundanas de dona Diva e pronto. Tava o quiproquó formado. Resolveu juntar seu rebanho para tentar bloquear a construção do puxadinho. Fizeram gritaria em frente à prefeitura, invadiram a sessão mensal da câmara dos vereadores e, por fim, acamparam na rua em frente à zona, espantando quase toda a freguesia e dando prejuízo à proprietária e às meninas. E as orações, penitências e campanhas contra o puxadinho começaram a atingir até o povim do padre Anacleto, inconformado com aquela sem-vergonhice lá do outro lado da ponte.
Mas no dia em que resolveram levantar acampamento, pois todo mundo tinha o que fazer, a obra tava totalmente paralisada. Mal foram embora, os pedreiros, carpinteiros e serventes contratados pela dona Diva, lá no Bambuí, chegaram à noite e concluíram o serviço.
Inauguração marcada pro sábado seguinte. Com festa regada a cerveja e Providência à vontade. Churrasco também. Machaiada de Tabuí não confirmava presença. Publicamente. Mas dona Diva, discretamente, enviara convite pros seus clientes assíduos e, por intermédio deles, toda a região já sabia da festança e lá baixariam em peso. Mas, na noite de sexta-feira, caiu um toró na cidade e um raio atingiu o puxadinho da dona Diva Gina. Queimou foi tudo.
Foi aí que o pastor Evangelildo caiu no gosto do povo mesmo. Passou a ser chamado de homem milagreiro e, de boca em boca, todos passaram a saber que não podiam contrariar o homem pois que ele tinha partes com o Altíssimo. “Ó, gente, oração do pastor Evangelildo é quinem reza braba”... E o próprio pastor, nas suas falas, confirmava que foram o poder da oração e a fé do seu povo os responsáveis pela destruição daquele antro de pecado.
Dona Diva o que fez? Processou o pastor e a sua igreja como sendo os responsáveis pela destruição do seu empreendimento e do seu negócio, quando solicitaram intervenção divina. E pedia gorda indenização.
O pastor Evangelildo, por sua vez, no aperto, negou tudo. Ele e sua igreja nada tinham a ver com a tragédia. Obra exclusiva da natureza e da vontade de Deus.
O juiz, que aparecia em Tabuí uma vez por semestre para julgar os processos, é quem teria a carga de decidir tão estranha situação. Foi por isso que o Taquinho, frequentador semanal do puteiro em horas tardias, comentou com o Camisola, em volta de uma mesa no Copo Sujo, enquanto entornava da Providência:

- Ó, sô!... Sei não... É a premera veiz que vejo isso. Uma dona de cabaré que afirma que a oração tem todo o poder do mundo e um pastor dizeno que oração num vale de nada...

07/01/2013

TODO MUNDO TEM O RABO PRESO?




     Maria Cabrita aproveitou que tinha padre novo em Tabuí e resolveu ir conhecer a figura. O Padre Anacleto tirara férias e veio substituí-lo um padre novato, boa pinta, chegado numa caninha, tocador de viola e apreciador dos predicados das moças bonitas da cidade, diziam à boca pequena.

      Não posso deixar de dizer que Maria Cabrita era a maior bebum da cidade. Não havia dia de sobriedade para ela. E, naquele domingo, missa das cinco da tarde, a Cabrita já tava naquele estado. Mas ela tinha um detalhe perigoso: boa memória, além de conhecer todo mundo na região, inclusive os podres de cada qual. Na igreja, nossa heroína sozinha em um banco, - pois que sua companhia não era muito querida não – cochilando, enquanto a missa corria solta, dirigida pelo vigário novo. Tudo foi muito bem até na hora da comunhão, com os fiéis em fila. Nesse momento ela foi lá pra frente e começou a fazer uns comentários pra todo mundo ouvir.

     - Percivá, ocê comungano? E aquela história docê com a Antonha do Tacilo?

        - E ocê, Moeminha? Tão bonita e tão pecadora, né?

        - Ihhh! Lá vem a dona Zumira, a língua de trapo!... Eu, heim!!!...

       - Óia ali, ó! Hic!... Envem o Ernesto com cara de santo, o mesmo que eu vi onte na bera do rio executano a Carmelita!...

     Quando o padre novato olhou feio para a Maria Cabrita, ela já foi logo dizendo:

       - Padre, num óia pra mim que fico com tesão, viu amô?... Ai, meldels!!!...

    - Ocê comungano, Dirminha? E o robo quiocê feiz niqui trabaiava na prefeitura?

    Nessa hora veio, cheio de autoridade, um ministro da eucaristia, o Claudião, mandar a Cabrita abaixar o facho, ficar em silêncio, pois que ali era a casa de Deus...

      - Ah, é, né? E logo ocê, Claudião fariseu!... Num foi ocê que na semana passada queria me dá deis real mode eu forunfá cocê? Num foi?

      Claudião, sem saber onde botar a cara, sumiu, com as mãos no bolso, pros fundos da igreja, não sendo mais visto pelo resto do dia, nem em casa.

     E Maria Cabrita apontava e ria e fazia comentários ao ver tais e tais pessoas na fila da comunhão. E todos sérios, com cara de paisagem, querendo ficar livres do comentário certeiro e passar incólumes pela bêbada. Até que não houve jeito. A fila se desfez de repente. Cada um pegou seu rumo e foi procurar um canto pra se esconder, até sem comungar. Houve gente que passou mal e até quem saiu de fininho da igreja, com medo da língua ferina e afiada da Maria Cabrita. O padre nem olhava mais para ela e tratou logo de encerrar a missa, - já que a Cabrita ficara em pé perto do altar e ninguém teve a coragem de tirá-la de lá.


(Este causo me foi contado pela amiga Maria Idalina Ottoni de Andrade, de São José dos Campos-SP)

05/12/2012

AS PUSTEMAS DA MALANDRAGEM

     Zé da Zabé era o mendigo mais conhecido de Tabuí. Dono de ponto de mendicância na porta da matriz. Dali ninguém o tirava. Era ali que se tornara conhecido e puxava o saco da gente fina e religiosa, gentalha de bem. Suas relações com a sociedade local eram excelentes.
     Todo mundo que ia rezar, ao entrar ou sair da igreja, se condoía ao ver aquelas feridas em carne viva na perna do Zé da Zabé. E ele fazia questão de deixar a barra da calça levantada para que todos as vissem e a dor fosse do coração ao bolso de cada um.
     - Onde cê arrumou essas feridas, Zé?
     - Sei lá! Parecero c'o tempo. Umas borboinha que foro cresceno!...
     - Tem que tratá disso, Izé!... Inhantes que vire coisa pió!...
     - Carece não! É firida parada. Tantão de tempo que tá anssim! Num miora nem piora!...
     Foi aí que entrou na história o doutor Honório. Médico antigo que conhecia as doenças de cada um na cidade, um dia resolveu tratar do Zé da Zabé.
     - Picisa não dotô! Essas pustema minha só sara quando a terra cumê!
     Depois de muita discussão o médico, nervoso com a teima, falou quase ordenando:
     - Vai lá no meu consultório que quero ver isso, Zé!
     - Tá bão dotô, ieu vô!
     Foi nada. Zé da Zabé cortava voltas manquitolando rua a fora só para não topar com o doutor Honório. E este, só assuntando, assistindo ao ressabiamento do mendigo que recusava seu gesto de caridade.
     Certo dia, quando o Zé passava perto do hospital, assim bem na porta, encontrou de supetão o velho médico. Não teve conversa. Foi levado para uma sala, meio na marra, pelo doutor Honório que não entendia como alguém doente queria permanecer com doença.
     - E aí, senhor Zé? Como vão as feridas?
     - Tintiano dotô! Dói, não dói, dói um poco...
     - Pois é Zé! Tem que cuidar disso logo! E vai ser agora antes que vire coisa pior.
     - Não dotô! Carece não! Xapralá! Num é firida de criá bicho não! É firida parada mermo!...
     Enquanto ele dizia isso, ia escondendo a perna das vistas do doutor e tentando baixar a barra da calça.
     - Mas eu vou curá-lo, Zé!
     - Deus lhe pague a bondade dotô, mas firida parada num tem cura mermo não!
     O médico foi assentando o Zé da Zabé, assim meio sujigado, numa maca, e tratou logo de ir tirando as tiras, mulambos e langanhos que cobriam aquelas pustemas todas, enquanto o pobre do mendigo esperneava e reclamava meio nervoso, meio brabo, meio respeitoso e tremelicante.
     - Picisa não dotô!... Quero ficá anssim mermo! Me dexa, diabo! Perdão dotô! Quero í'mimbora!
     Foi aí que começaram a cair pelo chão as feridas do Zé. Pedaços de carne crua, cortados bem fininhos e presos cuidadosamente pelas tiras de pano à sua perna que estava sãzinha.
     Doutor Honório, fulo de raiva, queria dar uns petelecos no falso mendigo. Zé da Zabé mal teve tempo de pular da maca e ganhar o mundo.