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10/03/2013

APARECEU EMPREGO NO SERTÃO

     Lá nas entranhas de Tabuí tem uma serra. Serra do Urubu. No pé da serra, um rio, o Sorongo. Ladeando o Sorongo, a estrada de ferro. Bem antes da ponte, a estaçãozinha que desmoronou. Restou o desvio, com as alavancas e trilhos enferrujados. Entre as duas, - estaçãozinha e ponte -, o corte, com um barranco de uns 30 metros e lá vai pedrada. Lá de cima do barranco, Totonho aprecia o movimento dos trens que passam rápido, 20 a 30 km por hora, no máximo uma vez por dia. Totonho não perde um. Ouve o ronco do bicho, tá lá ele, em cima do barranco, dicocado, fazendo pitinho, vendo o trem passar.
     Turma da estrada de ferro resolve colocar Totonho pra cuidar do que restou da velha estação. Foram fazer teste com o velho.
     - Totonho, se a ponte do Sorongo cair e o trem tá vindo, o que o senhor faz?
     - Vô ali e mudo a chave da lavanca do desvio pro trem mudá de rumo e pará, uai!
     - E se a chave estiver estragada?
     - Aí arranjo um pano vermeio, vô pra riba da linha e fico banano. Aí o maquinista me vê e pára o trem!
     - Mas, Totonho, e se o maquinista não o vir, se estiver cochilando?
     - Aí acho que é mais mió eu tê sempre um apito, quinem desses de juiz de futebol, e apitá até o trem pará...
     Totonho foi ficando agoniado com tanto perguntamento. Doido pra garantir o emprego e ganhar uns trocados.
     - Mas, Totonho, e se o trem vier à noite?
     - Aí só tem um jeito: eu acendo uma fogueira pro maquinista me vê e grito e pulo até ele pará o trem!...
     - Mas, fogueira, Totonho!? E se estiver chovendo?
     - Aí, meu Deus!... Aí o recurso é eu tê tamém uma lanterna e fazê pisca-pisca pro maquinista, uai!...
     - Tudo bem, Totonho! Suponhamos agora que você tem a lanterna mas não tem pilha?... O que você faz?
     Totonho entregou os pontos. Desanimou de ganhar o emprego.
     - Óia, meu amigo, aí não tem jeito não! É muita disgraça prum cristão só. Aí eu chamo a Cota!
     - Chama a cota? Que cota, Totonho?
     - Óia, moço, Cota é minha muié. Chamo ela, a gente vai pra riba do barranco, acendo meu pitinho e vamo oiá e escuitá o trem disgringolá e virá pedaceira, todo espatifado, dentro do Sorongo!...

17/12/2012

PROCURANDO EMPREGO

     À procura de emprego saiu do Zezão de Tabuí. Andando a pé, de carro de boi, de caminhão, de buzu, de trem de carga, ele conseguiu chegar a São Paulo. Com fome, cansado e doído de tanto sofrimento. Foi logo numa indústria das mais sofisticadas e perguntou se tinham emprego para ele.
     - Que curso que o senhor tem moço? – perguntou o homem que fazia a seleção dos candidatos a emprego.
     - Óia, pra dizê a verdade, só tenho mezzz é o primário...
     - Ihhh! Danou-se, moço! Aqui só temos emprego para engenheiros!...
     - Tem pobrema não. Pra quem tá na merda, qualquer bosta serve, uai!... Que dia intão posso começá?


(Causim enviado por José Sallum, de Caxambu-MG)

08/10/2009

Aprendendo com a vida, aos trancos e barrancos

Para quem pensa que vida no interior é uma chatura só, muito se engana. Chatura é viver na cidade grande, cercado de carro e prédio e povo. Ninguém conhece ninguém. Aqui não. É um povo unido, alegre, vivendo com dificuldade, mas com muitas histórias para contar aos filhos. Tem aqui muita gente espirituosa, sempre inventando manhas pra rir da cara uns dos outros.
Outro dia, por exemplo, aprontaram uma com o Tadeu. Menino bão demais da conta, rezador, coroinha até, filho de mãe rigorosa e pai trabalhador.
- Tadeu, vai ali na rua do Comércio e descubra pra mim quanto custa um martelo para desentortar vidro...
- Hãn? Martelo? Pra desentortá vridro? já vô!
Quem pediu foi o Casemiro, sapateiro que vivia à custa de botar meia sola em sapatos furados nas ruas cheias de cascalho e poeira de Tabuí e que, enquanto trabalhava, enchia os ouvidos do Tadeu de potoca.
A rua do Comércio tinha umas duas ou três lojas. O Tadeu foi em todas até que, na sua simploriedade, depois de muito rirem da cara dele, descobriu que não existe o tal martelo desentortador de vidro. Aprendeu com a vida. Diferentemente da última vez, que foi no tapa. O Casemiro avisara pra ele e pro Geraldinho, debaixo de segredo, que, no Mercado da Linha, tavam contratando um menino para desentortar banana e que, daquele dia em diante, só iria vender banana reta. Os dois, doidos por uma graninha, saem na maior correria e, no meio do caminho, após se insultarem, começam a briga.
- O emprego é meu!
- Seu nada! É meu, seu viado!
Isto dito enquanto corriam ladeira acima, soltando os bofes. Aí, pararam e partiram para os tapas e pescoções e rolaram pelo chão, até que chegou a turma do deixa disso, inclusive o dono do Mercado da Linha.
- Não. Não tenho esse emprego não. Vou continuar vendendo banana torta mesmo!... - E caiu na risada, assim como a platéia que se formara, até o Casemiro que chegara a tempo de curtir a cara de sério dos dois briguentos.
Naquele dia, assim de tardezinha, chega na cidade o Niltão da Filó, montado numa égua mojando, bem adiantada. Niltão não se importava muito de dar carinho pros animais não e, talvez pelo excesso de esforço, a bichinha teve cria, que nasceu morta, bem na praça da matriz. Com preguiça de carregar dali o podrinho morto, chamou o Geraldinho e falou:
- Lá no açôgue Vaca Profana tão comprano bezerro e cavalo novo pra fazê sarsicha. Pudrinho nascido morto, então, vale o drobo pelo quilo. Vai lá! O que ocê conseguir é seu...
Geraldinho juntou com o Tadeu, com quem já tinha feito as pazes, e chamaram mais uns cinco moleques. Foram, rua acima, puxando a carga, que colocaram sobre um couro de boi. Enquanto subiam a ladeira, faziam planos do que fazer com a dinheirama que ganhariam. Até que descobriram a cilada em que caíram, pois que, no Vaca Profana, receberam foi um xingatório, indigno de nota, do açougueiro, puto da vida de ter, à sua porta, aquela imundície virando carniça.