Mostrando postagens com marcador gago. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador gago. Mostrar todas as postagens

30/06/2014

O GAGO CUIDADOSO

   
Pleno sábado, por volta do meio dia, lá vai o trem de ferro, saindo da estação de Tabuí, carregado de passageiros. Ainda em pé, procurando um lugar pra se sentar, ia o Arcide. Preciso contar que o rapaz era gago. Muito gago mesmo.
   O Arcide arrumou lugar e sentou, ao lado de um nanico com um bigodinho ralo. E o tabuiense, embora gago, não tinha inibição. Foi logo perguntando, com vozeirão alto e grosso, ao companheiro de viagem:
   - Pra-pra-pra on-on-on dé-é-é co-co-co-co-cê-cê-cê va-va-va-vaiii, sssssôôô?
   Estranho o que aconteceu. E ninguém entendeu. O nanico nada respondia. O Arcide, depois de repetir a pergunta mais duas vezes, ficou foi bravo e falava cada vez mais alto na sua linguagem de gago.
   - Pra-pra-pra on-on-on-dé-é-é co-co-co-co cê-cê-cê va-va-va-vai, dis-dis-dis-gra-gra-gra-ça-ça-çaaaaa?
   O chefe do trem, aquele que confere as passagens de cada um, vendo o bafafá, resolve interferir:
   - Por que o senhor não responde o seu companhero de viage, ô moço?
   O moço perguntado, apenas deu de ombros. O chefe do trem continuou:
   - Já não basta ele ser gago? E o senhor fica com pocaso dele?
   Foi aí que o caladão de bigodinho ralo deu três tapas na perna como que para desatar o nó da fala, levantou e ficou bem perto do chefe, para responder:
   - Pó-po-po-ii-iii-is vo-vo-vo- cê-cê-cê q-q-q-que-que-riaria-ria q-q-que ê-ê-eu le-le-va-va-va-se-se-se u-u-u-uma es-es-es-ta-ta-ta-la-la-la-da-da-da n-n-n-na t-t-t-tro-trom-tromba-ba-ba?

(Causo contado pelo amigo Jose Monteiro, de Leira, em Portugal)
©By Eurico de Andrade, in Tabuí e seus Causoshttps://www.facebook.com/causos e http://tabui.blogspot.com.br/

10/03/2013

CURSO DE GAGO




Benedito de Assucena sentia que tava ficando cada vez mais gago. O jeito era procurar médico na cidade. Foi mandado pra Belzonte mode vê o que tinha na garganta. Médico indicou uma fonoaudióloga. Coisa cara, pras posses do Bené. Durante seis meses, uma vez por semana ele ia à moça,  na capital, fazer exercícios pra garganta e pra voz.

De saco cheio de ficar falando pra moça oooooo, aaaaaa,  iiiiiiii..... Resolveu parar com aquele trem. Mas fizera progressos. Ao ponto de certo dia, ao mostrar seus novos dotes pro Totonho do Geromo, acontecer o seguinte diálogo:

- Óiaqui, ó Toto-to-nho: “Australopitecus”, ‘Caraguatatuba”, “Otorrinolaringologista”...

- Mas que beleza, Bené! Cê falava gago tão bem... Mas agora miorô, né?

- Qué ovi mais? Ó: “Bagre branco, branco bagre”... “Toco preto, porco fresco, corpo crespo”... “Toco cru pegando fogo”...

- E tem mais ainda... qué vê? Ó: “Se vaivém fosse e viesse, vaivém ia, mas como vaivém vai e não vem, vaivém não vai”...

- Mas, Bené! Que trem mais bão, sô! Cê tá aprendeno a falá direito, uai! Cê tá é fazeno curso pra gago ô é curso pra disgaguejá?

- Tô não! Ga-gago eu já sei.  Tô prendeno falá di-direito... Só isso!... Até po-poesia já fa-falo, ó: “A aranha arranha a rã. A rã arranha a aranha. Nem a aranha arranha a rã. Nem a rã arranha a aranha.”

- Cê qué vê outra? Ó: “Tinha tanta tia tantã. Tinha tanta anta antiga. Tinha tanta anta que era tia. Tinha tanta tia que era anta.” 
        - Mas, Bené! Que coisa, heim? Cumé o pogresso!... Cê já sabe falá direitim esses trem daí! Benzó Deus!... Só pode sê milagre!

Ao que o Bené respondeu:
   - Cê tá-tá ce-certo, ma-mas ondé qui-qui-quiovô usá umas be-be-bes-teirada dessas?