Mostrando postagens com marcador mula. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mula. Mostrar todas as postagens

04/09/2014

CASAMENTO DURADOURO


   O Mané Janta casou na maior simplicidade lá na igrejinha da Perdição. Botou a noiva na garupa da mula e foram, os três, estrada afora, em direção à fazendinha do pai dele, aonde iriam morar. Se o Mané não falava nada, a noivinha nada falava. Assustada com tanta novidade e preocupada com o que viria. Mané Janta, o pai e os irmãos não eram muito bem afamados na região não. Acostumados a não levar desaforos pra casa, já andaram aprontando algumas arruaças na região.
   De forma que iam, os dois, na mulinha, até que esta deu um tropeção. O Janta apenas falou bem alto:
   - UMA!...
   E continuaram em marcha lenta. De repente, outro tropeção da mula.
   - DUAS!... – falou de novo o noivo.
   Já chegando ao mata-burro da fazenda, a mula se distrai e tropeça num barranco alto. 
   - TRÊIS, dona mula! – Gritou o Mané Janta, nervoso. Parou, desceu a esposa da garupa, tirou um revólver que ficava sob o arreio, chegou o cano bem na cabeça da mula e puxou o gatilho. Matou a bichinha.
   Aquilo pra noiva foi um Deus nos acuda. Não gostou nadica de nada do acontecido e resolveu protestar.
   - Mas qui mardade, sô! Ocê foi muito burro de fazê isso. Seu estúpio... Matô a bichinha mode coisa à toa! Pudia tê feito isso coela não...
   Mané Janta nem deixou a moça continuar. Apenas limpou a garganta pra fala ficar mais clara e disse, bem alto, enquanto guardava o revolver, desta vez na cintura:
   - UMA!...
   Desse dia em diante, nunca mais houve discussão entre os dois.
©By Eurico de Andrade, in Tabuí e seus Causos https://www.facebook.com/causos e www.tabui.blogspot.com.br/

12/04/2009

O assassinato da mula

Julgamento. Tá lá o juiz cochilando. Advogado do réu metendo a lenha, pronto a enfiar a mão no bolso de alguém. Platéia espremida feito sardinha. Grande acontecimento em Tabuí. No banco das testemunhas, só, o Tõinzin Carapina, velhinho e franzino, piscando miudinho, recebendo a saraivada verborréica do advogado perfumado que, embora ninguém dali nem notasse, tropeçava nos pronomes e nas concordâncias. Tõinzin doido pra ganhar um troco da outra parte, pra tapar os prejuízos, era inquirido pelo advogado.
- Este homem, senhor juiz, assim que aconteceu o acidente, disse que não tinha nada, não quis ajuda de ninguém e foi embora! - esbravejava o advogado, apontando diretamente pro nariz do Tõizin.
- É não, sô juiz! Ieu...
- Senhor Antônio Carapina! O senhor, ao entrar na sua caminhonete velha, amarrar a porta com uma corda e sumir no mundo, não disse que estava bem e que não precisava de ajuda?
- Ieu?... Quero expricá!... Vô contá do começo, de inhantes do acontecimento!...
Tôinzin era só humildade. Tremia, alvo de tantos olhares e o cheiro do seu suor nervoso viajava pelo salão do júri improvisado
- O senhor não tem que explicar nada! É só me responder: o senhor afirmou ou não que estava bem?
- Ieu?... Sim e não...
Foi aí que o juiz achou que era hora de interceder, tomando interesse pelo assunto.
- Deixe o homem falar, doutor! Para esclarecer a verdade, precisamos ouvir os dois lados.
Tõinzin respirou aliviado.
- Brigadim, dotor juiz! Eu e a minha muié, plena madrugada, acordemo a mulinha, coloquemo ela na caminhonete e eu vinha pela rodovia a fora. Só eu e ela, a mulinha. Ela na carroceria e eu na buléia. Aí veio aquela rural doida, saindo não sei donde do meio do mato e trombou na porta da minha caminhonete. Eu me machuquei muito, pois a porta do outro lado se abriu e eu caí. Caí e saí rolando estrada a fora. Nem conseguia me levantar. Minha mulinha, tadinha, tamém num tava em situação boa não. Zurrava feito besta, caída do outro lado da rodovia. Eu dei conta de levantá a cabeça e vi a bichinha, a uns 15 metros, esperneando e estrebuchando. Aí chegou o home da polícia e, no lugar de vir me olhar primeiro, foi ver a mulinha que dava mais escândalo. Acho que ele avaliou a situação e disse não tem jeito. Pegou o trabuco e deu um tiro bem na testa da bichinha que quetou na paz de Deus Pai. Aí ele veio cambaleando pro meu lado, com o trabuco na mão, ainda soltando fumacinha, e explicou: "Não teve jeito. Tive que matar sua mula que tava muito mal. E o senhor, está bem?". - O que o senhor queria que eu dissesse, sô juiz e sô adevogado?

(Nota: este causo é muito conhecido em Minas Gerais. E muito divulgado. Esta é apenas mais uma das versões que ele recebeu).